Lévy (2010) defende que a essência da cibercultura é o universal sem totalidade. Afinal, a cada segundo que passa, a internet cresce, se expande. O autor nos explica que cibercultura é o conjunto de técnicas materiais e intelectuais, “de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço”. Ele afirma que a cibercultura nos apresenta o digital, que é fluído, em constante mutação e desprovido de qualquer essência estável. Entretanto, ele reconhece que a
velocidade de transformação seja uma característica constante e paradoxal da cibercultura. A expansão da cibercultura mais integra do que exclui. Miège (2009) defende que o computador não vai substituir a televisão ou o rádio, assim como o telefone e o cinema não acabaram com o advento de novas mídias. Ele explica que formular raciocínios sustentados e equilibrados sobre o convívio das novas TICs com a mídia, a eletrônica, por exemplo, não é tarefa fácil, mas necessária. Corremos o risco, segundo o autor, de buscar explicações nas oposições (antes/depois, real/virtual, direcional/interativo) e isso pode nos levar a imaginar que um modelo de comunicação será substituído pelo outro.
Em oposição às várias visões substitutivas ou substitutas, que são a princípio oposições anteriores, nos perguntamos se a perspectiva mais provável não é aquela da junção de novas modalidades orientadas em direção à mediatização, a um modo de comunicação que se mantém, no essencial, além da diversidade das formas nas quais ele se revela para nós, de um lado a outro do planeta (MIÈGE 2009, p. 82).
Jenkins (2009) chama esse modelo de substituição de “falácia da caixa preta”, em que todos os conteúdos de todas as mídias estariam concentradas me um único meio. Em contraposição, acredita que caminhamos rumo à junção de mídias, o que ele chama de convergência a partir da colisão e coexistência, onde os papéis de consumidores e produtores de conteúdo se cruzam, modificam-se e interagem de maneira complexa, onde a “convergência envolve uma transformação tanto na forma de produzir quanto na forma de consumir os meios de comunicação” (JENKINS, 2009, p. 44).
Na cibercultura, o computador deixa de ser um centro de processamento de dados para se tornar um nó, uma vez que as máquinas interconectadas podem recorrer às capacidades de cálculo e memória umas das outras, como na computação em nuvem, por exemplo. “É um computador cujo centro está em toda parte e a circunferência em lugar algum, um computador hipertextual, disperso, vivo, fervilhante, inacabado: o ciberespaço em si” (LÉVY, 2010, p. 45). Lemos (2002) ressalta que a cibercultura é um processo que pode ser explicado a partir do surgimento da tecnologia que permitiu a criação do computador sob três pontos de vista: das condições históricas relacionadas à técnica (como citamos no início deste capítulo), ao ponto de vista ideológico e também ao social.
A necessidade (ou simplesmente a busca) por produzir, transmitir, organizar, armazenar informação proporcionou a tradução da natureza para a linguagem digital. Nessa perspectiva a virtualidade e a digitalização tem papel central na infraestrutura desse espaço desorganizado, nesse emaranhado de dados e informações que transitam e se expandem exponencialmente a cada segundo.
(LÉVY, 2010). Por exemplo, o papel, físico e palpável, que recebia a tinta com o formato de letras, onde era impressa a que estava sujeito ao desgaste do tempo agora é digitalizado e um sistema de códigos binários operando em uma máquina nos mostra algo similar a um livro na tela do computador. Os momentos registrados em fotografias, antes resultado da captura da luz refletida e técnicas químicas de revelação, agora são resultados de sensores digitais que simulam sua predecessora na captação (codificação), armazenagem e exibição (decodificação) da imagem. Essas ferramentas tecnológicas, como a fotografia digital, por exemplo, foram criadas a partir de referências de fora da cibernética. Entretanto, são partes de um mosaico complexo e gigantesco que tornaram possível a criação das redes sociais digitais. O ciberespaço é a principal, e talvez, indispensável condição para o advento dessa forma de relacionamento. A codificação do mundo físico promovida no ciberespaço dificulta, para os atores que se relacionam em sites de redes sociais, como no Facebook, por exemplo, a delimitação entre prédio público, instituição, página de fã e ente político.
As principais características do ciberespaço são a possibilidade de acesso à distância de recursos, banco de dados, possibilidade de comunicação, de aquisição e compartilhamento de dados, textos ou hipertextos independentemente de localização geográfica, de maneira muito mais rápida, em tempo real ou de forma assincrônica. Para que isso aconteça é necessária a digitalização de conteúdos (livros, revistas, jornais antigos, etc), bem como a criação de conteúdo dentro dessas plataformas digitais, a virtualização.
A cibercultura, por sua característica universal, propagou a co-presença e a interação. Ela é complementar da próxima tendência fundamental, a virtualização. “A digitalização é um fenômeno técnico da virtualidade” (LÉVY, 2010, p 48). No sentido filosófico, o virtual é aquilo que existe somente em potência, não em ato, ou seja, o virtual existe sem estar presente. Dentro na perspectiva do ciberespaço, o virtual é uma simulação interativa em que a pessoa tem a sensação de estar “imerso na situação física definida por um banco de dados” (LÉVY, 2010, p. 50). Dessa forma, a prefeitura de Curitiba se apresenta no Facebook de maneira diferente do que na sede do executivo, pois não seria o órgão público em si, mas uma representação virtualizada, aquele que existe sem estar presente.
