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JUSQU’ICI TOUT VA BIEN 130 3.1.1 Blanc, noir, beur

2.4 JUVENTUDE APACHE

2.4.2 Intelligentsia e barbárie

Segundo Morin (1977) desde o princípio, a subcultura é

ambivalente porque, mesmo que promovesse uma fruição

individualizada da civilização burguesa, teve, ao mesmo tempo, os “fermentos” de uma não adesão ao mundo adulto, do tédio burocrático, da mentira, da repetição e da morte. O sociólogo levanta uma questão a se destacar: “como esta ambivalência progressivamente se radicali ar e provocará uma marginalização e uma segregação crescente de uma parte da cultura juvenil no curso do último decênio?” (MORIN, 1977, p.133).

Essa ambivalência foi provocando uma tomada de consciência crítica por parte da juventude sobre a cultura de massas. E, mesmo não alterando o curso dos meios de comunicação, que continuaram a ser os mesmos, promoveu o consumo do que ficou conhecido como contracultura (filmes de “autores jovens”, novas tendências musicais, roupas “fora de moda”), significou uma tomada de posição e funcionou como uma denúncia para não mais participar da mitologia do prazer e do la er, vendido pela sociedade de “consumo”, impondo, assim, com seus

valores, uma ética, uma maneira de viver, que, segundo Morin, foi até o seio da intelligentsia (MORIN, 1977, p.134).

Muitos desses jovens que entraram para as universidades faziam parte da classe operária francesa que havia se organizado durante muitos anos nas“ceinture rouges”, para conquistar um quadro confiável, que permitisse aos trabalhadores condições mais adequadas e garantisse aos seus filhos acesso à cultura. Esse temor é expresso por Maurice Pialat em L'amour existe, quando percebe e denuncia os índices, mostrando que as possibilidades culturais da classe trabalhadora estavam diminuindo.

De acordo com Bourdieue (1977), “Un rapport au monde proper avec ses norms et valeurs a permis aux ouvriers et leurs enfants de se constituer en classe-sujet et pas en classe-objet (pensés et parlér par d’autre selon leurs interest)”[Um relatório ao mundo, adequado, com suas normas e valores, permitindo aos trabalhadores e seus filhos se constituírem como classe-sujeito e não como classe-objeto (pensar e falar com outros, de acordo com o seu interesse)] (BOURDIEUE apud BOUAMAMA; CORMONT; FOTIA, 2012, p. 59).

Les ‘banlieus rouges’ parisiennes et autres quartiers et villes ouvrières se son constitutes en “bastions” ouvriers. On a ainsi parlé de l’époque fortement traverses par une ‘contre- culture’affirmée et constituent des sones (relativement) émancipées des tutelles des classes bourgeoises et moyennes.56 (BOUAMAMA;

CORMONT; FOTIA, 2012, p. 59).

É essa juventude que fez o movimento cultural francês mediante uma problemática cultural e política, que, historicamente, pode-se datar de Maio de 68, e que, segundo Edgar Morin, assume excepcional originalidade.

Reúne em si quase todos os caracteres esparsos, não apenas das revoltas estudantis, mas também das revoltas existenciais, [...] Na França, como em grande parte do mundo, exceto nos países do

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As “banlieus rouges” parisienses e em outras cidades operárias se constituem em "fortalezas" operárias. Assim, fala-se da época fortemente atravessada pela "contracultura", afirmada e constituída, (relativamente) emancipada da tutela da classe burguesa e da classe média. (Tradução nossa).

Leste, a bandeira do marxismo é aquela pela qual o movimento revolucionário estudantil quer mostrar que trabalha no interesse geral. (MORIN, 1977, 149).

De acordo com Morin, a Conferência Nacional Estudantil, em 1968, para a solução dos problemas argelinos na França, marcou o início de uma resistência progressiva dos estudantes franceses à guerra da Argélia. No entanto, entre os estudantes argelinos, residentes na Argélia, houve numerosos militantes na luta revolucionária nacional (MORIN, 1977, p. 147). Lançado três anos depois do final da ocupação, que durou 130 anos, La Battaglia di Algeri, 1966, de Gillo Pontecorvo, misturando realidade e ficção, mostra os dois lados do conflito: os jovens rebeldes, que lideraram a Frente de Libertação Nacional da Argélia; e o exército Francês (figura 43). Saadi Yacef, um dos jovens rebeldes que liderou a Frente de Libertação Nacional, procurou Pontecorvo para realizar o filme e interpretou o guerrilheiro Diafat. Figura 43 – Frames do filme La Battaglia di Algeri, 1966

Fonte: LA BATTAGLIA..., 1968.

