3 CICLOS ECONÔMICOS EM SCHUMPETER
3.3 Ciclos em Schumpeter
3.3.3 Ciclos Simultâneos
Em Business Cycles Schumpeter introduz uma “terceira aproximação” de sua teoria dos ciclos econômicos, por entender que não há nenhuma razão pela qual o processo cíclico de evolução deva resultar em apenas um movimento oscilatório, mas justamente ao contrário, pois, de acordo com Schumpeter (1939, p.169) “there are many reasons to expect that it will set into motion an indefinite number of wavelike fluctuations which will roll on simultaneously and interfere with one another in the process”.
A terceira aproximação consiste em um esquema de três ciclos. Segundo Possas (1987) o número 3 não é essencial, mas é uma conveniência, por se tratar do maior número tratável analítica e estatisticamente e o menor aceitável como explicação dos fenômenos reais pertinentes aos ciclos. Todavia, o autor aponta que o mais importante para Schumpeter, sobre
essa proposição é apontar “a existência de diversos movimentos cíclicos” (POSSAS, 1987, p. 189, grifo do autor, nota).101
No menor dos três ciclos, o ciclo de Kitchin, Schumpeter (1939, p. 178) “leave open
the possibility that Kitchins are merely fluctuations of the adaptive type”.102 Por sua vez, Possas (1987) afirma que “Schumpeter atribui claramente aos [outros] dois o caráter de ciclos de inovação, a que se aplicaria sua teoria anterior sem reservas” (POSSAS, 1987, p. 189).
Schumpeter justifica a inclusão da possibilidade de diversos ciclos com diferentes periodicidades gerados a partir de uma inovação principal por meio das seguintes proposições. Em primeiro, devido à razão da imprevisibilidade relacionada aos processos de gestão e de absorção da inovação pelo sistema. Então, se segue que:
if innovations are at the root of cyclical fluctuations, these cannot be expected to form a single wavelike movement, because the periods of gestation and of absorption of effects by the economic system will not, in general, be equal for all the innovations that are undertaken at any time. […] This at once suggests both multiplicity of fluctuations and the kind of interference between them which we are to expect. (SCHUMPETER, 1939, p.173)
Em segundo lugar, Schumpeter considera que “determinadas inovações podem produzir ciclos de uma mesma ‘família’, que configuram um ciclo maior definido por essa mesma ‘família’ e não por si mesmo” (POSSAS, 1987, p. 189). Schumpeter distingue o primeiro do segundo tipo de ciclos, afirmando que “there [no primeiro] we had a multiplicity of cycles each of which was an independent entity. Here we have a sequence of cycles of one type only, and the cycle of higher order is but a product or composite of these and has no existence of its own” (SCHUMPETER, 1939, p.175). “O ciclo maior pode ser uma identidade autônoma, que se desdobra em ciclos menores interdependentes e sucessivos.” (POSSAS, 1987, p. 189).
De acordo com Possas, Schumpeter “refere-se ainda a outras causas de flutuações, mas que servem quando muito para complementar o quadro, nada acrescentando de substantivo” (POSSAS, 1987, p. 189). Tais causas serviriam, “para descartar explicações alternativas dos ciclos – em particular as de ‘ciclos automáticos’, característicos da estrutura” (POSSAS,
101 Possas destaca também que “apenas como ajuste conveniente, também é suposta uma relação inteira entre
suas periodicidades médias” (POSSAS, 1987, p. 189) isto, por sua vez, quer dizer que “cada Kondratieff contenha seis Juglar e cada um destes três Kitchin” (POSSAS, 1987, p. 189, nota). Tendo em vista que Kondratieff é o ciclo longo (50-60 anos); o médio ou Juglar é (9-10 anos) e Kitchin (40 meses). (POSSAS, 1987).
102
Em nota no Business Cycles (SCHUMPETER, 1939, p. 178, nota): “Later in life, Schumpeter entirely abandoned the idea that Kitchins could be explained by his theory.−Ed.]”
1987, p. 189, nota). Portanto, abster-se-á de tratar extensivamente essas outras causas,103 tendo em vista que os aspectos fundamentais da teoria dos ciclos de Schumpeter – que são os necessários para essa dissertação − já foram explorados ao longo do capítulo.
Então, resumindo o foi posto ao longo do capítulo, pode-se afirmar que os ciclos econômicos, segundo a visão de Schumpeter, partem de inovações realizadas na esfera real produtiva da economia. Os efeitos da produção e propagação dessa inovação promovem a
prosperidade do sistema (desenvolvimento/evolução). A crise e a depressão – especialmente
essa ultima − representam o processo pelo qual a economia se ajusta às novas condições, tendendo a uma situação próxima ao equilíbrio, por meio do processo de recuperação, que é a quarta fase do ciclo schumpeteriano. Assim, é possível afirmar que, em Schumpeter, as fases de prosperidade, crises, depressões e recuperações caracterizam os ciclos econômicos e, por conseguinte, as flutuações irregulares. Essas, por sua vez, são elementos que fazem parte da dinâmica intrínseca de evolução (ou desenvolvimento) do sistema capitalista, caracterizando, portanto, um sistema endogenamente instável104 que sofre modificações recorrentemente, uma vez que para Schumpeter o desenvolvimento/evolução da economia capitalista assume a forma de comportamento cíclico.
