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3. MORALIDADES E RELIGIÃO NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

3.4 SUPEREGO ASSEMBLEIANO: A ASCESE INTRAMUNDANA

O Calvinismo58 foi a principal corrente teológica protestante entre os séculos XVII e XVIII, mas no século XIX em diante o Arminianismo59 passou a prevalecer, devido à influência de grandes teólogos como John Wesley (1703-1791), fundador do movimento metodista, e John William Fletcher de Madeley (1729-1785), ambos oriundos da Igreja Anglicana (igreja oficial inglesa).

Outro fator que alavancou ainda mais o Arminianismo nos séculos seguintes foi o advento do Movimento Pentecostal Moderno, que, devido a suas raízes metodistas via Movimento da Santidade (Holiness), sempre foi, em sua maioria, arminiano. Os pentecostais são o maior grupo evangélico do mundo e o que mais cresce, o que garante que o Arminianismo permanecerá por muito tempo como a principal corrente protestante (DANIEL, Revista Obreiro nº 68. CPAD, 2015).

O pentecostalismo das Assembleias de Deus, no Brasil, tem dupla filiação de origem histórica: metodista, por sua matriz norte-americana, e batista, denominação de origem dos suecos fundadores, Vingrem e Berg. Assim, se formou com forte ênfase na teologia

58 No Brasil, na corrente das protestantes tradicionais, os presbiterianos são os principais seguidores da doutrina de Calvino. Entre os pentecostais, a Congregação Cristã do Brasil é a principal denominação calvinista.

59 O Arminianismo prega que a eleição ou a condenação são decisões de Deus com base em Sua presciência em relação às escolhas futuras das pessoas, mas não significa que por conhecer tudo Deus tenha pré-determinado tudo. Portanto, é contrário à doutrina da predestinação calvinista.

arminiana, que havia se consolidado nos Estados Unidos60. Dessa base teológica tomou a fundamentação necessária para uma rígida doutrina moral e para o proselitismo: “As ADs nascem dentro de uma teologia escatológica arminiana, em que a salvação é para todos; resta, portanto, engajar-se com todo afinco na divulgação de tal mensagem. Daí vem o seu exacerbado proselitismo” (ALENCAR, 2013, p. 162).

O asceticismo intramundano prevaleceu entre as diferentes ramificações protestantes, tanto calvinistas quanto arminianos consideram importante o cristão ter uma conduta de vida regrada, frugal e sem excessos. Weber (2004) afirma ser do Calvinismo a origem da ascese intramundana fortemente valorizada pelos protestantes:

Mas mesmo na realidade do desenvolvimento histórico as coisas eram tais que a forma de ascese do calvinismo, não digo sempre, mas na maioria das vezes, ou foi imitada pelo resto dos movimentos ascéticos ou lhes serviu de termo de comparação e complemento na hora de desenvolver princípios próprios que dela divergissem ou desbordassem. [Onde, apesar de uma fundamentação doutrinal divergente, ainda assim surgiu igual coerência ascética...] (WEBER, 2004, p. 117).

A fundamentação teológica arminiana é divergente quanto à doutrina da salvação instituída por Calvino, no entanto valoriza ainda mais a moral ascética como demonstração de fé e de obediência a Deus, pois acredita que a vida eterna depende da permanência do fiel na doutrina religiosa, podendo ser perdida pela apostasia. Mesmo o arminiano crendo na onipotência de Deus, prega que a vontade de Deus para a salvação de todos pode ser frustrada pela vontade do homem, ou seja, ele pode resistir ou não à vontade de Deus em sua própria vida (livre arbítrio).

O asceticismo foi valorizado pelos crentes assembleianos desde a fundação dos primeiros grupos em 1911: “o discurso da negação do mundo” (ALENCAR, 2010, p. 141). A exacerbação da escatologia produziu nos novos convertidos ao Pentecostalismo, na maioria, pobres, migrantes e analfabetos, um distanciamento abismal com o mundo vaidoso, decadente e culto. Nas primeiras décadas, sob a direção dos missionários suecos, as Assembleias de Deus construíram um padrão moral rígido, funcionava como espécie de sacrifício do qual brota o sofrimento que aproxima os homens de Deus. A única diferença nesse sistema rígido é que os suecos fundadores não proibiam mulheres na direção das atividades, norma que se altera com a liderança brasileira.

