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CHÁCARA PRIMAVERA: ANATOMIA DE UMA IDENTIDADE

A identidade é uma luta simultânea contra a dissolução e a fragmentação; uma intenção de devorar e ao mesmo tempo uma recusa resoluta a ser devorado (Zygmunt Bauman).

INTRODUÇÃO:

O capítulo anterior procurou oferecer uma visão panorâmica dos condicionantes históricos, ideológicos e sociais que têm produzido significativas mutações e um realinhamento de forças no campo da IPB. Outro objetivo foi o de investigar os fatores que de alguma forma têm fornecido os elementos estruturantes para a formatação da identidade da IPB que resultou numa instituição refratária à aproximação e apropriação de elementos dos diversos campos da cultura tupiniquim.

O presente capítulo contém um esforço que se desdobra em três momentos interligados. O primeiro deles, uma tentativa de visualização da identidade presbiteriana e seus traços dominantes. O segundo contém uma tentativa de examinar a relação de forças produzidas pela secularização responsáveis pela fragmentação de identidades, diluição do controle das instituições religiosas e formação de um cenário marcado pela pluralidade. Finalmente, se fará um esforço de descrição dos traços da identidade da Igreja Presbiteriana Chácara Primavera em relação ao campo da IPB e o cenário religioso brasileiro.

Como ponto de partida, uma definição primária, quase simplista. Considere-se identidade, do latim identitas, como o conjunto de características e dos traços próprios que distinguem um indivíduo, grupo ou comunidade dos demais ou em comparação e mesmo em oposição com o(s) outro(s). Acrescente-se, porém, que à essência ou ao que é fundamental se pressupõe um processo de metamorfose, ou seja, de constante transformação, tornando-se a identidade “... o resultado provisório da intersecção entre a história da pessoa, seu contexto histórico e social e seus projetos. A identidade tem caráter dinâmico”. (FARIA/SOUZA, 2011, p. 36).

Segue-se uma apresentação de duas perspectivas a respeito do conceito de identidade assinalado pelo pensador francês Claude Dubar (2006, p. 7). Do ponto de vista da corrente denominada essencialista, o conceito de identidade repousa sobre a crença nas “essências, nas realidades essenciais, nas substâncias ao mesmo tempo imutáveis e originais [...] o que se mantém na mesma a despeito das mudanças, para além do tempo, o que permanece idêntico”. O autor citará Parmênides (Séc. X a.C) e sua fórmula ‘o ser é, o não ser é’ a fim de ressaltar o caráter permanente da identidade a despeito das mudanças.

Dubar (2006, p. 8) citará Heráclito, que viveu um século antes, e as frases a ele atribuídas ‘não se pode tomar banho duas vezes no mesmo rio’ e ‘tudo flui’ com o objetivo de ressaltar uma concepção oposta à precedente, uma corrente que será denominada de nominalista:

Não há essências eternas. Tudo é submetido a mudança. A identidade de qualquer ser empírico. A identidade de qualquer ser empírico depende da época considerada, do ponto de vista adoptado. Quais são então, neste caso, as categorias que permitem saber alguma coisa sobre estes seres empíricos em constante mutação? São as palavras, os nomes que dependem do sistema de palavras em uso, servindo, num determinado contexto, para as nomear. São os modos de identificação, historicamente variáveis.

Visto dessa maneira o processo de construção identitária social assume uma condição dialética que se faz presente nos encontros ao longo da história do indivíduo ou do grupo, aquilo que se supõe ser um permanente processo de interferências inevitáveis das produções culturais. Outro ingrediente dessa tensão se refere ao fato de que a identidade virá a ser concebida em termos de “oposição entre o que esperam que o sujeito assuma e seja e o desejo do próprio sujeito em ser e assumir determinadas identidades” (FARIA/SOUZA, 2011, p. 37). Correndo o risco de simplificação, pode-se considerar que a questão envolvendo a Chácara Primavera se relaciona com o que a IPB espera de suas comunidades e o que muitas destas desejam de fato ser no encontro com a cultura contemporânea.

