Capítulo 1 - A economia como causa criminógena
B. Causas econômicas indiretas da criminalidade
Ao privilegiar a explicação econômica do crime, pelas razões acima, BONGER simultaneamente expande as possibilidades de seu emprego. O passo mais significativo, nesse sentido, ele dá quando deriva da estrutura econômica o que entende ser a causa mais geral da criminalidade.
BONGER define o crime como um ato egoísta (p. 437)11. O egoísmo, assim, ele o considera a causa mais geral da criminalidade (p. 458). Descarta, entretanto, que o homem seja naturalmente egoísta. A biologia e a antropologia já haveriam demonstrado, aponta, que há igualmente predisposições altruístas na humanidade. O maior ou menor egoísmo das pessoas em geral, portanto, só pode resultar do ambiente social e, “em última instância”, da estrutura econômica vigente, que promove ou desestimula as predisposições inatas (p. 451).
11 O crime, para o autor, além de manifestação de egoísmo, é um ato imoral e antissocial que se julga, porém, merecer uma reprovação mais grave que outros comportamentos também imorais e antissociais. E não é qualquer ato imoral ou antissocial grave que se considera um crime, mas apenas aqueles cuja definição como tal esteja de acordo com os interesses das classes dominantes ou que não os contrariem – a não ser muito excepcionalmente, quando as classes subalternas gozam de algum poder e, contrariamente ao interesse das classes dominantes, conseguem definir como crime a violação do que lhes interessa (Bonger, 1905, pp. 432-435).
O sistema econômico capitalista, entende BONGER, favorece as tendências egoístas. Para os capitalistas, especificamente, porque esse sistema econômico está baseado na competição mercantil e na troca com intuito de lucro, quando cada parte envolvida opõe seu interesse próprio em detrimento do interesse da outra (pp. 459 e 461).
E no proletariado, por sua vez, o egoísmo é produto do fato de essa classe ser a que mais sofre com a falta de reciprocidade, pois é relegada à condição de mero instrumento do lucro e, e nessa medida, sujeitada a condições de trabalho e de vida deterioradas, ao desemprego e eventualmente à miséria (pp. 480-481).
Perceba-se como esse raciocínio permite a BONGER estender a explicação econômica para muito além da que é usual – que a limita a crimes patrimoniais, em regra –, alcançando agora possivelmente quaisquer crimes.
Além da própria estrutura econômica, o autor considera criminógenos outros elementos ou efeitos dessa estrutura, diversos daqueles fatores econômicos tradicionais ou per se, como a pobreza, e ainda considera os efeitos indiretos desta última. Tudo isso é muito bem ilustrado por sua análise dos crimes sexuais e do alcoolismo.
BONGER concebia que as causas dos crimes sexuais, como estupros e atentados ao pudor, até mesmo desses crimes graves, seriam principalmente econômicas, ainda que de forma indireta e remota.
Primeiro que, geralmente cometidos contra mulheres, entende o autor que tais crimes são especialmente o produto da sua dependência em relação aos homens, que é primordialmente uma dependência econômica, que as sujeita às vontades masculinas como meros objetos (1905, pp. 351-365)12. Haveria uma tendência de punir estupros, assim, tão somente quando isso significasse uma ofensa aos maridos e pais
“proprietários” das mulheres violentadas, e não por considerações a seus interesses. Tanto quanto mais independentes forem, porém, mais tais crimes serão punidos e menos eles serão cometidos contra elas (1905, p. 674).
12 No Capítulo III (“As relações dos sexos e da família” ), Subtítulo A (“O casamento”), BONGER analisa a situação da mulher em distintos modos de produção – das sociedades primitivas de caçadores, pastores e agricultores, passando pelas sociedades antigas de agricultura desenvolvida e uso de mão de obra escrava até chegar ao capitalismo industrial –, procurando demonstrar que a dependência da mulher em relação ao homem está em função de sua dependência econômica em relação a ele (1905, pp. 351-365).
