AMAURI VASSÃO FILGUEIRAS
PRESBITERIANISMO EM MUTAÇÃO: O CASO DA CHÁCARA PRIMAVERA
São Paulo 2017
Amauri Vassão Filgueiras
PRESBITERIANISMO EM MUTAÇÃO: O CASO DA CHÁCARA PRIMAVERA.
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie para obtenção do grau de mestrado.
São Paulo 2017
F481p Filgueiras, Amauri Vassão
Presbiterianismo em mutação: o caso da Chácara Primavera / Amauri Vassão Filgueiras – 2017.
128 f.: il; 30 cm
Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2017.
Orientador: Prof. Dr. Leonildo Silveira Campos Bibliografia: f. 123-128
1. Desinstitucionalização 2. Pluralismo 3. Identidade 4. Cultura
5. Conflitos I. Igreja Presbiteriana Chácara Primavera II. Título
LC BX9042.B66
AMAURI VASSÃO FILGUEIRAS
PRESBITERIANISMO EM MUTAÇÃO: O CASO DA CHÁCARA PRIMAVERA
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie para obtenção do grau de mestrado.
BANCA EXAMINADORA
___________________________________________________________________
Prof. Dr. LEONILDO SILVEIRA CAMPOS Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Prof.ª Dr.ª SANDRA DUARTE DE SOUZA Universidade Metodista de São Paulo
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Prof. Dr. RICARDO BITUN Universidade Presbiteriana Mackenzie
IN MEMORIAM
Aos meus pais e mais do que amigos, Clóvis e Cota, que pela fé, e com muito trabalho, zombaram da realidade quando esta lhes negava os recursos que lhes permitiria presentear aquele menino que começava a ler, tesouros da literatura. O mais precioso, a Bíblia Sagrada...
AGRADECIMENTOS
A gratidão é o exercício de trazer à memória aqueles que alimentaram nossos sonhos, viabilizaram nossos projetos e enriqueceram nossa caminhada. Agradecer é, também, reconhecer que a memória não se lembrou de tantos outros.
Nossa gratidão sincera:
À Igreja Presbiteriana do Brasil, minha segunda casa, onde desde criança aprendi a buscar e valorizar o conhecimento e, mais do que tudo, a amar a sua Fonte;
À Universidade Presbiteriana Mackenzie, pela bolsa de estudos e pela excelente estrutura disponibilizada aos mestrandos com seus funcionários maravilhosos;
Aos meus mestres, esses doutores extraordinários, que ofereceram recursos e experiência com enorme competência num ambiente em que o peso do rigor acadêmico se misturou à leveza da doçura e do impagável humor tupiniquim;
Aos meus colegas de turma, um grupo em que a rica diversidade sempre esteve ligada pelos fios inquebráveis do companheirismo e da solidariedade;
Ao meu orientador, Prof. Dr. Leonildo Silveira Campos, que deixou escapar por entre as brechas de sua incontestável competência e rigor as marcas indisfarçáveis do pastor que encoraja e anima;
Aos meus filhos, presentes que a graça do ETERNO nos permite desfrutar: meus lindos Gui, Teté e Gigi, que doaram do precioso tempo que a eles pertencia;
À Mara, minha amada e linda esposa, que com tenaz resistência se opôs a qualquer alternativa que não fosse a persistência, quando desistir parecia o único caminho;
Ao DEUS Eterno, que se ri de minhas pretensões de aprisiona-lo numa rede de explicação acadêmica, e cuja graça me faz sorrir de ter feito deste exercício uma experiência de angústia, aprendizado e prazer. A Ele toda Honra!
RESUMO
O presente conteúdo é resultado de um esforço multidisciplinar, a combinação de várias lentes por meio das quais se pretende analisar alguns aspectos presentes no processo de mutação do campo religioso da Igreja Presbiteriana do Brasil, IPB. O objetivo geral é reunir, classificar, identificar e avaliar alguns dos elementos históricos, sociológicos e religiosos mais significativos que viabilizem a compreensão da dinâmica das alterações em curso dentro do campo do presbiterianismo conservador. Trata-se da leitura de uma rede eclesiástica que historicamente opera a partir de um rígido controle burocrático com base num sistema conciliar piramidal, uma instituição que se expressa a partir de um espírito de dogmatismo racionalista e rigorismo ético, do que tem resultado uma pronunciada dificuldade de inserção cultural e baixo crescimento numérico em relação a outras igrejas evangélicas brasileiras. Todavia, a denominação tem apresentado sinais de pluralidade, abertura e redução dos níveis de controle e interferência dos concílios sobre as igrejas locais e suas lideranças. Tomou-se como recorte e objeto de análise a Igreja Presbiteriana Chácara Primavera, sediada na cidade de Campinas, SP, que servirá como amostra de um quadro que aponta para a uma reconfiguração do sistema de relações dentro do campo da IPB. Organizada oficialmente em março de 2004, a comunidade chama a atenção por algumas razões: seu crescimento numérico exponencial muito acima dos patamares da denominação, a incorporação de práticas inovadoras em seus ambientes litúrgicos e metodológicos – em comparação com os hábitos da IPB –, a dinâmica adotada na apropriação de temas e ícones culturais com a finalidade de avaliá-los a partir de uma ótica teológica conservadora. Saliente-se, sobretudo, o fato de a Chácara Primavera atuar como um centro de irradiação de um movimento que tem influenciado uma esfera cada vez mais ampla de pastores e líderes presbiterianos, e outros, com respeito à comunicação da visão, conceitos e práticas relativas a processos de plantação de igrejas movendo-se com expressiva autonomia dentro da esfera da IPB. Quanto à metodologia aplicada, optou-se pelo itinerário da pesquisa bibliográfica a partir da análise de livros, teses, dissertações, artigos e documentos gerados pelos concílios da IPB disponibilizados na internet.
Palavras Chave: Desinstitucionalização, Pluralismo, Identidade, Cultura, Conflito.