60 Um dos teólogos responsáveis pela arminização das igrejas dos EUA foi Charles Finney (1792 a 1875), suas publicações ainda regulam muito da pregação nos dias atuais. Foi um ministro presbiteriano, mas não concordava com o Calvinismo. Os EUA sofreram dois Grandes Despertamentos antes do Avivamento da Rua Azuza: o primeiro na Nova Inglaterra com Jonathan Edwards e George Whitefield; o segundo, promovido por Charles Finney em Ohio, no oeste de Nova York e no oeste da Pensilvânia.

O ministério feminino foi abolido quando os pastores brasileiros assumiram a administração das ADs a partir de 193061. Ainda hoje, nas ADs tradicionais, as mulheres não assumem cargos ministeriais. O pentecostalismo assembleiano nos anos 30 ganhou formato machista e autoritário, conforme o comportamento predominante no Norte e Nordeste do Brasil da época, de onde se originaram as principais lideranças. Esse coronelismo, como tratam alguns estudiosos das ADs, foi reforçado pela dominação carismática62, no sentido weberiano. A postura sexista nas ADs vai repercutir nas normas dos Usos e costumes, das quais trataremos mais a frente.

O tradicionalismo assembleiano marcava uma identificação visível de seus membros, principalmente as mulheres cujas vestes, cabelos, estilo monástico e aspecto de seriedade as faziam reconhecer enquanto crentes ou bíblias. Sobre o meado do século XX, registra:

As ADs já têm uma identidade marcada por uma ascese de abstinência, frugalidade e rigorismo moral; uma conduta de vida, cada vez mais de estilo monacal e isolamento social, com uma leitura subjetivista e literalizada dos textos sagrados (herança pietista), portanto, muito conservadora e de exacerbado moralismo (ALENCAR, 2013, p. 172).

A dominação tradicional-conservadora quanto aos usos e costumes começou a se flexibilizar a partir dos anos 80, quando as ADs e demais igrejas pentecostais começaram a sofrer a ascensão das igrejas neopentecostais: “As igrejas neopentecostais promoveram mudanças nos usos e costumes. Mais que isso, com o aparecimento delas, houve uma verdadeira ruptura na identidade estética, na aparência e santidade pentecostais” (ARAÚJO, 2014, p. 879). Antes de entrar na discussão dessa flexibilização faz-se necessário conhecer os dizeres institucionais do código moral assembleiano.

61 No pentecostalismo norte-americano não havia distinção de gênero quanto ao ministério. No início do século XX, destacou-se Aimee Semple MacPherson (1890-1944) ao liderar um movimento do qual se originou a Igreja do Evangelho Quadrangular. No Brasil, Aimee mantinha correspondência, literalmente, com Frida Vingren, esposa de Gunnar Vingren, cuja biografia revela com esplendor seu papel fundamental na implantação das ADs no Brasil, embora não seja assim retratada ao longo da história da denominação. Frida participava das decisões administrativas e realizava os rituais como qualquer outro pastor, um dos motivos da “expulsão” dos suecos da direção das ADs (1930), seguida da volta da família Vingren à Suécia. Em 1926, no Rio de Janeiro Gunnar Vingren consagra Emília Costa como diaconisa, há outro caso em que Vingren tenha consagrado uma diaconisa em Santa Catarina em 1931, mesmo após a proibição em 1930.

62 “A dominação carismática significa uma rejeição de todos os laços com qualquer ordem externa, em favor da glorificação exclusiva da mentalidade genuína do profeta e herói. Daí, sua atitude ser revolucionária e transpor todos os valores; faz que um soberano rompa todas as normas tradicionais ou racionais: ‘Esta escrito, mas eu vos digo’” (WEBER, 1982, p. 288).

3.4.1 Predomínio da dominação carismática: antiburocratização do código moral

Sem considerar a historicidade do texto, os processos de construção dos efeitos de sentido, é impossível compreender o silêncio (ORLANDI, 2007, p. 45).

Os termos usos e costumes de larga utilização na sociologia ganharam um significado específico no universo linguístico e teológico assembleiano. Nas publicações oficiais das Assembleias de Deus a expressão Usos e costumes tornou-se uma espécie de título das normas morais formalmente postas:

Antonio Gilberto, pastor e teólogo assembleiano, definiu a expressão “usos e costumes”, no contexto religioso, como sendo “uma forma de expressão do testemunho cristão, de comportamento social, de porte e postura do crente e da congregação, confirmando ou comprometendo a doutrina bíblica, a ética cristã e a moral evangélica” (ARAÚJO, 2014, p. 879).

