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3 CENTRALIDADE E SUAS FORMAS DE EXPRESSÃO

4.7 SÍNTESE

A trajetória realizada a partir de diversos documentos e autores de épocas distintas permite algumas conclusões a respeito da evolução da centralidade intraurbana em Curitiba. A partir do Plano Agache se verificou que o estímulo a formação de centros funcionais não vislumbrava a formação de uma estrutura multicêntrica em Curitiba, privilegiando a concretização de núcleos especializados condizentes com uma visão funcionalista do espaço urbano, num contexto em que a cidade ainda apresentava uma ocupação de reduzida extensão.

A partir dos anos 1950, entretanto, são encontrados os primeiros indícios da formação de núcleos de comércio e serviços fora do Centro, fato que começou a ser colocado como questão importante perante no âmbito do ordenamento territorial.

Nessa década, entretanto, foi tardia a definição de leis e códigos que pudessem responder às novas condições que se impunham em Curitiba, com a aprovação do primeiro zoneamento, ainda não detalhado, somente em 1960 e a estipulação das chamadas Unidades de Vizinhança no mesmo ano, que visava a descentralização da cidade como forma de resolver seus problemas.

Tal proposta não teve vigência longa e a formulação do Plano Preliminar de Urbanismo em 1965 propôs um novo modelo de ordenamento e crescimento para a cidade. Não obstante, foi mantida a preocupação em integrar áreas de centralidade em processo de surgimento nos bairros, à época periféricos, como uma estratégia de evitar uma excessiva concentração no Centro, o que levou à criação de uma proposta de estruturação viária em função da ligação entre tais áreas de centralidade. O Plano

Diretor aprovado em 1966, contudo, utilizou as vias estruturais para organizar um setor estrutural a ser ocupado por torres residenciais verticalizadas inspirado em conceitos do urbanismo modernista e suprimiu do seu zoneamento as áreas de centralidade antes destacadas pelo PPU, dando o que seria o primeiro passo para a indução de uma expansão linear do Centro.

Essa alteração se processou em definitivo nos anos 1970, quando houve a efetivação do Plano Diretor, principalmente por meio da implantação do sistema trinário, do plano massa e da rede integrada de transporte. Dessa forma, se estimulou a fixação de atividades de comércio e serviços nos eixos projetados, suplantando de vez a ideia de estímulo a núcleos secundários já existentes, o que não implicou, entretanto, no seu desaparecimento ou mesmo no cessar de seu crescimento, uma vez que seu próprio surgimento não havia sido dependente de estímulo anterior do planejamento urbano municipal. O contínuo e expressivo crescimento populacional e ocupação extensiva da periferia nessa década, contrastando com os vazios de alguns trechos do setor estrutural, monetariamente valorizados pela estrutura nele implantada, chamaram a atenção para o problema das ocupações irregulares, cujas tentativas de solução, ao preconizarem fixar a população de baixa renda distante da cidade pouco ajudaram.

Procurando responder à essas questões e se aproximar da população que ocupava as periferias, num contexto em que os processos democráticos de participação vinham ganhando relevância política na primeira metade dos anos 1980, as gestões de oposição entre 1983 e 1988 promoveram uma guinada na administração pública, com o objetivo de descentralizá-la. Acompanhando essa premissa, foi desenvolvido um plano alternativo que se materializou no PMDU, cuja identificação de áreas de centralidade comprovou o avanço de sua formação no espaço de Curitiba a despeito da linearidade preconizada. Também se desenvolveu em paralelo uma SURSRVWD GH ³DOGHDPHQWR´ TXH UHWRPRX HOHPHQWRV WtSLFRV GDV Unidades de Vizinhança. Contudo, a brevidade dessas gestões, a não substituição do Plano Diretor e o relativo atraso na efetivação de suas propostas de reordenamento territorial, em especial do zoneamento, permitiram que as gestões seguintes, que retomaram a hegemonia política de vertente oposta, facilmente descartassem tais mudanças.

Já a partir dos anos 1990, conforme houve a reversão da tentativa de alteração no planejamento e estruturação urbana de Curitiba e o modelo vigente se mostrou integralmente implantado, optou-se por alterar o foco das intervenções públicas para a área ambiental, acompanhando a ascensão do tema da sustentabilidade em âmbito mundialEHPFRPRSURPRYHQGRXPDLPDJHPGH³FLGDde PRGHOR´HQWUHRXWUDVFRQGL]HQWHFRPRVSUHFHLWRVGHcity marketing característico do planejamento estratégico de viés neoliberal. Diversas ações de caráter misto, entre a estética e o meio ambiente marcaram a década, dotando a cidade de diversos cartões postais enquanto, por outro lado, continuavam as ocupações periféricas precárias em Curitiba e nos municípios vizinhos, em geral afastadas do Centro e dos Setores Estruturais. Em paralelo, foram sendo inseridas diversas estruturas comerciais de grande porte, tais como os shopping centers, representando mudanças nos hábitos de consumo e socialização de determinadas parcelas da população.

