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2. MILAGRE DA MULTIPLICAÇÃO RELIGIOSA NA SOCIEDADE

2.4 MOVIMENTOS RELIGIOSOS NO BRASIL ATUAL: EIS QUE TUDO SE

Ao longo do processo de constituição da nação, problemas advindos de uma colonização perversa se instauraram sem horizontes de solução: desigualdades na distribuição das riquezas e na exploração da terra, discriminação e violência contra índios, negros, mulheres, pobres, nordestinos, dentre outros grupos, continuam a marcar conflitos por poder e pela manutenção da concentração da riqueza. Com a globalização a favor da economia neoliberal, aumentou a impotência de uma massa de trabalhadores rurais sem terra e marginalizados frente às exigências de vida das metrópoles:

Em termos públicos, o fenômeno recebe o nome de globalização, mas politicamente coincide com a ideologia do ‘neoliberalismo’, uma plataforma econômico-político-social-cultural, empenhada em governo mínimo, fundamentalismo de mercado, individualismo econômico, autoritarismo moral e outros (SODRÉ, 2011, p. 14).

A necessidade de sobrevivência diante da primazia suprema do mercado fragmenta ainda mais a sociedade civil, pois os cidadãos se limitam aos seus desejos, concentram-se em seus problemas se anulando da política e não se culpam por não participar da esfera pública, ou quando participam é mais por interesses pessoais.

Nesse cenário onde a realização se limita ao consumismo, multiplicam-se problemas ocasionados pela falta de emprego, tais como violência, criminalidade, crime organizado e tráfico de drogas. A descrença no Estado gera insegurança quanto à validade da democracia. Essas condições sociais produzem novas formas de exploração e violência, como o desapego à cultura de origem e a reprodução da cultura dos ricos, a inspiração de vida torna-se oriunda de países ricos economicamente. Diante desse quadro, a unidade que interessa é a que se aproxima do modo consumidor de ser, ou seja, toda diversidade torna-se bem-vinda na medida em que se torna mercadoria. A pluralidade é aceitável desde que crie nichos de mercado e gere lucro. Esse modo de existência atinge os diversos campos sociais, na religião há a proliferação de instituições, igrejas e seitas, novas formas de culto e práticas híbridas, novos movimentos e grupos surgem a cada dia. O próprio Catolicismo sofre o efeito do surgimento de correntes que criam divisões em seu interior.

Oliveira (2013, p. 132) aponta três possibilidades de interpretação dos novos movimentos religiosos: a busca da felicidade na terra que caracteriza uma religiosidade sem Deus, espécie de novo humanismo; a busca por cura corporal e espiritual diante da incapacidade do sistema em oferecer paz e segurança; a busca pelo Absoluto, sagrado, transcendente e ilimitado, que fascina a humanidade frágil e limitada, promovendo reavivamento do caráter mistagógico. Jessé Souza (2012) faz a relação desses novos movimentos, em especial do Pentecostalismo, com um habitus34 exigido pelo espírito capitalista atual: os batalhadores, isto é, a classe trabalhadora:

No caso do batalhador pentecostal, parece ficar bem claro que a busca do futuro melhor não é uma decisão individual, mas sim uma crença coletiva incorporada “como se fosse individual”. O “ponto cego” da visão liberal sobre o self-made man é justamente a produção coletiva dessa crença (SOUZA, 2012, p. 326).

Acostumados a ver a presença do Transcendente em tudo, o brasileiro se identifica com o pensamento mágico do culto pentecostal. Para os batalhadores pentecostais, o demônio é o principal inimigo, as dificuldades da vida são batalhas de uma suposta guerra espiritual. Nesse sentido, o indivíduo isenta a si e à sociedade da culpa pelo fracasso e pelas mazelas, que ficam a cargo da ação do demônio cujas ações enganam o homem a ponto de realizar

34 Noção desenvolvida por Bourdieu. “Habitus: sistema aberto de disposições, ações e percepções que os indivíduos adquirem com o tempo em suas experiências sociais (tanto na dimensão material, corpórea, quanto simbólica, cultural, entre outras). (...) Segundo Maria Drosila Vasconcelos, trata-se de ‘uma matriz, determinada pela posição social do indivíduo que lhe permite pensar, ver e agir nas mais variadas situações. O habitus traduz, dessa forma, estilos de vida, julgamentos políticos, morais, estéticos. Ele é também um meio de ação que permite criar ou desenvolver estratégias individuais ou coletivas’”. Pequeno glossário da teoria de Bourdieu.

prodígios e curas no seio das próprias religiões, sobretudo nas mediúnicas, alvos de depreciação por esses religiosos. A arma mais eficaz contra as ações do demônio, conforme se enfatizam nos sermões, é o fiel se tornar dizimista e consequentemente ser próspero, gerar seu próprio negócio e passar de empregado a empreendedor, ou seja, a realização financeira tornou-se a grande meta da maior parte dos trabalhadores pentecostais. A benção celestial é medida pela capacidade de prosperar financeiramente, assim como as igrejas mais disputadas são as que conseguem arrecadar mais ofertas. Enfim, o pentecostalismo é um tipo de religiosidade que a cada dia vem melhor se ajustando ao modo de vida atual.

Os dois movimentos mais expressivos do pentecostalismo no Brasil hoje são a Renovação Carismática Católica e o neopentecostalismo evangélico. A forte aceitação ao pentecostalismo pode ser atribuída a alguns fatores, dentre os quais destacamos os traços de uma religiosidade acolhedora, mágica e de valorização da experiência sobrenatural cujos elementos promovem rupturas e ao mesmo tempo trazem continuidades de uma religiosidade matricial anterior ao Cristianismo (CAMPOS, 2012, p. 146). Elementos e visões de uma religiosidade arcaica negada pelo tradicionalismo são retomados em uma efervescência, o que nos faz considerar a questão levantada:

Que relação podemos estabelecer entre a mentalidade e o crescimento pentecostal, de um lado, e os resquícios pré-cristãos existentes em nossas culturas, de outro, que valorizam a cura do corpo, a origem espiritual das doenças, o holismo, o transe, o uso da magia e a fácil tendência ao sincretismo, ao hibridismo ou à bricolagem? (CAMPOS, 2012, p. 145).

