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3 CENTRALIDADE E SUAS FORMAS DE EXPRESSÃO

3.2 FORMAS DE EXPRESSÃO DA CENTRALIDADE

3.2.3 Subcentros

Os subcentros correspondem a outra forma espacial constituída pelo processo de descentralização de atividades, ou ainda da instalação de atividades de maneira já alijada do Centro. Sposito (1991) afirma que

Tais subcentros podem ser caracterizados como áreas onde se alocam as mesmas atividades do centro principal com diversidade comercial e de serviços, mas em escala menor, e com menor incidência de atividades especializadas. Tais atividades voltadas para um público mais restrito, funcional ou economicamente (como por exemplo, livrarias especializadas, galerias de arte, oficinas de confecção de calçados sob medida, etc.), estavam localizadas predominantemente no centro principal; a partir da década de 80, estas atividades têm procurado novas localizações, ou em função do aumento do preço da terra no centro e/ou porque o público ao qual se destinam já não circula com tanta frequência nesta área61. (SPOSITO, 1991, p. 10)

3DUD 9LOODoD GHYLGR j ³GLYHUVLGDGH H GRVDJHP Hquilibrada de comércio e VHUYLoRV´DSUHsentada,

61 É possível considerar que a questão do declínio na circulação de determinados perfis de público passou também a promover a migração (ou a criação de filiais) de estabelecimentos para shopping centers, em vez de subcentros ou qualquer outro tipo de local voltado para o espaço público. Em 6DQW¶$QD, grifo nosso), por exemplo, tem-se um caso de uma UHGHGHOLYUDULDVTXH³GLIHUHQte do que fazia no início das suas operações, lá em 1963, [...] só preteQGH DEULU ORMDV HP VKRSSLQJV´ 2 UHSUHVHQWDQWHGDHPSUHVDDILUPDDLQGDTXH³VyYDOHPDQWHUORMDVGHUXDVHPDYHQLGDVFRPJUDQGH movimento de pessoas, mas, mesmo nesses casos, a unidade perde já que funciona em horário comercial e não dispõe de estacionamento.´ 2X VHMD QRYDPHQWH D TXHVWmR GR GHVORFDPHQWR YLD DXWRPyYHOHGDLPSRVLomRGH³QRYRV´KiELWRVGHFRQVXPRSHODFRQWtQXDQHFHVVLGDGHGHH[SDQVmRGR capital, como o praticado fora do horário comercial, emerge enfraquecendo a centralidade exercida por áreDVGHFHQWUDOLGDGH³WUDGLFLRQDLV´

O subcentro consiste, portanto, numa réplica em tamanho menor do centro principal, com o qual concorre em parte sem, entretanto, a ele se igualar.

Atende aos mesmos requisitos de otimização de acesso apresentados anteriormente para o centro principal. A diferença é que o subcentro apresenta tais requisitos para apenas uma parte da cidade, e o centro principal cumpre-os para toda a cidade. (VILLAÇA, 2001, p. 293)

Ou seja, os subcentros podem ser definidos, de forma sintética, como espaços com grande concentração e variedade de atividades terciárias e dotados de alta acessibilidade por meio de diferentes meios de transporte, influenciando as práticas de deslocamento, consumo e trabalho de uma parte da cidade. Na concepção de Tourinho (2004, p. 363), ³&HQWURSULQFLSDOHVXEFHQWURID]HPUHIHUrQFLDDXPPHVPR sistema, ainda que não com a mesma abrangência territorial. Eles são o resultado de XPD GHWHUPLQDGD IRUPD GH HQWHQGHU D FLGDGH FRQWtQXD H LQWHUOLJDGD´ 1HVVD perspectiva, a autora argumenta que

O sistema de subcentros é resultado de um processo de descentralização complementar, originalmente de caráter espontâneo, que estendia no território da cidade a noção de centro, as qualidades do central, ainda que nas versões segregadas [...] A força destes subcentros é respeitável e funciona como um indutor racional de investimentos, criando uma cidade polinucleada ou, melhor dizendo, policêntrica.62 (TOURINHO, 2004, p. 364).

