3.2 DANO MORAL
3.2.3. Princípio da reparação integral na responsabilidade civil e no dano moral
Importante sinalizar que o caráter reparatório de compensação ao lesado obedece ao princípio da reparação integral, ou seja, toda a extensão do dano sofrida por ele será protegida pelo ordenamento jurídico, e, portanto, tentará ser reparada. Quanto a isso, há um adendo a se fazer. Pode soar estranha a ideia de reparação integral no território do dano moral, uma vez que se defende previamente (no item 3.2.1) que o dano moral é aquele que atingiu a esfera não patrimonial do(s) sujeito(s), e que esta seria uma esfera de difícil mensuração do extensão do dano.
É preciso, então, separar dois momentos distintos, para entendermos em qual deles o princípio da reparação integral será aplicado. No primeiro momento,
148 BITTAR, Carlos Alberto. Reparação civil por danos morais. 3ed. 2 tir. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1999, p. 119 e 121. 149 Ibid., p. 119 e 121. 150 Ibid., p. 119 e 121. 151 Ibid., p. 119 e 121. 152 Ibid., p. 119 e 121. 153 Ibid., p. 119 e 121.
analisaremos o dano e sua extensão, e no segundo momento, analisaremos a possibilidade de sua reparação. Assim, no primeiro momento, aquele no qual o princípio da reparação integral será aplicado, toda a extensão do dano sofrido será protegida pelo ordenamento jurídico. O ordenamento buscará proteger integralmente tudo aquilo que foi danificado, todo o dano constatado. Em um segundo momento, haverá a tentativa de reparar este dano totalmente, e aqui destaca-se o uso do termo “tentativa”, uma vez que o dano moral não é facilmente mensurável, e é possível que parte dele jamais seja reparado, justamente por sua natureza não patrimonial e intrínseca. Conclui-se que o ordenamento tem como principiologia a reparação integral do dano, mas que no que tange ao dano moral, essa é uma ficção jurídica e que dificilmente ocorrerá no mundo dos fatos, em razão da sua característica não patrimonial154.
O princípio pretende expressar apenas que toda a extensão do dano será devidamente reparada; nenhuma parte da extensão do dano sofrido será relevada ou desconsiderada juridicamente. Sua compensação, para o dano moral, portanto, será uma estimativa, uma proximidade, uma estipulação, e, assim, se destina a uma recomposição integral do bem lesado, ainda que por meio de um esforço para recompor aquela esfera não tangível do lesado.
Sobre a dificuldade de recompor integralmente o dano moral, Xisto Tiago de Medeiros Neto informa que a reparação do dano moral, “conquanto não se destine a uma recomposição integral do bem lesado – diante da impossibilidade lógica decorrente da sua essência extrapatrimonial-”155, mas que contém também, “ao lado
da finalidade de satisfação ou compensação da vítima, um elemento sancionatório da conduta ofensiva”156. Também no mesmo sentido, Roberto de Abreu e Silva sustenta
que a reparação, “embora nem sempre indenize, integralmente, os prejuízos morais ou extrapatrimoniais, asperge efeitos sancionatórios, compensatórios e pedagógicos”157.
Conceituando e logo após indicando como tal situação deve ser enfrentada, Xisto Tiago de Medeiros Neto afirma que o princípio da reparação integral assenta-se como
154 MEDEIROS NETO, Xisto Tiago de. Dano Moral Coletivo. 4. ed. São Paulo: LTr, 2014, passim. 155 Ibid., p.86.
156 Ibid., p.86.
157 SILVA, Roberto de Abreu e. A falta contra a legalidade constitucional. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2002, p. 75.
uma das pilastras básicas da teoria da responsabilidade civil, orientando o sistema jurídico para “o ideal de se buscar a mais ampla e justa tutela, em quaisquer casos em que interesses amparados pelo Direito são violados”158. E que isso implica, de um
lado, “a certeza da amplitude da proteção, a fim de se reparar todas as espécies de danos aos quais se estende a proteção jurídica”159 e, de outro lado, “a obtenção, da
maneira mais completa possível, de formas e medidas reparatórias que atendam aos interesses da parte vítima e ao imperativo de pacificação social”160. Adiciona que
“tratando-se de danos morais, pela própria natureza do interesse lesado, à mingua de medida de equivalência econômica para a quantificação da lesão, o princípio da reparação integral exige mais abertura e profundidade de percepção do julgador”161.
