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Capítulo 7 – A economia da pena

7.1. O modelo e suas simplificações fundamentais

Como em qualquer “modelo”, BECKER parte de algumas simplificações da realidade, de modo a facilitar sua apreensão pela teoria. Nesse sentido, conforme Gregory MANKIW, modelos são sempre réplicas simplificadoras que ressaltam certos traços da realidade e omitem outros, menos relevantes para a questão estudada, com o objetivo de facilitarem sua compreensão e a investigação de problemas específicos. Na Física, exemplifica o autor, a suposição de que um corpo se desloca sem atrito no espaço é extremamente útil para esclarecer determinadas questões, embora não corresponda a realidade. Na Biologia, continua, usam-se copos de plásticos para ensinar anatomia, embora obviamente esses não coincidam com os corpos reais. Na Economia, enfim, modelos são igualmente simplificações úteis e não mais do que isso, agora expressas por diagramas e equações (Mankiw, 2006, pp. 22-23)

Faço aqui uma pausa para outra ressalva, agora quanto a esse uso da matemática em modelos econômicos. Embora tais modelos sejam tratados frequentemente como sinônimos de equações, assim entendidos modelos não são mais do que “a representação das principais características dos componentes de uma teoria” (Rizzieri, 2011, p. 4), e não a própria teoria – ou não o modelo estritamente. Quanto ao uso que fazia da matemática, aliás, o próprio BECKER dizia tratá-la como “um servo muito útil”, não como um

“mestre”, e que, no limite, mais importante seria o “bom conteúdo econômico”, expresso ou não de forma matemática ([Becker] Herfeld, 2012)61.

A seguir, nesses termos, farei uma análise “verbal” (não matemática) desse conteúdo econômico presente no modelo de otimização da política penal – que BECKER também apresenta “verbalmente”. Porém, note-se: mesmo que esse conteúdo econômico seja expresso “por extenso”, ainda diz respeito a um “modelo”, que, enquanto tal, é sempre uma réplica simplificadora da realidade e está longe de ser seu retrato fiel.

A simplificação, neste caso, atende ao objetivo de investigar uma questão pragmática muito específica, à luz do método econômico, que é a seguinte: considerando que descobrir, condenar e punir crimes exige um esforço, exige um custo para toda a sociedade, e que o objetivo da política penal seja o de reduzir o custo que a criminalidade impõe à sociedade – e não agravar ainda mais as perdas sociais –, o que é importante para determinar o nível ótimo de recursos a despender com a punição de crimes?

Entre as “simplificações” da realidade feitas, então, para facilitar o estudo dessa questão, encontram-se aquelas duas que mencionei anteriormente. Embora trate de crimes e formas de preveni-los, Becker deixa de fora do modelo, propositalmente: (1) a análise da política criminal stricto sensu – a criminalização de condutas na esfera legal, digo –;

(2) a questão da prevenção de crimes por métodos alternativos à política penal. Isso não quer dizer – de forma alguma – que atribuísse menos importância a essas duas discussões.

Em relação àquela primeira simplificação, em Crime and Punishment, é por mera conveniência analítica que BECKER toma como “dada” a legislação ou política criminal

61 Na Economia há uma relação estreita entre o uso de modelos e o emprego da matemática. Vilfredo PARETO explica que o uso da matemática foi introduzido na Ciência Econômica para dar conta de relações de mútua dependência entre numerosas variáveis que não guardavam entre si relações puras de causa e efeito. Mas adverte que é um “grave erro” tomar a representação matemática pela realidade. A veracidade das hipóteses econômicas dependem ainda de comprovação fática (Pareto, 1996, pp. 56-57; 208).

stricto sensu. Não questiona, então, se uma conduta deveria ou não ser considerada crime, i.e., se gera ou não perdas sociais suficientes para justificar sua criminalização. Em suas palavras:

As pessoas frequentemente irão divergir razoavelmente sobre a quantidade de danos e benefícios resultantes de diferentes atividades. Para alguns, quaisquer níveis salariais fixados pela livre competição entre empregadores e empregados são aceitáveis; para outros, um nível salarial abaixo de certo mínimo é uma violação de direitos básicos. Para alguns, o jogo, a prostituição e inclusive o aborto deveriam ser mercadorias como quaisquer outras; para outros, o jogo é um pecado e o aborto um homicídio. Essas diferenças são fundamentais para elaborar e implementar uma política pública, mas foram excluídas da minha análise. Eu aqui suponho que exista um consenso acerca dos danos e benefícios e, então, tento simplesmente extrair parâmetros para implementar esse consenso de forma ótima (1990 [1968], p. 79)62.