A característica comum de concentração de atividades diversificadas tem, por consequência, a localização de vínculos empregatícios com maior densidade em meio ao espaço urbano. Nesse sentido, Cladera, Duarte e Moix (2009, p. 2841, tradução QRVVDDILUPDPTXHD³GHILQLomRXVXDO´GHVXEFHQWURVFRUUHVSRQGHDXPOXJDUFRP densidade de empregos significativamente maior que possui efeito na densidade geral GHHPSUHJRVGDVSUR[LPLGDGHV´63. Pfister, Freestone e Murphy (2000) afirmam que esse fator é amplamente utilizado como um indicador em diversos trabalhos. Em raciocínio semelhante, na metodologia utilizada por Fonseca (2009), discutida na sequência, as empresas com menos de dez vínculos empregatícios foram desconsideradas na localização de atividades terciárias tidas como centrais.

62 2X³PXOWLFrQWULFD´FRQIRUPHFRQFHLWXDomRTXHXWLOL]DPRVQRSUHVHQWHWUDEDOKR

63 1RRULJLQDO³>«@XVXDOGHILQLWLRQDVDSODFHZLWKVLJQLILFDQWO\larger employment density that has an effect on the overall employment dHQVLW\RIWKHQHDUE\ORFDWLRQV´Contudo, ressalta-se que, por si só, uma alta densidade de vínculos empregatícios como item de análise poderia resultar na identificação de centros industriais, por exemplo.

Ainda, conforme evidenciado anteriormente, trabalhos como os de Berry (1968) e Garner (1971) demonstram que, a exemplo do Centro, os valores do solo são maiores nos subcentros que no restante da cidade, numa escala que varia conforme o nível de importância da centralidade nele exercida. Contudo, a respeito do contexto GDV SHULIHULDV PHWURSROLWDQDV EUDVLOHLUDV 6HUSD S GHILQH TXH ³>@ RV centros ocorrem muito mais em função do mercado consumidor do que dos custos locacionais. Das chamadas externalidades, apenas as questões de acessibilidade e da escala GH RIHUWD GH SURGXWRV VmR VLJQLILFDWLYDV´ RX VHMD DWHQXD-se assim a importância do preço do solo como indicativo de áreas de centralidade em subcentros no contexto analisado.

A origem dos subcentros em meio ao tecido urbano, além de ocorrer em locais que apresentam bom nível de acessibilidade para determinada região da cidade, se impulsiona a partir do momento em que esta atinge uma certa expansão territorial e correspondente a ocupação por contingente populacional. Nesse sentido,

são áreas que têm sua gênese relacionada ao adensamento demográfico, podendo ou não decorrer de processos de segmentação do tecido urbano.

Assim, para reconhecer áreas centrais deste tipo, é importante verificar a constituição de barreiras, que podem ser diversas, como: distância, dificuldade de acesso, diferenças marcantes no padrão socioeconômico (muito elevado ou muito baixo), ou mesmo barreiras físicas. (SILVA, 2017a, p. 219)

Quanto à questão da dificuldade de acesso, Sposito (1991, p. 9-10) ressalta que os subcentros são formados em função do crescimento territorial e pela "[...]

consequente impossibilidade de permanência de um único centro cumprindo o papel comercial e de serviços, por causa do aumento das distâncias do centro principal e da ineficiência do sistema viário e GHWUDQVSRUWH FROHWLYR GLILFXOWDQGR R DFHVVR D HOH´

Com efeito, no contexto das metrópoles brasileiras, onde as classes de renda mais baixa foram aquelas que, historicamente, ocuparam e habitaram locais mais afastados do Centro e se mantiveram mais dependentes do transporte público, tendo, consequentemente, o acesso a ele dificultado64 (VILLAÇA, 2001), a maioria dos subcentros que emergem com a expansão da ocupação urbana tende a possuir caráter popular.