2.1. Traços da identidade presbiteriana.

O presbiterianismo como hoje se vê é fruto de um longo e complexo processo histórico. Todavia haverá conformidade entre os reformados (calvinistas) de que os elementos essenciais formativos de sua identidade são encontrados no movimento que ocorreria logo após a Reforma de Lutero que seria denominado de a ‘segunda reforma’. Pode-se creditar a João Calvino (1509-1564) a estrutura da identidade teológica e ao escocês John Knox (1514-1572), que retornaria para a Escócia após um tempo na companhia de Calvino, a base de seu governo eclesiástico.

Aqueles que seriam os ancestrais do presbiterianismo americano teriam sua identidade formada a partir do século XVI e XVII, período turbulento que resultaria na Reforma da Igreja na Inglaterra. Os que haviam fugido para o continente e chegado até a Genebra de Calvino retornariam posteriormente com profundo desejo de ver uma reforma de amplo alcance em seu país. O grupo que ficou conhecido como o partido dos puritanos contribuiria de maneira significativa para moldar o sentimento do povo inglês, e diante de pressões emigraram para a América onde iriam exercer notável influência na construção da sociedade que aspiravam.

Identidades sofrem alterações ao longo da história no encontro com tantas outras fontes de influência e demandas. Aspectos da construção identitária do puritanismo, captadas por Max Weber (2004) e que para o pensador alemão nutririam o espírito do capitalismo, tinham sua base nas convicções religiosas e na autocompreensão como povo eleito e cujas obras deveriam ser de tal natureza que

comprovassem o seu status. Essa atitude, que desembocou numa ascese intramundana, influenciou a dinâmica do trabalho e do estudo, e seria fator preponderante para a formação do espírito protestante do povo americano.

Nos Estados Unidos outros ingredientes foram sendo, naturalmente, incorporados na construção identitária do calvinismo Todavia seriam eles, os puritanos e os seus desdobramentos, como indica Mendonça (1984, p. 44), os grandes responsáveis pela formatação do espírito protestante americano. A estrutura do pensamento e autoimagem do protestantismo receberia contribuições resultando num espírito anti-institucionalização. A vida seria organizada em torno do tripé religião-moralidade-educação. Aos poucos a convicção de povo eleito se transformaria sentimento de superioridade cultural que encorajaria e justificaria os empreendimentos de colonização e missionários (Mendonça, 1984, p. 65-73).

As comunidades calvinistas iriam desenvolver características particulares que as tornariam, lá na frente, igrejas organizadas a partir de um sistema democrático representativo, estruturado sobre a modalidade hierárquica de concílios e controladas por um complexo sistema burocrático. Ocorre que a identidade presbiteriana brasileira seria tremendamente afetada, como foi mencionado no capítulo anterior, pela combinação histórica em nosso país de elementos como o escolasticismo dogmático, o transcendentalismo e o pré-milenarismo que viriam a determinar a essência e os contornos de uma identidade autocentrada e culturalmente refratária (Mendonça, 1984, p. 255-257).

Quanto à sua organização a IPB se autodefine e se organiza como uma federação de igrejas locais orientadas e controladas pela Escritura Sagrada e pelos documentos de Westminster. Trata-se de uma relação piramidal hierárquica cuja autoridade é exercida pelos que governam (pastores e presbíteros reunidos em concílios) e pelos que são governados (assembleia). Cada uma das igrejas locais pertencentes à federação se organiza em pessoa jurídica e à assembleia geral compete eleger pastores e oficiais (presbíteros e diáconos) ou pedir sua exoneração, aprovar estatutos, ouvir informação de relatórios financeiros e outros e deliberar sobre aquisição ou alienação de imóveis45.

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Os traços da cultura burocrática se percebem na dependência das normas escritas, estatutos, regimentos internos, documentos, atas, códigos reguladores de conduta e tribunais e por um sistema meticuloso de controle contábil. A respeito dessa matéria cabe a observação de Lairton Lira Cruz Jr (2006, p. XVII e XX)

A literatura esclarece que o modelo organizacional mecanicista, adotado pela IPB é pouco adequado aos novos tempos, apresentando disfunções e limitações, que se refletem na sua estratégia de manutenção de seus colaboradores e de crescimento quantitativo de sua membresia [...] Portanto, repensar o modelo de gestão da tomada de decisão na Igreja Presbiteriana do Brasil pode ser o começo de um processo de revitalização da organização através da adoção de práticas administrativas mais modernas.

