5. CONTRIBUIÇÕES DE HUGH LACEY AO PLURALISMO METODOLÓGICO DE BRUCE CALDWELL
5.1 Ciência: neutralidade, imparcialidade e autonomia
A abordagem de Lacey (1998, 1999, 2012) dos valores da ciência quando sobre pluralismo e conhecimento tradicional contribuem de forma valiosa para defesa crítica do programa pluralista no campo da economia. A priori, põe em xeque o discurso da ausência de valores na ciência derivada do que ele chama de estratégias materialistas, terminologia por ele adotada para nomear a busca positivista de um único método, matemático, preciso e infalível para a consecução de previsões científicas. O objetivo das estratégias materialistas é “representar o mundo tal como ele é” (LACEY, 1998, p. 20), ao tempo em que esclarece que a justificativa para a adoção de tais estratagemas advém do sucesso de empreendimentos científicos e do desenvolvimento recente das inovações tecnológicas, mediante as quais o homem consegue, cada vez mais, dominar a natureza. Porém, a seu ver, nessa ambição, ocorre um paradoxo:
O objetivo é representar o mundo tal como ele é, independente (sic) das suas relações com os seres humanos, mas, para nós, a representação é apenas linguística ou simbólica, as representações são produtos humanos, construções históricas de práticas científicas, que empregam métodos também provenientes de nossa própria construção [...] Nossa experiência nunca é simplesmente “do mundo”, mas do mundo em interação conosco (LACEY, 1998, p. 20).
A concepção de que a ciência é um empreendimento autônomo e livre de valores não cognitivos, como defendido pelo materialismo científico, é colocada em xeque. De fato, esse teórico infere que não há:
[...] razões para aceitar que a pesquisa conduzida pelas estratégias materialistas produza um entendimento do mundo tal como ele é – em lugar disso, produz um entendimento do mundo sob a perspectiva do valor social de controle da natureza (LACEY, 1998, p. 30, grifo nosso).
As estratégias materialistas, mencionadas ainda no item 3.1 alusivo ao pluralismo metodológico e à sua essência, não conseguem, mesmo com seu estrondoso sucesso no avanço de tecnologias e de métodos de controle da natureza, afirmar que os objetos de estudo são representados tais como eles são. Não há como garantir que os tais objetos avaliados pelas estratégias materialistas sejam representados de maneira absolutamente verdadeira ou livre de valores não cognitivos. Dizendo de outra forma, “[...] por um lado, o materialismo científico é capaz de explicar o sucesso da ciência, mas não pode explicar como a metodologia científica poderia produzir conhecimento do mundo tal como ele é.” (LACEY, 1998, p. 28).
Não havendo justificativa metafísica para afirmar que as estratégias materialistas conseguem reproduzir o mundo real de maneira perfeita, somos levados a crer que seu status científico vem do êxito em produzir tecnologias, moldando a natureza às vontades humanas. O conhecimento produzido por meio de estratégias materialistas é celebrado como verdadeiro e correto, porque produz um entendimento do mundo, segundo perspectiva de valor particular: o valor social de controle da natureza.
Aliás, esse controle não consiste em perspectiva neutra. A dominação do mundo natural é algo valorado por uma sociedade fundada na produção e na reprodução da vida material através da transformação da natureza pelo homem. Trata-se de uma perspectiva valorativa da relação do ser humano ante a natureza. A justificativa para a defesa das estratégias materialistas é em si uma justificativa valorativa. E, para Lacey (1998, p. 31), o valor atribuído ao controle da natureza aparece como neutro ou até natural, pois serve a “[...] perspectivas de valor e aos projetos morais que têm em alta estima o valor de ampliar nossa capacidade de controle da natureza.”