64 Embora esta não seja uma regra e a relação entre centro e periferia baseada na localização habitacional de diferentes classes sociais venha se alterando cada vez mais, conforme abordamos.

A esse respeito, Serpa (2013) destaca que a diferença na abrangência territorial dos subcentros não ocorre somente por questões de localização geográfica, mas também a partir da maneira distinta pela qual as classes sociais consomem os bens e serviços oferecidos pelos diferentes centros65, ou seja, a partir do que Milton Santos (1979) indicou como os circuitos superior e inferior da economia. A esse UHVSHLWR VHR FRQWH~GR GR &HQWUR SDVVRX D VH SRSXODUL]DU FRP R ³DEDQGRQR´ GDV classes de renda alta, o dos subcentros, quando formados em função da presença de mercado consumidor de baixo nível de renda, tende a manter-se voltado ao circuito LQIHULRUGDHFRQRPLD1HVVHSRQWR6LOYDDSFULWLFDDQRomRGH³PLQLDWXUDV RXUpSOLFDVGRFHQWURSULQFLSDO´HDILUPDTXHRVVXEFHQWURVcorrespondem a ³>@ uma nova forma espacial com heterogeneidade funcional, porém, com especialidade VRFLRHFRQ{PLFD´

Quanto ao simbolismo, os subcentros, embora com menor intensidade que o Centro, também podem carregar alguma carga simbólica, expressa, assim como as outras características de centralidade que possui, para uma parcela da população que não contempla sua totalidade, mas sim a área de influência daquela área de centralidade. Para Serpa,

Nas periferias metropolitanas, também o papel histórico que um determinado espaço desempenha ou desempenhou pode, certa forma, influenciar o processo de formação de uma localidade central. Assim, por exemplo, o valor histórico de uma praça ou estabelecimento de uma área de lazer podem também ser fatores de influência [...] (SERPA, 2013, p. 102)

Além disso, ao indicar a predominância do surgimento de subcentros em iUHDVGLVWDQWHVGR&HQWUR6SRVLWRDSRQWDDSRVVLELOLGDGHGHVWHVVHUHP³RULJLQDOPHQWH centros de núcleos urbanos que foram incorporados pela cidade principal da área metropolitana, ligando-se a ela e passando a integrar sua estrutura urbana, como por exemplo, o subcentro de Santo Amaro66 HP 6mR 3DXOR´ 6326,72 S

65 Num trabalho anterior (GASPARI, 2014), foi visto que no subcentro do Pinheirinho, em Curitiba, que possui caráter popular, a implantação de novas unidades residenciais voltadas para estratos médios de renda próximo a sua área ilustravam como atrativos, em suas campanhas publicitárias, apenas grandes estruturas de comércio (notadamente hipermercados), alguns serviços especializados e serviços públicos, como de transporte, ignorando aqueles localizados no subcentro.

66 No caso de Santo Amaro, não apenas houve a integração física e funcional desse núcleo ao paulistano como também político-administrativa pois, de município independente, este passou a distrito do município de São Paulo em 1935. Em Curitiba, por exemplo, não há registro de caso como esse, de

Dessa maneira, podem guardar o mesmo tipo de carga simbólica construída em relação ao Centro da aglomeração, mas na escala daquele bairro, distrito ou mesmo município periférico.

Assim, os subcentros tem uma importância que reside no poder estruturador que possuem para o espaço urbano (VILLAÇA, 2001), sendo responsáveis pela atração e concentração de fluxos materiais e imateriais para partes significativas da cidade. Numa perspectiva funcional, se aproximam da descrição hierárquica de centros oriunda do trabalho de Christaller (1933), no qual a disponibilidade de funções superiores, para determinado nível hierárquico, será sempre inferior à do Centro e superior à de subcentros menores ou áreas não dotadas centralidade. Contudo, a importância dos subcentros na estruturação urbana é evidenciada não apenas pela possibilidade de redução no deslocamento dos seus usuários propiciada pelo acúmulo de funções, mas se coloca também, simbolicamente, como espaço estratégico para as relações sociais, substituindo parcialmente o centro principal.