4. ARQUEOLOGIA DOS PENTECOSTALISMOS EM VIAS DE
4.4 CIBERPENTECOSTALISMO: MODUS VIVENDI DO CRENTE NA
A partir dos anos 2000, o pentecostalismo brasileiro chega a uma nova fase que, complementando a classificação de Freston (1993), seria uma quarta onda. Por conta de crescente secularização do culto pentecostal, aburguesamento das igrejas neopentecostais, entre outros fatores, há quem designe esse período de pós-pentecostalismo (ARAÚJO, 2014, p. 713). Contudo, diz respeito à fase em que, fora dos muros das igrejas, observa-se a intersecção das lógicas da midiatização às lógicas da religiosidade e vice-versa. Por mostrar reconfiguração advinda, principalmente, do funcionamento de uma sociedade cada vez mais conectada às mídias digitais, denominaremos de ciberonda o pentecostalismo nas primeiras décadas do século XXI.
Para ilustrar a arqueologia do processo detalhado até aqui, segue figura que indica os fenômenos midiáticos e as fases da midiatização religiosa desde a Reforma Protestante ao campo pentecostal brasileiro. A figura aqui proposta se estrutura em dois eixos: o eixo diacrônico no qual situamos os marcadores de tempo que indicam o período do desenvolvimento de dispositivos midiáticos, cuja existência atrelada aos processos sociais possibilitou a produção de novos fenômenos midiáticos. No eixo sincrônico, apontamos os fenômenos religiosos, especificamente no campo do Pentecostalismo, que se apresentam como resultados das afetações entre as práticas religiosas e as práticas midiáticas.
O esquema busca ilustrar a relação entre os fenômenos midiáticos e os religiosos na dimensão do Pentecostalismo. Para isso, detectamos discursos em fragmentos de memórias e sua inserção histórica na processualidade social, buscando observar como essas materialidades discursivas se formaram e se legitimaram. A partir do estabelecimento dessas trajetórias é possível, assim, detectar o aparecimento dos fenômenos tecno-religiosos em determinado momento histórico e suas interpentrações no corpo social, bem como processos de circulação midiática.
99 Dados publicados na matéria A Igreja Universal avança, no site El País em julho de 2016.
Figura 07: Arqueologia do processo de midiatização pentecostal
Sec. XVI 1906 1930 1950 1980 2000
Europeu EUA
Contexto Brasileiro
Fonte: Elaborado pela autora
Os fenômenos religiosos no esquema acima vão desde a questão da autonomia na interpretação das escrituras com a possibilidade do manuseio da bíblia impressa, passa pela apropriação da imprensa para se reconhecer uma religiosidade materializada por línguas e expressões corporais, pelo uso do rádio e da TV como lugar de contato com uma função utilitarista, ampliando a intersecção com as mercadológicas e, por fim, chegando à proliferação do acesso às mídias digitais, quando observamos desapego às instituições e aos costumes, mas ascensão de uma Teologia da Moralidade, da qual trataremos mais à frente. Interessa destacar o funcionamento dos fenômenos religiosos, na medida em que há um acúmulo de conhecimento, ampliando a capacidade de expansão com as novas tecnologias midiáticas:
Não é apenas explicar as estruturas de um processo institucional em mutação. Mais relevante é perceber o perfil, os desafios e os riscos da questão comunicacional posta pela transição; assim como o contexto, em processo de instauração, em que a sociedade se comunica com a sociedade (BRAGA, 2015, p. 30).
A aceleração do tempo na era da internet é muito mais dinâmica e veloz que qualquer outro período do processo de midiatização. Verón (2013, p. 281) discute o modo como a Rede transformou as condições de acesso dos atores individuais ao conhecimento e à informação, gerando alterações inéditas na circulação discursiva midiática. Além de mudar os vínculos dos indivíduos com as instituições, o acesso à internet redimensionou o modo como se realizam a
Prensa Autonomia Glossolalia Imprensa cinema Rádio e TV Contato/Curas Televisão Prosperidade Internet Moralidade Fenômenos midiáticos Semiose pentecostal 1ª onda 2ª onda 3ª onda 4ª onda Neopentecostais Ciberpentecostais Reforma Azuza Clássicos Renovados Fenômenos religiosos
compreensão do conhecimento e da cultura pela gramática do hipertexto. O hipertexto combina textos, imagens, sons, organizados de forma não linear. Sua leitura requer a capacidade de associar ideias, conceitos e códigos distintos, logo, novos tipos de leitores surgem com percepção não linear, com capacidades desenvolvidas pelo hipertexto.