A tese geral da neutralidade da ciência, baseada nos pilares da imparcialidade e da autonomia científica – essenciais para a sustentação do materialismo científico e da concepção canônica da ciência moderna – está comprometida. Segundo Lacey (1998, 1999, 2012), a concepção de uma ciência livre / isenta de valores está fundamentada nas subteses de neutralidade, imparcialidade e autonomia da ciência no âmago da sociedade. A neutralidade atesta que uma teoria pode ser aceita independentemente da perspectiva de valor adotada pelos indivíduos praticantes da ciência, ou melhor, podem ser postas a serviço de qualquer expectativa de valores, haja vista que a escolha de uma teoria não decorre dos valores fundamentais que o indivíduo ou a
sociedade mantém. Isto é, na ciência, segundo a tese da neutralidade, inexistem valores extracientíficos ou extracognitivos atuando nas teorias.
A imparcialidade, por sua vez, diz que a aceitação de uma teoria como científica sustenta-se unicamente e exclusivamente em relação ao nível em que a teoria manifesta determinados valores cognitivos, não importa se a teoria concorda ou se está a serviço de determinada perspectiva de valor. Afinal, para Lacey (1998, 1999, 2012), aceitar uma teoria é “subscrever que [tal teoria] seja incluída no estoque de conhecimentos ou de crenças racionalmente aceitáveis, ou ainda de itens que (segundo os cânones metodológicos disponíveis) não requerem investigações suplementares” (LACEY, 1998, p. 76), uma vez que pesquisas e estudos suplementares acarretariam replicações adicionais do que já fora replicado, às vezes, em muitas ocasiões.
Em se tratando da subtese da autonomia, as agendas de pesquisa da comunidade científica tendem a refletir tão somente os interesses dessa comunidade. Outras instituições não podem exercer pressão ou interferência para que os cientistas desenvolvam posturas ou interesses que não sejam da ciência em si, como Fernandez (2003, 2006) e Lacey (1998) argumentam.
Em suma, mesmo que a imparcialidade científica seja um ideal a ser perseguido, a ciência está, sim, contaminada por valores não cognitivos que alteram seu desenvolvimento. Ademais, a alegada imparcialidade não implica neutralidade. A aceitação de uma teoria como científica não significa considerá-la além ou aquém dos valores individuais e/ou sociais. Ainda sobre este tópico, ao argumentar como os valores de controle da natureza servem a determinado projeto valorativo, Lacey (1998, p. 32) vai além e afirma:
No momento atual, as práticas de controle da natureza estão nas mãos do neoliberalismo, e assim, servem a determinados valores e não a outros. Servem ao individualismo em vez de solidariedade; à propriedade particular e ao lucro em vez de aos bens sociais; ao mercado em vez de ao bem-estar social de todas as pessoas; à utilidade em vez de ao fortalecimento da pluralidade de valores; à liberdade individual e à eficácia econômica em vez de à libertação humana; aos interesses dos ricos em vez de aos direitos dos pobres; à democracia formal e vez de à democracia participativa; aos direitos civis e políticos sem qualquer relação dialética com os valores sociais, econômicos e culturais.
O controle da natureza como justificativa para a adoção de estratégias materialistas figura como argumentação permeada por valores determinados, que
tendem a oprimir ou a desencorajar o incremento de outras estratégias de pesquisa ou de outros paradigmas, recorrendo-se, aqui, à terminologia kukniana. Diante do argumento de Lacey (1998), percebemos mais um problema não trivial na implementação do pluralismo: paradigmas e teorias que servem a determinadas perspectivas de valores tendem a ser mais aceitas de acordo com sua afinidade valorativa e com a aceitação dos valores sociais, políticos, econômicos e ideológicos dominantes em determinada época ou sociedade.
Reconhecer isto não significa, porém, afirmar que teorias atreladas a uma perspectiva de valor não possuem nível de cientificidade. O sucesso do avanço tecnológico expressivo ora vivenciado pela humanidade atesta que as teorias recentemente desenvolvidas possuem, no mínimo, certo alcance de verdade ou de cientificidade. Mesmo que o conhecimento científico não represente o mundo tal como ele é, como antes citado, parece ser bem-sucedido ao conseguir, pelo menos em parte, exercer controle sobre o mundo.