3 CENTRALIDADE E SUAS FORMAS DE EXPRESSÃO
3.2 FORMAS DE EXPRESSÃO DA CENTRALIDADE
3.2.1 Centro
O Centro das cidades é uma área que resiste a definições simples, que contemplem toda sua complexidade de funções, formas, significados, poder a ele DWULEXtYHLV7RXULQKRSRUH[HPSORRGHILQHFRPR³XPDHQWLGDGHPXOWLVHWRULDl e multifuncional, plurLVLJQLILFDQWH H FRQWUDGLWRULDPHQWH FRPSOH[D´ 3HUHLUD S 130), a partir da avaliação do conteúdo de diversos autores, indica que na ampla ELEOLRJUDILDVREUHRWHPDR&HQWURDSDUHFHFRPR³XPHVSDoRGRWDGRGHTXDOLGDGHV que o diferenciam das demais árHDV GD FLGDGH´ XPD iUHD QD TXDO ³RV YDORUHV H funções urbanos, o preço do solo, a densidade da atividade comercial e de serviços, a presença de estabelecimentos de lazer e diversão diurna e noturna, de edifícios públicos, do anonimato e da liberdade se apUHVHQWDP FRP PDLRU LQWHQVLGDGH´
(RENDU, 197056 apud PEREIRA, 2014, p. 130).
55 Não esquecendo que o TXHVHSRVVDFRQVLGHUDUFRPR³WUDGLFLRQDO´RX³DQWLJR´H³FRQWHPSRUkQHR´
varia entre cidades conforme o tipo urbano, seu período de urbanização e sua formação socioespacial.
56 RENDU, P. Rôle fonctionnel du centre. Revue Urbanisme, Paris, n. 120-121, p. 18-20, 1970.
Portanto, não cabe aqui realizar uma discussão com a pretensão de caracterizar definitiva ou completamente o Centro, o que por si só constituiria objeto de amplos e diversos estudos, mesmo porque o Centro não é estático, mas, em processos contínuos, se alterou e continua se alterando ao longo do tempo, acumulando e perdendo significações, bem como se expandindo no território. Dessa forma, o que é ora realizado tem por objetivo apresentar algumas de suas FDUDFWHUtVWLFDVHLQGLFDUDMXVWLILFDWLYDSDUDDXWLOL]DomRGRWHUPR³&HQWUR´QRSUHVHQWH trabalho, sem adjetivos que o acompanhem tais como principal, tradicional, histórico, entre outros. Para isso, organiza-se a discussão, em primeiro lugar, sobre os aspectos simbólicos construídos desde a origem do Centro e das próprias cidades, para depois serem enfocadas as questões funcionais que essa área da cidade exerce.
Antes de avançar para a discussão sobre a condição atual do Centro, no seu entendimento intraurbano, é necessário avaliar brevemente sua relação com a gênese da própria cidade, que, conforme afirmamos anteriormente, também possui condição de centro na escala interurbana. Villaça (2001) afirma que a origem do Centro se relaciona com a própria origem das aglomerações urbanas, formadas como condição necessária à cooperação entre indivíduos e à redução do desgaste na execução das atividades de reprodução da sua vida material e social. Conforme destacado anteriormente, a própria aglomeração urbana representa, em relação ao espaço que D FLUFXQGD UXUDO RX ³QmR-XUEDQR´ R FHQWUR GH XPD GHWHUPLQDGD UHJLmR FRP D expressão intraurbana de centralidade decorrendo da própria expressão interurbana (CORRÊA, 1989).
Essa primazia espacial remonta ao surgimento primitivo das cidades quando se estabeleceram as primeiras fixações dos seres humanos nômades em locais que permitiram organizar a obtenção de alimentos por meio do cultivo organizado, seu depósito, proteção dos seres humanos e animais domesticados, entre outros, (BENEVOLO, 2007). Entretanto, destaca-se que o surgimento da cidade enquanto tal e o conseguinte desenvolvimento da sociedade, não foi simplesmente derivado do crescimento das aldeias, essencialmente ligadas à agricultura. Diferente dela, estes assentamentos têm como condição para sua existência a diversificação das funções dos indivíduos dentro da sociedade (SPOSITO, 2005; BENEVOLO, 2007), possível a partir da existência de um excedente de alimentos produzidos no campo, que permitiu
que parte de sua população se ocupasse de atividades não agrícolas, dando origem à "divisão social do trabalho" (SPOSITO, 2005, p.11).