Quanto ao sistema de governo representativo, os concílios da IPB são assembleias constituídas de ministros e presbíteros e guardam entre si gradação de governo e disciplina, assim dispostos em ordem ascendente:

1. O Conselho da Igreja Local, composto pelo pastor e por presbíteros eleitos pela Assembleia para um mandato de cinco anos com direito à sucessivas reeleições. O Conselho se organizará em diretoria cuja presidência caberá ao pastor.

2. O Presbitério exercerá jurisdição sobre os ministros e conselhos de determinada região e se reunirá ordinária ou extraordinariamente tendo como representantes os pastores e um presbítero eleito pelo Conselho da igreja local para representa-la.

3. O Sínodo exercerá jurisdição sobre três ou mais presbitérios.

4. O Supremo Concílio exerce jurisdição sobre todos os concílios e se reunirá ordinariamente a cada quatro anos como assembleia composta dos deputados eleitos pelos presbitérios.

Os componentes acima elencados, agregados ao escolasticismo, dogmatismo e rigorismo moral que foram sendo incorporados ao presbiterianismo brasileiro, de certa forma autorizam a classificar a Igreja Presbiteriana do Brasil como uma comunidade discursiva, conceito atribuído a John Swales46, de relativa complexidade, que foi capturado e desenvolvido por Ederval Scarpin (2014) em sua dissertação de mestrado a respeito da tipificação, gêneros e identidade da IPB.

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Nesse caso deve ser informado que se trata de extrair informações do pensamento de John Swales a partir de fontes secundárias.

Scarpin (2014, p. 16) utilizará a expressão supramundo para representar as quatro referências que se constituem na base pré-existente à comunidade: a Bíblia Sagrada que se torna o protodiscurso debaixo do qual estarão todos os outros gêneros desenvolvidos pela igreja, e os três documentos de Westminster, a Confissão de Fé e os Catecismos Maior e Breve. Essa classificação inicial se enquadra no modo como a IPB se define no Artigo Primeiro de sua Constituição47:

A Igreja Presbiteriana do Brasil é uma federação de igrejas locais, que adota como única regra de fé e prática as Escrituras Sagradas do Velho e Novo Testamento e como sistema expositivo de doutrina e prática sua Confissão de Fé e os Catecismos Maior e Breve; rege-se pela presente Constituição; é pessoa jurídica, de acordo com as leis do Brasil, sempre representada civilmente pela sua Comissão Executiva e exerce o seu governo por meio de concílios e indivíduos, regularmente instalados.

Partindo dos fundamentos, serão agrupados os gêneros que funcionam como unidades representativas da denominação. Servem como um tipo de padrão mais pormenorizado de uma comunidade tradicional dividido em três modalidades, ou ‘mundos’: administrativo, ritual e social. Segue abaixo a divisão estabelecida pelo autor (2014, p. 22-24) que opera como um feixe identitário da denominação.

Os itens dos gêneros listados têm sido historicamente sedimentados e acabam por apontar para a própria identidade das comunidades locais e da denominação. O exame de documentos de conselhos e das sociedades internas revelará a ausência de ações de planejamento estratégico visando o estabelecimento de objetivos, metas e cronograma48.

GÊNERO FUNÇÃO/OBJETIVO BÁSICO

GÊNEROS DO SUPRAMUNDO Bíblia Sagrada

Confissão de Fé Instruir os paradigmas do sagrado;

estrutura interpretativa das Escrituras.

Catecismos Exercitar pela memorização os

paradigmas estabelecidos pela

Confissão de Fé.

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Manual Presbiteriano da Igreja Presbiteriana do Brasil. Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil. São Paulo. Editora Cultura Cristã, 2013, p. 8.

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Trata-se de uma conclusão do autor deste trabalho à luz de suas próprias experiências na relação com conselhos e sociedades internas.

GÊNEROS DO MUNDO ADMINISTRATIVO

Constituição Orientar a respeito das regulamentações

legislativas da IPB.

Estatutos Estruturar regulamentos das igrejas

locais e dos concílios com relação a questões cíveis.

Código de Disciplina Estabelecer parâmetros

regulamentadores dos direitos e deveres dos membros e órgãos bem como de eventuais ações disciplinares.

Princípios de Liturgia Estabelecer parâmetros definidores e

regulamentadores das formas de

expressão de culto e processos

ritualísticos.

Carta Pastoral Instruir a comunidade a respeito de

questões teológicas, éticas e ideológicas mais específicas.