ABSTRACT
The present content is the result of a multidisciplinary effort, the combination of several lenses through which we intend to analyze some aspects present in the process of mutation of the religious field of the Presbyterian Church of Brazil, IPB. The general objective is to gather, classify, identify and evaluate some of the most significant historical, sociological and religious elements that enable understanding of the dynamics of changes under way within the field of conservative Presbyterianism. It is the reading of an ecclesiastical network that historically operates from a rigid bureaucratic control based on a conciliar pyramidal system, an institution that expresses itself from a spirit of rationalist dogmatism and ethical rigorism, which has resulted in a pronounced difficulty of cultural insertion and low numerical growth in relation to other Brazilian evangelical churches. However, the denomination has shown signs of plurality, openness and reduced levels of control and interference of the councils on local churches and their leadership. The Presbyterian Church Chácara Primavera, based in the city of Campinas, SP, was used as a clipping and object of analysis, which will serve as a sample of a framework that points to a reconfiguration of the relations system within the IPB field. Organized officially in March 2004, the community draws attention for a number of reasons: its exponential numerical growth well above the denomination levels, the incorporation of innovative practices in its liturgical and methodological environments - in comparison to IPB's habits - the dynamics adopted in the appropriation of themes and cultural icons with the purpose of evaluating them from a conservative theological perspective. It should be pointed out, above all, that Chácara Primavera acts as a center for irradiating a movement that has influenced an ever wider sphere of Presbyterian pastors and leaders, and others, regarding the communication of vision, concepts and practices to processes of church planting moving with expressive autonomy within the sphere of IPB. As for the applied methodology, the itinerary of the bibliographic research was chosen from the analysis of books, theses, dissertations, articles and documents generated by the IPB councils made available on the Internet.
Key words:
Deinstitutionalization, Pluralism, Identity, Culture, Conflict.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO. ... 10
Cap. 1 – CHÁCARA PRIMAVERA: ANATOMIA DE UMA GESTAÇÃO ... 16
1.1. 1.2. 1.3. 1.4. O problema da historiografia protestante. ... Chácara Primavera: breve narrativa histórica ... IPB: fragmentos históricos de um campo em mutação... Presbiterianismo brasileiro e desencaixe cultural ... 17 25 34 44 Cap. 2 – CHÁCARA PRIMAVERA: ANATOMIA DE UMA IDENTIDADE ... 53
2.1. Traços da identidade presbiteriana. ... 55
2.2. Pluralismo e desinstitucionalização: identidades em crise. ... 62
2.3. Chácara Primavera: traços de uma identidade contestada. ... 72
2.4. Chácara Primavera, IPB e o campo religioso brasileiro... 89
Cap. 3 – CHÁCARA PRIMAVERA: ANATOMIA DE UM CONFLITO... 94
3.1. Campo Protestante: uma história de divisão e conflitos... 95
3.2. 3.3. Campo Presbiteriano: fertilidade para conflitos prolongados. ... Chácara Primavera: compreendendo a controvérsia... 104 104 3.4 Chácara Primavera o sistema conciliar: crise de autoridade? ... 110
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 120
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 123
INTRODUÇÃO
O conteúdo do presente trabalho resulta de um esforço de identificação e análise de alguns dos fatores que apontam para o processo de reconfiguração e realinhamento de forças no interior do campo religioso representado pela Igreja Presbiteriana do Brasil, IPB. Com o uso da expressão ‘mutação’ se pretende apontar para um conjunto de alterações que têm ocorrido em órbitas cada vez mais próximas do centro identitário da instituição, cuja cultura eclesiástica é caracterizada por um sólido, complexo e elaborado sistema teológico e ético historicamente ancorado e cristalizado1, e que opera a partir de um rígido aparato de controle burocrático com base num detalhado corpo de estatutos e leis2.
O presbiterianismo representado pela IPB, que estende suas raízes até à Reforma e eventos subsequentes no século XVI, chegou ao solo tupiniquim em 12 de agosto de 1859, data em que aportou no Rio de Janeiro o missionário americano Ashbell Green Simonton. A denominação que segundo dados de sua secretaria executiva3 contava com 649.510 membros em 2016, se define como uma federação de igrejas locais interdependentes com sistema de governo representativo conciliar piramidal hierarquicamente ascendente4: conselhos das igrejas locais, presbitérios, sínodos e o Supremo Concílio, este o órgão máximo na escala de autoridade e fórum do qual emanam as decisões definitivas e definidoras das demandas da denominação.
Sendo assim, a estrutura teológica e organizacional da IPB naturalmente exibirá reduzido grau de permeabilidade e maleabilidade. Se por um lado tal espírito serve como elemento de preservação da identidade e coesão institucional face aos
1 O núcleo da identidade teológica da IPB tem sido definido com base nos documentos históricos do século XVI, a Confissão e os Catecismos de Westminster. Cf. Manual Presbiteriano, p.8.
2 Cf. Manual Presbiteriano com notas remissivas. São Paulo. Editora Cultura Cristã, 2013. A base sobre a qual se orienta a IPB se encontra no conjunto de documentos do Manual Presbiteriano: Constituição Interna, Código de Disciplina, Princípios de Liturgia, Estatutos e Regimentos Internos dos Concílios e Igrejas, promulgados entre os anos de 1950 e 1951. As resoluções dos concílios bem como as eventuais alterações e necessários ajustamentos não tem modificado a substância de nenhum desses documentos.
3 http://www.executivaipb.com.br/estatisticas/. Acesso em 12/4/2017.
4 “Os concílios guardam entre si gradação de governo e disciplina; e, embora cada um exerça jurisdição original e exclusiva sobre todas as matérias da sua competência os inferiores estão sujeitos à autoridade, inspeção e disciplina dos superiores”. CI/IPB, Art. 61. Manual Presbiteriano, p. 34.
vetores da desinstitucionalização e pluralização típicos da modernidade, por outro lado ameaça a sobrevivência da própria instituição à medida que conspira contra a mobilidade e possibilidade de ajustamentos e respostas adequadas dentro de uma moldura cultural que apresenta velozes e radicais transformações.
A atenção do pesquisador foi sendo atraída à medida que a histórica resistência da estrutura da IPB, condição nitidamente reforçada durante o período turbulento compreendido pelas décadas de 1960 a 1980, começa a apresentar níveis significativos de porosidade para infiltração de mudanças. Percebem-se claros sinais da presença de um panorama de crescente pluralidade nos campos litúrgicos e metodológicos e elevação no grau de autonomia das igrejas, contribuindo para o fortalecimento da figura do pastor e liderança local sugerindo uma alteração na relação de poderes entre os concílios. À guisa de antecipação, o processo de mutação não significará alteração na rigidez da plataforma de sua agenda moral que se manterá irredutível com respeito aos delicados temas da pauta da sociedade brasileira, tais como o aborto e a questão do gênero, por exemplo.
Dentro do quadro geral do campo religioso e cultura institucional tomou-se como recorte para objeto de análise e como amostra particular de uma tendência mais ampla a Igreja Presbiteriana Chácara Primavera, sediada em Campinas, SP.