A postura arrebatada do jovem, que toma a frente e reage às hierarquias, repressões, inibições, desestabiliza, no bom sentido, um sistema muitas vezes viciado. No entendimento de Edgar Morin, porém, ele tem dois polos: a “dissidência” e a “revolta”, como partes de uma bipolaridade que promove algo misto, e que se difunde em um mercado juvenil.

Nesta zona mista, a dissidência e a revolta são integradas no sistema, depois de terem sido mais ou menos filtradas sem que, entretanto, sejam eliminados todos os fermentos corrosivos. O sistema utiliza a criatividade dos meios marginais, como no plano adulto utiliza a criatividade dos artistas, mas traz os padrões de produção, as censuras e acomodações. (MORIN, 1977, 139 - 140).

Morin (1977) alerta para a ambivalência dessa cultura adolescente-juvenil, que procura diferenciar-se do conjunto da sociedade, mas que, ao mesmo tempo, sem intelligentsia, é cooptada pelo sistema, levando a juventude novamente a consumir produtos materiais e produtos espirituais, incentivando os valores da modernidade, felicidade, lazer, amor, etc. (MORIN, 1977, p.140).

No início da década de 1970, o mercado central Les Halles de Paris deu lugar a um centro comercial e de lazer, denominado Forum des Halles, onde está situado o Forum des Images e a Bibliothèque du cinéma François Truffaut. Localizado no coração de Paris, o Forum des Halles passou a abrigar uma grande estação subterrrânea, RER Châtelet - Les Halles, que permitiu o acesso da banlieue a Paris. Favorecidos pelo acesso viabilizado pelo RER, na década de 1980, os jovens da banliusard encontraram, no Forum, uma possibilidade de acesso aos bens culturais e de consumo.

Um século depois do livro Ventre de Paris, em que Émile Zola conta as aventuras de Cadine et Marjolin, as crianças pobres (gamins de Paris) se encontram perto do Marche dês innocents, (o lugar abrigava ao mesmo tempo o cemitério dos indigentes e um mercado da cidade medieval. Meados do século XIX toda ossada do cemitério foi transferida para as Catacombes). Tudo ao longo desses personagens circula no entorno do Les Halles, como se um laço vital vinculasse os jovens deserdados a esse mesmo lugar (PAJOLEC; YVOREL, 2011). 2.4.3 A juventude Apache da cité

Os jovens da banlieue chegam ao “ventre de Paris”, como chamou Zola, por meio da estação do RER Châtelet - Les Halles. A representação dos espaços interiores do Forum atiça uma percepção angustiante da juventude da banlieue, que recebe então o nome de “zonards”. Para convencer sobre os perigos do Forum e, consequentemente, para a necessidade de “limpe a”, as representaç es audiovisuais concentram-se sobre a oposição entre a superfície e a superficialidade. As obras audiovisuais, segundo os autores, apresentam um Fórum como um lugar autossuficiente. Logo que se adentra mais para o interior do prédio, a ameaça aumenta, e o destino dos jovens “zonards” é selado com a entrada para a marginalidade. Mostram a obscuridade para reforçar a sensação de enterramento, mesmo ao meio dia, que parece j noite. “O velho e o novo, c pias e originais são amontoados numa massa confusa como ossadas numa catacumba” (KRACAUER, 2009, p. 304).

Em O mundo de calicó, a cidade-cinema da UFA, em Neubabelsberg, Kracauer fala das naturalidades [Natürlichkeiten] do lado de fora.

O mundo certamente aí reaparece, sim, todo o macrocosmo surge reunido nesta nova Arca de Noé: mas as coisas que aí se encontram não pertencem à realidade. São cópias e bonecos que foram arrancados do tempo e estão confusamente misturados; permanecem estaticamente imóveis; pela frente, cheios de significação e, por trás, nulidades vazias. Um sonho ruim acerca de objetos que foram extirpados do mundo material. (KRACAUER, 2009, p. 303).