Apesar de desde a fundação das ADs no Brasil (1911) já predominar uma rígida normatização do comportamento, da postura e da conduta intramundana do crente, somente em 1975 houve a oficialização institucional dessas normas. Antes disso, a única tentativa registrada na história das ADs aconteceu quando o Ministério da Assembleia de Deus em São Cristovão, bairro do Rio de Janeiro, criou e publicou uma Resolução (Anexo 01), em julho de 1946, no principal veículo de informação e ensino das ADs, o Jornal Mensageiro da Paz. A iniciativa gerou muitas polêmicas a ponto de a Resolução ser anulada pela Convenção Geral das ADs do Brasil (CGADB). O documento pretendia normatizar o comportamento das irmãs em todo o país, com as seguintes regras:

1. Não será permitido a nenhuma irmã membro desta igreja raspar sobrancelhas, cabelo solto, cortado ou tingido, permanente ou outras extravagâncias de penteado, conforme usa o mundo, mas que se penteiam simplesmente como convém às que professam a Cristo como salvador e rei. 2. Os vestidos devem ser suficientes compridos para cobrir o corpo com todo o pudor e modéstia, sem decotes exagerados e as mangas devem ser compridas.

3. Se recomenda às irmãs que usem meias, especialmente as esposas dos pastores, anciãos, diáconos professoras de Escola Dominical, e dos que cantam no coro ou tocam.

4. Esta resolução regerá também as congregações desta igreja.

5. As irmãs que não obedecem ao que acima foi exposto serão desligadas da comunhão por um período de três meses. Terminando este prazo, e não havendo obedecido à resolução da igreja, serão cortadas definitivamente por pecado de rebelião.

6. Nenhuma irmã será aceita em comunhão se não obedecer a estas regras de boa moral, separação do mundo e uma vida santa com Jesus (DANIEL, 2004, p. 218-219).

É preciso destacar que a primeira tentativa de oficializar normas morais nacionais para os seguidores das ADs surgiu com caráter sexista: um código de conduta moral uniformizador era compreendido pelos homens, os pastores, como necessário às irmãs. Mesmo sendo as mulheres impossibilitadas de assumir cargos importantes nas ADs desde 1930, regras eram impostas com justificativa de que “a mulher é a parte mais fraca e mais facilmente tentada pela vaidade” (Trecho da Resolução de 1946) e, por isso, seriam a porta de entrada do espírito de mundanismo nas igrejas. Combater o espírito de mundanismo não tem nenhuma relação com deixar de cumprir às tarefas do mundo: ser trabalhador, pagar impostos e cumprir os deveres cívicos: “diz respeito ao que é mundano e põe em risco a salvação, as esferas da sexualidade e do lazer são consideradas as mais perigosas” (ARÁUJO, 2014, p. 889). A polêmica Resolução gerou intenso debate na Convenção Geral de 1946, ocorrida em Recife, ao cabo de ser revogada. Pelos relatos de Isael de Araújo (2014) a polêmica em torno de um código moral mais firme às irmãs tem como real motivação a disputa entre a Igreja de São Cristovão e a de Madureira63, ambas do Rio de janeiro, mas com lideranças distintas e independentes64:

Comentários da época dão conta de que as resoluções foram influenciadas pelas críticas da Assembleia de Deus de Madureira, que era muito rígida na área de costumes. Naquela época, os crentes de Madureira, que já observavam todas aquelas regras mencionadas na polêmica resolução, consideravam as mulheres da Igreja de São Cristovão muito ‘liberais’ em sua forma de vestir-se e pentear-se (ARÁUJO, 2014, p. 880).

Assim como as igrejas neopentecostais são responsabilizadas, em boa medida, pela flexibilização atual da moral assembleiana, a Igreja de Madureira foi responsabilizada pela misoginia dos usos e costumes das ADs, principalmente porque tinha uma liderança ativa de formação militar: o Pastor Paulo Leivas Macalão, líder das ADs de Madureira até 1982, era fruto de uma educação com fins na carreira militar, somente interrompida por sua vocação religiosa. Por conta do caráter ultraconservador, as ADs ainda carregam muitos reflexos dessa mentalidade: uma visão sexista de supremacia e de controle do macho sobre os demais membros da família ou do grupo. Traços desse comportamento são observados ainda hoje.

