JUSQU’ICI TOUT VA BIEN 130 3.1.1 Blanc, noir, beur
3.1 ENTRE FICÇÃO E REALIDADE JUSQU’ICI TOUT VA BIEN Convicto de que a diferença engendra o ódio, Mathieu
3.1.3 Chanteloup-les-Vignes
Figura 63 – Fotografias de Chanteloup-Les-Vigne, 2013
Fonte: ZIMERMANN, 2013.
Chegar a Chanteloup-les-Vignes é como pegar carona em um dos filmes aqui mencionados, mais precisamente Mélodie en sous-sol, 1962. Da mesma forma que Jean Gabin chegando a Sarcelles, ao sair do trem, é preciso subir uma grande escadaria que dá acesso para uma passarela sobre a Av. Charles de Gaulle. A praça da estação está em
frente ao portão da cité de La Noé, último grande conjunto construído na banlieue parisiense, projetado por Emile Ailleaud e concluído em 1973. O arquiteto criou algumas praças que se mantêm até os dias de hoje, com pequenas alterações.
Lá se encontra o mesmo “cen rio”, uma espécie de mobiliário urbano (figura 64), em que, no período do filme La Haine, podia-se ver um grafite com a frase l'avenir c’est nous! la ville c'est nous tous, numa linguagem coloquial e juvenil sobre o amanhã, sobre o futuro, sobre o direito à cidade [“o amanhã somos n s”, “a cidade é de todos n s”]. Figura 64 – Frames do filme La Haine, 1995
Fonte: LA HAINE, 1995.
Desconsiderando o nível informativo do que seria uma comunicação de Kassovitz sobre o direito à cidade e, o imponderável, sobre a juventude como o futuro da França, retomando o sentido simbólico que a frase tem dentro do quadro, observamos que, inicialmente, o plano é aberto e aproxima para um enquadramento com os três protagonistas (Vinz, Saïd e Hubert) e um pré-adolescente da cité, que narra para Vinz, detalhadamente, um t pico “enlatado” a que assistiu na televisão, denominado: “caméra cachée” [câmera oculta].
O contexto do quadro remete ao “sentido óbvio”, identificado por Roland Barthes na obra de Eisenstein, que enfatiza uma intenção pelo acréscimo do valor estético. “A estética eisensteiniana não constitui um nível independente: ela faz parte do sentido óbvio, e o sentido óbvio é sempre, em Eisenstein, a revolução.” (BARTHES, 1982, p. 46). Reafirmando a estética eisensteiniana, Kassovitz finaliza a cena com o rosto de Hubert em primeiro plano, com ênfase na frase l'avenir c’est nous!, que retoma o contexto “pol tico” da narrativa e afirma a função de “enunciar a verdade”.
Figura 65 – Fotografias de Chanteloup-Les-Vigne, 2013, e Frames do filme La
Haine, 1995
Fonte: LA HAINE, 1995; ZIMERMANN, 2013.
Dezoito anos separam o filme do contexto atual (2013), e o mobiliário está lá; mudou o grafite (figura 65), mudou também o sentido quando guiados pela análise de Barthes; enquadrando-se agora no “sentido obtuso”. A julgar pelo gesto do “personagem” que ilustra o mobiliário, podemos pensar na famosa cena de Vinz (Vincent Cassel) diante do espelho (figura 49), no filme La Haine; ela própria postiça do gesto de Travis (Robert De Niro), de Taxi Driver, mas o postiço eiseinsteiniano, diz Barthes, tem o sentido do disfarce, embora o disfarce não destrua o outro, em se tratando de Ivan, o Terrível, “é ao mesmo tempo postiço de si pr prio, isto é ‘pastiche’ e ‘fetiche’” (BARTHES, 1982, p.46).
No filme La Haine, Vinz apropria-se do gesto simbólico do enfrentamento proposto por Travis, portanto óbvio. No grafite (figura
65) é o sentido obtuso, o“pastiche” de Vin .
O sentido obtuso parece estender-se para lá da cultura, do saber, da informação: analiticamente algo de irrisório; por causa de se abrir ao infinito da linguagem, pode parecer limitado ao olhar da razão analítica; é da raça dos jogos de palavras, das brincadeiras, dos gastos inúteis; indiferentes às categorias morais ou estéticas (o trivial, o fútil, o postiço e o ‘pastiche’), est do lado do carnaval, Assim, o obtuso serve muito bem. (BARTHES, 1982, p. 49, grifo do autor).
