3.3 EMERGENTISMO E AUTO-ORGANIZAÇÃO
3.3.3 Causalidade circular (relação bottom-up e top-down)
Quando falo em causalidade circular tenho em mente a mútua relação de influência dinâmica (ou influência recíproca) entre os componentes de micronível e macronível – relação esta que, por sua vez, está diretamente relacionada às transições fásicas, à alteração nos parâmetros de controle, à transferência de energia e à transdução64. É esta causalidade circular que está não só na origem da emergência de novos níveis, como também naquela da criação de padrões, codificações e sobrecodificações. Para termos uma ideia do que se entende por
63 “Com efeito, de um certo ponto de vista, o possível é o contrário do real, opõe-se ao real; porém, o que é totalmente diferente, o virtual opõe-se ao atual. Devemos levar a sério esta terminologia: o possível não tem realidade (embora possa ter uma atualidade); inversamente, o virtual não é atual, mas possui enquanto tal uma
realidade. Ainda aí, a melhor fórmula para definir os estados de virtualidade seria a de Proust: 'reais sem serem
atuais, ideais sem serem abstratos.' De outra parte, de um outro ponto de vista, o possível é o que se 'realiza' (ou não se realiza); ora, o processo de realização está submetido a duas regras essenciais: a da semelhança e a da limitação. Com efeito, estima-se que o real seja à imagem do possível que ele realiza (de modo que ele, a mais, só tem a existência ou a realidade, o que se traduz dizendo-se que, do ponto de vista do conceito, não há diferença entre o possível e o real). E como nem todos os possíveis se realizam, a realização implica uma limitação, pela qual certo possíveis são considerados rachados ou impedidos ao passo que outros 'passam' ao real. O virtual, ao contrário, não tem que realizar-se, mas sim atualizar-se; as regras de atualização já não são a semelhança e a limitação, mas a diferença ou a divergência e a criação. Quando certos biólogos invocam uma noção de virtualidade ou de potencialidade orgânica, e sustentam, todavia, que tal potencialidade se atualiza por simples limitação de sua capacidade global, é claro que eles caem em uma confusão do virtual e do possível. Com efeito, para atualizar-se, o virtual não pode proceder por limitação, mas deve criar suas próprias linhas de atualização em atos positivos.” (DELEUZE, 2004, p. 77-78, grifos no original)
64 Todos estes conceitos serão aprofundados no item subsequente, no qual abordo a teoria dos sistemas dinâmicos aplicada à cognição.
causalidade circular, torna-se imperioso citar o trabalho de Thompson (ainda que seja longa a citação):
A emergência por meio da auto-organização coletiva tem [...] dois aspectos. O primeiro é a determinação do nível local para o global, como resultado dependente das novas estruturas e processos de macronível que emergem. O segundo é a determinação do nível global para o local, pela qual estruturas e processos globais restringem as interações locais. Estas influência do nível global para o local não assumem a mesma forma que as do nível local para o global: manifestam-se tipicamente através de alterações nos parâmetros de controle [...] e de condições limítrofes, mais do que através de alterações nos elementos individuais [...]. Coerência e comportamento global coordenado, que são descritas por variáveis coletivas ou parâmetros de ordenação, limitam ou governam o comportamento dos componentes individuais. Deste modo, os componentes individuais são conformados de modo que já não possuem mais as mesmas alternativas comportamentais de quando ainda não formavam um padrão global e organizado. Ao mesmo tempo, o comportamento dos componentes individuais gera e dá sustentação à organização global. Este determinismo de duas faces, ou dupla determinação é conhecido por causalidade circular. (THOMPSON, 2010, p. 61-62, tradução modificada)
Depreende-se, da citação acima, que a causalidade circular deve ser vista da perspectiva da teoria da complexidade, ou seja, sistemas dinâmicos complexos (não-lineares) apresentarão esta forma de causalidade circular ou recíproca a partir da qual “padrões globais emergem de e governam ou restringem as interações locais” (THOMPSON, 2010, p. 424).
A metáfora espacial utilizada pelos teóricos dos sistemas complexos para dar conta dessa interação global-local é a expressa pelo conceito de “causação descendente”: níveis superiores limitam, integram e restringem os níveis locais. “Restringir”, neste contexto, tem o sentido de relacionar. As interações locais são integradas ou ainda unificadas “numa rede sistêmica” (THOMPSON, 2010, p. 242), de modo que a integração ou unificação depende das interações locais (a relação é mútua ou circular), o que faz do conceito de restrição uma noção formal ou topológica.