Trata-se de uma comunidade organizada oficialmente em 2004 que tem experimentado de um crescimento numérico exponencial para os padrões da denominação, que se movimenta com grande mobilidade e autonomia e cuja visão, conceitos eclesiológicos e metodologia aplicada no processo de plantação de igrejas têm sido considerados inovadores em comparação com a dinâmica da instituição.
O ponto de ignição que deflagraria o processo de levantamento das questões-hipóteses examinadas neste trabalho e que definiriam o eixo temático da pesquisa pode ser localizado em algum momento durante a reunião ordinária do Supremo Concílio da IPB5 realizada em julho de 2014 na cidade de Natal, RN6. O cenário que instigou a pesquisa foi um evento que reuniu mais de mil representantes de presbitérios, sínodos e autarquias além de outros visitantes, incluindo
5 O Supremo Concílio deve se reunir ordinariamente a cada quatro anos.
6 O autor deste trabalho, pastor da IPB, esteve presente na referida reunião como deputado representante do Presbitério Leste Sorocabano, tendo acompanhado e participado de todas as seções plenárias do evento.
Registro em (ATA DO ATO DE VERIFICAÇÃO DE PODERES DA XXXVIII REUNIÃO ORDINÁRIA DO SUPREMO CONCÍLIO DA IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL) – à pág. 11. Conf.
http://se.icalvinus.net/icalvinus.php?d=1497711723586. Acesso em 16/06/2017.
estrangeiros. Na ocasião foram enviados para exame, deliberação e decisão 849 documentos7, e entre eles alguns que se referiam ao tema Chácara Primavera e comunidades presbiterianas.
Um dos documentos fora enviado pela Junta de Educação Teológica8 (JET) órgão responsável por coordenar, supervisionar e administrar a movimentação do ensino teológico da denominação. Seu conteúdo contestava de forma veemente os conceitos de eclesiologia aplicados pelo Centro de Treinamento de Plantadores de Igrejas, CTPI9, entidade que funciona como uma rede de pastores que serve como braço de irradiação da visão e plataforma do movimento liderado pela Chácara Primavera. Por razões de ordem protocolar tal documento, solicitando que nenhum professor do CTPI pertencesse aos quadros dos seminários da IPB, não pode seguir para exame e deliberação do plenário do Supremo Concílio.
Outros documentos enviados pelo Presbitério e pelo Sínodo Piratininga10 solicitavam a interferência do SC no tocante a alguns procedimentos e práticas adotados pela Chácara Primavera em seus encontros bem como exigiam que se cumprisse uma decisão anterior que determinava que a expressão ‘comunidade’
fosse retirada dos nomes das igrejas. Após algumas horas de acalorado debate a maioria dos representantes do plenário se manifestou contrária a qualquer intervenção mais drástica, mesmo porque a questão era de competência do presbitério11 ao qual pertence a Chácara Primavera. A temperatura que envolveu os debates pode ser, de certa forma, medida pela decisão do presidente do Supremo Concílio, Rev. Roberto Brasileiro, que “conclamou o plenário para um momento de oração de joelhos”12.
Este(s) episódio(s) de alguma maneira revelaria o tom das relações entre os agentes do campo religioso da IPB em torno da Chácara Primavera, de seus satélites na cidade de Campinas e das ‘comunidades presbiterianas’. Algumas hipóteses surgem nesse contexto. A primeira delas, a de que está ocorrendo um realinhamento de forças no interior do campo da IPB que aponta para o
7 http://se.icalvinus.net/icalvinus.php?d=1505710298272. Ata final da Reunião do Supremo Concílio, pág. 54.
Acesso em 13/4/2017.
8 http://se.icalvinus.net/icalvinus.php?d=1497711723586. Ata final do SC, pág. 54. O autor deste trabalho, como representante no Supremo Concílio teve na ocasião acesso à íntegra do documento supra citado.
9 https://ctpi.org.br. Acesso em 13/4/2017.
10 http://se.icalvinus.net/icalvinus.php?d=1505710298272. Ata final do SC, pag. 125. Acesso em 13/4/2017.
11 A Igreja Presbiteriana Chácara Primavera é jurisdicionada ao Presbitério Metropolitano de Campinas.
12 Ibid.
enfraquecimento do poder dos agentes defensores do conservadorismo teológico e metodológico com respeito a questões litúrgicas e metodológicas. Se não se pode afirmar que haja uma aceitação tácita dos elementos propostos pela Chácara Primavera, pode-se cogitar de que a maioria dos agentes prefere optar pelo pragmatismo e pela tolerância ao novo modelo em detrimento a uma eventual fidelidade à tradição.
Uma segunda hipótese, naturalmente resultante da anterior, se relaciona com uma possível acomodação e reajustamentos na cultura eclesiástica da denominação com respeito às relações e exercício de autoridade. O eixo de poder estaria se deslocando, ainda que não bruscamente, dos concílios superiores para as lideranças locais, o que indicaria que o sistema de governo estaria se aproximando do modelo que pressupõe que a autoridade e as iniciativas pertencem às comunidades locais que se ligam voluntariamente a uma convenção que, nesse caso, existe para cuidar dos interesses das igrejas locais, e não o contrário.
Uma terceira hipótese se refere ao modo de tratamento das controvérsias dentro da Igreja Presbiteriana do Brasil, solo fértil para o surgimento e prolongamento de conflitos em razão da própria configuração estatutária. Presume- se que está em curso a ampliação dos níveis de tolerância entre eventuais agentes opostos, muito provavelmente face à distribuição do poder e da pluralização dos modelos que os conselhos têm adotado para suas igrejas locais.
Quanto ao conteúdo, este se encontra distribuído em três capítulos ajustados numa relação de interdependência. O primeiro está organizado em torno de um itinerário histórico cujo objetivo é identificar os principais elementos formativos da cultura eclesiástica da IPB e da Chácara Primavera. Faz-se uma tentativa de descrição da narrativa de nascimento e expansão da Chácara Primavera, num primeiro momento, para em seguida se fazer um recuo às décadas de 1960 e 70 a fim de oferecer um ponto de referência comparativo a fim de demonstrar que a comunidade surge num momento de recuo dos níveis de patrulhamento ideológico e eclesiástico. Finalmente, procede-se a um sobrevoo sobre o período histórico de formação da identidade presbiteriana, uma tentativa de recolher elementos que possibilitem compreender as razões por detrás da relação ambígua da denominação diante dos elementos e traços culturais típicos da cultura tupiniquim.