63 Na história das ADs os representantes do Ministério Madureira eram os mais conservadores quanto às normas de usos e costumes, tendo como figura importante o Pastor Paulo Leivas Macalão, seu fundador e presidente até 1982 quando faleceu. Em 1989 a CGADB excluiu de seu rol o Ministério Madureira e todos os seus afiliados. 64 Em 1929 Paulo Leivas Macalão dirigia um grupo de crentes ligados a AD do bairro São Cristovão. Em 1930, Macalão foi ordenado a pastor por Gunnar Vingren e, em 1931, formou a AD de Bangu (RJ), que em 1933 tornou-se a AD de Madureira. Araújo (2014, p. 33) cita que o próprio Vingren tornou a igreja dirigida por Macalão independente da igreja de São Cristovão antes de sua volta à Suécia, embora só tenha autonomia jurídica em 1941.

Em nossa pesquisa, indícios desses discursos pré-construídos se revelam nas narrativas dos indivíduos entrevistados, sobretudo, quanto às relações familiares.

Embora de caráter extraoficial, o código moral revogado em Recife (1946) foi seguido pelas ADs, em geral, que já possuíam muitas outras Resoluções regulamentando a postura da igreja e a conduta do crente, tanto dentro da igreja como em atividades fora do ambiente religioso, sancionadas desde 1930 pela CGADB. A prova de que um código moral era construído e/ou aperfeiçoado para aplicação de caráter nacional pelas ADs, mesmo sem sua sistematização burocrática, deu-se com a oficialização em 1938 do sistema de disciplina65:

documento que regulamentou as sanções para quem desobedecesse ao código invisível, mas eficaz nas ADs. A Resolução sobre disciplina (1938) é válida até hoje, pela qual se aplica correção e repreensão: adverte e/ou exclui do rol de membros os culpados de algum pecado ou desobediência às normas. Apesar de uniformizar as sanções, a resolução não normatiza para todo país os motivos e períodos de afastamento, ficando a critério de cada líder local. O código moral assembleiano é, até o momento, invisível, visto que não se trata de um domínio burocrático, mas carismático, de obediência ao líder, sem contar com os mecanismos formais, comprovando o sucesso do carisma, como trata Weber:

O carisma só conhece a determinação interna e a contenção interna. O seu portador toma a tarefa que lhe é adequada e exige obediência e um séquito em virtude de sua missão. Seu êxito é determinado pela capacidade de consegui-los. Sua pretensão carismática entra em colapso quando sua missão não é reconhecida por aqueles que, na sua opinião, deveriam segui-lo. Se o aceitam, ele é o senhor deles — enquanto souber como manter essa aceitação, “provando-se”. Mas não obtém seu “direito” por vontade dos seguidores, como numa “eleição”, mas acontece o inverso: é o dever daqueles a quem dirige sua missão reconhecê-lo como seu líder carismaticamente qualificado (WEBER, 1982, p. 285).

Exercendo a liderança carismática cada pastor criava, reformulava e valorava as regras comportamentais a serem seguidas pelo rebanho, muitas de modo bastante radical. Esse caráter pessoalíssimo dos líderes sempre foi acompanhado de uma estrutura hierárquica tanto na administração quanto nos aspectos teológicos e doutrinários. Não há consenso qual modelo eclesiástico é seguido nas ADs, no entanto, em geral, as igrejas são vinculadas a alguma estrutura ministerial66. Apesar de compor uma estrutura hierárquica e, portanto, bastante

65 Segundo Weber (1982, p. 293) “somente mediante a disciplina se converte a conservação do prestígio estamental e a estereotipação de seu modo peculiar de viver em algo que foi consciente em grande parte e racionalmente desejado”, acrescenta que “um herói carismático pode fazer uso da disciplina da mesma forma, e na verdade terá de fazê-lo se desejar continuar expandindo sua esfera de domínio”.

66 “No decorrer do tempo, as ADs, não deixando de ser congregacionais, passaram a mesclar o modelo episcopal com o presbiteriano. Atualmente, é comum a figura do pastor-presidente parecer-se com um verdadeiro bispo

racionalizada, havia uma enorme dificuldade na discussão do tema Usos e costumes: muito divergente, muitas vezes, os debates produziam graves desentendimentos entre os pastores. Os pastores, muitas vezes, por falta de normatização nacional e/ou superior, extrapolavam na rigidez das normas de usos e costumes em suas respectivas congregações.