A prefeitura de Curitiba não se apresenta no ciberespaço apenas como uma emulação do executivo municipal, ou seja, a digitalização do órgão público e de seu atendimento. A página da prefeitura da capital paranaense no Facebook faz uso de linguagens, técnicas, estratégias e símbolos comuns nesse ambiente comunicacional (conforme explicaremos no terceiro capítulo). Neste caso, percebemos que a prefeitura de Curitiba optou pela virtualização ou invés da digitalização do poder público.
Durante a coleta de dados para a pesquisa, ao procurar páginas similares no Facebook, verificamos que essa prática era evitada por órgãos públicos municipais. O motivo pode estar no risco de efeitos negativos para a imagem da instituição, principalmente nas redes sociais digitais, onde a prefeitura não fala sozinha e qualquer pessoa conectada à rede tem a oportunidade de comentar, criticar, questionar, compartilhar e transformar uma mensagem oficial em piada, gerando escândalo ou crise institucional. Com a estratégia de não postar mensagens oficiais de gestores políticos, fotos de eventos formais ou sequer a fachada do prédio administrativo, a prefeitura de Curitiba utilizou o espaço com a promessa de informar, entreter e divertir os usuários, sem deixar de lado o viés de utilidade pública.
Para Miegè (2009), virtualidade e digitalização tem o sentido da mediatização (em oposição a mediação), porque é identificado pelo intermédio das numerosas instâncias de mediação social. A ação de mediatização dos conteúdos, por exemplo, conta com a intervenção de profissionais como designers, diretores multimídia e com isso as TICs, que interpõe-se entre os sujeitos nas relações interpessoais ou mesmo intragrupais, podem promover mudanças nos atos de comunicação. As TICs tem um papel importante na relação entre indivíduo e coletividade, pois apresenta a hipótese de um individualismo conectado à técnica, suscetível a “referir/afetar os indivíduos transversalmente aos diversos campos sociais e aos espaços privativos, públicos e de trabalho”. (MIEGÈ, 2009, p. 87)
Entramos no isolamento interativo, o qual o internauta tem dificuldade de dialogar com o 'vizinho do cybercafe', mas está conectado a milhares de pessoas em diversas partes do planeta por meio de plataformas digitais, como o Facebook, por exemplo (WOLTON, apud MIEGÈ, 2009). As TICs põem fim à separação dos espaços profissionais, privados e da vida pública (FLICHY, apud MIÈGE, 2009). Fornecem ao indivíduo condições de desenvolver um individualismo conectado, sendo ao mesmo tempo mais autônomos e controlados na vida privativa e profissional. Mesmo que Miège veja o modelo de individualismo conectado somente como uma hipótese, acredita que apesar de toda a competência que temos com a técnica, as capacidade de melhorar as relações humanas não são afetadas. Nesta perspectiva, os sites de redes sociais ao invés de substituir as relações pessoais seria uma forma potencializar essas relações.
Em um congresso de comunicação que participamos em São Paulo18, em 2015, apresentamos um artigo com informações da presente pesquisa. Na oportunidade, recebemos um questionamento sobre a página da prefeitura de Curitiba-PR no Facebook ser uma forma
18 Congresso Internacional em Comunicação e Consumo – Comunicon realizado de 13 a 15 de outubro de 2015 na sede da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em São Paulo-SP.
de o executivo municipal esconder os problemas reais da cidade. Um dos participantes, durante a nossa apresentação, perguntou se, por trás da suposta boa intenção comunicativa poderia haver intenções políticas e eleitorais em detrimento da obrigação do órgão público de prover serviços aos cidadãos. Apesar de ser coerente (e ter sido muito o válido o questionamento), pudemos perceber uma confusão entre a definição de prefeitura, página de fã, ambiente virtual e espaço físico de uma cidade, por exemplo.
Por isso, acreditamos ser imprescindível esclarecer que partimos do pressuposto que a prefeitura de Curitiba-PR não é a página de fã no Facebook, mas esta fala oficialmente por ela de uma determinada forma, para um público: os usuários dos sites de redes sociais. Nesse panorama, não é razoável esperar que o município emita um documento pela página do Facebook, pois existem departamentos com essa competência. Da mesma forma, não podemos esperar que seja compartilhada uma mensagem com memes em um formulário no guichê do setor de emissão de alvarás. Ressaltamos, no entanto, que nada impede um departamento de utilizar a página para informar o horário de funcionamento, endereços e requisitos necessários para a emissão de um documento.
Com isso, não estamos dizendo que a página mostra uma prefeitura diferente da real. Lévy (2010) nos exorta ao cuidado da dicotomia virtual/real, pois o virtual é real, embora não esteja fixado em nenhuma coordenada espaçotemporal, o virtual existe sem estar presente. Dessa maneira, a prefeitura é a mesma, mas em ambientes diferentes e se apresenta de acordo com os ambientes (virtual/material) em que opera.