Nesse sentido, o Fórum aparece como cenário da realidade do zoneur ou de um sonho ruim, favorecido pelo imaginário associado a esse indivíduo. Na fala de Pajolec e Yvorel (2011), o gamin é expulso de uma imagem luminosa o “zoneur”, então na linha do “Apache”, é uma criatura noturna. Os pesquisadores mostram que a televisão exibe numerosos lugares para manter a reputação de coupe-gorge [degola] do Fórum, remontando aos perigos do selvagem da belle époque. Essa profusão identifica o espaço do prédio a um espaço de relegação, abandono. As filmagens apresentam um ambiente paranoico em oposição às galerias decoradas para o consumo de mercadorias, divulgadas em múltiplas telas de televisão.

Parallèlement, les représentations áudio-visuelles complètent l’oposition entre la surface et la profundeur par une dichotomie entre le mouvement et l’inertie. On constate la présence de ce clivage aussi bien dans les stations de métro et de RER, qu’aux différents niveaux du centre commercial. Les images de circulation contrastent avec les plans de jeunes zoneurs , assis sur des marches ou à même des sol, dont la sedentarisation parasite le flux des voyageurs et des consommateurs, et permet à la représentation menaçante du Forum des Halles de prospérer.

(PAJOLEC; YVOREL, 2011, p. 237).

O zoneur é, então, desprovido de passado e de futuro, sua origem social é dissolvida na representação do jovem marginal do

Fórum, que recaiu sobre a figura masculina. Sua presença é sinônimo de violência e de droga, fazendo do Fórum um lugar perigoso, infrequentável. Mas os jovens excluídos são irremediavelmente atraídos pelo Fórum. “Il les protège autant qui’il les enfonce, c’est en même temps un abri et un tombeau - impression reforcée para l’obscurité des espaces souterrains, Le fait de vivre sans voir Le jour” (Ele os protege tanto quanto os afunda, é também um abrigo e um túmulo - impressões reforçadas pelos espaços subterrâneos escuros, o fato de viver sem ver o dia) (tradução nossa). (PAJOLEC; YVOREL, 2011, p. 238).

O estereótipo do zoneur desaparece das imagens audiovisuais e também das matérias da TV que, segundo Pajolec e Yvorel, irão voltar- se para os “junes de banlieue”, retornando para a cité como o único alvo da estigmatização social.

Les ‘jeunes des cités’ constituent l'ultime version du stéréotype d'une jeunnesse dangereuse dans les imaginaires parisiens. Comment le gamin, les Apaches, et les ‘blusons noire’, cette figure offre un lieu de rencontre entre une représentation spatiale et une inscription sociale spécifique aux jeunes de classe populaire. Leur apparence extérieure, épousant les modes, demeure un facteur determinant dans l'identification de cette menace.57 (PAJOLEC; YVOREL, 2011, p. 239). Ainda de acordo com Pajolec e Yvorel, o filme La Rage au poing, 1975, de Eric Le Hung, faz um esclarecimento sobre os problemas da criminalidade e do desemprego dos jovens da cité. Filmado dois anos depois de Laranja Mecânica (A Clockwork Orange), 1971, de Stanley Kubrick, La Rage au poing, que poderia ser traduzido por “A raiva em punho”, teve problemas para ser lançado, conseguindo isso somente dois anos depois das filmagens e, apesar de tratar da vida dos adolescentes, foi proibido para menores de dezoito anos. Trabalhar, consumir, procriar, não é para eles, que preferem refugiar-se na rua e na violência. Desempregados e rejeitados pela sociedade de consumo, passam à criminaldade: roubos, estupros e sequestros.

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Os“jeunes des cites” constituem a última versão do estere tipo de um jovem perigoso na imagem parisiense. Como o gamin, os apaches, e os “blusons

noire”, essa figura oferece um lugar de encontro entre uma representação

espacial e uma inscrição social específica para os jovens das classes populares. Sua aparência exterior casada com a moda continua a ser um fator determinante na identificação da ameaça juvenil. (Tradução nossa).

De bruit et de fureur, 1987, de Jean-Claude Brisseau, como o próprio nome anuncia, reforça o imaginário dos "jeunes des cités" como selvagens. Numa alusão ao “buson noir”, um dos protagonistas, Jean- Roger, veste jaqueta de couro e calça jeans skinny rasgada, rouba mobiletes para andar pelos terrenos vagos, faz parte de um bando de adolescentes, cuja liderança, assim como em Terrain Vague, também é feita por uma garota. Mas os delitos liderados por ela são muito mais graves. O imaginário de selva já está consolidado em 1987, e o polêmico Brisseau aborda o estupro coletivo, cometido pela gangue na garagem da cité, em plena luz do dia.