Nos anos 2000, discute-se o declínio do planejamento urbano em Curitiba e VHX GHVJDVWH EDVHDGR QD SHUFHSomR GH VXD SHUGD GD FDSDFLGDGH GH ³LQRYDomR´

(TURBAY, 2016). No âmbito legal, notou-se uma débil participação do poder público nos processos de instalação de grandes estruturas terciárias, que pouco são obrigadas a fazer além de reverter os impactos que causam no tráfego, priorizado o atendimento ao transporte individual. Na revisão do Plano Diretor de 2015, ocasião em que o tema das áreas de centralidade nos bairros ressurgiu nos debates públicos, a oportunidade de se discutir mais profundamente a questão e se atualizar a compreensão sobre o processo de estruturação de tais áreas não foi devidamente aproveitada, resultando em propostas e na sua inclusão na lei de maneira muito vaga e pouco diferente do que já se realizava até então97. Também não é possível, no momento, avaliar os desdobramentos das possíveis aplicações do que prevê a proposta de zoneamento de 2018, nem mesmo se esta será aprovada ou quais alterações serão procedidas até sua promulgação como lei.

Dessa maneira, conclui-se que a estruturação urbana de Curitiba passou, praticamente ao longo da segunda metade do século XX, pelas fases de monocêntrica, multicêntrica e policêntrica, chegando ao século XXI com uma

97 O que pode ter sido, ao menos parcialmente, decorrente da dificuldade em se contrapor ao modelo hegemônico de planejamento urbano em Curitiba, seja no campo técnico da retomada de questões abandonadas a tempos pelos órgãos da prefeitura, seja no campo da disputa entre os diferentes grupos políticos locais.

complexa estrutura urbana promovida pela ação de diversos agentes, como o poder público, empreendedores privados, população excluída das áreas privilegiadas pelo modelo de planejamento adotado, etc. O fato de não ter sido dada continuidade à ideia de estímulo a áreas de centralidade secundárias no espaço público, retomada nos anos 1980 e, brevemente, entre 2014 e 2015, mas relegada de modo geral por parte da municipalidade, não implica que estas não tenham se desenvolvido, se multiplicado, ou mesmo se reduzido, enfim, se transformado desde então. Assim sendo, com o objetivo de avaliar como o espaço urbano de Curitiba se reestruturou ao longo das últimas três décadas sob o prisma da concentração de atividades terciárias, tanto por influência da legislação, como dos agentes econômicos, é discutida e aplicada no capítulo seguinte uma metodologia para a identificação de áreas de centralidade, bem como avaliados os seus resultados.

5. ÁREAS DE CENTRALIDADE EM CURITIBA E REESTRUTURAÇÃO DO ESPAÇO URBANO

Conforme discutido anteriormente, a centralidade consiste num importante fenômeno do espaço urbano, podendo expressar-se em diferentes áreas e de diferentes formas. Sobre o contexto da área de estudo, conclui-se que a continuidade do processo de descentralização e formação de áreas de centralidade em Curitiba foi abordada pelo planejamento urbano a partir de ângulos bastante distintos, ora preconizando modelos multicêntricos e, na maior parte do tempo, buscando induzir uma expansão linear do Centro. Dada a predominância desse segundo modelo, não houve desde a segunda metade dos anos 1980 a divulgação oficial de estudos que procurassem apontar como o espaço urbano curitibano se estrutura em termos da formação de áreas de centralidade.

Nesse sentido, no presente capítulo é realizada uma abordagem embasada no atributo de concentração de atividades econômicas terciárias para indicar como o processo vem se desenvolvendo nas últimas três décadas e qual a sua configuração atual. Num primeiro momento, são discutidas metodologias de identificação de áreas de centralidade baseadas nesse atributo, um dos principais fatores presentes no estudo Estrutura Policêntrica de Curitiba (IPPUC, 1987). São também apresentadas a metodologia que embasou tal estudo, aplicada por Duarte (1974) no Rio de Janeiro, e a utilizada por Fonseca (2009) em São Paulo, com a qual a adotada na presente pesquisa compartilha alguns procedimentos, tais como o recorte de atividades terciárias baseado na Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE).

No item 5.2, por sua vez, há a descrição dos procedimentos metodológicos de identificação de áreas de centralidade e sua aplicação no território do município de Curitiba, onde são expostos mapas que comparam diferentes recortes e representações dos dados utilizados, bem como os resultados com eles obtidos. O conteúdo exposto nesse item fornece conclusões do ponto de vista metodológico relativos às possibilidades de utilização das técnicas e dados empregados e permite a realização de análises sobre o processo de reestruturação da centralidade intraurbana em Curitiba evidenciando a formação e a consolidação de uma estrutura multi(poli)cêntrica.

5.1 PERCURSO METODOLÓGICO PARA A DEFINIÇÃO DE ÁREAS DE