A partir do momento em que os indivíduos passaram a controlar suas condições espaço-temporais de acesso à mídia, modificaram também os demais dispositivos midiáticos: a internet alterou as condições de produção e o consumo da imprensa, do rádio, do cinema e da televisão que tiveram suas lógicas redimensionadas. A popularização da internet com a possibilidade de adquirir dispositivos tecnológicos com acesso às mídias digitais reconfigurou a comunicação interpessoal: “as lógicas do vínculo social já não estão onde nós havíamos nos acostumado a buscá-las” [tradução nossa] (VERÓN, 2013, p. 276).
Cabe assinalar algumas pistas que nos ajudam a construir possibilidades de estudos para compreender de uma outra forma as incidências da “cybercultura” na sociedade, na linguagem e na cultura, principalmente, como estabelecemos nossos modelos de vínculos e de apropriações com sua oferta de “sentidos”, e como fazemos incidir sobre ela nossa produção de sentidos (FAUSTO NETO, 2001, p. 123).
Na nova ambiência, os processos sociais passam a se constituir com outras lógicas de funcionamento. A religião, nesse novo paradigma, se reconfigura. O pentecostalismo no Brasil chega ao século XXI com uma configuração bastante complexa: uma explosão de pentecostalismos híbridos, autônomos e individualizados. Se desde a década de 50 proliferou o número de denominações heterogêneas em diversos aspectos, mas unificadas pela mensagem pentecostal, a partir dos anos 2000 os vínculos são menos institucionais e mais midiáticos, menos afetivos e mais político-ideológicos.
4.4.1 Teologia da Moralidade: dos desigrejados aos ciberpentecostais
A proliferação do acesso à internet nas camadas sociais mais pobres do país vem transformando, dentre outras dimensões sociais, as religiosidades que se constituem nesses espaços, como o pentecostalismo brasileiro. Com as mídias digitais, a experiência religiosa tornou-se menos dependente do espaço-templo ou do programa de TV, nem se limita à temporalidade do culto. O fiel define o tempo-espaço de sua adoração, o modo como realiza seu culto, suas práticas, a mensagem ou sermão que deseja ouvir, tudo por meio da internet que disponibiliza esses materiais gratuitamente e, inclusive, propiciando ambientes de socialização religiosa, formação de comunidades que se agrupam de acordo com os perfis e
interesses de cada fiel-internauta. Pela internet, presume-se que minimiza o senso de vigilância do corpo físico, bem como o discurso da manutenção dos costumes tradicionalmente seguidos nas igrejas, também o proselitismo se tornou menos acentuado nas mídias digitais do que na TV e no rádio.
Além dessas transformações, outros aspectos se agregaram, por exemplo, acentuou-se um senso de identificação político-participativo, principalmente, em torno de defesa da moral conservadora. As novas possibilidades de interação pelas mídias digitais potencializaram outras formas do indivíduo continuar sendo religioso, ou mesmo de se tornar religioso sem nem mesmo frequentar templos ou reuniões presenciais:
As igrejas passam a não ter mais o controle do sagrado e da doutrina como tinham antes. A abertura para a participação e para que qualquer pessoa que professe uma fé, vinculada ou não formalmente a uma igreja, manifeste livremente suas ideias, reflexões e opiniões, tirou o controle dos conteúdos disseminados das mãos das lideranças (CUNHA, 2017, p. 31).
Essa realidade atinge em maior escala os pentecostais em trânsito que já vem transformando os indicadores do pentecostalismo brasileiro, aumentando o número de pentecostais sem denominações declaradas, quer dizer, pentecostais sem igrejas, enquanto vem diminuindo o índice de crescimento das grandes denominações pentecostais ou neopentecostais.
O Censo do IBGE em 2010 identificou 25.370.484 pentecostais pertencentes às igrejas, dos quais 12.314.410 se declararam assembleianos, os demais são de muitas igrejas, inclusive, dissidentes das ADs. O grande destaque desse Censo é que além dos declarantes vinculados às igrejas pentecostais, apareceram outros 5.267.029 que se declaram evangélicos de origem pentecostal com filiações diversas, esse número foi o que mais cresceu, pois em 2000 eram 1.840.581. Outro dado interessante é que em 2000, o Censo classificava pentecostais sem vinculação institucional, diferentemente de 2010 quando juntou-se à classificação de evangélicos não determinados, o número passou de 1. 046.487 em 2000 para 9.218.129 em 2010.
