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O TEATRO DE PONTEDERA

II- Ciò che resta (2001)

“A montanha é um elevador que penosamente te leva para o alto.

É também o lugar dos contos, dos mistérios, do perigo e da morte,

mas também é o lugar mais próximo do céu”78

Roberto Bacci

Participaram da montagem: Davide Fossati, Renzo Lovisolo, Savino Paparella, Luisa Pasello, Silvia Pasello, Silvia Rubes. Com cenografia e figurinos do brasileiro Márcio Medina. Construção de cena de Giordano Acquaviva e luz de Carlo Cerri. Direção técnica: Sergio Zagaglia. Consultoria dramatúrgica de Stefano Geraci e colaboração artística do paraense Cacá Carvalho. Em 2001, o espetáculo foi apresentado parcialmente, em português, no estado de São Paulo com apresentações no SESC Pompeia (na capital paulista), SESC Ribeirão Preto e SESC São Carlos.

Inspirado na obra A Montanha Mágica (1924), de Thomas Mann, o espetáculo trata do desmantelamento da civilização europeia.79 A encenação, ao contrário do texto original, narra a história de uma mulher que sobe a

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“[...]nel caso di questi personaggi emblematici, resta un margine di ambiguità, un' incertezza di fondo.

Chi è davvero Oblomov? Un pigro, un inetto? Un cinico, uno scettico? L' espressione di una diffidenza o di un' auto-indulgenza?[...] Mettendo in scena ’Oblomov‘ Roberto Bacci ha optato per questa interpretazione meno occidentalista e progressista, più mistica e problematica.” VOLLI, Hugo. Disponível em:

http://ricerca.repubblica.it/repubblica/archivio/repubblica/1999/10/31/oblomov-una-sfida-all-occidente.html. Acesso em 02 de junho de 2011.

78

Roberto Bacci.Citação extraída da programação do SESC Pompeia, agosto de 2001.

79

Seu autor, escritor alemão, recebeu em 1929 o Prêmio Nobel de Literatura. E, por sua oposição ao nazismo, foi obrigado a deixar a Alemanha em 1933, retornando somente em 1947.

81 montanha para fazer uma visita a um parente em um hospital de doenças respiratórias, mas se encanta com o modo de vida do lugar, permanecendo ali por anos. O programa do SESC trouxe a seguinte descrição:

A organização da considerada terapia e o tempo livre se misturam, criando uma vida artificial, na qual obscurece o que está presente: a morte. O hospital funciona como um hotel de luxo, onde a vida burguesa tenta esconder a dolorosa realidade do fim que está chegando. Encarando a situação com ironia e leveza, esta experiência é como uma miragem para a personagem. Após sete anos, ela retorna, quase como uma estranha, a outra ilusão: o mundo cotidiano.80

Inicia-se um processo de questionamento no qual a personagem

começa a se perguntar “quem sou eu” e “de onde venho?”. “Da vida, o que resta?”, sob o eco da seguinte frase: “Não quero conceder à morte o domínio sobre os meus pensamentos”.

O protagonista do livro é o jovem burguês Hans Castorp e o parente, Joachim Ziemssen, papéis interpretados por Luisa e Silvia Pasello, as duas atrizes gêmeas a que já me referi. Renzo Lovisolo interpretou o diretor do hospital e Savino Paparella faz o assistente de Behrens, a alma negra e o bufão que diverte os doentes. Silvia Rubes interpretou a enfermeira e Davide Fossati fez um humanista.

O texto original é considerado pelo autor como inicial e foi mesclado com autores como Esenin, Daumal e Rilke. Ao permanecer em contato com a morte durante sete anos, a personagem se torna “um homem” para depois desaparecer em uma trincheira durante a Primeira Guerra Mundial.

Roberto acredita que a as improvisações dos atores e o texto

original foram, na verdade, “uma ocasião para ficarmos perto de perguntas que

nos interessam, do qual o teatro pode ser o veículo”. Mais uma vez, o

espetáculo foi o pretexto para buscar algo além e que reside no homem.

80

Disponível em: http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/subindex.cfm?paramend=1&IDCategoria=1393. Acesso em 02 de junho de 2011.