Digesto Organizar as resoluções do Supremo

Concílio facilitando processos de notificação e de pesquisa.

Resolução Determinar o cumprimento de decisões

tomadas por uma instância hierárquica.

Planilha Orçamentária Apresentar balancetes, projeções e

estatísticas financeiras.

Ata Registrar fatos e resoluções ocorridas

nas reuniões de assembleias, concílios e departamentos internos.

Relatório Prestar contas.

GÊNERO DO MUNDO RITUAL

Sermão Instruir os fiéis, normalmente em espaço

e ambiente solenizados, a partir de uma passagem bíblica.

Santa Ceia Promover a comunhão dos membros

com Cristo e entre si.

Batismo Sacramentar a iniciação e inclusão dos

membros na comunidade.

Profissão de Fé Declarar publicamente, em culto solene,

a respeito da crença em Cristo e das disposições de honrar a Ele e à comunidade.

Hinos Expressar por meio de composições

sacras dos paradigmas relativos à devoção, à adoração e aos conteúdos

gerais da fé.

Oração Dominical Apresentar a Deus as súplicas que

ratificam a crença e os princípios essenciais como ensinado pelo próprio Cristo.

Ordenação Investir um membro de autoridade, ato

de um dos concílios.

Moto Motivar os participantes de um dos

departamentos internos e reforçar objetivos essenciais.

Classe de Catecúmenos Instruir os iniciantes a respeito das

bases fundamentais da fé e prática da

igreja visando a recepção como

membro.

GÊNEROS DO MUNDO SOCIAL

Logomarca Estabelecer uma associação e conceitos

a símbolos que sintetizem a identidade da comunidade ou algum aspecto relevante.

Convite Solicitar a presença de alguém ou

instituição em algum evento

Aviso Dar ciência sobre algum acontecimento

ou sobra a realização de algo.

Artigo pastoral Instruir e oferecer bases de conduta

Programa de culto Instruir os cultuantes a respeito da

ordem do culto previamente organizada. A despeito da inegável pluralidade que tem se instalado dentro do campo presbiteriano, as igrejas tradicionais espelham em quase sua totalidade este sistema, do qual decorrem outras atividades que acabam por se tornar traços menores de identidade. Até à década de 1970 as comunidades da IPB apresentavam uma dinâmica praticamente semelhante quanto aos encontros semanais: no domingo, escola bíblica matutina e um culto solene vespertino Meio de semana, dois encontros, um deles como espaço de ensino doutrinário e outro destinado a reunião de oração. As outras atividades eram realizadas pelas sociedades internas, ou domésticas.

Os templos representavam outro aspecto da identidade da IPB até anos atrás. De variados desenhos arquitetônicos e dimensões, nada obstante austeros, tinham em comum a configuração dos espaços que se tornavam ‘mais sagrados’ à medida

que os ambientes se aproximassem do púlpito, o local indiscutivelmente mais ‘santo’, o que irá selecionar por status aqueles que ocuparão cada um daqueles espaços, que trajes e comportamento deverá adotar.

De certa forma as mudanças sociais exigem alterações, mesmo que discretas, na organização dos ambientes de culto, o que certamente irá obrigar uma redefinição de atitudes. Tomem-se como exemplo algumas das igrejas presbiterianas que estão sendo plantadas nos grandes centros, algumas delas tem de optar por salões de hotéis, ficando sujeitas a novas configurações de ambiente e horário. Ainda que tais comunidades preservem as linhas litúrgicas pautadas pelo chamado princípio regulador do culto49, são todavia obrigadas a promover algum tipo de inovação na cultura organizacional e nos modos de acompanhamento dos fiéis. Assim, ainda que tais alterações se processem de modo menos radical, em níveis distintos se alterarão as significações de sagrado e as relações com ele.

No caso da Igreja Presbiteriana Chácara Primavera o que se tem é um conjunto de inovações ainda mais agudas, o que tem gerado protestos, críticas e denúncias das alas mais conservadoras da denominação e de pastores e de teólogos de prestígio na organização50, deve-se no mínimo questionar: seria a Chácara Primavera uma expressão desfigurada do presbiterianismo, guardando muito pouco das características essenciais da verdadeira identidade de uma igreja reformada? Ou estaria ela, na verdade, sendo apenas o que se espera de uma comunidade calvinista adaptada ao seu tempo e submetida às naturais metamorfoses a que toda identidade está sujeita?