As lógicas dos vínculos religiosos não são as mesmas após a proliferação do acesso à internet. A possibilidade de autoconstituir, autoproclamar e autodistinguir enquanto religioso, por meio das mídias digitais, dispensa a filiação institucional. Nessa configuração, grupos diversificados e religiosos autônomos se vinculam ao título pentecostal, mas sem igrejas. Surge uma religiosidade midiatizada alinhada à identidade de referência. Uma complexidade estabelecida na contemporaneidade.
Os veículos digitais não levam as organizações religiosas a alcançar muitas pessoas fora de sua comunidade de fé. Com efeito, as novas mídias são mais utilizadas para a comunicação entre indivíduos já pertencentes a uma comunidade religiosa, ao mesmo tempo que os incentivam a adotar uma postura mais independente em relação às instituições religiosas (HJARVARD, 2014a, p. 140).
Diante desse processo, alguns pesquisadores anunciam o declínio das grandes instituições pentecostais, pois acelerou muito a peregrinação religiosa bem como o número de pentecostal sem instituição. Nas mídias digitais, se fundem as duas figuras emblemáticas do religioso contemporâneo: o peregrino e o convertido (HERVIEU-LÉGER, 2008), das quais demos nota no capítulo 2. No ciberespaço, o convertido não precisa abrir mão de sua peregrinação, ao contrário, a peregrinação pode se transformar numa forma de acentuar a conversão ao afirmar sua identificação em todos os ciberespaços pelos quais peregrina. Emerge o pentecostal fora dos templos, mas presente nos circuitos midiáticos, ou seja, nos espaços de circulação.
A formação do tipo desigrejado, no universo pentecostal brasileiro, em geral, é o reflexo do desapego às grandes instituições, aos grandes templos, aos hiperministérios, consequentemente, os superpastores sentem a dissolução de suas audiências. Os desigrejados são religiosos que deixaram de frequentar os templos por diversos motivos: desaprovação da administração, da estrutura ou da liderança eclesiástica; rejeição à teologia da prosperidade; condenação aos julgamentos e pressão dos demais irmãos quanto ao cumprimento de usos e costumes etc. Esses desigrejados, atualmente, se articulam, sobretudo, pelas mídias digitais, são contrários à institucionalização tradicional religiosa e a favor do retorno ao sagrado, alguns atraem seguidores e formam comunidades virtuais como mecanismo de permanência religiosa. Acreditam na pregação pentecostal, mas não querem prestar contas da sua vida ao pastor ou aos irmãos da igreja.
Outro elemento que se destaca neste processo de “ocupação cristã das mídias digitais” é o espaço conquistado pelos desvinculados do ponto de vista eclesiástico – aqueles das “igrejas não-determinadas”, também chamados “sem-igreja” ou “desigrejados”. Pessoas que professam a fé cristã e que, por alguma razão decidiram pela desvinculação institucional, mas desejam continuar partilhando da fé em comunidade e expressando publicamente reflexões, ideias, experiências, opiniões. Se isso já acontecia no nível presencial com as comunidades alternativas que sempre existiam, com as mídias digitais foi ampliada a possibilidade de encontro e interação dessas pessoas, com a formação de comunidades virtuais. (CUNHA, 2017, p. 32)
Nos espaços das mídias digitais, esses indivíduos se socializam também com outros religiosos frequentadores dos templos ou que estão na mesma condição, sem, portanto, haver maiores cobranças ou constrangimentos quanto ao comportamento pessoal, principalmente, quanto às regras de controle do corpo, uma das maiores preocupações da religião. Vários grupos na plataforma do Facebook, blogs e em outros ciberespaços interativos se constituíram com o título desigrejados, a maioria desses indivíduos são ex-frequentadores de templos insatisfeitos com as lideranças, com o tipo de estrutura organizacional ou com os modos de funcionamento das igrejas. Essas comunidades virtuais congregam um número expressivo desse tipo de religioso, quer dizer, indivíduos que não abandonaram a fé, continuam crendo nos dogmas, possuem comportamento típico de pessoas religiosas, se manifestam publicamente usando discurso e linguagem próprios da religião, mas que não frequentam mais, de forma assídua, os templos ou reuniões em casa, salões, etc.
