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3.1 DANO E RESPONSABILIDADE CIVIL

3.1.1. Categorias dos danos

A maior e mais importante categorização do dano certamente se dá entre o dano Patrimonial (também chamado Material) ou Extrapatrimonial (também chamado Moral). Dentro de cada um desses gêneros existem espécies, que não serão abordadas no momento. Neste tema de divisões do Dano, Álvaro Villaça Azevedo indica que “A palavra dano tem extensão ilimitada de sentido, representando o resultado de qualquer espécie de lesão (moral, religiosa, econômica, política, etc.)”65,

prossegue o autor limitando o dano ao dizer que “no prisma jurídico, o dano circunscreve-se a detrimência econômica ou moral”66. Aprofundando na questão,

alerta Villaça Azevedo que toda vez que alguém sofrer uma “diminuição no seu patrimônio estará experimentando um prejuízo material, sofrendo um dano, que, para existir, juridicamente, no Direito brasileiro, deve representar uma redução no acerco

62 CAVALIERI FILHO, Sérgio. Programa de Responsabilidade Civil. 6. ed. ver. aum. e atual. São Paulo: Malheiros, 2005, p.95-96.

63 PLÁCIDO E SILVA, Oscar Joseph de. Vocabulário Jurídico. Atual por SLABI FILHO, Nagib e GOMES, Priscila Pereira Vasques. 32. ed. São Paulo: Forense, 2016, p. 238.

64 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil. v. I, 5. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1998, p.235.

65 AZEVEDO, Álvaro Villaça. Curso de direito Civil: Teoria geral das obrigações 7. ed. rev. e atual. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1998, p. 238.

dos bens materiais.”67 e que por outro lado, “esse dano pode ser moral, quando a

pessoa vitimada por ato ilícito de outrem experimenta uma dor considerável, com ou sem perda patrimonial”68.

Ainda sobre o tema, complementa Maria Helena Diniz que “o dano é um dos pressupostos da responsabilidade civil, contratual ou extracontratual, visto que não poderá haver ação de indenização sem a existência de um prejuízo.” 69. E que para

que haja pagamento da indenização pleiteada é necessário “comprovar a ocorrência de um dano patrimonial ou moral, fundados não na índole dos direitos subjetivos afetados, mas nos efeitos da lesão jurídica.”70

Quanto a esta divisão, Xisto Tiago de Medeiros destaca que para o dano “ocasionado aos interesses relativos a bens que ensejam uma substituição, reparação ou equivalência econômica[...], tem a doutrina e a jurisprudência utilizado, [...] comumente, as expressões ‘dano patrimonial’ ou ‘dano material’“71. No entanto, aduz

o autor que “se o interesse jurídico, objeto da lesão, pela sua própria essência, não ensejar uma quantificação econômica diante da impossibilidade de traduzir-se o dano em medida de valor”72, observar-se-ia, então, a “adoção dos termos ‘dano moral’,

‘dano extrapatrimonial’, ‘dano não patrimonial’ ou ‘dano imaterial’”73. Conclui-se, a

partir do pensamento esposado acima, que os danos serão Patrimoniais ou Extrapatrimoniais, a depender dos efeitos da lesão jurídica. Quando afetar o patrimônio, os bens materiais de uma pessoa, será um dano material ou patrimonial. Quando afetar os bens subjetivos de uma pessoa – lesão sem quantificação econômica e que causou sensação de dor ou perda no lesado -, será um dano moral ou extrapatrimonial.

Bom apontar que pouco importa para a categorização do dano a sua origem, mas sim os seus efeitos. Assim, não interessa se o dano originou-se de um dano a um direito X ou a um direito Y, o que interessa para que possamos determinar se um Dano será Moral ou Material é o efeito desta lesão na esfera jurídica do indivíduo, e,

67 AZEVEDO, Álvaro Villaça. Curso de direito Civil: Teoria geral das obrigações 7. ed. rev. e atual. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1998, p. 238.

68 Ibid., p. 238.

69 DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro. vol. 7. 7. ed. São Paulo: Saraiva,1999, p. 55. 70 Ibid., p. 55.

71 MEDEIROS NETO, Xisto Tiago de. Dano Moral Coletivo. 4. ed. São Paulo: LTr, 2014, p.57. 72 Ibid., p.57.

para isso, é necessário analisar o caráter patrimonial ou não patrimonial da consequência do dano. Se o dano causou apenas um prejuízo econômico mensurável, reduzindo o patrimônio de um indivíduo, por exemplo, estar-se-ia diante de um Dano Material. Se o dano atingiu sua esfera íntima, se como consequência observa-se dor, angústia, humilhação, estaremos diante de um Dano Moral. Conforme será exposto adiante no tópico 3.3 deste trabalho, o Dano Moral também pode decorrer na esfera coletiva, como por exemplo um mal-estar (psicológico) no seio de um grupo de pessoas, gerado pela atitude de um ou mais agentes.