Voltando a observar as praças construídas pelo arquiteto Emile Ailleaud, encontramos a principal delas: a praça de La Coquille (figura 66), no coração da cité de La Noé, locada para a filmagem da cena final do filme La Haine. La Coquille é inspirada no Capitólio de Roma, ilustrada com mosaicos de seis poetas do século XIX: Mallarmé, Valéry,
Rimbaud, Baudelaire, Victor Hugo e Gérard de Nerval; uma proposta do artista plástico Fabio Rieti, desenvolvida junto com o projeto arquitetônico. Foi justamente em virtude das obras de arte pública que encontrei la Compagnie des Contraires [a Companhia dos Contrários], uma prática de arte que mistura teatro e circo envolvendo ações coletivas; uma prática mais aproximada da arte pública de novo gênero (ZIMERMANN, 2009), voltada especialmente para o resgate da cidadania, da população juvenil. Surpresa ainda maior, para mim, foi encontrar uma brasileira na direção da Companhia dos Contrários.
Neusa Thomasi descobriu um verdadeiro deserto cultural em
Chanteloup-les-Vignes, sobretudo na cité de La Noé80, um espaço
completamente marginalizado. No Brasil, ela havia enfrentado situação semelhante, como professora de educação artística nos subúrbios, uma vez que, conforme sabemos, não há, em nosso país, história de investimento para as aulas de educação artística, relegadas a segundo plano. Intuitivamente e com sua experiência de improviso, Neusa resolveu chamar de «ici, maintenant et avec…». [aqui, agora e com...], expressão que compõe o título do livro que reúne as experiências de práticas artísticas nas banlieues, contadas pela diretora da Companhia dos Contrários. Essa expressão define as ações de alguém que age com os meios que tem à mão, envolvendo pessoas, sobretudo crianças e adolescentes em estado de emergência. Essa atitude pedagógica para abordagem cultural foi por ela denominada «la mise en scène d’urgence» [a encenação de urgência], um período de vinte a trinta dias somente. Conhecida como “general Neusa”, a diretora explica que a
80
“Ce quartier populaire érigé dans les années soixante par l’État a bouleversé les équilibres démographiques, sociologiques et économiques de la ville. Essentiellement constitué d’habitats sociaux, il concentre en effet les trois quarts des 9.535 habitants (en 1999) de Chanteloup-les-Vignes. Cette population, principalement d’origine étrangère, se compose d’une cinquantaine de nationalités, pour majorité des familles démunies, fragiles, qui cumulent les difficultés (insertion, chômage, délinquance…)". [Este bairro popular, construído na década de sessenta, pelo Estado, perturba o equilíbrio demográfico, sociológico e econômico da cidade. Composta essencialmente de habitats sociais, concentra-se no fato de três quartos dos 9.535 habitantes (em 1999) de Chanteloup-les-Vignes. Essa população, na sua maioria de origem estrangeira, é composta por cinquenta nacionalidades, a maioria das famílias pobres, frágeis, que combinam as dificuldades (a inserção, o desemprego, a criminalidade ...)] (Tradução nossa).
disciplina é uma condição necessária para o êxito das atividades, conforme declara:
La discipline quasi militaire est utilisée sciemment par les intervenants, sans quoi il est concrètement impossible de mener le projet à terme. Le temps court confère à l’autorité une légitimité nouvelle. Et l’atteinte de l’objectif apporte aux jeunes la preuve de leur capacité d’action individuelle qui est, faut-il le rappeler, généralement sous- estimée.81 (LAUMÔNIER, 2011).
Figura 66 – Place de La Coquille Chanteloup-Les-Vigne, 2013
Fonte: ZIMERMANN, 2013.
Em entrevista (vídeo apêndice B), Neusa relata que, em 2002, realizou uma atividade com o fim de contar a história da Place de La Coquille. Seu objetivo era falar sobre os mosaicos dos seis poetas, porque ninguém sabia quem eles eram, nem que o projeto da praça era uma espécie de “réplica” (pavimentação) da Praça do Capit lio, em Roma. Segundo a diretora, os artistas, com roupas típicas e pernas de pau, ficavam em frente aos mosaicos e declamavam uma poesia do respectivo poeta. Depois da crise de 2005, a imagem do poeta Victor Hugo foi destruída junto com o edifício (derrubado em virtude de uma reformulação urbana). Para a diretora, a criação teatral foi uma oportunidade de as pessoas descobrirem seu ambiente cotidiano. Noventa pessoas, entre crianças e adolescentes (5-18 anos), participaram
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[A disciplina quase militar é usada deliberadamente pelas partes interessadas, caso contrário é realmente impossível realizar o projeto. O curto espaço de tempo dá a autoridade uma nova legitimidade. E a realização do objetivo dá aos jovens prova de sua capacidade individual de agir que, deve ser lembrado, geralmente é subestimada.] (Tradução nossa).