Além disso, com exceção daqueles estupros “patológicos” – frutos de perversões sexuais, que geralmente vitimam crianças –, entende o autor que são a obra de “brutos”
(não de “pervertidos”), que querem satisfazer suas vontades a qualquer custo, quando lhes falta a oportunidade. Tal brutalidade e a falta de oportunidade para satisfazer o apetite sexual resultam, ao ver de BONGER, de causas econômicas (1905, p. 666; 677). Nesse sentido, as estatísticas da época apontavam serem crimes cometidos majoritariamente por adultos solteiros e entre os mais pobres. A solteirice resultaria principalmente de dificuldades econômicas que inviabilizam o casamento na idade em que o apetite sexual é maior (1905, pp. 669-670). E a pobreza favorece o cometimento de tais crimes sexuais porque, no ambiente em que predominam condições de vida degradadas, desenvolve-se a baixa “civilidade” e a violência como forma de obter o que se quer. A sexualidade, então, é frequentemente considerada meramente “do ponto de vista puramente animal” e a mulher encarada como mero meio de os homens atingirem seus desejos (1905, p. 672).
Quanto ao alcoolismo, uma das causas dos crimes sexuais e dos crimes cometidos por vingança (1905, p. 564), BONGER compreende que suas causas sejam principalmente econômicas. Entre os trabalhadores, ilustra, o alcoolismo resulta de condições de trabalho degradantes e fatigantes, ou da desnutrição, porque alivia o desconforto físico (1905, pp. 416-419). O alcoolismo também pode resultar de fenômenos sociais não econômicos, como a “ignorância”, a “falta de cultura” e de meios alternativos de diversão. Contudo, outra vez, também reduz esses fenômenos “não econômicos” a causas econômicas. No caso, explica, resultam de a renda dos trabalhadores ser escassa, e sua disposição física ser prejudica por longas e penosas jornadas de trabalho, o que os impede de adquirir cultura, educação e formas mais sofisticadas de lazer (1905, pp. 420-421).
Como ilustra essa análise, o privilégio ou “soberania” que BONGER concede à economia traduz-se na ideia de que a causa de todos os fenômenos sociais pode ser
“regredida” ou “reduzida” até um ponto causal original que são as “condições econômicas” elementares. Assim, sem descartar que um fenômeno social “não econômico” possa ser causa de qualquer outro, compreende que também esse fenômeno
“não econômico” possa ser explicado a partir de outro que, por sua vez, seja “econômico”.
Por conta dessa redução em “última instância” dos fatores ambientais a fatores econômicos, não é claro, em BONGER, onde terminam uns e começam os outros. Não
existe uma linha absolutamente clara que os distinga entre fatores “não econômicos” – mas sim morais, políticos, espirituais etc. – e aqueles puramente “econômicos”. No meio do caminho entre uma coisa e outra, então, haverá eventualmente fatores criminógenos indistintamente econômicos e “não econômicos”, como o egoísmo, fenômeno subjetivo, simultaneamente moral e econômico, ao qual BONGER atribui a condição de causa geral da criminalidade.
A rigor, já que tudo o que é social poderia ser reduzido à economia, a distinção entre econômico e “não econômico” perde importância. Não é à toa, a meu ver, que BONGER não se preocupa com circunscrever claramente os limites do que entendia como “econômico”. Em todo caso, ele retoma e insiste nessa distinção quando elabora sua classificação de crimes, através da qual distingue os crimes resultantes diretamente de fatores econômicos em relação àqueles cujas causas econômicas seriam apenas indiretas.
O critério que o permite distinguir as classes crimes é o motivo preponderante no momento em que este é cometido. Embora o autor não ofereça expressamente uma definição do que sejam “motivos econômicos”, creio se pode inferi-los, como veremos no tópico seguinte.
