6. PLURALISMO DE BRUCE CALDWELL À LUZ DAS CONTRIBUIÇÕES DE HUGH LACEY E THOMAS KUHN
6.1 Críticas e contribuições ao programa pluralista
Tal como apontado por Bianchi (2010), o papel do metodólogo na economia vem se alterando, quando pensamos no tempo em que a influência positivista na ciência econômica era muito mais forte do que é na sociedade contemporânea. Nessa linha de pensamento, a metodologia econômica tem se distanciado da busca de um único conjunto de regras para a realização de uma pesquisa de qualidade e se aproximado da história do pensamento econômico.
[...] a metodologia econômica hoje praticada é umbilicalmente ligada à história do pensamento, seja na forma de história intelectual, seja na busca de fundamentação teórica. O objetivo é menos julgar do que conhecer, menos chegar a um veredito do que traçar um perfil (BIANCHI, 2010, p. 3).
Mesmo sem evidência empírica que permita inferir causalidade na proposta de Caldwell (2003) e o real estado da metodologia econômica nos dias de hoje, afirmamos que, em decorrência de sua proposta ou não, o objetivo inicial de mudança no papel do metodólogo na economia foi cumprido. É importante ressaltar que a transmutação do metodólogo de “guardião da verdade” (FERNANDEZ, 2011) para o de “reconstrução crítica” (CALDWELL, 2003) não ocorreu livre de novos desafios. Questões, como a possibilidade de teste empírico das teorias, a identificação de valores sociais (às vezes, não tão óbvios à primeira vista) e outras questões surgiram e outras mais surgirão com o deslanchar da metodologia econômica.
Em uma análise simplista, diz-se que o projeto pluralista de Caldwell já realizou suas ambições, porquanto, neste momento de crise econômica e institucional, encontramo-nos num ambiente onde diversos programas de pesquisa competem
livremente entre si. Porém, mediante análise mais acurada, percebemos que suas ambições não se realizaram de maneira tão completa. Não há garantia institucional no campo das ciências econômicas que assegure a existência prolongada de um ambiente pluralista.
Em tempos de crise econômica ou institucional, é comum que se tenha a proliferação de teorias sem que haja a escolha de uma como paradigma vigente, nos moldes kuhnianos, como apontado por diversos autores, dentre os quais se destaca Bianchi (1992, 2010). A conjuntura econômica brasileira e mundial é de pós-crise. Nenhuma escola de pensamento conseguiu concretizar saída efetiva que traga prosperidade econômica e política. Em épocas com tais características, é comum a sensação de que estamos vivenciando em meio a um ambiente pluralista (BIANCHI, 1992, 2010)
Para dar sentido a essas indagações, trazemos à tona a perspectiva kuhniana: em estados de crise, diversas teorias ou escolas de pensamento, métodos, etc. competem entre si para obter o status de paradigma dominante e ditar os modos como os cientistas devem praticar a ciência, como antes enunciado por Kuhn (2017). Em momentos de prosperidade econômica ou normalidade política, econômica e social, sempre houve uma escola de pensamento dominante, seja o liberalismo clássico, seja o keynesianismo, seja a neoclássica. Porém, quando da elaboração da monografia em foco, não encontramos evidências suficientemente fortes que indiquem que a ciência econômica superou, com segurança, o eterno ciclo kuhniano de competição paradigmática.
A conjuntura atual dá força às colocações que afirmam que, em épocas de crise, prevalece um ambiente similar ao pluralismo até que um novo paradigma se torna dominante para ditar os rumos da ciência econômica mainstream:
Os novos programas de pesquisa erguem-se sobre pressupostos definitivamente diferentes daqueles que definiram a ortodoxia tradicional, e menos claramente conflitantes com os da heterodoxia. Ora, indaga, por que esse pluralismo não pode persistir por um prazo indefinido? Confessa que esta seria sua preferência, gostaria mesmo de recomendar que durasse. Mas, infelizmente, não é o que diz a história do pensamento econômico. Um exame de seu percurso mostra que ela tende a alternar períodos nos quais uma única abordagem é dominante com períodos em que prevalece um pluralismo de abordagens, como é o caso daquele em que floresceu a Escola Histórica Alemã, em suas disputas com os austríacos, e aquele em que ocorreu o debate entre institucionalistas e neoclássicos nos Estados Unidos [da América], no período entreguerras (BIANCHI, 2010, p. 8).