O retorno dessa religiosidade mágica aparece como um mecanismo de negar a racionalidade postulada na modernidade como possível salvação da sociedade atual. O transe e o êxtase espiritual funcionam como espaços de liberação das tensões do mundo real. No caso dos novos movimentos religiosos, em especial, o Pentecostalismo soma um modo de ser religioso conciliador de uma espiritualidade mágica perdida pela racionalidade com o modo de existência válido conforme os parâmetros capitalistas vigentes. O pentecostalismo brasileiro surgiu em meio ao processo de urbanização do país enquanto uma alternativa capaz, em certo modo, de ajustar as massas de imigrantes marginalizados nos subúrbios metropolitanos ao novo contexto, proporcionando a essas comunidades vivências próximas às do mundo rural. Diante das precárias condições no enfrentamento de uma vida nova, da falta de escolarização, das discriminações, da inexistência de assistência governamental e de um catolicismo alheio, os pentecostais encontraram um terreno fértil.

Até meados do século XX, os pentecostais eram majoritariamente negros, pobres e sem escolaridade que preservava, sem maiores conflitos, o ascetismo e o sectarismo defendidos por essas igrejas, um paradoxo perante o papel de integrador social urbano na medida em que desvalorizavam a modernização e levavam o crente a se abster das coisas do mundo. O fiel desse período acreditava que para se preparar para a volta de Cristo era preciso se manter afastado do mundo, se reservando ao máximo. Aos poucos, essa visão conservadora vem sendo abolida e dando lugar ao discurso neopentecostal dentro das igrejas pentecostais, mais veemente nas últimas décadas, reafirmando a função integradora do pentecostalismo às configurações do mundo ocidental capitalista contemporâneo:

Isso mudou radicalmente nas últimas décadas, no seio do que se chama “neopentecostalismo”, onde a questão central é a libertação do diabo e a consecução da prosperidade financeira, da saúde e o triunfo nos empreendimentos no seio da sociedade moderna, que cada vez mais atrai os fiéis com suas promessas de consumo, de serviços de crédito ao consumidor, de apelos da moda e das opções de lazer produzidas pela indústria cultural (OLIVEIRA, 2013, p. 121).

O discurso neopentecostal reconfigura o modo como essas comunidades se estabelecem socialmente, pois o fiel hoje não precisa resistir às imposições do contexto atual, urbano e extremamente consumista: o fiel pode e deve conquistar as riquezas terrenas e usufruir de seu gozo com a tranquilidade de quem faz tudo de acordo com a vontade de Deus. Nesse sentido, a pobreza representa falta de Deus. O enriquecimento pretendido pela maioria excluída tem legitimidade na religiosidade de base teológica na prosperidade enquanto sinônimo de espiritualidade. Embora o processo de modernização do país tenha cerca de um século, os índices de miséria somente se reduziram nos últimos anos, ou seja, muitas pessoas vivem ainda em situação de pobreza extrema e encontram no discurso da prosperidade impulso de inclusão paralelo ao aumento de capacidade de consumo de bens materiais e industrializados, resultado de avanços na luta contra a desigualdade social, dos governos de esquerda, com maior número de benefícios nos programas sociais.

Nessa neo postura diante do mundo, o pentecostalismo ampliou seu público e busca espaços de poder na sociedade, como ressalta Oliveira (2013, p. 123): “Trata-se de grupos anti-intelectuais e antiecumênicos, cujo objetivo básico é, mediante a conversão individual, a pregação da moral cristã e o uso da mídia e do exercício de mandatos políticos, restabelecer a dominação cristã no Estado e na vida privada”. O que o autor destaca é o interesse dessa nova religiosidade em atender às demandas dos indivíduos hedonistas e consumistas em detrimento de qualquer pensamento comunitário ou de transformação social. Se entre os anos 50 a 70 o

surto de conversão das igrejas tradicionais em pentecostais, a renovação, atingiu o cristianismo brasileiro, a partir dos anos 90 a conversão das pentecostais em neopentecostais redefiniu-o mais uma vez, sobretudo o protestantismo:

A conversão neopentecostal deixou de implicar uma mudança cultural profunda em relação ao ambiente cultural vigente. Ela renuncia a controlar o tipo de corte de cabelo de seus fiéis, a padronizar seu vestuário e aparência, desiste de impor limite ao prazer e na busca do prazer. Numa palavra, para sobreviver num país altamente secularizado, como é o Brasil de hoje, as igrejas pentecostais optaram por abrir mão de preceitos, valores, tradições, tabus e interpretações do cristianismo que se tornaram disfuncionais e anacrônicos para a sociedade atual. (OLIVEIRA, 2013, 124).

Um século depois, o pentecostal brasileiro do século XXI tem pouco daquele fiel de terno e/ou saias longas, principalmente, no que diz respeito aos costumes e comportamentos. A principal mudança desses religiosos advém da ânsia do gozo terreno, própria da sociedade de hiperconsumo (LIPOVETSKY, 2007). Assim, acreditam que devem e podem usufruir as graças sem precisar ir além-vida, ou seja, apaga-se a oposição entre plano divino e temporal.

2.5 MOVIMENTO PENTECOSTAL: DAS ORIGENS NORTE-AMERICANAS AO