A questão que se impõe é como dar conta dessa noção de “restrição” sem fazê-lo depender exclusivamente da metáfora da hierarquia. Thompson utiliza a distinção entre restrição-livre-do-contexto e restrição-sensível-ao-contexto, conforme propostas por Juarrero. Segundo esta terminologia, as restrições-livre-do-contexto são impostas de fora de modo a alterar a probabilidade comportamental dos componentes de um sistema.
Por outro lado, uma restrição-sensível-ao-contexto é aquela que “sincroniza e correlaciona numa totalidade sistêmica partes outrora independentes” (THOMPSON, 2010, p. 425). O exemplo mais comum desse tipo de restrição, utilizado não só por Thompson, como também por Juarrero (1999, p. 139), pode ser encontrado na catalisação.
Esse tipo de restrição-sensível-ao-contexto é chamado por Juarrero de “restrição contextual de primeira ordem”, pois atua no mesmo nível organizacional dos componentes ou processos individuais. Entretanto, encontramos, além desse primeiro nível, uma “restrição contextual de segunda ordem”, que ocorre “quando o sistema enquanto totalidade organizada emerge como restrição de seus componentes”, a exemplo das redes autocatalíticas e da autopoiese (THOMPSON, 2010, p. 425). A causação descendente corresponderia a esta restrição de segunda ordem, na medida em que o sistema se autorregula, se auto-organiza, restringindo o grau de liberdade de seus próprios componentes. Assim, podemos falar em restrição e mesmo em “causação descendente” quando tem vazão essa restrição sistêmica de segunda ordem caracterizada pela auto-organização mantida no tempo. Essa auto-organização, por sua vez, envolve um conjunto de feedbacks positivos e negativos como momentos no processo de restrição ou limitação.
Quando ressaltados e explicitados os contornos da restrição contextual de segunda ordem, a metáfora da “causalidade descendente” (ou, ainda, causalidade top-down), pode ser deflacionada de modo a contemplar uma relação horizontal, reconhecendo a eficácia de uma causação sistêmica65.
A ideia de causação sistêmica ressalta o caráter holista66 (holismo relacional) inerente aos sistemas complexos que passam a ser vistos como processos em que a relação tem uma importância maior do que seus termos, na medida em que é a primeira que assegura não só a permanência, mas também o desenvolvimento e a formação de ciclos inerentes àquele.
Por fim, devo ressaltar que essa ideia de causação sistêmica está diretamente relacionada ao conceito de emergência diacrônica (PROTEVI, 2005, p. 30). É o aspecto diacrônico que insere o conceito de diferentes temporalidades na relação de causalidade. Sistemas emergentes podem ser vistos como o agenciamento de subsistemas modulares que se desenrolam em escalas temporais distintas, formando múltiplos processos. Um sistema, um indivíduo é, portanto, permeado por múltiplas temporalidades. Por esta perspectiva, aquilo que, na superfície, é um objeto estável, uma totalidade sistêmica, quando analisado a partir de seus
65 Thompson atribui a Searle o fato de ter ressaltado os limites da metáfora da causação descendente: “John Searle ressalta este ponto numa discussão correlata: ‘A forma correta de conceber esse fenômeno não é utilizando o termo top-down, mas sim a ideia de causação sistêmica. O sistema, enquanto sistema, tem efeitos causais em cada um de seus elementos, ainda que o sistema seja, em si, composto por estes mesmos elementos’ (Searle, 2000b, p. 17). A partir dessa perspectiva, o termo causação descendente torna-se sintomático de um parcial reconhecimento da causação sistêmica acompanhado de uma inabilidade para fazer a transição completa para uma perspectiva de causalidade sistêmica.” (THOMPSON, 2010, p. 426-427)
módulos constitutivos, torna-se o conjunto de múltiplos processos e ciclos que se exaurem e se refazem, o que chamamos de heterocronia (PROTEVI, 2005, p. 30).
Essas múltiplas interações compostas de distintas temporalidades estão submetidas à dinâmica dos sistemas complexos, de modo que a formação de um sistema perceptivo- cognitivo depende da atuação conjunta de vários módulos ativos, não podendo ser reduzida nem a um "centro ordenador" (um senso comum como ponto de chegada de todos os módulos), nem a um módulo dominante (como a faculdade legisladora de Kant, por exemplo). Percepção e cognição decorrem da ação coordenada a partir de múltiplos módulos e múltiplas temporalidades, compreendidos como processo de individuação e auto-organização, conforme a dinâmica dos sistemas complexos.
3.4 SISTEMAS COMPLEXOS, PROPRIEDADES EMERGENTES E EPIGÊNESE DA