82 III-Il raglio Dell Asino (2003)

“Será que existe um ser absolutamente bom?"81

Roberto Bacci

Inspirado na obra O Idiota, de F. Dostoievski (1869), e no desejo de apresentar um ser humano absolutamente bom e capaz de promover a salvação. A montagem contou com Alessandro Bertollini, Elena Ciardella, Marco De Liso, Andrea Fiorentini, Luisa Pasello, Silvia Pasello, Silvia Rubes, Tazio Torrini. Dramaturgia de Roberto Bacci e Stefano Geraci. O espetáculo foi apresentado totalmente em língua portuguesa no SESC Belenzinho, na capital paulista.

A encenação narra a história de um jovem estrangeiro e solitário em tratamento médico. Em determinado momento, ele escuta um som estranho, como um urro, que o faz querer regressar a sua pátria, a Rússia. Mas antes que possa chegar ao seu destino, depara-se com um baile, famílias que discutem, amores e olhares reprovadores. Bacci afirma que o objetivo não era transpor a obra de Dostoievski, mas utilizar as perguntas que ela suscita:

Não se trata da transposição teatral do romance, mas sim de uma espécie de reação às perguntas fundamentais que Dostoievski propõe à existência humana e sua atmosfera. A principal delas, "será que existe um ser absolutamente bom?", persiste a cada momento da encenação: nas músicas, nos sons do salão de baile, nos desafios de amores simulados e nos insultos neuróticos trocados pelos convidados, atormentados numa corrida invisível e irresistível em direção ao nada.82

Novamente, Roberto Bacci fala das perguntas fundamentais no que se refere ao teatro como experiência e veículo de investigação do humano.

O ator Andrea Fiorentini relata que começou a trabalhar em Pontedera em 2003, em um projeto que tinha como objetivo criar um

81

Esta foi uma das perguntas fundamentais que norteou o processo de criação. Extraído da programação do SESC de abril de 2004.

82

Disponível em:

http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/subindex.cfm?Paramend=1&IDCategoria=2836. Acesso em 02 de junho de 2011.

83 espetáculo com atores experientes e com jovens atores. Tratava-se da encenação do Il Raglio del’Asino. Fiorentine descreve sua experiência e tal qual Roberto Bacci, refere-se a ela como território pedagógico porque as

“questões fundamentais” envolvem tanto “autoformação” como “erro”, são

modos de saber. Fiorentini relata sua experiência:

A experiência com Il Raglio dell'asino foi bastante longa e absolutamente útil, já que me permitiu absorver uma grande quantidade de estímulos, ideias, técnicas e modos de trabalhar até então desconhecidas para mim. Me vali intensamente essa experiência compreendendo imediatamente quão importante era errar. Estando sempre em atividade eu errei muito, mas foi este o principal meio para uma aprendizagem ampla dos aspectos que dizem respeito à preparação do ator (compreendendo também como autoformação, ampliando a consciência sobre o que falta e o que é preciso melhorar), o duplo objetivo de construir e seguir as ações (o trabalho dramatúrgico no que compete ao ator e ao universo da personagem que age) e sobretudo do imenso universo relacional sobre o qual um espetáculo teatral se baseia e ganha vida.83

Percebo na descrição do ator a importância do erro como prática pedagógica. Não se trata de uma prática pedagógica em que se aprende a

priori para depois executar, mas sim de um processo em que o próprio experimento é a prática pedagógica em si que se dá por meio das “perguntas fundamentais” lançadas ao sujeito-ator, ao texto, ao contexto, de modo como desvenda suas próprias verdades e as devolve na forma de ação.

83 “L’esperienza del “il Raglio dell’asino”, è stata piuttosto lunga e assolutamente utile, in quanto ha

permesso di assorbire una grande quantità di stimoli, idee, tecniche e modalità di lavoro fino ad allora per me sconosciute. Ho approfittato intensamente di questa esperienza capendo immediatamente quanto fosse fondamentale sbagliare. Mettendomi continuamente in gioco ho sbagliato molto, ma è stata la via principe per un apprendimento ampio di quegli aspetti che riguardano la preparazione dell’attore (intesa

anche come auto-formazione, aumento della consapevolezza di cosa manca e cosa migliorare), il duplice obiettivo del costruire ed eseguire delle azioni (il lavoro drammaturgico nella parte che compete all’attore e

l’universo del personaggio che agisce), e soprattutto dell’immenso universo relazionale sul quale uno

spettacolo teatrale si fonda e prende vita”. Entrevista a mim concedida pelo ator, em Pontedera, Itália,

84 Figura 13: Espetáculo Il Raglio dell Asino.84