O segundo capítulo inicia com uma tentativa de descrever os elementos básicos constitutivos do conjunto de forças que operam na pós modernidade responsáveis pelo desmanche e pulverização das velhas identidades, moldura dentro da qual as identidades do presbiterianismo conservador tanto quanto da Chácara Primavera são construídas. Na sequencia busca-se descrever os traços identitários do presbiterianismo conservador representado pela IPB para logo a seguir tratar da identidade contestada da Chácara Primavera.
O terceiro capítulo se destina à avaliação das causas por detrás das controvérsias típicas de uma instituição como a Igreja Presbiteriana do Brasil. Num primeiro estágio recolhem-se fragmentos históricos que permitam uma visualização geral a respeito do cristianismo e seu potencial para a geração de controvérsias e divisões. Num segundo momento são apresentados alguns elementos que demonstram os processos de alongamento cronológico das disputas internas no campo presbiteriano. A seguir avaliam-se alguns argumentos específicos usados nas declarações de censura e tentativas de demonstrar que a Chácara Primavera é uma descaracterização da identidade presbiteriana. Finalmente, procurou-se em nossa pesquisa verificar a existência de indícios de que a IPB estaria experimentando de um lento processo de enfraquecimento de sua estrutura conciliar à luz do que tem ocorrido com as comunidades presbiterianas.
A despeito das naturais limitações das teorias explicativas dos fenômenos religiosos foram adotadas contribuições tais como a perspectiva de reconstrução histórica do presbiterianismo oferecida por Antônio Gouvêa Mendonça. De alguma forma se usam as lentes de Stuart Hall, Anthony Giddens e Zygmunt Bauman para a leitura do cenário da pós-modernidade – hipermodernidade ou modernidade tardia – mais especialmente no que se refere ao processo de desinstitucionalização e desmontagem de identidades antes consideradas unificadas. Pierre Bourdieu oferece a plataforma primária para análise das relações controversas e de conflitos do campo religioso, no caso o sub campo presbiteriano. Ricardo Mariano e Daniele Hervieu-Léger oferecem pistas essenciais para a compreensão do fenômeno religioso no que diz respeito aos desigrejados ou na linguagem do Censo demográfico de 2010 “evangélicos não determinados”.
Com respeito à metodologia empregada circunstâncias obrigaram a restringir a pesquisa no âmbito da coleta de material bibliográfico. Registre-se que após um
primeiro encontro muito produtivo com o pastor Ricardo Agreste da Silva, fundador e pastor da igreja desde o começo do trabalho, não foi possível a realização de outros encontros e nem mesmo de contatos por outros meios a partir dos quais fosse possível diversificar as técnicas de seleção de material. Foram feitos inúmeros contatos via e-mail com a secretaria da igreja na tentativa de entrevistar o pastor local – chegamos a sugerir conversas por meio da plataforma Skype. Nada obstante, o pastor gentilmente colocou à disposição a estrutura de secretaria e gestão da igreja para prestar as informações de que precisávamos o que foi feito via e-mail.
Salientem-se outros aspectos do processo de identificação, seleção e análise do material que foi coletado ao longo da produção deste trabalho. Em primeiro lugar, a tarefa seria facilitada pelo fato de o autor, pastor presbiteriano, conhecer há mais de dez anos pessoalmente a dinâmica dos encontros de funcionamento da Chácara Primavera. Em segundo lugar, desde os passos iniciais havia sido definido que o esforço principal se daria a partir de uma ênfase bibliográfica. Assim, foram reunidos artigos, obras, teses, dissertações, e documentos que construíram a plataforma da pesquisa. Finalmente, existe farto material disponível na internet na forma de vídeos, áudios e outros, seja na própria página da igreja13.
Finalizando, a discrição e uma considerável invisibilidade do presbiterianismo nas duas últimas décadas, em relação com alguns períodos na história do protestantismo brasileiro e na comparação com os movimentos pentecostal e neopentecostal, têm contribuído para a relativa ausência de interesse dos pesquisadores em visitar vez por outra o campo da IPB. Tem havido algumas poucas iniciativas dentro dos cursos de pós-graduação em sua maioria viabilizadas por pesquisadores que de alguma forma se relacionam com o campo presbiteriano sobre o qual escrevem. Daí ser importante reconhecer a necessidade de se fazer um esforço extra de seguir os conselhos propostos pelos epistemólogos a respeito dos cuidados que se deve ter com uma participação não crítica. Logo, como ensina Henri Desroche (1984) os que estão próximos do objeto analisado devem se distanciar e os que estão longe devem dele se aproximar. Reconhecemos, contudo, que no decorrer da pesquisa as dificuldades sempre presentes motivaram a adoção de uma ‘vigilância epistemológica’.
13Além da página www.chacaraprimavera.org.br poderão ser encontrados centenas de vídeos num canal do Youtube, https://www.youtube.com/user/chacaraprimavera.
CAPÍTULO 1
CHÁCARA PRIMAVERA: ANATOMIA DE UMA GESTAÇÃO
A compreensão dos fenômenos históricos e sociais depende, na maioria das vezes, do percurso de longos e sinuosos caminhos (Antônio Gouvêa Mendonça).
INTRODUÇÃO:
A gênese, o florescimento e a exponencial ampliação das áreas de influência da Chácara Primavera, suas práticas inovadoras, mobilidade e autonomia chamam a atenção não apenas para sua visibilidade numérica e para o seu formato contemporâneo, mas para a possibilidade de ser um sinal de que a Igreja Presbiteriana do Brasil, denominação à qual pertence, experimenta de significativas mudanças em sua cultura organizacional fruto de longa gestação histórica.
A compreensão de uma nova dinâmica e as eventuais projeções que se queira fazer dependerão de bem mais do que a indispensável observação de um
lugar privilegiado do presente. Impõe-se um recuo histórico que permita identificar, selecionar e avaliar os principais elementos sociais, religiosos e culturais que possam ser agregados ao esforço de análise empírica. Este será o objetivo essencial deste capítulo.
O itinerário proposto seguirá algo como uma engenharia histórica reversa que parte de uma tentativa de reconstrução dos principais eventos e pensamentos envolvidos diretamente da formação da Chácara Primavera para seguir recuando.
Segue-se uma tentativa de descrição dos eventos históricos e sociológicos presentes no processo de mutação do campo presbiteriano no período entre as décadas de 1960 e 90, período que comporta dois momentos radicalmente distintos com respeito às circunstâncias sociais, ideológicas e políticas. Em terceiro lugar propõe-se um voo panorâmico sobre o protestantismo de missão que se instalou no Brasil a partir do século XIX e que representaria a contradição de um presbiterianismo que sai de uma nação como portador da modernidade, mas que em razão de causas complexas se alienaria da cultura tupiniquim.