Mesmo que tenha sido regra até agora, a eterna flutuação cíclica entre pluralismo e monismo não quer dizer que a situação seja imutável. Afinal, não se trata de lei natural, mas, sim, de padrão de comportamento social da comunidade científica do campo da economia. Trazer a discussão para a esfera social da ciência é importante e condizente com as abordagens tanto de Bruce Caldwell quanto de Hugh Lacey. Ao adotar propostas metodológicas, como o pluralismo metodológico, estamos lidando não só com a ciência como conceito abstrato, mas também, com cientistas, na condição de indivíduos com valores cognitivos, sociais ou morais. É ainda Bianchi (2010, p. 8) quem complementa:
Os economistas conhecem bem os ciclos, e não deveriam ser surpreendidos pelo fato de um metodólogo proclamar que eles também prevalecem na história do pensamento econômico. Mas é claro, podem também pensar, ciclos podem ser domados por boas práticas [...] 6.2. Contribuições de Hugh Lacey para a defesa do pluralismo
As contribuições de Lacey (1998, 1999, 2012), ao longo de anos e décadas, nos permitem delinear certa superação da proposta de Caldwell (2003). A partir da tese inicial, paradoxalmente, nega-se a mesma, mas conservam-se pontos essenciais, os quais são levados para a síntese: nova proposta pluralista, mais consciente da ciência econômica e do lugar que esta ocupa na sociedade. Assim, com base no novo referencial filosófico ora apresentado, podemos enxergar problemas emergentes e começar, então, a formular possíveis soluções. Além disso, é plausível amadurecer o discurso de defesa da metodologia pluralista, ainda hoje, considerada extremamente idealista e com pouco embasamento metateórico.
É evidente, porém, que a monografia em construção nem pretende nem tampouco ousa se posicionar como contribuição final, definitiva e absoluta para o debate. Ao contrário. Figura, na verdade, tão somente como um primeiro passo na formulação de proposta metodológica pluralista inovadora, levando em conta, para tanto, os problemas identificados por Lacey e suas vastas contribuições rumo à defesa do pluralismo metodológico.
6.2.1 A Proposta de Hugh Lacey como passo adiante de Thomas Kuhn e de Bruce Caldwell
Se na abordagem kuhniana, como antes discutido, as escolas de pensamento competem entre si para obter o status de paradigma e, assim, moldar o conhecimento e a prática científica de seu campo de conhecimento, na proposta de Caldwell (2003), o objetivo é substituir a competição paradigmática entre escolas e abordagens por uma concorrência que não vise à supremacia de uma só escola. Correntes de pensamento e abordagens continuam competindo, mas todas manteriam seu status paradigmático, moldando o modus operandi da ciência praticada por determinado grupo de cientistas.
Com a contribuição de Bruce Caldwell, no entanto, fica em aberto a questão de como, efetivamente, garantir uma competição paradigmática virtuosa. Para ele, o avanço viria, de início, com a mudança do papel do metodólogo, não mais visto como “paladino da verdade”, segundo expressão de Fernandez (2011). O papel do metodólogo agora seria o de reconstruir teorias, como antes arrolado, por seus princípios, valores cognitivos, pontos fracos e pontos fortes.
Consideramos a contribuição de Caldwell (2003) essencial, porém insuficiente. Impossível esperar que, por meio do esforço de determinado setor da comunidade, uma proposta seja atendida apenas com promessas de desenvolvimento virtuoso. Quer dizer, a retórica do pluralismo desse teórico parece extremamente idealista e conciliatória, porquanto, é evidente que não conseguiria a adesão voluntária por cientistas afetados pela cegueira paradigmática. Mais do que isso. Não há porque a proposta ser aceita por cientistas participantes da comunidade de determinado paradigma dominante nas ciências econômicas.
Em essência, o modelo apresentado por Caldwell (1988, 2003) é demasiado generalista ou idealista para ser plenamente aceito e implementado no campo das ciências econômicas. Mesmo com seus pontos fortes, a proposição não traz contribuições suficientemente disruptoras para alterar a estrutura da comunidade científica na economia da atualidade. Isto porque, ainda repete a estrutura de competição paradigmática de Kuhn (2017), mesmo com alterações periféricas na formulação original, como Fernandez e Vieira (2006) acrescentam.