O filme inicia com o pré-adolescente Bruno chegando de trem na estação de Montreuil, onde irá morar com sua mãe, que nunca aparece. Segundo o etnólogo David Lepoutre, muitas histórias retratam o adolescente “autônomo”, sem qualquer supervisão de um adulto. Bruno chega ao apartamento e o encontra com uma pobre decoração para o seu aniversário, mas recebe os parabéns de sua mãe pelo telefone, quando ela também justifica ser o trabalho excessivo o motivo de sua ausência, ser a solução para que eles mudem para um lugar melhor. Bruno conhece Jean-Roger e passa a conviver com sua família: uma mãe omissa, completamente dominada pelo marido; o pai de Jean- Roger, um homem perturbado que passa os dias fa endo “tiro ao alvo” dentro da própria casa, agride professores e assistentes sociais que se arriscaram a reclamar de seu filho, que porta arma livremente dentro do conjunto habitacional.

Thierry Paquot fala sobre o incômodo que o filme De bruit et de fureur causou entre os críticos de cinema, por ocasião do seu lançamento.

De bruit et de fureur a profondément dérangé les critiques de cinéma, qui bien souvent habitent Paris et ne connaissent pas la banlieue, et qui découvraient une réalité, exagérée selon eux. Mais comme le réalisateur était un professeur de lycée de banlieue, on a commencé à prendre cela au sérieux, surtout que c'était corroboré par des études de sociologues et de géographes. Ces films introduisent une nouvelle dimension qui va de pair avec le contexte social. Désormais, les notions de banlieue et de violence sont associées.58(PAQUOT, 2005-2006, 2013).

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De bruit et de fureur incomodou profundamente os críticos de cinema, que muitas vezes vivem em Paris e não conhecem os subúrbios, e que

Jean-Claude Brisseau foi professor de ensino médio na periferia de Paris, e, provavelmente, utilizou dessa experiência para compor o roteiro do filme De bruit et de fureur, que é dividido entre a vida no conjunto e a vida na escola. David Lepoutre, que lecionou História e Geografia em um colégio de La Courneuve, confessa que também ignorava a realidade dos adolescentes que viviam e cresciam nos grandes conjuntos da banlieue. O etnólogo fez uma imersão total quando residiu no “4000 cité de La Courneuve”, suas impress es resultaram em uma obra intitulada Coeur de banlieue: Codes, rites et langages, na qual descreve, com riqueza de detalhes, o dia a dia dos pré- adolescentes e adolescentes, em sua maioria oriundos do Magrebe e da África negra. A questão da imigração não aparece claramente no filme De bruit et de fureur, mesmo os nomes dos protagonistas, são tipicamente franceses. O etnólogo descreve o modo de vestir, de falar, a maneira de ver o mundo, ações que refletem o completo isolamento da cultura francesa. Em suas lições de casa, por exemplo, eles atribuem uma grande importância para a guerra na Argélia. No entendimento do etnólogo, a “identidade imaginada” dos adolescentes mistura elementos modernos aos emprestados de origens fantasiadas do passado. Em matéria de violência, em seu trabalho de campo, identificou várias formas de enfrentamento, que ele denominou Rixes, duels et batailles rangées [lutas, duelos e batalhas]. Segundo Lepoutre (2001, p. 245), os enfrentamentos acontecem de modo mais ou menos frequentes, mas são, geralmente, sem armas. Os combates são mais ritualizados do que violentos, o que o autor designa como rixe [lutas]. Pode haver, também, conflitos entre grupos rivais, de conjuntos diferentes. “Les terrains vagues qui séparent la cité des Quatre-Mille de celle des Fracs-Moisins sont ainsi le théatre, à longueur d’année, d’affrontements rituels entre bandes d’adolescents des deux grands ensembles” [O terreno vago que separa a cité des Quatre-Mille da cité Fracs-Moisins, ao longo do ano, foi palco de ritual de confronto entre bandos de adolescentes dos dois grandes conjuntos] (LEPOUTRE, 2001. p. 247).

descobriram uma realidade exagerada. Mas, como o diretor era um professor do ensino médio nos subúrbios, começamos a levar a sério, especialmente no que foi corroborado por estudos de sociólogos e geógrafos. Estes filmes introduzem uma nova dimensão que se passa pelo contexto social. Daqui em diante as noções dabanlieue e violência estarão

Ao tratar de duelos de pré-adolescentes e jovens adolescentes que estavam entre o perfil buscado pelo etnólogo, este concluiu que, em geral, os embates se desenvolviam sem armas. Se eram utilizadas, geralmente, isso acontecia de forma lúdica ou simbólica. Lepoutre complementa, atribuindo a influência dos modelos de gangues americanas. Esse etnólogo acredita que heróis e anti-heróis do cinema e da televisão possam inspirar os adolescentes encenando violência, mas não descarta a possibilidade de armas serem, eventualmente, utilizadas, se estiverem de fácil acesso no ambiente familiar, como era o caso de Jean-Roger.