Interessante a conclusão a que chega Maria Helena Diniz ao analisar este nuance do critério de distinção entre as categorias, dizendo que quando se distingue o dano patrimonial do moral, o critério da distinção não poderá ater-se à “natureza ou índole do direito subjetivo atingido, mas ao interesse, que é pressuposto desse direito, ou ao efeito da lesão jurídica, isto é, ao caráter de sua repercussão sobre o lesado”74,

pois o caráter patrimonial ou moral do dano não advém da natureza do direito subjetivo danificado, mas dos efeitos da lesão jurídica, pois “do prejuízo causado a um bem jurídico econômico pode resultar perda de ordem moral, e da ofensa a um bem jurídico extrapatrimonial pode originar dano material”75.

Engrandecendo e complementando a lição, Xisto Tiago de Medeiros Neto diz que “O caráter patrimonial ou moral do dano define-se de acordo com os efeitos oriundos da lesão, correspondentes às consequências do prejuízo em face do interesse afetado”76. Seria equivocado, assim, “buscar-se a distinção à vista

simplesmente do fato que lhe deu causa ou da natureza do direito lesado”77. Dessa

forma, é fácil observar que “a lesão a um bem material poderá originar danos no campo moral, como também a ofensa a um bem de natureza moral é passível de gerar danos ao patrimônio”78. Adiciona que além da situação acima descrita, também

poderá acontecer “de uma só ofensa, tenha-se a causação simultânea de danos morais e patrimoniais”79. Aduz que isso em razão da amplitude dos bens e valores

jurídicos que compõem o círculo de tutela oferecido pelo Direito, “situados em todas

74 DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito civil brasileiro: responsabilidade civil, v. 7, 7. ed. São Paulo: Saraiva, 1993, p.67.

75 Ibid., p.67.

76 MEDEIROS NETO, Xisto Tiago de. Dano Moral Coletivo. 4. ed. São Paulo: LTr, 2014, p.59-60. 77 Ibid., p.59-60.

78 Ibid., p.59-60. 79 Ibid., p.59-60.

as ordens de interesses (morais e patrimoniais) do ser humano, das pessoas jurídicas e das coletividades, e que podem vir a ser, indistintamente, violados, não importando a causa de origem”80. Com efeito, reflexo deste pensamento é a edição da Súmula n.

37 do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que diz que “são cumuláveis as indenizações por dano material e dano moral oriundos do mesmo fato”81.

Para diferenciar finalmente entre ambas espécies, Xisto Tiago de Medeiros Neto inicia definindo o dano patrimonial “se a lesão é apreciável economicamente e refere- se a um bem integrante do complexo material da parte atingida, tem-se configurado o dano patrimonial”82. E então o caracteriza de maneira aprofundada “como a lesão

concreta, que afeta um interesse relativo ao patrimônio da vítima, consistente na perda ou deterioração, total ou parcial, dos bens materiais que lhe pertencem, sendo suscetível de avaliação pecuniária e de indenização pelo responsável”83. O dano

patrimonial será, pois, na concepção do autor, aquele que “repercute, direta ou indiretamente, sobre o patrimônio da vítima, reduzindo-o de forma determinável, gerando uma menos-valia, cuja reparação objetivará reconduzir o patrimônio afetado ao seu estado anterior (restitutio in integrum)”84, e que isso aconteceria mediante “uma

reposição in natura ou por meio de um equivalente pecuniário”85. Para definir o dano

moral, o autor infere que este se caracterizaria se o bem atingido não se inserir “na esfera material, dado que, pela sua própria essência, impossibilita uma equivalência ou expressão econômica em sua reparação, exatamente por localizar-se [...] no círculo inerente à personalidade da parte lesada”86, e complementa que isso ocorreria

“seja em sua consideração subjetiva (referida a atributos como a intimidade, a privacidade, o corpo, a liberdade), seja em sua projeção objetiva (respeitante à exteriorização de interesses, no seio social, como são exemplos o nome e a reputação)”87.

Nesta pesquisa, interessa o Dano Moral ou Extrapatrimonial, motivo pelo qual abstém-se de tratar diretamente dos Danos Patrimoniais. No subtópico seguinte (3.2)

80 MEDEIROS NETO, Xisto Tiago de. Dano Moral Coletivo. 4. ed. São Paulo: LTr, 2014, p.59-60. 81 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Súmula n. 37. Brasília, DF.

82 MEDEIROS NETO, Xisto Tiago de. Dano Moral Coletivo. 4 ed. São Paulo: LTr, 2014. p.61-62. 83 Ibid., p.61-62.

84 Ibid., p.61-62. 85 Ibid., p.61-62. 86 Ibid., p.61-62. 87 Ibid., p.61-62.

será melhor detalhada esta subespécie de Dano, mas antes é necessário um pequeno adendo relativo à terminologia que dos Danos.