De fato, as considerações dos autores acima citados, mesmo que insuficientes para a conjuntura do século XXI, são muito importantes e não precisam ser descartadas ao considerar as contribuições de Lacey (1998, 1999, 2012). Ao contrário. Favorecem desenvolvimento crítico da proposta pluralista, tal como exposta por
Caldwell (2003). Reiteramos, então, que o desenvolvimento através do referencial dos valores de Hugh Lacey não representa o auge da proposta pluralista, mas, posiciona- se como etapa essencial para o amadurecimento rumo a uma implementação prática da proposta.
6.2.2 Adesão, discurso e amadurecimento da proposta de Hugh Lacey
Reconhecer as contribuições de Lacey (1998,1999, 2012) para a metodologia científica geral representa importante iniciativa como o intuito de romper o ciclo entre monismo e pluralismo em momentos de crise. Seus posicionamentos sobre valores na ciência nos dão insumos para aprimorar os discursos em defesa da proposta pluralista, que se torna mais “pé no chão”, mais precisa e melhor estruturada. Decerto, graças ao referencial teórico dos valores e dos meios pelos quais eles podem influenciar o avanço científico em direção a uma ciência pluralista (LACEY, 2012), é plausível amadurecer e atualizar tanto a proposta quanto o discurso, dando, ainda, mais força à retórica da proposta pluralista.
Sem abordar o tema dos valores e da competição desigual por recursos, a discussão permanece relegada ao plano ideal e/ou se mostra frágil frente à real e brutal competição paradigmática entre as teorias. Isto se dá não só no plano teórico, mas também, na esfera da distribuição de recursos. A este respeito, Caldwell (2003) reforça que o progresso da proposta pluralista para a economia se dará, quando, em momentos de prosperidade econômica, política e social, houver espaço para que todas as teorias científicas fecundas tenham chance de investir em seu desenvolvimento. Entretanto, esse estado ideal de prosperidade não parece próximo a se estabelecer tão cedo. Diversos países, incluindo o Brasil, continuam em situação de crise, e, mais grave, sem previsão para superação em curto prazo. Não parece razoável idealizar sobre o que seria a metodologia de Caldwell (2003), separando-a do estado material da prática da ciência.
O autor, ao produzir seu trabalho sobre o pluralismo, não buscou idealizar uma situação irreal. Em sentido oposto, tentou estudar e adotar soluções práticas para problemas reais e materiais da metodologia econômica. Consideramos que as contribuições de Lacey (2012) atualizam a proposta de Caldwell e trazem à tona novas problemáticas contemporâneas, dentre as quais a problemática do discurso. Isto porque, no plano inicial de Caldwell (2003) faltam motivos, teóricos e práticos, para
favorecer a adesão à proposta pluralista, por parte do cientista individual. Fica a cargo dos metodólogos (a quem ele tenta convencer das virtudes da metodologia pluralista) mudar seu modus operandi e, assim, a posteriori, convencer a comunidade acadêmica das ciências econômicas a aderir ao pluralismo metodológico.
Por que um cientista ou metodólogo inserido num paradigma dominante aderiria ao pluralismo? Seja pelo poder da chamada cegueira paradigmática; seja pela posição de conforto na qual o cientista ou o metodólogo está instaurado na esfera de um paradigma dominante, não há motivações que estimulem a adesão ao pluralismo. Quer dizer, Caldwell (2003) objetiva propagar a proposta pluralista por meio de argumentos conciliatórios. No entanto, a retórica conciliatória reduz-se a pó frente à prática científica regular, não autônoma e contaminada por valores sociais. Na verdade, inexistem condições institucionais ou sociais, como Garnett Jr. (2006) assegura, que assegurem a sustentação da proposta pluralista, tal como idealizada por Caldwell.
A retórica da metodologia pluralista, em sua essência, deve também tornar-se mais consciente do ambiente na qual se encontra. Não basta somente apregoar as virtudes de um ambiente ideal e amigável para o universo da ciência, da comunidade científica, e, portanto, do conhecimento científico e da produção científica. Ou seja, a retórica da proposta pluralista deve provar aos cientistas como o ambiente em que a prática científica se realiza possui vícios que impedem seu desenvolvimento integral. A procura pela utopia deve ser feita a partir da base, identificando-se problemas e impedimentos reais que precisam ser superados a fim de que alcancemos a utopia de uma competição paradigmática justa, em que modelos distintos possam ir adiante, sem impedimentos externos, a não ser sua própria capacidade de resolução de problemas e sua plena fecundidade.