E que é assim que “a par dos aspectos objetivos detectados em cada situação, equidade e prudência serão os guias necessários para a fixação do valor da condenação e de medidas outras, de caráter reparatório, que se façam devidas”162.
Cita Paulo de Tarso Vieira Sanseverino, sobre o objeto, que a jurisprudência brasileira, embora sem fazer referência, “tem-se utilizado implicitamente do princípio da reparação integral para a quantificação das indenizações por danos extrapatrimoniais” e que tem-se valorizado, amplamente, o arbitramento judicial da indenização correspondente ao dano extrapatrimonial, que deverá ser fixada com razoabilidade de molde a satisfazer da “forma mais completa possível, mas sem exageros, a vítima (direta ou por ricochete) pela ofensa recebida, aplicando-se, assim, ainda que de forma mitigada, o princípio da reparação integral aos prejuízos extrapatrimoniais”163.
Versando sobre o mesmo debate, Carlos Alberto Bittar afirma, quanto a prevalecer a noção de que deve a satisfação dos danos ser plena, abrangendo “todo e qualquer prejuízo suportado pelo lesado”164, além de situar-se “em níveis que lhe
permitam efetiva compensação pelo constrangimento ou pela perda sofridos”165, não
158 MEDEIROS NETO, Xisto Tiago de. Dano Moral Coletivo. 4. ed. São Paulo: LTr, 2014, p. 90-91. 159 Ibid., p. 90-91.
160 Ibid., p. 90-91. 161 Ibid., p. 90-91. 162 Ibid., p. 90-91.
163 SANSEVERINO, Paulo de Tarso Vieira. Princípio da reparação integral. São Paulo: Saraiva, 2010, p. 268-269.
164 BITTAR, Carlos Alberto. Reparação civil por danos morais. 3. ed. 2. tir. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1999, p.109 e 116.
mais se justificando hoje “qualquer posição que não seja a da integral reparabilidade de qualquer dano injusto” 166, oriundo de ação ou omissão alheias.167
De fato, observamos este princípio permeado por diversos trechos do Código Civil de 2002168, como no art. 12. que versa que “pode-se exigir que cesse a ameaça,
ou a lesão, a direito da personalidade, e reclamar perdas e danos, sem prejuízo de outras sanções previstas em lei”169, bem como no art. 941. “[...] salvo ao réu o direito
de haver indenização por algum prejuízo que prove ter sofrido”170; também o art. 944
que afirma que “a indenização mede-se pela extensão do dano” 171; e o art. 949. que
diz que “no caso de lesão ou outra ofensa à saúde, o ofensor indenizará o ofendido das despesas do tratamento e dos lucros cessantes até ao fim da convalescença, além de algum outro prejuízo que o ofendido prove haver sofrido”172. Nota-se que, em
todos os artigos, há uma preocupação do legislador em estender a proteção a todo o dano, citando, muitas vezes, uma hipótese exemplificativa e em seguida ressalvando que quaisquer outros danos ainda estarão sobre cobertura do ordenamento jurídico.
Tudo isso dito não seria possível, por exemplo, que um projeto de lei ditasse que apenas 1/3 do dano sofrido por um lesado, em uma determinada situação de responsabilidade civil, pudesse ser objeto de reparação. A reparação sempre deverá almejar ser total, seguindo toda a extensão do dano, não podendo ser diminuída em relação a ele por nenhum normativo não constitucional. Por fim, nota-se, então, que a reparação deverá sempre alcançar todo o dano, ainda que por se tratar de um dano moral e, portanto, permeado de subjetividade.