O que se espera ao final deste capítulo é prover um quadro mínimo de fatores de cunho histórico-social que ofereça condições para uma compreensão mais adequada do processo de alterações do campo presbiteriano bem como uma avaliação mais aproximada da construção identitária da Chácara Primavera e das controvérsias na relação desta com alas conservadoras da IPB.
1.1. O problema da historiografia protestante
O processo de clivagem, seleção e análise dos fatos e dos pensamentos que historicamente têm formatado a cultura organizacional da IPB enfrentará muitos desafios além daqueles que estão ligados à questão das fontes e ao grau de fidelidade da transmissão pelas diversas vias. Segue-se, quase como uma digressão explicativa do método, um sobrevoo panorâmico sobre o campo da historiografia protestante, suas alternativas e limitações.
Saliente-se, em primeiro lugar, que o processo de reconstrução historiográfica em geral está sujeito a muitas variáveis e fluidez metodológica. Ainda que se reconheça que a partir da década de 1970 tem ocorrido algo como um refinamento e mesmo afinamento teórico a partir da combinação de outras lentes das ciências
humanas, tal como o faz a chamada História Cultural ou Nova História Cultural, todavia mesmo aqui a confiabilidade é relativa. Trata-se de uma abordagem do objeto e da seleção dos fatos e do pensamento orientadas por elevado grau de condicionamento (BURKE, p. 32). Longe de apresentar uma prática discursiva unificada, o conjunto de reconstrução histórica chamado de História Cultural é um campo dinâmico e muito controverso de estudos e proposições teóricas, cujas propostas contêm perguntas sofisticadas e desafiadoras (BELLOTTI, p. 15).
A historiografia protestante seria por muito tempo relegada a um subitem dentro do campo religioso brasileiro mencionada sempre em contraposição ao catolicismo e dele dependente para os interesses de pesquisa. Não é de estranhar que assim o seja, considerando um campo religioso que por séculos foi caracterizado por uma expressão monolítica. Antônio Gouvêa Mendonça, em palestra proferida para historiadores em 2004, destacava que “a historiografia brasileira relega o protestantismo ao segundo plano, ou mesmo o ignora, enquanto a literatura mundial é plena sobre o protestantismo” (2004, p. 02).
Considere-se, também, a extensão ou cobertura explicativa do termo
‘protestantismo’, que tem sido utilizado de forma bastante elástica capaz de comportar muitas variações sem uma clarificação conceitual. As ramificações que se tornariam cada vez mais expressivas, desdobramento natural da proposta da Reforma Protestante, de alguma forma mantinham pontos e elementos de contato que justificariam uma categorização mais abrangente e genérica. Contudo, o quadro atual do movimento evangélico brasileiro parece justificar o protesto de Rubem Alves (1979, p. 27) um dos primeiro autores, se não o primeiro, a tentar demonstrar a insuficiência dessa definição cristalizada que não resistiria em razão de tantas distinções e idiossincrasias. Melhor seria se referir à coexistência de vários protestantismos.
Entre os anos 1950 e 60 os poucos trabalhos produzidos se referiam ao protestantismo histórico de missão dentro do qual se enquadra o presbiterianismo.
Na avaliação de Mendonça (1984, p. 12) foram pouquíssimas as obras produzidas até o começo da década de 1970 que podem contribuir para uma leitura sociológica ou que sirvam como plataforma de avaliação da relação das instituições com a sociedade ou cultura. A maioria delas possuía objetivos eclesiásticos.
Outro elemento que agrega dificuldade ao processo de reconstrução historiográfica diz respeito ao próprio objeto de estudo. Considere-se o distanciamento histórico que separa a IPB e sua cultura organizacional de seu ponto alfa ou fundante. O presbiterianismo estende suas raízes até a Reforma do século XVI com Lutero e deriva, mais especificamente, da construção do pensamento de João Calvino (1509-1564) e das formulações do modelo de governo eclesiástico desenvolvido por John Knox (1514-1572) na Escócia puritana.
Considere-se o fato de que o protestantismo de viés presbiteriano não é um tipo de novelo histórico e religioso cuja ponta seja fácil de localizar, como bem assinalaria Mendonça (1984, p. 255) em seu esforço por responder às questões ligadas à invisibilidade do protestantismo de missão de recorte presbiteriano em relação à cultura brasileira:
Não foi fácil dados os trilhos, atalhos e encruzilhadas que frequentemente pareciam conduzir a lugar nenhum. Tive que ir selecionando e puxando as pontas do tecido emaranhado das ideias religiosas que, a partir do século XVI, vão se encaminhando para formar um protestantismo cansado e diluído como o brasileiro.
À dificuldade assinalada junte-se o desafio da neutralidade e da objetividade.
Carlos Siepiersky (HINSON/SIEPIERSKY, 1992, p. 09) destaca que “provavelmente a grande contribuição da história como ciência é nos mostrar que toda a narrativa histórica é sempre vista de uma perspectiva”. Seja qual for o método adotado todos serão de alguma forma seletivos, muito em razão do que salienta Marc Bloch: “a diversidade dos testemunhos históricos é quase infinita. Tudo que o homem diz ou escreve, tudo que fabrica, tudo que toca pode e deve informar sobre ele” (2001, p.80). A seletividade é, por assim dizer, inevitável.
Michel Certeau (2002, p. 81) ressalta que toda pesquisa historiográfica está sujeita a interesses e determinadas imposições que poderão estar ligadas a privilégios:
Em história, tudo começa com o gesto de separar, de reunir, de transformar em 'documentos' certos objetos distribuídos de outra maneira. Isso demonstra que toda operação historiográfica irá retalhar o tecido da história, para constituí-lo de uma outra forma, segundo seus objetivos próprios, estabelecidos a priori. Portanto, o historiador, longe de aceitar os "dados", os constitui. E disso resulta o seu "material", que é criado por ações combinadas, que o recortam e o destinam a ser um ―reimpresso coerente.
Se a seletividade na identificação de material é um processo inevitável, um risco adicional é a possibilidade de que este poderá ser, também, ajustável. O espaço da construção ou reconstrução historiográfica se torna quase sempre um campo de batalha pelo resgate das memórias, espaço de disputa pela legitimação que ameaça os valores básicos da metodologia científica. Ao que se pretende que seja informação de fatos surge a contrainformação, se o alvo perseguido é legitimar uma dada versão.