6.2.3 Competição paradigmática e competição por recursos: o papel dos valores sociais
Repetimos que, na opinião de Kuhn (2017), teorias científicas e abordagens competem somente para obter o status de paradigma. Cientistas e pesquisadores atrelados a diferentes escolas e correntes de pensamento não conseguem conviver pacificamente sem competições, tendo em vista a força do paradigma sob o qual respaldam sua formação profissional. Caldwell (2003), por seu turno, objetivava estabelecer um ambiente onde pairasse competição virtuosa entre as distintas teorias. No caso, não para definir certo paradigma e/ou determinar o modo como a ciência é
feita, mas para, por meio da interação entre teorias contraditórias, possibilitar seu desenvolvimento, num ambiente onde elas coexistissem com inevitáveis adversidades, evitando, porém, o endogenismo. Teorias que não conseguissem se desenvolver frente às críticas de outras teorias ou de outros paradigmas seriam descartadas de uma maneira quase natural, como Caldwell (2003) afiança. Nesse ambiente idealizado pelo autor, cada teoria ou abordagem seria em si mesma um paradigma.
Com Lacey (1998, 1999), a competição entre os paradigmas na ciência possui algumas sutilezas desconsideradas por outros autores. Ao competirem, os paradigmas ou os cientistas formados sob esses diferentes paradigmas não entram em conflito tão somente por suas previsões ou por seus valores cognitivos. Nos paradigmas, também subsiste um complexo de valores, que interage, em termos dialéticos, com a comunidade científica e a sociedade como um todo. Segundo as colocações desse teórico, a competição paradigmática é extremamente desigual, justamente porque a ciência (em especial, a ciência econômica) mantém caráter intrinsecamente social, e, por conseguinte, está impregnada dos valores sociais inerentes aos indivíduos e aos grupos sociais, o que termina por comprometer sua pretensa autonomia e influenciar o resultado da competição. Em outras palavras, determinado paradigma pode ter algumas facilidades na competição paradigmática e na ciência em geral, mas os valores sociais, inevitavelmente, terminam por influir nas competições paradigmáticas e, sutilmente, definem os direcionamentos da ciência em geral4.
No exemplo dado por Lacey (2012), abordagens, como agroecologia e bioecologia são comumente deixadas de lado ou desestimuladas na academia, tendo em vista o poder que a biotecnologia possui na esfera do campo de conhecimento que tais paradigmas compartilham. O poder não deriva, porém, apenas da força paradigmática das realizações científicas da biotecnologia. Tal abordagem tende a ser valorizada pela estrutura social de produção e reprodução da vida humana na sociedade capitalista: a produção em massa é valorizada; tópicos, como preservação do meio ambiente e ecologia são vistos como secundários ou descartáveis.
Ainda para Lacey (1998), a interação entre valores sociais e ciência não acontece tão somente no plano da subjetividade. Através de valores compartilhados, algumas teorias podem parecer melhores ou piores aos olhos da sociedade e dos
4Ludovico Silva (2013), unindo a ideia de uma realidade subjetiva (a ideologia e os valores) e a realidade
concreta (a produção e reprodução da vida social) traz uma contribuição indispensável para entender como os valores sociais dominantes de uma sociedade se propagam através da vida material.
cientistas, em consonância com sua proximidade ou seu distanciamento com os valores compartilhados por uma coletividade X ou Y.
Ademais, a interação toma forma, de maneira emblemática, devido aos investimentos em campos de pesquisa regidos por determinados paradigmas. Como Lacey (2012) diz, a competição paradigmática não se dá apenas pelo status de paradigma dominante, mas também por recursos, quer humanos, quer financeiros. Num ambiente de competição perfeita (idealização não muito distinta das abstrações presentes na economia neoclássica), os paradigmas competiriam recorrendo apenas a força de suas abstrações e sua retórica. No mundo real, no entanto, os paradigmas podem ser favorecidos por meio de investimentos governamentais ou advindos de instituições privadas.