Esse tipo de religioso não frequentador sempre existiu no Catolicismo brasileiro, a diferença dos desigrejados pentecostais é que surgem de modo articulado na contemporaneidade, quando as mídias digitais possibilitam a capacidade de se integrar às práticas e lógicas de comportamento de comunidades virtuais, constituindo coletivos que se manifestam contra instituições e especialistas religiosos, mas a favor de princípios, valores e dogmas estabelecidos pela religião. A realidade católica brasileira vem se transformando desde a Renovação Carismática que conseguiu atrair mais frequentadores aos templos. Um aspecto importante a ressaltar é que, embora o catolicismo tenha se estabelecido no Brasil como denominação de desigrejados, a maioria celebrava os principais rituais na igreja como batismo e matrimônio, ia às festas católicas e até contribuía com doações às campanhas das igrejas.
Uma das grandes preocupações dos líderes pentecostais com o aumento do número de desigrejados é que as congregações, em sua maioria, se constituem de poucos fiéis financiadores. Nas mídias digitais, exitem outras formas de campanhas de arrecadação, de forma indireta e menos apelativas que nos templos, pois com a visibilidade passam a receber certo controle da comunidade em geral. As Assembleias de Deus, por exemplo, possuem um grande número de templos pequenos sustentados pelos fiéis desde as despesas de manutenção aos salários de seus obreiros.
No artigo Os desigrejados, do Pr. Carlos Roberto Silva, publicado no jornal institucional das ADs, Mensageiro da Paz, em novembro 2016, p. 06, ao tratar sobre esses tipos de crentes sem vínculos aparece a preocupação com a manutenção dos templos,
inclusive o autor chega a tratar os desigrejados como estelionatários da fé dos outros, pois andam em qualquer templo sem compromisso com qualquer comunidade:
Nessas igrejas que existem para que eles participem no dia em que quiserem, há crentes que congregam, são membros, cumprem com suas obrigações, são dizimistas e ofertantes, adoram a Deus, ouvem a Palavra, exortam, são exortadas e vivem uma vida em comunhão, caso contrário não existiria qualquer igreja. (SILVA, 2016, p. 06)
O autor não vislumbra as mídias digitais como espaço em que os serviços do templo já são ofertados, nas quais boa parte de pastores pregam, fazem aconselhamentos, orações, exortações, campanhas de arrecadação etc. As comunidades virtuais de religiosos desigrejados se apropriam do discurso religioso, mas tendem a escapar às lógicas de funcionamento dos templos. Apontamos aqui mais uma transformação na religiosidade pentecostal proveniente do processo de midiatização. Nenhum outro dispositivo midiático conseguiu comprometer a existência dos templos mais que as mídias digitais. A apropriação do rádio e da TV pelos pentecostais modificaram os templos que se sofisticaram e se tornaram templos-shopping, ver Alencar (2013), mas não os tornaram obsoletos como para os desigrejados atuais que encontram nas mídias digitais outros modos e espaços de congregar.
O templo físico é ainda hoje um elemento central no cristianismo, como em diversas religiões, a existência de lugares de culto que, por essa razão, adquirem um significado especial para os seus fiéis. Os primeiros templos judaicos eram tendas portáteis que abrigavam os utensílios reservados aos rituais sagrados. Com a fixação do povo, um santuário foi construído100 e as práticas do culto se regulamentavam conforme esse espaço. No Novo
testamento, Jesus Cristo nunca deu muita importância ao espaço físico, pregava nos montes, nas estradas, às margens dos rios, há bem poucos relatos de sua presença em templos, mas reconheceu e defendeu a santidade do templo, a casa de oração (Mt 21.12-13) no episódio em que se indigna com o comércio no lugar sagrado, quando disse que tal conduta converte o espaço em covil de ladrões. O imperador romano Constantino Magno (Séc. IV d.C.) foi um dos responsáveis pela edificação dos primeiros templos do Cristianismo, reforçando o valor do espaço físico para a adoração: o visual da arquitetura, as sensações cultivadas no ambiente com incenso, velas e música sacra, enfim, cada detalhe passou a ter um efeito místico.
100 Pelos relatos bíblicos, o Templo de Salomão foi o primeiro em Jerusalém, onde ficava a Arca da Aliança e se ofereciam os sacrifícios. Esse Templo foi destruído totalmente por Nabucodonosor II da Babilônia, em 586 a.C. Após essa época, os judeus voltaram e construíram no mesmo lugar um segundo templo, o qual foi destruído pelo imperador assírio Antíoco Epifanes. Em 4 d.C. o Rei Herodes, querendo agradar os judeus reconstruiu o templo, mais oponente que os dois primeiros. Nesse, Jesus pregou e previu sua destruição, que aconteceu de fato em 70 d.C., pelas mãos dos romanos.