Deve-se considerar, também, dependendo da perspectiva de avaliação que as comunidades presbiterianas podem estar se tornando em novos abrigos com adornos típicos da pós-modernidade, mas que se sustentam a partir dos elementos essenciais da identidade calvinista. As conclusões irão variar a partir do ponto de

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Trata-se de uma versão ancorada no pensamento dos puritanos que não admitirá no conteúdo litúrgico algo que não esteja devidamente estabelecido nas Escrituras. A despeito de eventuais discordâncias entre os teólogos em algum ponto ou outro, trata-se de um conteúdo no qual devam constar orações, hinos, os sacramentos e a exposição bíblica. Para a IPB, os princípios estão regulamentados na Confissão de Fé de Westminster e nos Princípios de Liturgia do Manual Presbiteriano.

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O Supremo Concílio reunido em 2014 recebeu um documento com mais de 80 páginas com farta requerendo que pastores da IPB não fizessem parte do quadro de monitores do CTPI, ligado às comunidades presbiterianas. O documento fora enviado pela Junta de Educação Teológica, JET, órgão responsável pela definição e coordenação de todo o sistema de ensino teológico da denominação. O processo não seguiu em razão de o documento não ter sido enviado pelos canais competentes

vista, pois como bem assinalou o franciscano Leonardo Boff, todo ponto de vista é a vista de um ponto: “a cabeça pensa de onde os pés pisam” (1999, p. 09).

2.2.Secularização, pluralismo e resistência: identidades em crise.

Uma das causas explicativas da descaracterização da identidade presbiteriana que sofrerá uma comunidade como a Chácara Primavera é, na opinião de alguns, a elevada porosidade de suas fronteiras e a intencionalidade de suas ações que permitem a incorporação de inovações nos campos litúrgico, discursivo e metodológico incompatíveis com o padrão da denominação. Secularização é o ponto em questão.

As expressões derivadas de ‘secular’ – secularismo, secularidade e secularização – tomam seu significado moderno da distinção medieval entre aquilo que estaria sob jurisdição eclesiástica, mais particularmente monástica, e o que estaria sob jurisdição secular. A partir de G. H. Holyoake (1817-1906) e seus pontos de vista antirreligiosos os termos passaram a ser associados à negação de causalidades sobrenaturais e do conjunto de afirmações de abordagens não-religiosas da realidade (HAMILTON, 2007, p. 541).

Os protestantes, especialmente os presbiterianos, não deveriam se surpreender com os efeitos da secularização e muito menos em serem eles os portadores de elementos da modernidade. A começar pelo fato de que a Reforma Protestante foi um dos - senão o – fatores preponderantes, junto com o Iluminismo, para a fecundação do solo no qual floresceria a secularização e os fenômenos coadjuvantes ao processo de desencantamento do mundo Não se poderá negar que o desenvolvimento das ciências e de um sistema capitalista arrojado encontrará na desmagificação e desencantamento do mundo, um de seus fatores de propulsão, originários das convicções religiosas e teológicas das experiências de ascese intramundana do calvinismo, (WEBER, 2004).

Foram as convicções religiosas e os princípios formulados pelos reformadores, tais como o livre exame das Escrituras e a doutrina do sacerdócio de todos os crentes, que produziram as rachaduras nas estruturas do rígido monopólio religioso e lançaram as sementes do pluralismo que seguiria na esteira do conceito

de liberdade individual. Como salienta Rubem Alves (1982, p. 58) “o individualismo protestante contém em si as sementes da desintegração”.

Com o advento da modernidade, ventos soprados pelo Iluminismo penetraram no campo teológico, principalmente na Alemanha, originando tentativas de tornar o pensamento cristão razoável e apetecível ao homem moderno. Pensamentos e versões teológicas produzidas por homens como Rudolph Bultman, que sacudiria as estruturas do mundo teológico com sua proposta de demitização das Escrituras (MONDIN, p. 115), atravessariam as décadas gerando reações ao liberalismo na linha da neo-ortodoxia de Karl Barth no século e outros teólogos na primeira metade do século XX. As alterações drásticas no pensamento teológico seriam em grande parte promovidas pelas circunstâncias criadas por duas guerras devastadoras que revelariam as terríveis ambiguidades das teologias, sobretudo da igreja alemã.

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