Com eventual favorecimento de recursos, um grupo de cientistas está apto a assegurar a longevidade de seu paradigma através da inversão de recursos financeiros, seja em equipamento; em bolsas de pesquisa no âmbito das instituições de ensino superior (IES) e/ou de institutos de pesquisa; em organização de eventos científicos; e outros itens. Verdade que os investimentos não garantem sozinhos a vigência de um paradigma que condiga com os valores sociais das origens dos recursos. Porém, afiançam financeiramente a longevidade de um paradigma.
É importante mencionar a questão financeira na pesquisa, pois, em tempos de prosperidade econômica, é comum haver relativa abundância de bolsas de iniciação científica nas IES, derivada de elevados investimentos, em especial, no ensino superior. Em tempos de crise como os que ora vivemos, a disponibilidade de recursos para a educação, pesquisa e desenvolvimento se mostra escassa. É comum que investimentos para determinados paradigmas sejam suspensos ou reduzidos. E, mais, em geral, os modelos teóricos em dissonância com os valores sociais e institucionais dominantes são o alvo número um dos cortes financeiros.
Ao se reduzir os recursos disponíveis para a evolução de determinado paradigma, reduz-se, de imediato, sua chance de sustentação, embora não decrete sumariamente sua morte. Paradigmas não contemplados com apoio financeiro – governamentais ou de instituições privadas – tendem a encontrar meios que assegurem sua sobrevivência e a continuidade do empreendimento científico por parte de seus cientistas e adeptos. Não pretendemos afirmar que a harmonia com determinados valores sociais é suficiente para garantir a existência e a ininterrupção
dos paradigmas. Em oposição, como Lacey (1998) alerta, este fato lhes impõe o enfrentamento em vantagens desiguais na competição paradigmática.
Sintetizando, afirmamos que paradigmas frutíferos – os que produzem evidências empíricas inovadoras e desenvolvimento teórico consubstancial – podem ter seu desenvolvimento prejudicado devido à sua discordância em relação aos valores sociais dominantes. Outros, menos produtivos ou promissores, por sua vez, conseguem manter desenvolvimento (se é que se pode usar esta palavra no contexto em apreço) mais ágil, fácil e a todo vapor.
6.2.4. Um diálogo de surdos?
Ignorar o papel dos valores sociais e a consequente facilidade na obtenção de recursos que a afinidade a determinados valores proporciona, em contraposição às dificuldades vividas numa proposta de metodologia pluralista, que, teoricamente, parece ignorar a realidade do empreendimento científico numa sociedade capitalista, é mera utopia.
Na competição paradigmática não há fair play. Paradigmas competem de maneira desigual e sua continuidade não é assegurada apenas por sua legitimidade ou fecundidade. E é a partir dessa situação material que consideramos que as propostas pluralistas devem se estruturar. Logo, para a defesa do pluralismo metodológico não se deve / não se pode idealizar um cenário, onde a prática científica seja autônoma, neutra e imparcial, sendo necessário apenas transportar o ideal para a prática científica através de metodólogos ou de cientistas iluminados. Aliás, a bem da verdade, salvo engano, esta constitui a essência da abordagem de Caldwell (2003).
A etapa central e primeira para aprimorar a metodologia pluralista e sua efetividade é reconhecer o ambiente no qual está ela inserida. Ao reconhecer e admitir as nuances e as sutilezas do empreendimento científico – suas competições desiguais, os valores sociais implícitos e os questionados pilares de neutralidade, imparcialidade e autonomia – é exequível a construção de uma proposta em busca de uma utopia para a prática da ciência, seja por meio de mudanças na comunidade científica ou na estrutura social como um todo.
A aceitação dos valores sociais como integrantes fundamentais da ciência e do apregoado desenvolvimento científico e tecnológico não equivale à rendição ao irracionalismo e ao fim do conhecimento científico. É a certeza de que não estamos
tecendo com frágeis fios de seda um diálogo de surdos, onde nem escutamos nem ouvimos o outro, até porque desconhecimento o ambiente que nos cerca.
Tudo isto parece difícil, devido à influência que ainda sobrevive do neopositivismo na ciência econômica. Também é preciso aceitar que a cegueira paradigmática e a incomensurabilidade dos paradigmas, como teorizados por Kuhn (2017) possuem, também, ampla dimensão social, econômica, política e não apenas cognitiva. Isto significa afirmar que levar em conta valores e fatores sociais na prática da ciência não é inserir mais uma variável na prática científica. Valores sociais já interferem e comprometem a autonomia da ciência, como Lacey (1998, 1999) sustenta.