da realização de dois desfiles de rua e de diversos entretenimentos. Cerca de setecentas pessoas participaram da performance, um recorde na Chanteloup, comemora Neusa, que, nesse período, já colhia os resultados do trabalho corajoso de enfrentamento das adversidades. No mesmo período, apareciam reações como ameaças verbais, mas, no verão de 2006, se revelaram uma “guerra”.
Em 10 de julho de 2006, Neusa conta que circulava com sua caminhonete, e, com um alto-falante, informava à população os locais onde aconteceriam as oficinas, como fazia há onze anos, mas, dessa vez, foi cercada por um carro ocupado por dois jovens adultos, que a interpelaram com gestos agressivos e ameaças explícitas. Na manhã seguinte, ela estava, junto com Clara Chardavoine (cenógrafa), passeando no mercado, no intuito de sensibilizar as pessoas para o espetáculo que aconteceria em 28 de julho, quando foi abordada de forma ameaçadora: «c’est toi la femme du camion?» [é você a mulher da caminhonete?] Neusa concordou e explicou que a companhia estava lá para acompanhar uma criação teatral, que no dia 20 de julho se instalaria na praça do mercado como nos anos anteriores. O jovem homem então a ameaça: «Si tu reviens je me charge de faire exploser ton camion» [Se você voltar, eu vou explodir sua caminhonete]. Sua caminhonete foi queimada, mas ela não desistiu: quando recebeu uma nova do seguro, logo saiu divulgando um evento aberto que seria para um artista plástico
Arnaud Rabiercobri-la de flores.
Florir o mundo parece ser o compromisso dessa artista brasileira que teve uma infância difícil, o que, provavelmente, lhe permite aproximar-se do “outro”, da ferida do “outro”, especialmente das crianças. O perfil de Neusa Thomasi é do “artista civili ador” ela cita Francis Ponge em seu livro, e leva a sério o compromisso proposto pelo autor: “La fonction de l'artist est fort claire: il doit ouvrir un atelier, et y prendre en réparation le mond, par fragments, comme il lui vient”. [A função do artista é muito clara: deve abrir um atelier, e ir consertando o mundo, por fragmentos, como ele se apresenta.] (LAUMÔNIER, 2011, p. 43). Apesar das dificuldades de plantar flores em terreno árido, Neusa segue convicta como nas primeiras atividades que desenvolveu. Um bom exemplo foi uma oficina realizada em fevereiro de 1998, dois anos após La Haine, cuja proposta era levar um índio para a cidade (vídeo apêndice B). Com o título Un Indien dans la ville, Neusa trabalhou em conjunto com a artista plástica Magali Lotufo, que construiu uma grande marionete (três metros). As duas partiram para a estação Saint-La are, onde distribu ram papéis com a frase: “A Chanteloup, Il n’y a p s que des loups, Il y a aussi des moutons!” [Em
Chanteloup, não existem só lobos, existem ovelhas também!]. A brasileira chegou a Chanteloup no mesmo ano do filme La Haine, porém o título do seu primeiro espetáculo pedia uma frase contrária: Dis-moi des mots d’amour [Diga-me uma palavra de amor]. (LAUMÔNIER, 2011, p.).
Jack le Black é um artista parisiense que expressa suas ideias em suportes diversos que vão de camisetas a cartazes colados nas paredes de Paris. Uma de suas principais obras (a julgar pelo destaque que o próprio artista confere em site oficial) é justamente a obra cuja interferência atua sobre a fotografia do La Haine. A intervenção suscita uma leitura peculiar, que vai desde o enfrentamento proposto por Kassovitz até o apelo promovido por Neusa Thomasi: de arma em punho (nesta foto pelo jovem beur), os três “jeunes des cites”: Vinz, Saïd e Hubert, com a intenvenção do artista Jack le Black, mesmo que de forma subliminar, impõem a frase proposta por Thomasi: “Diga-me uma palavra de amor”. O trabalho ganha uma dimensão significativa para esta Tese, pois na fotografia de Jack le Black, sua obra é então observada por três policiais, conforme figura 67.
Figura 67 – Obra de arte de Jack le Black
Fonte: LE BLACK, 2014.