Ao longo da história as sociedades se desenvolveram e houve a complexificação de suas relações sociais. Num processo que se iniciou desde a Antiguidade, nos centros urbanos já se verifica a divisão do território em propriedades individuais, diferentemente do campo, e as classes dominantes já se tornavam mais complexas, compostas pela realeza e sacerdotes (poder político e religioso) que ocupavam a parte mais interna da aglomeração, ou seja, seu Centro (SPOSITO, 2005). Nos séculos que se sucederam, à medida que as cidades cresciam e se tornavam capitais de impérios, ainda que pequenos, havia a ampliação de seu papel, se tornando centro de troca e comercialização de mercadorias e, consequentemente, em pontos de concentração de fluxos não apenas internos como também externos.
Com a ascensão do capitalismo, já em séculos mais recentes, este também transformou a cidade, que de espaço administrativo e de domínio tornou-se também depositário da riqueza monetária auferida pelo comércio (SPOSITO, 2005, p. 34, 39), reforçando nelas o exercício simbólico e prático do poder.
Durante todo esse processo, que evidentemente não é único e nem ocorreu da mesma maneira ou ao mesmo tempo em todas as cidades, o Centro foi reunindo e cristalizando, por meio de formas espaciais, diversas expressões da interação humana, base de sua vida social urbana, seja ela política, como em palácios e paços, religiosa, em grandes edifícios voltados aos cultos de diferentes denominações religiosas, cultural, em museus, teatros e bibliotecas, ou comercial, com a reunião da produção que se realiza tanto no campo, quanto na própria cidade em feiras, mercados, etc., para citar alguns exemplos. Essa reunião, de formas e de práticas, propiciou também que diversos acontecimentos históricos, como manifestações, conflitos, celebrações, tivessem e ainda tenham como palco o Centro. Como resultado,
[...] estes espaços urbanos vão adquirindo determinado sentido e natureza pela dinâmica urbana do seu uso coletivo quotidiano, público, livre, central porque acessível, construída em função, nomeadamente, das características µItVLFDV¶ GHVVH HVSDoR GD TXDOLGDde formal do seu desenho e dos seus materiais. (ZILHÃO, 2013, p. 66)
Essa multissignificação, resultante da virtual, embora impossível, anulação das distâncias de tudo o que se pode conceber, é expressa por Lefebvre:
O centro urbano é preenchido até a saturação; ele apodrece ou explode. Às vezes, invertendo seu sentido, ele organiza em torno de si o vazio, a raridade.
Com mais freqüência, ele supõe e propõe a concentração de tudo o que existe na natureza, no mundo, no cosmos: frutos da terra, produtos da indústria, obras humanas, objetos e instrumentos, atos e situações, signos e símbolos. [...] A forma do espaço urbano evoca e provoca essa concentração e essa dispersão: multidões, acumulações colossais, evacuações, ejeções súbitas. [...]. Não existe cidade, nem realidade urbana, sem um centro. Mais que isso: o espaço urbano se define, já dissemos, pelo vetor nulo; é um espaço onde cada ponto, virtualmente, pode atrair para si tudo o que povoa as imediações: coisas, obras, pessoas. (LEFEBVRE, 1999, p 46, 93, grifos do autor)
Em suma, o processo histórico de constituição do Centro lhe conferiu, gradativamente e simultaneamente, uma complexidade que é tanto simbólica quanto funcional, constituindo-se no local onde "está cristalizada a maior quantidade de trabalho socialmente necessário despedido na produção da aglomeração e pela DJORPHUDomR´9,//$d$SRTXHWRUQDR&HQWURXPHVSDoRGHDOWRYDORU para a sociedade.
Evidentemente, as cidades diferem quanto à sua época de origem, já se constituindo, portanto, sob o domínio de diferentes formas de organização social.
Assim não se pode esperar que uma cidade surgida no século XX tenha o mesmo acúmulo que outra surgida na Antiguidade, ou mesmo no século XIX. O que permanece como motivação, entretanto é a reunião da sociedade em prol de sua constituição como tal, ou seja, desde o início da História do ser humano enquanto um ser urbano, o Centro é o local de encontro, o local de trocas materiais e imateriais.