É de se esperar que os períodos mais turbulentos e conflituosos dentro de um dado campo religioso, como foram as décadas de 1960 e 70 na IPB, reflitam essas tendências de maneira mais intensa. Um dos exemplos das contradições entre as versões é encontrado na introdução de uma das obras de Boanerges Ribeiro a respeito do presbiterianismo brasileiro. Ribeiro, historiador que havia sido presidente do Supremo Concílio da IPB entre os anos 1966 a 1978, assim se refere a um de seus adversários:
Há anos li uma obra cujo autor se propõe a historiar 50 anos recentes do presbiterianismo brasileiro. Com surpresa, lá me vi mencionado e pintado de anjo mau: Eu havia, em 1962, proposto ao Supremo Concílio a extinção da Confederação da Mocidade Presbiteriana, afirma o autor. Como teria ele excogimado essa tolice? Nunca propus ao Supremo Concílio (nem a ninguém) a extinção de Confederação alguma. Não compareci à reunião de 1962, do Supremo Concílio, nem lhe mandei proposta sobre Confederação alguma... Moral: se você quer fazer História Protestante no Brasil, documente, e cite suas fontes (1987, I).
Em tempo, no exemplo acima Ribeiro também não se daria ao trabalho de citar a obra ou o autor a quem ele se refere.
A verdade é que até bem pouco tempo o esforço historiográfico protestante se resumia simplesmente à coletânea de fatos, eventos e registro dos discursos e dos pensamentos a partir de duas formas de olhar com propósitos antagônicos. De um lado o uso da lente apologética com finalidades eclesiásticas, que certamente irá privilegiar os conteúdos que servirão para consumo interno a serviço da confessionalidade utilizados para legitimar o discurso institucional. De modo contrário à visão acima descrita, há aquele processo de identificação e seleção de eventos que servirá ao propósito de contestação, que em alguns momentos assumirá tons de intensa beligerância de um tipo de guerrilha ideológica.
Seja como for, o que se tem são modelos a serviço dos agentes em sua luta pela legitimação da estrutura, de um lado, e que se prestam como armas dos que
contestam a realidade. Como declara Tiago Watanabe(2007, p. 19), “a historiografia do protestantismo foi produzida pelos que estavam direta ou indiretamente envolvidos numa disputa institucional: não só narrou essa disputa como tomou partido de algumas posições”.
Um modelo dessa natureza estará sujeito a riscos inevitáveis, pois uma das faces de uma dada história é que ela costuma ser apenas uma versão de uma narrativa maior cujos elementos com ela conectados e que lhe dariam sentido geral são ignorados. Não se trata de um tipo de ficção, ou criação de fatos inexistentes, mas de usar os recursos de edição por meio de cortes e ênfases para lhes dar a conotação que se deseja. Até à década de 1960, destaca Watanabe (2007, p. 03), a maior parte dos estudos era realizada por clérigos cujas obras privilegiavam o aspecto descritivo e enaltecedor das personagens em razão de se prestarem a finalidades eclesiásticas. Enquadra-se na moldura mais ampla da disciplina da
‘História’ que até o início do século XX era elaborada a partir de relatos de “grandes fatos” em que personagens históricos tornavam-se verdadeiros heróis do passado (MICELLI, 1999).
Nesse viés eventos tornavam-se magistrais e, a partir de sua documentação,
“oficialmente verdadeiros”. Selecionam-se os fatos, constrói-se a realidade e se dá a ela uma versão incontestável a partir do enaltecimento dos feitos heroicos e magistrais, uma história dos vencedores. Mendonça (2004, p. 03) assim se refere às publicações produzidas pelas denominações:
Essas publicações têm padecido de três tipos de obstáculo que as vêm impedindo de penetrar no círculo dos historiadores profissionais: primeiro, trazem, quase todas, as marcas do denominacionalismo triunfalista, assim como uma linguagem hermética de grupo porque são escritas para consumo interno; segundo, porque não dialogam com a cultura brasileira; terceiro, porque são publicadas por editoras domésticas e, por isso, não alcançam as áreas acadêmicas.
Lauri Emílio Wirth (2003, p. 107) afirmará que “os interlocutores dessa memória sempre são sujeitos qualificados, institucionalmente legitimados e autorizados” Dentro dessa moldura é natural que surja a figura do ‘historiador oficial’
que, inversamente à condição de um ombudsman, tem como função recolher e organizar os relatos a partir da necessidade da criação de uma versão ou narrativa que ofereça a base de plausibilidade e legitimidade da estrutura.
Aquilo de fala Wirth representa o fato de que os relatos paralelos que não possuem o selo da instituição não possuem a credibilidade emitida por um tipo de autoridade cartorária para dar fé ao registro. Boanerges Ribeiro (1987, II), que fora presidente do Supremo Concílio da IPB e num período seu historiador oficial, ressalta que ao escrever uma de suas obras a respeito do presbiterianismo deseja fugir do hábito de escrever algo como “história inspirada”, ou seja, obra “em que o autor se imagina continuador dos Atos dos apóstolos e afirma, nos eventos, a revelação de Deus”.
O fato é que o desafio da neutralidade não afetará apenas a historiografia produzida para os propósitos da instituição, mas igualmente aqueles que dela discordam ou a ela contestam. Leonildo Silveira Campos (2008, p. 103-104) ressalta esse ponto em artigo no qual analisa a obra de Rubem Alves ‘Protestantismo e Repressão’, trinta anos após sua primeira edição. Cabe salientar que Alves fora pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, sendo exilado eclesiasticamente durante os turbulentos anos do regime militar que prevaleceu no Brasil.
Ao longo deste artigo pretendemos levar em consideração uma frase de Pierre Bourdieu (2005:40): “compreender é compreender o campo com o qual e contra o qual cada um se fez”. Daí a proposta: analisar o entorno da produção de textos como o de Alves; trazer de volta um debate sobre a questão da neutralidade científica no estudo das organizações religiosas nas quais muitos autores são também atores... De qualquer forma consideramos que o livro de Alves foi escrito com toda a paixão de um polemista, embora ele tenha tentado se manter nos domínios do acadêmico e do científico.
Apenas para registro en passan, a expressão ‘exilado eclesiasticamente’ no caso de Alves e de tantos outros poderá ser avaliada a partir de duas lentes, aquela fornecida pela instituição com sua eventual coloração e, do outro lado a que se opõe à organização. De uma forma ou outra se trata da utilização de filtros ideológicos que darão colorações diferentes ao mesmo fato ou relato.