[...] Sous l’influence du modele des gangs

américains surarmés, peut-être aussi inspire´s par les héros de fictions télévisuelles et cinématographiques mettant em scène la violence adolescente et également parce que la présence de plus em plus frequente de ces armes au domicile familiar rend possible leur emprunt momentané, Il arrive, exceptionnellement, que des adolescents se munissent d’armes à feu pour régler leurs affaires59. (LEPOUTRE, 2001, p.

252).

Figura 44 – Frames do filme De bruit et de fureur, 1987

Fonte: DE BRUIT..., 1987.

O estereótipo do “jeune de cité” mostra que os quartieres de banlieue são autônomos com relação ao resto da cidade, estão sem lei, ou melhor, com leis próprias. De acordo com Lepoutre (2001), os espaços públicos dos grandes conjuntos estão, de fato, abertos a todos os

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[...] Sob a influência do modelo de gangues americanas fortemente armadas, talvez o jovem,inspirado pelo drama de televisão do herói e do cinema fazendo cena de violência adolescente e também porque a presença mais frequente de armas nas casa das famílias, é que se torna possível o seu empréstimo temporário [da arma], o que acontece, excepcionalmente, é que os adolescentes munam-se com armas de fogo para resolver os seus assuntos. (Tradução nossa).

olhares, mas, geralmente, fechados à presença e ao controle policial. Nos filmes, as torres (dos prédios) são a única decoração urbana a que os adolescentes têm acesso. Essa imagem testemunha o corte radical entre centro e periferia e permite compreender melhor os investimentos simbólicos a que a cité está sujeita. Para Pajolec e Yvorel (2011), a estigmatização serviu de elemento-chave para a representação cinematográfica dos grandes conjuntos da periferia, que até os anos 90, vai servir-se desse imaginário social degradante. Os autores citam outros filmes, como Le Plus beau métier du monde, 1996, de Gérard Lauzier, que visa ao mesmo grande público dos noticiarios televisivos, mostra um bando realmente constituído, que coloca medo nos habitantes da cité. Essa produção cinematográfica intervém em dois níveis diferentes, de acordo com os filmes: o visual (a degradação) e a dramaturgia (a morte violenta provocada pela droga ou por balas, como destino implacável para os jovens da banlieue). Os autores analisam a lógica do imaginário veiculado pelas mídias sobre os grandes conjuntos e insistem sobre a dificuldade encontrada para reabilitar uma imagem negativa, referindo-se a esta que foi propagada depois dos anos 60.

Martine Fournier (2011) conta que em uma noite de verão de 1987 (ano de lançamento do filme De bruit et de fureur), quatro adolescentes saem da cité de Montconseil (Cidade Fruit Basket - Essonnes ) e fazem um pacto de honra, decidindo montar seu bando, formado por Lamence, Joker, Mek’s e Papayou. Os quatro companheiros cresceram juntos na banlieue, estão à procura de uma identidade e compartilham um sonho da revolta. Descobrem juntos o espaço parisiense e a cultura da rua, o movimento hip-hop e o mundo dos bandos. A história contada por Lamence Madzou virou um livro, J'étais un chef de gang, e o autor recebe inúmeros convites para entrevistas na televisão, junto com a socióloga Marie-Hélène Bccqué, que assina o livro junto com ele. “Le récit de vie de ce Français noir d’origine congolaise (aujourd’hui age de 36 ans), devenue Le chef des Fright Boys Durant els annes 1990, fascine.” [A história de vida desse francês negro de origem congolesa (agora 36 anos), que se tornou chefe Fright Boys durante os anos1990, fascina]. (FOURNIER, 2011, p. 64, tradução nossa).

Au début des anées 1990 c'est en effet une véritable guérilla urbaine qui oppose des groupes banlieusards sur la scène parisienne, à la gare du Nord, dans le quartier des Halles, à la Defense ou à la gare de lyon. C'est ce que Lamence appelle la