Após a polêmica Resolução de 1946, houve um silêncio institucional sobre o tema por cerca de três décadas, embora as discussões continuassem a ocorrer nos bastidores da CGADB. Esse silêncio pode ser atribuído ao artigo/resposta produzido pelo missionário sueco Samuel Nyströn, publicado no jornal Mensageiro da Paz, por determinação da própria CGADB a fim de invalidar a Resolução de São Cristóvão. O artigo intitulado Dando lugar à operação do espírito, publicado em janeiro de 1947 (Anexo 02), inicia-se interpretando a burocratização das normas morais como gesto violento “devemos lembrar-nos que não se consegue fazer a obra do Senhor por força nem por meios violentos, resoluções ou imposições” (DANIEL, 2004, p. 223). Colocar no mesmo paradigma de significação meios violentos e resoluções leva-nos a compreender a burocratização regimental da conduta assembleiana como violência simbólica, conforme definiu Bourdieu (1989, p. 11), ou seja, por meio da comunicação e do conhecimento estruturam-se instrumentos de imposição ou de legitimação para a domesticação dos dominados. Esse artigo adquiriu valor maior ou igual às Resoluções da CGADB, pois tornou-se referência nos ensinamentos da conduta moral do crente.

Negar a burocratização das normas morais pode ser mecanismo de valorização das lideranças carismáticas das ADs. No entanto, os efeitos de sentido do artigo-resposta repercutiram para acirrar o interesse de autonomia dos pastores brasileiros, processo iniciado nos anos 30, aflorado com a independência da AD de Madureira (1931) que logo se espalhou pelos subúrbios do Rio de Janeiro e outros estados. As igrejas da missão, quer dizer, as dirigidas pelos suecos eram menos rígidas quanto às vestes, penteados e coisas do tipo que as Igrejas de Madureira, que se dizia “a verdadeira Assembleia de Deus brasileira” (DANIEL, 2004, p. 224). Como se pode observar, o tema Usos e costumes trouxe à tona as disputas de poder: não era apenas questão de concorrência entre as ADs cariocas dos bairros de São Cristovão e Madureira, mas a mudança de poder entre líderes suecos e brasileiros. A padronização comportamental sexista foi um dos pretextos das disputas internas de poder que redimensionaram a estrutura eclesiástica das ADs na primeira metade do século XX.

regional. Nas Assembleias de Deus também há traços do modelo presbiteriano, com as convenções regionais ou nacionais. As Assembleias de Deus, portanto, não têm um modelo eclesiástico puro” (CORREA, 2013, p. 92).

3.4.2. O uso da TV: novo pretexto para oficialização do código moral assembleiano

Na década de 60 e na primeira metade dos anos 70, novas discussões acaloradas sobre o comportamento da igreja e dos crentes voltam às pautas da CGADB, as maiores polêmicas se deram quanto ao uso das novas mídias, rádio e televisão (sobre o uso dessas mídias especificamente trataremos com maior atenção no capítulo 5). Destacamos aqui o fato do uso dessas mídias ser enquadrado nas legislações assembleianas dentro do tema Usos e costumes, ou seja, integra o código moral institucionalmente criado e seguido.

No início da segunda metade do século XX, a chegada da televisão no Brasil mobilizou a necessidade de sistematizar e oficializar um código de conduta moral para todos os assembleianos, que resultou no documento histórico conhecido como Resolução de Santo André (ver Anexo 03b), apresentado em 1975, na cidade de Santo André (SP), quando foi aprovado sem grandes polêmicas, diferentemente de 1946. Não houve polêmicas na aprovação dessa Resolução, porque a mesma oficializou normas já seguidas, conhecidas e debatidas por mais de quatro décadas da CGADB:

(...) a Convenção Geral, deliberou pela votação unânime dos delegados das igrejas da mesma fé e ordem em nosso país, que as mesmas igrejas se abstenham do seguinte:

1) Uso de cabelos crescidos, pelos membros do sexo masculino;

2) Uso de traje masculino, por parte dos membros ou congregados, do sexo feminino;

3) Uso de pinturas nos olhos, unhas e outros órgãos da face;

4) Corte de cabelos, por parte das irmãs (membros ou congregados); 5) Sobrancelhas alteradas;

6) Uso de minissaias e outras roupas contrárias ao bom testemunho da vida cristã;

7) Uso de aparelho de televisão, convindo abster-se, tendo em vista a má qualidade da maioria dos seus programas, abstenção essa que se justifica, inclusive, por conduzir a eventuais problemas de saúde;

8) Uso de bebidas alcoólicas (DANIEL, 2004, p. 438-439).

Como observado nas duas Resoluções, de 1946 e de 1975, quanto às proibições, a mudança é mais pela linguagem dissimulada: substituiu-se a expressão como “Não será permitido a nenhuma irmã...”, por “que as mesmas igrejas se abstenham do seguinte”. Foi inserida uma única regra específica aos homens da igreja, para não dizer que é uma resolução