A década de 1970 seria marcada por uma considerável mudança de paradigma no campo da historiografia protestante. Como uma via alternativa à versão produzida nos domínios e para os interesses denominacionais surgirão esforços de construção historiográfica a partir do ambiente das academias no rastro da implantação de cursos de sociologia da religião. Uma das marcas desse período é a interdisciplinaridade, o intercâmbio entre as várias áreas de domínio dos sociólogos, antropólogos e pesquisadores da religião o que permitirá uma ação colaborativa de vários olhares. Cabe salientar que esse novo paradigma se tornaria
uma das ferramentas para a análise dos processos fundantes do movimento evangélico que a partir da década de 1980 começaria a experimentar de crescimento espetacular tornando-se um fenômeno cada vez mais plural, complexo e difuso.
Destaque-se nesse ponto a contribuição de Antônio Gouvêa Mendonça que, nada obstante pertencer aos quadros do presbiterianismo brasileiro (foi pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, IPI) romperia com o cativeiro hagiográfico eclesiástico que se perceberia na produção de uma obra na qual uniu o rigor metodológico com uma farta e densa pesquisa bibliográfica e documental. Seu objetivo visava compreender os processos que conduziram a um afastamento do protestantismo dos processos culturais e políticos. (SOUZA, p. 172).
O estudo do protestantismo agora inserido na academia e não mais objeto exótico, não foi feito só com o apoio de igrejas. O autor se inseriu no debate propondo resolver problemas sem respostas: as causas para o distanciamento político e cultural do protestantismo (WATANABE, 66).
Outra contribuição digna de nota é a obra do francês Émile G. Léonard, ‘O Protestantismo Brasileiro’, que fugiria do lugar comum por meio de prover uma abordagem no campo da história social religiosa avaliando as relações eclesiásticas com o corpo social e religioso brasileiro (1981, p. 16). Mendonça (2004, p. 3), respeitosamente, considera que a despeito de ser a primeira obra da historiografia escrita para fora “não chegou a atingir a plenitude do diálogo com a sociedade brasileira”.
Paradoxalmente, este novo campo de pesquisa se encontra emoldurado por um novo tempo, e por isso mesmo será bastante povoado por ex pastores que ali encontrarão espaços para sobrevivência. Uma das razões é o fato de que as décadas de 1960 e 70 seriam marcadas por turbulências, polarizações e expurgos de lideranças dentro do campo religioso do protestantismo histórico por razões ideológicas e teológicas (SANTOS, p. 234). Esta seria uma das causas apontadas por Ricardo Mariano (1999, p. 93) por detrás do processo de inauguração de uma historiografia de contestação que ocorrerá a partir de um olhar crítico, pela seleção de fatos comprometedores e que passará pelo uso de um discurso ácido e virulento, algo como um tipo de acerto de contas com o passado:
Os cientistas que se dedicaram a fazer uma análise crítica do Protestantismo são, todos eles (na medida em que conheço), ex-pastores, ex-seminaristas,
ex-líderes leigos forçados a deixar suas funções. Não se encontra em seus trabalhos a atitude amorosa que marca, por exemplo, os relatos de E.
Léonard. Os trabalhos, sem exceção, procuram as relações do Protestantismo com os processos de invasão cultural e ideológica que marcaram a expansão colonial norte americana. O protestantismo é analisado como uma ideologia repressora, totalitária, capitalista, que se encontra em casa num Estado capitalista e totalitário.
A questão que inevitavelmente se levanta: haverá algum método que ofereça garantias mínimas de isenção no processo de investigação histórica? Considerando o que foi acima exposto, e a despeito das limitações de quaisquer métodos, um modelo próximo do oferecido pela História Cultural oferecerá uma plataforma com menores riscos, ainda que os certamente os haja. Isso porque a abordagem busca se desvencilhar do cativeiro cronológico, antes, volta-se para a conexão dos fatos e de sua relação com as ideias e circunstâncias do momento e contexto. Trata-se de um eixo orientador que possibilitará uma abordagem que favorece os propósitos de proceder a uma hermenêutica histórica, esforço de aproximação daqueles fatos e pensamentos significativos que ao longo do tempo plasmaram a cosmovisão, a estrutura e a cultura organizacional. Como salienta Eliane Moura da Silva (2004, p. 1) num simples, mas denso artigo a respeito da religião, diversidade e valores culturais:
O pensar religioso também pode ser colocado no domínio da História Cultural que tem na definição básica do historiador Roger Chartier, o objetivo central de identificar a maneira através da qual, em diferentes tempos e lugares, uma determinada realidade social é construída, pensada e lida.
Assim, em que pese a presença de uma inegável gama de dificuldades, espera-se poder coletar os fatos e pensamentos mais significativos dos relatos, fatos e eventos ligados ao presbiterianismo que viabilizem o processo de compreensão das mutações desse campo religioso e estrutura institucional. Igualmente, condições adicionais poderão ser fundamentais para a compreensão dos conteúdos dos próximos capítulos que tratam da questão da identidade e das controvérsias nas relações da Chácara Primavera com alguns setores mais conservadores da IPB.
Visto ter Mendonça alertado com respeito às dificuldades de se localizar as pontas desse emaranhado de fatos e eventos, adotaremos como ponto de partida um quadro de referência histórico delimitado pelas décadas de 1960 a 90 para dali recuar ao ponto alfa de lançamento da matriz do presbiterianismo. Este possui várias camadas de depósitos de origem social, religiosa e ideológica que lhe formataram a cosmovisão e cultura organizacional.
Resolvemos iniciar a caminhada apanhando os fios que estão à mostra e puxando os eventos e pensamentos determinantes que estão mais próximos, o que concede a eles o privilégio de exercer influência direta para seguir vasculhando camadas mais antigas. Afinal, quando se apela para a tradição composta de tantas camadas, à qual delas é feita a referência? Em que nível poderá a Chácara Primavera apelar para a história a fim de se projetar como uma comunidade cuja identidade seja de fato portadora das marcas de uma igreja reformada?14
1.2. Chácara Primavera: breve narrativa histórica.
Aqui não caberia o termo ‘história’ quando se considera o que afirma Michel Certeau (2002, p. 15) de que a operação historiográfica pode ser considerada como um discurso sobre um outro que não mais existe. No caso da Chácara Primavera não se poderá falar de impossibilidade do passado se pronunciar diante da narração de sua própria história.
