• Nenhum resultado encontrado

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No documento CHÁCARA PRIMAVERA: ANATOMIA DE UMA IDENTIDADE (páginas 120-123)

Assim como ocorre invariavelmente com muitos projetos acadêmicos, à medida que o olhar se aproximava do objeto de estudo o campo começou a assumir outras cores e os movimentos iam sendo percebidos com maior nitidez. Em princípio havia sido atribuído um valor bem maior à questão da contextualização cultural como um dos pontos mais salientes no processo de modificação do campo da IPB. Todavia, quando se avaliam os elementos, fatos e pensamentos em torno da Igreja Presbiteriana Chácara Primavera em sua relação com a instituição à qual se encontra ligada, a IPB, o resultado do conhecimento mais profundo e ampliado irá surpreender. Seguem abaixo algumas percepções de uma visão condensada do conteúdo que tem sido desenvolvido.

Em primeiro lugar, algumas considerações em relação à Chácara Primavera. Trata-se, de fato, de uma comunidade que a despeito de sua lealdade aos princípios básicos do presbiterianismo começa a dar sinais de que opera como uma ‘igreja dentro da igreja’. Isso pode ser percebido na forma com que a marca ‘Chácara’ tem sido reforçada e atrelada aos projetos de expansão que se verifica no surgimento de outras comunidades satélites na cidade de Campinas, e nas experiências vídeo sites em Limeira e Curitiba. Não se trata apenas de uma igreja plantadora de novas igrejas, mas também de algo como clones de sua visão. Como já foi ventilado, difícil imaginar que uma das ‘chácaras’ se livrem do nome num eventual processo de aquisição de autonomia. Como num processo de ‘fading’, a expressão presbiteriana vai desaparecendo aos poucos para dar lugar a uma nova marca.

Outro aspecto, a Chácara Primavera se tornou não apenas uma igreja plantadora de outras igrejas, mas o centro de irradiação de um movimento, ou algo que se encaminha para tal. Trata-se não apenas de multiplicação de esforços no estabelecimento de novas comunidades, mas da inseminação de conceitos e uma

maneira de ser e agir. Trata-se de um sistema de pensamento elaborado a partir de um centro teológico que valoriza a utilização de ferramental das ciências humanas na avaliação da realidade.

A Chácara Primavera tem se tornado uma evidência para a comprovação da hipótese de que alterações significativas dentro do campo da IPB estão ocorrendo. A Chácara Primavera tornou-se um tema em torno do qual vários agentes da IPB devem se mobilizar. Tal percepção se tornou evidente durante os debates em torno da legitimidade das práticas adotadas pelas comunidades presbiterianas, á medida que grande parte dos representantes, pastores e presbíteros de igrejas que se aproximam mais dos modelos tradicionais tem revelado elevado grau de tolerância para com uma proposta que tem sido considerada por alguns como desqualificada para os padrões da denominação.

Percebe-se na dinâmica da Chácara Primavera algo que Mendonça enfatizou, e que já foi pontuado neste trabalho, qual seja, a dependência de formatos e diretrizes que são produzidas nos Estados Unidos. Tanto quanto os setores mais conservadores da IPB, a Chácara Primavera revela uma indisfarçável dependência do que é gerado na matriz americana para ser consumida no Brasil. Mais do que isso, a linguagem assume um conjunto de códigos que se direcionam para uma faixa estreita do estrato social brasileiro próximo das faixas ‘A’ ou ‘B’.

Deve ser ressaltado que as eventuais críticas dirigidas à Chácara Primavera de uma eventual assimilação de metodologia secularizada precisam ser, também, consideradas sob outra perspectiva. Percebe-se claramente que a comunidade se aproxima e se apropria de elementos da cultura, tomando-os como temas e eventualmente, para os conservadores, abusando de seu uso. Todavia, pode-se notar um objetivo claro: a proposta da comunidade é descobrir os elementos ocultos por detrás da cultura da sociedade pós-moderna para compreender sua cosmovisão e, assim, submetê-la à lente das Escrituras.

Outra constatação a que pudemos chegar se refere ao fato de que os debates em torno da Chácara Primavera têm revelado uma nova dinâmica de resolução de controvérsias e conflitos em razão da pluralidade e uma tendência ao pragmatismo metodológico. Tem ocorrido uma redistribuição de forças nesse processo de atomização, o que tende a diluir a intensidade das controvérsias, e a escamoteá-las. Tal cenário indica a possibilidade de convivência pacífica entre as várias posturas

distintas e a impregnar a cultura organizacional, que tem como uma de suas marcas a presença de conflitos que se perpetuam indefinidamente.

Outro aspecto que se pode constatar é o fato de que há fortes indícios de que o sistema presbiteriano de governo começa a dar sinais da necessidade de avaliação. Um desses sinais é o fato de que não apenas os conselhos das igrejas locais, mas os presbitérios têm ignorado as resoluções emanadas do Supremo Concílio. Em consequência as lideranças dos pastores despontam e se reforçam à medida que desfrutam de mais autonomia para a implementação de inovações, o que também se pode perceber em projetos de plantação de igrejas em contextos urbanos, mesmo aquelas iniciativas que preservam itens fundamentais da tradição.

À luz do que temos considerado pode-se concluir que as controvérsias em torno da Chácara Primavera têm, de fato, revelado que o campo presbiteriano está em mutação, não do tipo que se processa em áreas que seriam consideradas periféricas, mas em ambientes próximos do centro de sua estrutura e cultura eclesiástica. Assim, poderá ocorrer que a Igreja Presbiteriana do Brasil terá duas opções nos próximos anos: escolher ela mesma e decidir por algumas mudanças que a tornem mais adequada às demandas da sociedade, ou assistir às alterações em seu próprio campo que as mudanças trarão.

Finalizando este texto, podemos concluir que as suspeitas iniciais que se referem à Igreja Presbiteriana Chácara Primavera na relação com a instituição à qual pertence obriga a pensar a respeito da extensão e simultaneidade de fenômenos semelhantes em outras instituições do protestantismo brasileiro. Isso, contudo, exigirá uma nova etapa para novas investigações a fim de que se possa avaliar se as hipóteses aqui levantadas se aplicam a outros setores da complexa teia do movimento evangélico brasileiro.

O presbiterianismo está em processo de mutação, talvez não exatamente na velocidade e intensidade das alterações que têm se processado em outros ambientes e instituições. Seja como for, trata-se de uma oportunidade de a Igreja Presbiteriana do Brasil recuperar parte de sua tradição que já foi sinônimo de modernidade.

No documento CHÁCARA PRIMAVERA: ANATOMIA DE UMA IDENTIDADE (páginas 120-123)

Documentos relacionados