Capítulo 7 – A economia da pena
C. Multas reparatórias
7.4. Multas “sempre que possível”
A proposta de BECKER, neste ponto, traduz-se em um princípio geral, conforme o qual penas não monetárias devem ser empregadas apenas quando os danos causados pelo ofensor superarem os recursos de que dispõe para arcar com a multa que seria fixada.
Esse princípio se aplica de duas formas distintas: (i) no caso dos crimes que resultam em danos cujos valores suponham-se extremamente altos (v.g. homicídios, estupros etc.), a ponto de que, por definição, estabeleça-se que ninguém no mundo possa dispor da quantia monetária equivalente a tais danos; (ii) nos casos em que o ofensor, numa situação determinada, não possua os recursos suficientes para arcar com a multa estabelecida (1990 [1968], p. 66). Ou seja, nesta segunda hipótese, multas seriam substituídas por penas como a prisão.
A respeito da crítica de que seria imoral punir com multas, pois equivaleria a permitir que se “comprasse” o direito de cometer uma ofensa por um certo preço, BECKER afirma que toda forma de punição já é um preço. A diferença seria unicamente a unidade de medida. A pena de prisão, por exemplo, tem o preço medido em tempo; a de multa em unidades monetárias (1990 [1968], pp. 64-65). De acordo com o autor, a prisão seria um caso especial de preço por “tempo de espera” (como em filas), um dos mecanismos de alocação de recursos alternativo à precificação monetária, como é o planejamento econômico centralizado nos países comunistas, ou os pagamentos em espécie (1990 [1968], pp. 180, 191).
Frente à crítica de que a sistemática de substituição da multa pela prisão seria injusta em relação às pessoas mais pobres, BECKER argumenta, primeiro, que o ofensor possui uma “dívida” com credores (as vítimas) que com ela não consentiram; quer dizer, o crime produz uma “dívida”, mas não é um empréstimo voluntário. Sugere, dessa forma, que a sociedade estaria igualmente autorizada a cobrar o “débito” do ofensor por modos que independam do seu consentimento. Além disso, o autor sustenta que permitir o
pagamento da multa é muito melhor do que enviar o pobre direto à prisão. Em suas palavras,
Se um homem rico compra um carro e um homem pobre furta um, o primeiro é parabenizado, já o segundo é condenado à prisão. Embora a compra feita pelo homem rico seja equivalente a um ‘furto’ seguido pelo pagamento de certa
‘multa’ equivalente ao valor do carro, o pobre é condenado à prisão porque, com efeito, não pode pagar essa ‘multa’ (1990 [1968], p. 67)80.
Para o autor, a questão referente à justiça dessa substituição resumir-se-ia, tão só, a saber se a duração da pena de prisão é justa relativamente ao valor da pena de multa.
BECKER cita como exemplo a aplicação de certa multa que, em valores atuais, corresponderia a US$ 75.000,00, aproximadamente81, e seria substituída por uma pena de prisão de uma semana para aqueles que não pudessem pagá-la (1990 [1968], p. 67).
Segundo o autor, nesse exemplo, o tempo da pena de prisão, relativamente ao valor da pena de multa, pode soar injusto no máximo para pessoas ricas, que sejam obrigadas a pagar a multa; possivelmente, argumentariam que o valor da multa é demasiadamente alto para um tempo de prisão muito pequeno. Uma pessoa qualquer, se pudesse escolher, provavelmente preferiria uma semana de prisão a pagar aquele valor82, que corresponde a mais do que a renda per capita anual americana em 2017, de US$ 59.531,70 (Banco Mundial, 2019).
Para uma pessoa pobre, a injustiça surge quando, em troca de certa multa que não pode pagar, o tempo de prisão exigido é muito extenso. Naquele hipotético exemplo de BECKER, um dia de prisão equivale a US$ 10.700,00. Mas, em um exemplo real que ele encontrou (1990, p. 68), um dia de prisão equivalia em valores atuais a US$ 20,00: a multa era de cerca US$ 7.500,0083 e o tempo de prisão era de 1 ano – sendo a renda per
80 “If a rich man purchases a car and a poor man steals one, the former is congratulated, while the latter is often sent to prison when apprehended. Yet the rich man's purchase is equivalent to a "theft" subsequently compensated by a "fine" equal to the price of the car, while the poor man, in effect, goes to prison because he cannot pay this "fine"” (1990 [1968], p. 67). Tradução minha.
81 Conforme calculadora de inflação on-line disponível no site do BUREAU OF LABOR STATISTIC do UNITED STATES DEPARTMENT OF LABOR (2019), tomando como base o valor original de US$ 10.000,00 em janeiro de 1968, ano de publicação de Crime and Punishment, chega-se ao montante atual de US$ 74,127.86 em fevereiro de 2019.
82 Supondo, é claro, que o custo de estar preso é exclusivamente a privação da liberdade e suas consequências, não incluindo sofrimentos e riscos típicos de uma prisão brasileira, por exemplo.
83 Conforme calculadora de inflação on-line disponível no site do BUREAU OF LABOR STATISTIC do UNITED STATES DEPARTMENT OF LABOR (2019), tomando como base o valor original de US$ 1.000,00 em janeiro de 1968, ano de publicação do texto de BECKER (1990 [1968]), chega-se ao montante atual de US$ 7.412,79 em fevereiro de 2019.
capita mensal americana de US$ 4.960,98 atualmente (Banco Mundial, 2019) –. Como ilustra esse caso, “o tempo de prisão excessivo relativamente ao valor da multa explica por que a prisão em substituição à multa é considerada injusta para criminosos pobres, que frequentemente devem “escolher” a alternativa da prisão” (1990 [1968], p. 68)84.