O pentecostalismo incialmente, buscando afirmar sua identidade, negou a opulência desses templos e retornou a espaços mais simples, levando a uma redefinição radical da arquitetura religiosa. No Brasil, os templos evangélicos não necessariamente apresentam aparência de igrejas. Inicialmente, os cultos eram realizados nos lares, muito doméstico e simples, o que facilitou o acesso e a boa acomodação das pessoas das classes sociais mais desfavorecidas,
já na medida em que essa igreja começava a construir seus templos, apareceram os lugares diferenciados; a estratificação do trabalho religioso surgia “naturalmente”. A “Dona Maria”, simples negra da periferia, não via mais a sua mesa e a sua toalha sendo usadas como local de culto; agora o local do culto era “sagrado”. E alguns lugares do “sagrado” são mais “sagrados” que outros. Ela, por exemplo, estava assentada em bancos “sagrados”, mas as cadeiras do púlpito são “mais sagradas”, até porque estão num nível físico superior. O púlpito é local dos homens, ou melhor, de alguns homens. Somente os obreiros sentam-se lá (ALENCAR, 2010, p. 149).
A sofisticação dos santuários pentecostais redefiniu o trabalho desenvolvido nessas igrejas. O lugar sagrado, além de espaço do culto, da adoração, é também onde se realizam os sacrifícios. Nos primórdios, os sacrifícios, em sua maioria, se davam com a matança de animais. Na modernidade, os sacrifícios se materializam na doação de ofertas, dízimos e/ou na execução dos trabalhos religiosos. O trabalho missionário é um dos mais priorizados nos templos, ao contrário do que se percebe nas mídias digitais, onde o proselitismo ganha significação de militância em prol de uma moralidade religiosa. O esvaziamento dos templos compromete, portanto, a estrutura do trabalho religioso pentecostal.
Freston (2011), no artigo Como será a igreja evangélica brasileira de 2040?101,
discute a tendência pelas próximas décadas em diminuir o crescimento das igrejas que mais ganharam membros desde 1950, nesse caso, sobretudo as igrejas (neo)pentecostais. Freston trata dessa tendência como se o arrefecimento do crescimento institucional fosse o curso natural de qualquer movimento religioso após atingir um grande número de seguidores. Desse modo, negligencia o contexto em que a sociedade se torna cada vez mais engendrada às lógicas midiáticas. Ainda no artigo, o autor destaca o valor utilitarista atribuído à religiosidade protestante como uma espécie de cultura da barganha que pode ser superada pelo discurso da defesa da religião como causa política: “Ora, uma das maneiras de superar a cultura da barganha é incentivar a dedicação a uma causa (como fazem os movimentos políticos mais
101 Artigo publicado na Revista Ultimato, edição 333, novembro-dezembro de 2011. Disponível em
http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/333/como-sera-a-igreja-evangelica-brasileira-de-2040. Acesso em 16/03/2017.
ideológicos). O problema, neste caso, é a persistência ao longo do tempo, a capacidade de continuar dedicado a ela durante décadas e apesar dos contratempos”.
A substituição da cultura da barganha pela dedicação a uma causa pode ter uma validade temporária, mas é próximo ao que vem acontecendo atualmente, pois o discurso da teologia da prosperidade perde espaço para outro discurso dedicado à defesa da moral compreendida como perdida ou em crise. Essa substituição se mostra com força entre os ciberpentecostais que compartilham publicações e/ou formam comunidades nas mídias digitais, se aproximando por afinidades ideológicas no discurso: trata-se de um novo processo de identificação no pentecostalismo brasileiro. São religiosos pentecostais que atuam ativamente nas mídias digitais com militância em prol de uma moral que ultrapassa os muros institucionais. Como trata-se de uma processualidade independente da regulação institucional, abarca também os desigrejados. O termo ciberpentecostais se encontra aqui em referência à noção de cibercultura de Pierre Lévy enquanto cultura própria da sociedade em interconexão pelos ciberespaços. Segundo Levy (1999, p. 127), a interconexão é o imperativo categórico da cibercultura.
A cibercultura é a expressão da aspiração de um laço social, que não seria fundado nem sobre links territoriais, nem sobre relações institucionais, nem sobre as relações de poder, mas sobre a reunião em torno de centros de