1.3. Os crimes (mais) econômicos (que outros) e suas espécies
BONGER subdividia a criminalidade em quatro classes, conforme os motivos que, imediatamente, levam alguém a cometer um crime. Três dessas classes são bem definidas e uma quarta lhe serve residualmente para abrigar todos os demais crimes não encaixados nas anteriores. Elas agrupam, separadamente, os (i) econômicos, (ii) sexuais, (iii) políticos e, enfim, (iii) os crimes cometidos por outros inumerados motivos, como a vingança, especialmente, ou o temor de ser exposto à vergonha pública, por exemplo (1905, p. 592 e ss.).
À parte dessas, há ainda uma quinta classe, embora o autor não se refira a ela nesses termos, e que abriga os crimes “patológicos”, aqueles crimes cujos motivos são muito incomuns, extraordinários, qualitativamente diversos dos “motivos que formam a base de todos os atos humanos” e particulares a uma pequena parcela de indivíduos, apenas, como nos casos em que a pessoa furta um objeto que tranquilamente poderia
comprar, ou quando comete um homicídio sem que tenha sofrido qualquer provocação (1905, p. 711).
Consoante o fato de que sua classificação se orienta pelo critério do “motivo” do crime, não são econômicos apenas os crimes cometidos contra a propriedade. Ele ressalva, nesse sentido, que o crime violento contra a propriedade tanto pode ter um motivo econômico quanto pode ser cometido por vingança. Na mesma linha, um crime de homicídio ou de incêndio também pode ter um motivo econômico, como o homicídio para assegurar o furto (latrocínio) ou o incêndio para fraudar o seguro (1905, p. 592).
SUTHERLAND critica a classificação de BONGER porque, obviamente, nenhum crime pode ser reduzido a um único motivo (Sutherland E. H., 1947, pp. 20-21). Essa crítica, porém, ignora que o argumento de BONGER não era esse, como agora acabamos de ver. O que ele sustentava era que, para determinados crimes, preponderariam determinados motivos em detrimento de outros, e não que seriam movidos por um motivo único.
BONGER faz ainda uma subdivisão dos crimes econômicos em quatro espécies:
(i) vagabundagem e mendicância; (ii) furtos e análogos, que são os crimes econômicos não violentos; (iii) roubos e outros crimes cometidos com violência por razões econômicas; (iv) e, finalmente, crimes como falência fraudulenta e adulteração de alimentos, tipicamente cometidos pela burguesia (1905, p. 601).
Ele admite que um mesmo crime possa ser classificado em mais de uma dessas espécies, simultaneamente, o que exemplifica com o crime de apropriação indébita, que entraria tanto na segunda quanto na quarta categoria. Na segunda, por exemplo, entraria o caso de um trabalhador que se apropria de uma bicicleta que tenha alugado. E na quarta, o caso de um banqueiro que se apropria de depósitos confiados ao banco do qual é diretor.
Acrescenta que as três primeiras espécies são crimes econômicos cometidos majoritariamente por pessoas pobres e a última sobretudo pela burguesia (idem).
Com exceção dos crimes de vagabundagem e mendicância13, cada uma dessas espécies de crimes econômicos desdobra-se em subespécies distinguidas pelos mesmos critérios, conforme o motivo econômico do crime consista especificamente (i) na pobreza, (ii) na ganância, ou (iii) no meio de vida do ofensor, i.e., o crime é “profissão” da pessoa, seu meio de subsistência, o mecanismo “normal” pelo qual satisfaz suas necessidades, seja furtando, roubando ou fraudando clientes no exercício de atividades comerciais, por exemplo.
Cruzando estes últimos critérios com aquelas espécies de crimes econômicos, chega-se à seguinte tabela, que sintetiza a classificação do autor.
CRIMES ECONÔMICOS – BONGER
Pobreza Ganância Profissionais
“Vagabundagem e
mendicância” Vide nota de rodapé n. 13.
“Furtos e análogos”
A seguir, farei uma breve descrição de cada uma dessas subespécies de crimes.