3.1 MATERIALISMO, MECANICISMO E FISICALISMO
3.1.2 Corpo e conceito
Ao adotar um ponto de partida monista pretendo manter a materialidade do conceito. Mas em que sentido podemos dizer que os conceitos são tão reais quanto as relações de aceleração travadas entre os corpos no espaço? Em grande medida, os próximos dois capítulos serão destinados a responder a esta questão. Por ora, me basta apontar as direções de um paralelismo associado a um pragmatismo ou, ainda, a um empirismo radical.
O ponto de partida de um empirismo radical é a afirmação da autonomia da relação ou, se preferirmos, a existência de um campo de experiência (relacional) pura, a-subjetiva, onde não há ensejo para qualquer distinção entre sujeito (consciência) e objeto (referência). A experiência pura do empirismo radical difere do empirismo clássico na medida em que não pressupõe uma subjetividade de inscrição, mas sim uma superfície de inscrição (ou nicho) a partir de onde meio e animal coemergem. Algo muito próximo ao conceito de affordance desenvolvido por Gibson.17 Assim, o que a experiência pura atesta é a existência de um mecanismo de inscrição das relações materiais.
Do interior deste mecanismo de inscrição podemos extrair relações complexas que formam totalidades com relativa autonomia e que, por sua vez, configuram-se como sistemas de ação. Assim, antes mesmo da existência de qualquer consciência, já temos esta experiência como movimento que independe de qualquer categorização.
16 Os próximos itens são inteiramente dedicados à explicitação dessa concepção de mecanismo.
17 “Um fato importante sobre as affordances do ambiente é que são em certo sentido objetivas, reais e físicas, diferentemente dos valores e sentidos que via de regra são considerados subjetivos, fenomênicos e mentais. Mas, de fato, uma affordance não é nem uma propriedade objetiva, nem subjetiva; ou, ainda, é ambas, se assim você preferir. Uma affordance atravessa essa dicotomia do subjetivo-objetivo e nos ajuda a compreender sua inadequação. A affordance é tanto um fato do ambiente quanto um fato comportamental. É ao mesmo tempo física e psíquica sem ser ambas. Uma affordance aponta em ambas as direções, para o ambiente e para o observador”. (GIBSON, 2015, p. 121)
Um dos principais pontos de conexão entre o paralelismo de Espinosa e o empirismo radical é esta fórmula da autonomia da relação: 1. a relação entre corpos simples constitui um conjunto de séries causais que formam totalidades complexas com relativa autonomia; 2. às séries causais corporais corresponde um outro conjunto de séries causais (paralelas) que formam a sensação. Este "campo da experiência" é, portanto, um único campo com uma dupla face. Por um lado, encontramos as séries corpóreas, por outro as séries sensíveis. Ambas são sistemas de ação. As primeiras darão ensejo, por um processo de evolução, a corpos complexos (“relógios”); as últimas, pelo mesmo processo evolutivo, darão ensejo às representações: formação de imagens e os conceitos.
Assim, as séries conceituais são, antes de mais nada, um mecanismo18 voltado para a ação/fazer algo. Ainda que envolva representação, a máquina conceitual não é representacional, em sua origem. Sua primeira característica é uma pragmática que, por sua vez, dá vazão a um campo de sentido19.
18 O termo "séries conceituais" pode ser lido como "sucessão de imagens" que têm sua formação em processos e mecanismos evolutivos. Afirmar este "mecanismo" não implica, entretanto, assumir qualquer forma de nativismo ou inatismo. Este "mecanismo" envolve aprendizado e, portanto, é inseparável da cultura. Conceitos são produzidos e adquiridos. Segundo Prinz, o empirismo foi motivado pela ideia de que a obtenção de conceitos deve envolver o aprendizado. O autor destaca que atualmente o nativismo acerca dos conceitos ainda é bastante popular. Entretanto, ainda que os pesquisadores e pesquisadoras que se dedicam ao assunto acreditem, em sua maioria, que temos uma espécie de maquinaria inata (que temos um conhecimento inato dos domínios ontológicos básicos, tais como a física dos macro-objetos, biologia e psicologia), Prinz não aceita o nativismo e apresenta objeções aos estudos empíricos da “folk physics”, “folk biology” e “folk psychology”. O ponto central de Prinz é que o uso dos conceitos (e das categorias que daí derivam) é decorrente do aprendizado. Conceitos são adquiridos. Há um forte componente cultural que informa a adequação contextual do emprego dos conceitos. Este contexto cultural nos acompanha desde muito cedo (a prova disso seria o fato de que, em isolamento, não desenvolvemos a verbalização de conceitos). Em resumo, Prinz se opõe à tese de que os conceitos são inatos, invariantes e amodais. Em sua visão, os conceitos: 1. representam categorias através da causação nomológica e etiológica; 2. são construções (variáveis) que ocorrem na memória operacional; 3. são construídos a partir de traços específicos da memória modal; 4. são adquiridos. (PRINZ, 2005). Esse ponto será abordado de forma mais detalhada no próximo capítulo deste trabalho.