Em outra ocasião, porém, BECKER dedicou-se a investigar também essa questão, i.e., saber se, à luz do método econômico, é eficiente ou não criminalizar uma conduta.

Nesse caso, perceba-se, antes de perguntar pela forma ótima de punir a conduta, o autor questiona se ela deveria ser mesmo criminalizada. É exatamente esse tipo de análise que BECKER faz em The Market for Illegal Goods: The Case of Drugs (Becker, Murphy, &

Grossman, 2006).

Nesse texto, elabora um modelo para avaliar quando é mais eficiente reduzir o consumo de um bem que se supõe danoso, como as drogas, (i) ora via proibição e criminalização do seu comércio, (ii) ora via legalização e taxação desse bem. Sem entrar no mérito da discussão – se o consumo de drogas é socialmente danoso ou não, mas supondo que realmente seja –, ele argumentava que a legalização combinada à taxação elevada teria o mesmo efeito prático da criminalização de qualquer bem cuja demanda é altamente inelástica – i.e., aumentar seus preços –, mas agora gerando receitas tributárias e sem os custos da “guerra às drogas” (v.g. os gastos públicos com tribunais e policiais, o encarceramento em massa da população negra, a corrupção, a violência e outros

“primitivos e perigosos métodos de produção”) (2005)63.

62 “Reasonable men will often differ on the amount of damages or benefits caused by different activities.

To some, any wage rates set by competitive labor markets are permissible, while to others, rates below a certain minimum are violations of basic rights; to some, gambling, prostitution, and even abortion should be freely available to anyone willing to pay the market price, while to others, gambling is sinful and abortion is murder. These differences are basic to the development and implementation of public policy but have been excluded from my inquiry. I assume consensus on damages and benefits and simply try to work out rules for an optimal implementation of this consensus” (1990 [1968], p. 79). Tradução minha.

63 Apenas para registrar uma conclusão menos “generosa” do autor, menciono que este método econômico o levava a defender a pena de morte para homicídios dolosos. “I support the use of capital punishment for

Esse caminho percorrido na análise do mercado de bens ilegais é o mesmo que já constava Crime and Punishment: tomando um objetivo como “dado”, sem questioná-lo – como o de reduzir o consumo das drogas –, estabelecer quais são as condições para atingi-lo da forma mais eficiente, de acordo com a análise econômica da questão. O objetivo considerado, em Crime and Punishment, será o de minimizar ao máximo as perdas sociais relativas a crimes – sem questionar, nesse momento, a eficiência da criminalização.

Quanto àquela segunda simplificação – de que punir é, em princípio, um instrumento igualmente eficaz de prevenção criminal –, repare-se que isso, por si só, não implica supor que seja o único instrumento preventivo, nem que seja o mais eficaz.

BECKER realmente parte do pressuposto de que, em geral, punições sirvam a esse objetivo, mas admite que cumprem essa função de forma ora mais, ora menos eficiente – a depender da elasticidade da oferta de ofensas, como veremos.

O autor encara a pena como mais um incentivo negativo, mais um “custo”, que serve para desestimular o cometimento da ofensa. Outro custo igualmente relevante, por exemplo, é o “custo de oportunidade”: aquilo de que se abre mão quando se decide cometer a ofensa, como a renda que se poderia obter empregando tempo e recursos materiais em outras atividades (não criminais). Quanto maior o “custo de oportunidade”, menos incentivos a pessoa tem para cometer ofensas. Nesse sentido, se a renda média da população aumentar, a tendência é que menos crimes sejam cometidos com a finalidade de obter renda (1990 [1968], p. 47; 59; 1992, p. 42)64.

Em síntese, para o autor, qualquer política pública que eleve o custo de cometer uma ofensa é considerada eficaz para prevenção de crimes. Assim, a abordagem

persons convicted of murder because, and only because, I believe it deters murders. If I did not believe that, I would be opposed because revenge and the other possible motives that are mentioned and discussed by Posner, should not be a basis for public policy” (Becker G. S., 2005b). “Eu defendo o uso da pena capital para pessoas condenadas por homicídios porque, e somente porque, eu acredito que detenha homicídios futuros. Se eu não acreditasse nisso, eu seria contrário, porque vingança e outros possíveis motivos que são mencionados e discutidos por Posner não deveriam servir de base à política pública” (tradução minha).