Em relação aos atributos da centralidade, o Centro é, portanto,
O espaço dotado de todas as qualidades do central, todos os atributos que definem o que é o centro da cidade; é resultado do acúmulo de tempos históricos, de lutas políticas, é espontâneo, visto que não foi planejado, é possuidor de uma carga simbólica que está presente no imaginário da coletividade. (PEREIRA, 2014, p. 208, grifo nosso)
Entretanto, discute-se que o Centro tem perdido centralidade em função da dispersão dessa no território, bem como seu poder enquanto espaço organizador da vida social. Esta é uma questão que, do ponto de vista funcional, se explica muito bem
com a ascensão das diversas formas posteriores de expressão da centralidade, no entanto, quanto aos aspectos simbólicos, o Centro mantém, com mais vigor, sua importância para a sociedade. A esse respeito,
[...] A centralidade que sai do Centro, por exemplo, leva com ela uma parte dos atributos que o identificam. [...] o Centro não possui hoje muitas daquelas características identificadas nele quando reinava absoluto. É, por estas razões, que se diz hoje que o Centro perdeu centralidade para as chamadas
³QRYDVFHQWUDOLGDGHV´XPDYH]TXHQmRFRQVHJXHFRQWLQXDUFRPDQGDQGR ele só, o complexo processo de construção metropolitana, sendo obrigado entrar na arena competitiva com outras áreas da cidade, sustentado pela postura de uma parte da sociedade que pretende ± por razões econômicas, de prestígio, ou ainda culturalistas ± reforçar a centralidade preexistente àquelas novas centralidades. Ainda assim, o Centro continua Centro.
(TOURINHO, 2004, p. 395).
As qualidades funcionais do Centro permanecem, em que pesem as dinâmicas recentes, e o colocam como a expressão máxima dos atributos da centralidade. No que diz respeito à concentração de atividades, o Centro pode ser definiGR FRPR ³R ORFDO GHFRUUHQWH GR SURFHVVR GH FRQFHQWUDomR GDV SULQFLSDLV atividades comerciais, de serviços, da gestão pública e privada, dos terminais inter-regionais e intraurbanos, do lazer e dos valores materiais e simbólicos da cidade", (SPOSITO, 2004). Johnson (1980) destaca, entretanto, que tal concentração não ocorre de maneira homogênea dentro da área do Centro, mas pode formar áreas LQWHUQDV HVSHFLDOL]DGDV FRPR DV ³ÈUHDV HVSHFLDOL]DGDV´ WUDWDGDV D VHJXLU PDV integradas e participantes da dinâmica geral de atividades que caracteriza o Centro.
Assim, o Centro, em sua área interna, contém diferentes expressões e, inclusive, intensidades de centralidade, o que evidencia sua complexidade.
Sem incorrer no processo de descentralização ou formação de novos núcleos, o Centro também se expande a partir da transformação de áreas pericentrais e da FRQYHUVmR GR VHX XVR &RUUrD LQGLFD TXH ³ÈUHD &HQWUDO´ D SDUWLU GR legado conceitual advindo da Escola de Chicago, divide-VH HQWUH ³R Q~FOHR FHQWUDO (core, Central Business District, ou CBD) e, de outro, a zona periférica do centro (frame, zone in transition, ]RQDGHREVROHVFrQFLD´TXHpSDVVtYHOGHFRQYHUVmR$
expansão do Centro pode ocorrer mediante novas zonas ou eixos, o que "[...] não se dá de modo linear e tampouco harmônico, pois têm sua gênese nas buscas de maximização das possibilidades de reprodução capitalista." (SILVA, 2017a, p. 218)
Em relação à acessibilidade, destaca-se que o Centro
é antes de tudo ponto de convergência/divergência, é o nó do sistema de circulação, é o lugar para onde todos se dirigem para algumas atividades e, em contrapartida, é o ponto de onde todos se deslocam para a interação destas atividades aí localizadas com as outras que se realizam no interior da cidade ou fora dela. Assim, o centro pode ser qualificado como integrador e dispersor ao mesmo tempo. (SPOSITO, 1991, p. 6)
Destaca-se ainda que acessibilidade é, para o Centro, a principal questão no que tange à iniciativas de intervenção, pois "a ideia de centralidade é associada de tal maneira à organização do sistema de vias, de transportes e de comunicações, que todos os esforços de reconstituição, mesmo parciais, dos papeis dos centros urbanos são acompanhados de medidas efetivas para o melhoramento da acessibilidade"
(SPOSITO, 2010, p. 214). Tal dinâmica indica, por outro lado, uma necessidade de adaptação da acessibilidade dessa área frente a novas demandas, em especial referentes ao uso generalizado do automóvel e decorrente necessidade de áreas de estacionamento, incentivando ou mesmo desestimulando seu uso, o que varia de cidade para cidade, ou da época em análise.
Assim, no processo de competição funcional e adaptação à ocorrência de novas áreas de centralidade,
O centro muda o seu sentido original e suas relações com os demais elementos da estrutura urbana, diante das novas exigências que lhe são impostas pela expansão do espaço urbano. Estas mudanças podem levar o centro tradicional ao abandono e deterioração do seu ambiente construído ou a sua remodelação com a renovação/revitalização do ambiente construído, numa tentativa de oferecer este espaço às novas demandas da cidade.