O autor ainda propõe uma política “tolerante”, nas suas palavras, para os que não possam pagar a multa. Essa política consistiria em fixar um tempo de prisão pouco inferior àquele que corresponderia ao equivalente monetário ótimo da pena de prisão – o valor monetário equivalente à pena de prisão se essa fosse fixada como multa, mas com os custos da pena de prisão. No caso hipotético que ele elabora (acima), por exemplo, isso significaria um tempo de prisão ainda menor que o de uma semana. Desse modo, não só o custo da pena de prisão seria reduzido, como o tempo de prisão (em lugar da multa) não soaria injusto, porque seu equivalente monetário seria inferior ao valor da multa que seria aplicável (1990 [1968], p. 67). Note-se como, nesse caso, BECKER faz coincidir
“tolerância” com eficiência econômica.
No modelo de BECKER, como visto, são igualmente considerados os danos a bens não monetários. Mesmo para esses, porém, o autor entende ser possível uma estimativa monetária, por mais difícil e especulativa que seja, até porque isso é fundamental para sua proposta de multas “sempre que possível”. O “preço” em dinheiro desses danos – como qualquer preço em termos de quaisquer outros bens – é a quantia monetária pela qual se admitiria tolerá-los ou pelo qual, no limite, poderiam ser
“trocados”. Isso não o impede de antecipar que certos crimes, como homicídios e estupros, causam danos tais que nenhuma quantia monetária disponível no mundo seria suficientemente equivalente a eles. Portanto, estimá-los em dinheiro, além de ser difícil, não teria qualquer utilidade prática.
Esses crimes – homicídios e estupros – são casos emblemáticos que o autor menciona para dizer quando concebe o uso de penas não monetárias, como a de prisão, embora só até o limite em que sejam úteis para coibir futuros crimes, considerando a elasticidade da oferta desses crimes em relação a aumentos na pena esperada. Não quer dizer, portanto, que esse objetivo de coibir crimes tão graves deva ser perseguido a
84 “... excessive prison sentences relative to the fines, which may explain why imprisonment in lieu of fines is considered unfair to poor offenders, who often must "choose" the prison alternative” (1990 [1968], p.
68). Tradução minha.
qualquer custo. Qual seria o custo, por exemplo, de coibir via política penal o cometimento de todos os homicídios? Conforme David FRIEDMAN, parte desse custo seria monetário – i.e., gastos com bens usualmente estimados em dinheiro, para suportar gastos com mais policiamento, investigação, tribunais etc. –, e outra parte (não-monetária), provavelmente, seria tolerar a condenação de inocentes, estabelecendo um nível de exigência de provas (“standard of proof”) baixo o suficiente para não deixar escapar da condenação um único homicídio sequer, mas que, ao mesmo tempo, implicaria também a condenação de inocentes (Friedman D. D., 2000, p. 225). Investir nesse objetivo o máximo possível de recursos do orçamento público também privaria de investimentos outros serviços sensíveis que o Estado igualmente provê (v.g. saúde, assistência social).
Tudo isso ilustra de que forma os danos resultantes de homicídios, mesmo esses, possuem um “preço”, que por sua vez pode ser inferior ao custo de combatê-los todos.
Nesses termos, desde que se admitam comparações entre distintos bens, pode-se dizer que ambos possuem um “preço” em termos um do outro (sejam esses bens quais forem).
Conforme BECKER, preços são, em si mesmos, apenas uma medida da escassez e não um “valor material” (1996, pp. 166, nota 9). Assim, o que importa fundamentalmente para o modelo do autor é a ideia de que todos os bens são comparáveis entre si e, nesse sentido, possuem um “preço” ou “equivalente” em termos um do outro. Por sua vez, a estimativa de um bem especificamente em termos monetários, para além de ser uma abstração que facilita essas comparações, só tem real utilidade quando a pena empregada for a multa.
O autor reconhece que a estimativa de danos imateriais, como danos à personalidade, será fatalmente “figurativa”, “especulativa” e apenas “grossamente”
equivalente85. Reconhecendo a dificuldade, entretanto, ele a encara tão somente como tal – i.e., uma dificuldade a mais –, e não como obstáculo intransponível, que o faça reformular seu modelo. Aponta, nesse sentido, que a mesma dificuldade às vezes se apresenta também em processos cíveis que buscam estimar danos materiais, apenas, e que isso não tem impedido o funcionamento razoável desses processos. Admite que, assim como ocorre em processos por danos punitivos (“punitive damages”), também aqui
85 BECKER refere-se a HARPER & JAMES (1956, p. 1301), endossando o caráter especulativo, figurativo e de apenas “grossa correspondência” da estimativa monetária dos danos a direitos da personalidade.
“graves enganos” ocorrerão eventualmente. Com o tempo, porém, supõe que regras serão desenvolvidas para diminuir a “margem de erro” (1990 [1968], p. 69 e nota 57).
Partindo da proposta do autor de aplicar multas reparatórias “sempre que possível”
e dos parâmetros que a informam, nada obstante tais dificuldades que examinei neste último tópico, no próximo Capítulo avalio em que medida o DPE orienta-se nessa direção, o que me servirá de “índice”, enfim, para avaliar em que medida pode ou não cumprir sua função de proteção da “economia”.