BECKER se opunha ao uso da pena de morte para crimes diferentes de homicídios dolosos, ao argumento de preservar a “dissuasão marginal”, quer dizer, desincentivar o cometimento de crimes ainda mais graves após o cometimento de um crime menos grave. Caso contrário, a política penal incentivaria o cometimento de um homicídio para ocultar um crime de roubo, por exemplo, se este último já for punido com a morte (2005c).

64 “… opportunities for employment, schooling, and training programs […] as well as law, order, and punishment are an integral part of the economic approach to crime” (Becker G. S., 1992, p. 42). “…

oportunidades de emprego, escolaridade e programas de capacitação […], assim como lei, ordem e punições são parte integrante da abordagem econômica do crime”. Tradução minha.

econômica inaugurada em Crime and Punishment foi pensada para ser um método, apenas. Como tal, esse método não implica qualquer política específica: só admite, a priori, que instrumentos punitivos ou não são ambos eficazes para atingir o mesmo fim (Panther, 1995).

Sem prejuízo disso, nesta ocasião o autor exclui essas outras formas de prevenção da análise, para se concentrar especificamente sobre o efeito da política penal na decisão de cometer ou não um crime, impondo aos ofensores o custo que corresponde às penas.

Para além disso, outros custos suportados pelo ofensor são implicitamente considerados, reduzindo o valor do benefício que projeta obter. Assim, reconhece-se a relevância desses custos; só não são analisados em Crime and Punishment.

Nesse sentido, a fim de ressaltar que a punição é apenas mais uma entre outras formas de prevenção, vou designá-la a seguir pelo termo “dissuasão” (“deterrence”), como quase sempre o faz BECKER.

Finalmente, mesmo admitindo que a dissuasão não seja a única, e nem sempre a mais a forma mais eficaz de prevenir crimes, é razoável questionar ainda se as punições realmente se prestam para prevenir crimes. Quero então me deter sobre esse ponto, enfim, antes de passar ao próximo tópico.

O autor oferece dois tipos de resposta para essa questão. O primeiro é um argumento puramente factual ou “positivo”: as punições efetivamente servem para dissuadir porque os dados empíricos comprovam este efeito (2005b)65. O segundo tipo, presente em Crime and Punishment, tem a aparência de um argumento “normativo”, implicado pela análise econômica; mas entendo que se trata, em verdade, de uma

“condição de possibilidade” da análise do autor (1990 [1968], pp. 40, 65, 68, 78).

Sigamos os passos de seu argumento. Dado o objetivo de minimizar as perdas sociais resultantes de crimes, ele aponta que a finalidade “ótima” de punir inclui

65 Nesse sentido, vide o estudo de CHALFIN & McCRARY a respeito das principais conclusões de uma ampla base bibliográfica (de estudos empíricos) que revisaram, referente aos últimos 20 anos, sobre os efeitos dissuasórios das punições nos Estados Unidos (2017). Eles apontam, em suma, haver “considerável evidência” de que a oferta de crimes é reduzida frente a mais “policiamento”, assim como a um aumento nas oportunidades de trabalho lícito, mas pouca evidência de que seja sensível a aumentos na severidade das penas.

“também” a dissuasão de crimes futuros66. Porém, mais do que objetivo ótimo a ser perseguido, a finalidade de punir para prevenir é um pressuposto sem o qual o modelo absolutamente não faz sentido. Quer dizer: se prevenir pela punição não for possível, minimizar as perdas sociais resultantes de crimes via política penal é igualmente impossível; ela traria custos, apenas, sem quaisquer benefícios. A política penal ótima, neste caso, seria “nenhuma” política penal. O efeito dissuasório da punição, por isso mesmo, é uma “condição de possibilidade” do modelo. Caso entenda-se que as penas não se prestam para dissuadir sequer um mínimo de futuros crimes, a única utilidade prática que resta ao modelo de BECKER é servir de argumento econômico em favor da abolição do sistema penal.

Concluídas essas ressalvas, passo, então, a analisar em que consiste precisamente o modelo de BECKER.