(BEZERRA; CAVALCANTE, 2009, p. 222)
Por fim, cabe ressaltar que a conjunção dos fatores simbólico e funcional, bem como das suas diversas manifestações e a relação com novas áreas de centralidade, FRQIHUH DR &HQWUR D SRVVLELOLGDGH GH GLYHUVDV DGMHWLYDo}HV WDLV FRPR ³FHQWUR WUDGLFLRQDO´ ³FHQWUR KLVWyULFR´ ³FHQWUR FRQVROLGDGR´ ³FHQWUR DQWLJR´ ³ÈUHD &HQWUDO´
entre outras. Cada uma dessas adjetivações indica uma opção que ressalta determinadas características do Centro em detrimento de outras, sem, entretanto, dar FRQWDGHWRGDVHODV,3($$VIRUPDV³KLVWyULFR´³WUDGLFLRQDO´H³DQWLJR´UHFDHP de maneira similar, no problema que o Centro não mais se restringe espacialmente ao seu núcleo original, o histórico, nele não se estruturam ou se desenvolvem apenas SUiWLFDVQHFHVVDULDPHQWH³WUDGLFLRQDLV´HQHPSRGHVHUVLPSOHVPHQWe descrito como
³DQWLJR´ XPD YH] TXH HP FRPSHWLomR FRPnovas áreas de centralidade, também passa por modernizações. Como agregador de várias expressões do central, sim, estas formas também nele se expressam, mas não podem ser adotadas para descrevê-lo em sua totalidade.
$ H[SUHVVmR ³FHQWUR SULQFLSDO´ SRU VXDvez, é amplamente utilizada (i.e.
SPOSITO, 1991; VILLAÇA, 2001), e, considerando o exposto acima sobre a carga VLPEyOLFDGRR&HQWURSRVVXLRDGMHWLYR³SULQFLSDO´HQFRQWUDQRVLPEROLVPRDGTXLULGR ao longo da história e de todos os acontecimentos sociais que o envolveram, desde o surgimento das aglomerações urbanas correspondentes, talvez, seu sentido inexorável para descrevê-lo. Contudo, do ponto de vista funcional, deve ser questionado, pois,
[...] devemos considerar que nas estruturas urbanas complexas, a ideia de um centro principal se aplica com certa fragilidade naqueles casos em que não é a hierarquia entre as áreas centrais o elemento a ser sopesado, mas as relações de concorrência e complementaridade entre elas, bem como as interações existentes entre as empresas e atividades estabelecidas nos espaços de concentração e centralização na cidade e, também, entre outras escalas geográficas. Desse modo, utilizar apenas a distinção hierárquica estabelecida entre centro e subcentro não se mostra procedimento suficiente a ser aplicado em muitas das cidades estudadas que apresentam multicentralidade. A perspectiva de um centro principal também deve ter sua validade avaliada para casos em que a severidade de processos de clivagem social leve a práticas espaciais em que somente algumas e determinadas áreas centrais sejam usadas e apropriadas por segmentos sociais distintos.
(WHITACKER, 2017, p. 192)
Whitacker por sua vez, adota, então, o termo "consolidado" conforme explica:
O que, talvez por falta de melhor definição, estejamos, então, chamando de centro consolidado deve ser compreendido como um espaço com certa fixidez na estrutura e na forma urbana, com manutenção de determinadas formas espaciais e com um conjunto de processos e práticas que possibilitam sua distinção em relação a outras áreas centrais e a um centro principal ± que se caracteriza por sua relação hierárquica com outras áreas centrais ±, além de se caracterizar por práticas espaciais que definem tal área como o centro da cidade, e por ações, definições e delimitações institucionais ± por exemplo, estabelecidas em planos diretores e na legislação de uso e ocupação do solo.
Nesse sentido, o zoneamento urbano, ao definir uma área da cidade como seu centro, tanto reconhece a concentração de atividades compreendidas como centrais, sua carga simbólica e/ou histórica, quanto reforça tais elementos, num processo biunívoco. (WHITACKER, 2017, p. 191)
Isto posto, reafirma-se que os adjetivos expostos não são indevidos, pois indicam qualidades e processos próprios ao Centro, mas, por outro lado, tendem a
não alcançar a complexidade que a área apresenta, reduzindo sua significação total a uma ou algumas características. Por esse motivo, optou-se, no presente trabalho, SRUGHILQLUDiUHDHQWmRDERUGDGDFRPR³&HQWUR´FRPOHWUD³&´HVHPDGMHWLYRVSDUD que esta expressão indique a possibilidade de agregar mais e mais qualidades sem, HQWUHWDQWRGHL[DUGHVHU³R&HQWUR´QmRPDLVR~QLFRQDFLGDGHSRUVXDIuncionalidade mas sim por suas qualidades e simbolismo, sendo, em última instância, insubstituível.