19 O caráter mecânico (ou "maquínico") da atividade conceitual é assegurado por este paralelismo entre pragmática e sentido. A formação de conceitos envolve interação material e transubjetividade, de modo que a linguagem, enquanto invenção e uso conceitual pode ser comparada ao emprego de ferramentas. Esta é a lição de Dewey: "Interação ou relação operativa é um fato sobre os eventos tanto quanto o são a particularidade e imediatidade. A linguagem e suas consequências são características assumidas por interações e conjunções naturais em condições de organização específicas. [...] A linguagem é especificamente um modo de interação entre pelo menos dois seres, um falante e um ouvinte; ela pressupõe um grupo organizado ao qual estas criaturas pertencem e pelo qual adquiriram seus hábitos de fala. É, portanto, uma relação, não uma particularidade; [...] o sentido dos signos, além disso, sempre inclui algo de comum entre as pessoas e um objeto. Quando atribuímos conteúdo de sentido ao falante, como sua intenção, assumimos a existência de outra pessoa que compartilha a execução daquela intenção e, ainda, algo independente das pessoas em questão, através do qual a intenção se efetiva. As pessoas e a coisa devem igualmente servir como meios numa consequência comum partilhada. Essa comunidade de coparticipação é o sentido em si.
A invenção e o uso de ferramentas tem desempenhado um grande papel na consolidação do sentido, e isso porque uma ferramenta é uma coisa usada como meios para consequências ao invés de ser tomada como algo físico e imediato. Uma ferramenta é intrinsecamente relacional, antecipatória e preditiva. Sem referência ao ausente, ou 'transcendência', não existe ferramenta." (DEWEY, 1958, p. 185).
Segundo uma perspectiva monista, corpo e conceito são duas perspectivas, conjuntos de séries, de uma única realidade material. Assim, paralelas ao desdobramento das séries corporais, encontramos outro desdobramento das séries conceituais: a passagem das ideias inadequadas, às noções comuns e, por fim, às ideias adequadas, em Espinosa.
Evidentemente, esses domínios paralelos (os atributos de Espinosa) não influenciam um ao outro. Entretanto, são simultâneos (o que ocorre num conjunto de séries, ocorre também no outro). Essa simultaneidade é assegurada por este "efeito de superfície" que é o sentido. É pelo sentido que as duas séries se relacionam sem interagir.
Nestes termos, o campo de sentido já é o que possibilita a emergência de uma
finalidade intrínseca para um organismo, ainda que esta (a finalidade intrínseca) não seja “outra
coisa que não a operação de processos puramente físicos que ocorrem naquele mesmo organismo” (ARMSTRONG, 1995, P. 36). Uma vez presente esta finalidade intrínseca já podemos antever uma intencionalidade.
Para fins estritamente analíticos, essa intencionalidade pode ser vista tanto de uma perspectiva do corpo, quanto de uma perspectiva social/cultural. Alguns estudos em psicologia utilizam a perspectiva da corporificação (embodiment) para dar conta da formação e aquisição de conceitos concretos. Segundo esses estudos, na formação de conceitos concretos, a atividade
corpórea (manipulação de objetos, foco, seleção entre figura e fundo, planos distintos) possui
mais peso do que a dimensão social/cultural da intencionalidade compartilhada, quando estamos diante da relação entre objetos concretos. Por outro lado, essa relação se inverte na aquisição de conceito abstratos. (BORGHI e BINKOFSKI, 2014, p. 90-91). Na abstração, a comunidade de práticas adquire um peso mais relevante na fixação dos limites de abrangência de uma ideia.
Independentemente do peso atribuído à ação corpórea ou às práticas intersubjetivas, o fato é que a aquisição de conceitos parece envolver uma passagem da passividade à atividade. Tornamo-nos ativos conforme experimentamos os limites das relações entre corpos e, paralelamente, formamos cadeias de ideias e estabelecemos contornos e limites às extensões conceituais. Por esta perspectiva, um domínio não pode ser desvinculado do outro. A imagem, o conceito, são corpóreos, assim como tudo que sabemos acerca dos corpos depende dos limites das redes conceituais que formamos. Não há, assim, nada de “sobrenatural” ou “transcendente” no caminho que, em termos espinosistas, leva das ideias inadequadas às adequadas. Como veremos, as emoções e os sentimentos estão na origem da aquisição de conceitos. Estas
emoções e estes sentimentos são processos eletroquímicos que formam um sistema complexo,
um cérebro material.