Como antecipado na introdução, as informações foram coletadas a partir de três abordagens: o depoimento colhido do pastor Ricardo Agreste da Silva, um dos fundadores e pastor efetivo da igreja, por meio de informações oferecidas pela secretaria da Chácara Primavera e, grande parte, coletadas dos dados disponibilizados nos conteúdos da internet. Cabe salientar que o próprio Agreste informou que pouca coisa foi sendo registrada dos fatos localizados no período anterior à organização oficial da igreja.
A Chácara Primavera identifica e celebra a sua data de fundação o primeiro domingo de março de 200115, embora para os padrões constitucionais da IPB a data oficial é a da organização da congregação16 em igreja, 14/03/2004, momento em que a comunidade adquire personalidade jurídica. O momento histórico em questão encontra a IPB experimentando sinais de flexibilidade em relação à religiosidade de novas igrejas que em grande parte resulta do fluxo de membros no contato com
14 O conceito mais amplo de uma igreja reformada: herdeira dos movimentos liderados por Zuínglio, Calvino, John Knox e seus sucessores, que adotaram em questões de fé e governo uma posição intermediária entre luteranos e anglicanos, de um lado, e dos anabatistas e entusiastas, do outro. No seu sentido mais amplo, a tradição reformada inclui aspectos teológicos, éticos, filosóficos, sociais e políticos.
15 Conf. https://www.youtube.com/watch?v=X2TIozULAPs.Vídeo. Acesso em 18/05/2017.
16 Congregação é o termo utilizado na Constituição da IPB e que se refere a uma comunidade que ainda não possui condições econômicas e de liderança para ser organizada em igreja. Cf.
Constituição da IPB, artigos 1 a 6.
novos ambientes, como as chamadas comunidades evangélicas que emergiram no final da década de 1980 (ÉrikaGiesbrecht, 2001, p. 7).
Assim, a Chácara Primavera surge no contexto da assimilação das igrejas históricas como a IPB de algumas inovações, tais como os chamados ‘grupos de louvor’, prática inserida pelas comunidades evangélicas que produzirão e utilizarão maciçamente de cânticos contemporâneos e que começam a ser inseridas na agenda litúrgica das igrejas. As referidas inovações penetram os ambientes dentro dos quais prevalecia a solenidade e serenidade das peças melódicas e poéticas presentes nos hinos sacros. Instrumentos considerados ‘mais profanos’, tais como percussão, guitarra e contrabaixo, foram sendo assimilados gradativamente – não sem muita guerra santa e a percepção de que a igreja havia apostatado.17
Ressalte-se, portanto, que as sementes do que se tornaria a Chácara Primavera seria lançadas sobre um solo que começa a ser fertilizado por outros conteúdos inovadores, o que de certa forma favoreceria o crescimento da comunidade num ambiente de níveis mais amenos de resistência institucional.
A pesquisa realizada por Giesbrecht sobre o campo presbiteriano na cidade de Campinas ocorreria no começo dos anos 2.000 e apontou para um cenário que de alguma forma refletia a porosidade que facilitaria a inserção de inovações:
Não é mais possível afirmar que a Igreja Presbiteriana do Brasil é tão tradicional e rígida. Ela apresenta agora uma nova configuração, na qual a proposta do grupo dos avivados é tolerada. No Presbitério de Campinas existem igrejas que adotaram estas propostas e não foram desligadas de denominação. No Seminário Presbiteriano do Sul chegou-se a interpretar o avivamento, tanto das igrejas presbiterianas como das igreja protestantes históricas, como uma nova forma de vivenciar o mesmo conteúdo evangelístico. (2001, p. 07).
Saliente-se que a Chácara Primavera não se enquadra na tipologia de uma igreja ‘avivada’, adjetivo mais adequado para aquelas igrejas que se aproximam liturgicamente das comunidades pentecostais ou das chamadas comunidades livres.
Pelo contrário, à medida que cresce em visibilidade e se expande se perceberá que a despeito da utilização de conteúdos contemporâneos o ambiente de culto é caracterizado por uma expressiva calmaria e racionalidade.
17 O autor desse trabalho conheceu de perto esse período e as evoluções processadas no campo litúrgico.
Seguindo a cadeia de eventos proposta pelo pastor Ricardo Agreste18 tome- se como pré-história ou tempo de encubação do que viria a se tornar a Chácara Primavera o período compreendido entre os anos 1995 e 96. Agreste havia exercido o pastorado na Igreja Presbiteriana de Pirituba, bairro da zona norte de São Paulo entre os anos 1987 e 94 e seguira para os Estados Unidos para um curso de mestrado no Calvin Theological Seminary (Grand Rapids, Michigan), uma prestigiada instituição calvinista. A combinação de dois fatores deflagraria o que se poderia chamar de uma nova visão conceitual a respeito da natureza da igreja e de sua relação com a sociedade.
O primeiro fator é localizado na interface entre dois universos acadêmicos, o secular e teológico. Os primeiros meses de sua estada nos EUA foram reservados para o aprendizado da língua inglesa numa universidade que permitiu a Agreste a oportunidade de relacionar-se mais profundamente com um hindu e um muçulmano e experimentar o que chama de choque de cosmovisões. Já no Calvin ele teria motivos para reforçar sua percepção a respeito das limitações da linguagem utilizada pelas denominações históricas em relação à cultura pós-moderna.
Um segundo elemento de influência e fator preponderante da mudança de visão, admite Agreste em seu depoimento, resulta do encontro com o pensamento de Lesslie Newbigin, missiólogo britânico (1909-1998). Muito do conteúdo desse missiólogo gira em torno do tema do pluralismo presente na sociedade ocidental e da urgente necessidade de a igreja adotar conceitos e ferramentas para o estabelecimento de um diálogo o universo pós-moderno. (2016, p. 17). Newbigin havia servido por muito tempo como missionário na Índia, e ao retornar à Inglaterra em 1974 constataria os efeitos avassaladores das forças secularizadoras que dissolviam a estrutura das igrejas conservadoras, seja pelas vias da aniquilação pura e simples ou pelo processo de assimilação.
A essência do pensamento distribuído pelas obras do teólogo europeu às quais o pastor presbiteriano eventualmente se refere trata do tema da contextualização cultural, que se tornaria um dos eixos condutores do pensamento e
18 Depoimento colhido do pastor Ricardo Agreste da Silva em encontro realizado entre às 08:10h e 11:00h do dia 08 de novembro de 2016 na cidade de Campinas e acesso ao site da igreja https://chacaraprimavera.org.br/quem-somos/historia. Acesso em 25/04/2017.