A esse respeito Possas (1987, p. 174) coloca o seguinte:
Na medida em que esse impulso tenha raízes sólidas na própria atividade capitalista, o desenvolvimento, oriundo das inovações, também é um fenômeno interno, endógeno ao sistema capitalista, embora se apresente como necessariamente extrínseco ao fluxo circular. Para Schumpeter, o processo de inovação é um ‘processo de mutação industrial [...] que incessantemente revoluciona a estrutura econômica desde o seu interior, destruindo incessantemente a antiga, criando incessantemente uma nova. Esse processo de destruição criadora é o fato essencial a respeito do capitalismo’.
Portanto, uma das conclusões primordiais da teoria de Schumpeter é de que a economia capitalista é o tipo de sistema que se renova constantemente, instituindo novos modos de produzir e comercializar, bem como novos produtos, de forma idiossincrática, em função da oportuna busca dos empresários por lucros, que os motiva a inserir as inovações no mercado.105
103 Para um maior detalhamento dessas causas, conferir o original: Schumpeter (1939).
104 Carvalho tem uma visão diferente sobre essa questão, por entender que as inovações são exógenas ao sistema
e, por isso, a teoria dos ciclos de Schumpeter estaria dentro das teorias de propagação, conforme citação: “A versão mais influente de uma teoria dos ciclos por propagação se deve a Schumpeter (1934 e 1939). Em sua teoria a perturbação exógena é dada por uma inovação, a qual impactará uma economia que se supõe estar em estado de repouso, ou, como propôs o autor, em estado de equilíbrio geral” (CARVALHO, 1988, p. 748). Todavia, a visão que será adotada nessa dissertação é a que Possas (1987) defende: de que a inovação em Schumpeter é endógena e, portanto, os ciclos por ela motivados são endógenos.
Do ponto de vista metodológico tornou-se claro, ao longo de todo capítulo, em especial a primeira parte – em que se discutiram os fundamentos de sua abordagem – a originalidade de Schumpeter com relação aos conceitos empregados, bem como sua metodologia de análise, instrumentos, em grande parte, desenvolvidos por ele próprio.
Para finalizar o capítulo será empregada uma citação presente no texto “A instabilidade do capitalismo”,106
de Schumpeter (2010, p. 36, grifo do autor):
Resumindo a argumentação, e aplicando-a ao assunto em questão, vemos que existe realmente um elemento no processo capitalista, incorporado no tipo e na função do empresário, que – na ausência de impulsos ou distúrbios externos e mesmo de “crescimento” – destruirá, de dentro para fora e pelo seu simples funcionamento, qualquer equilíbrio que possa ter-se estabelecido ou que esteja em processo de estabelecer-se.
O elemento incorporado na função do empresário que o autor deseja destacar é a busca incessante de lucros, via concorrência, expressa por meio do fenômeno fundamental da vida econômica: a inovação; configurada como a raiz dos ciclos econômicos.
106 Este artigo foi originalmente publicado no The Economic Journal, v. XXXVIII, n. 151, Sept. 1928.
Posteriormente publicado na Revista Literatura Econômica, volume 6, de março/abril de 1984. E re-publicado em “Clássicos de literatura econômica : textos selecionados de macroeconomia.- 3. ed.- Brasília : Ipea, 2010.” Texto a partir do qual toma-se referência aqui.
4 CICLOS ECONÔMICOS EM MINSKY
Hyman Philip Minsky (1919-1996) foi um dos maiores especialistas em teoria monetária e financeira da segunda metade do século XX (LOURENÇO, 2006). O economista pós-keynesiano formulou sua Hipótese de Instabilidade Financeira (doravante, HIF), mostrando que economias capitalistas em expansão são inerentemente instáveis e propensas a crises, desse modo, sua hipótese contribui também para a explicação dos ciclos econômicos.
Conforme discutido no capítulo anterior, Schumpeter desenvolve sua análise dos ciclos econômicos com base nas inovações ocorridas nos mercados de produtos não financeiros. Minsky, por sua vez, elabora sua interpretação dos ciclos a partir das inovações advindas da dinâmica dos fenômenos monetários presentes nas economias capitalistas financeiramente sofisticadas. O princípio central da organização de sua teoria está calcado na já citada HIF, à qual se subjaz o paradigma de Wall Street, cujo sentido encerra a pedra angular de toda sua análise: a primazia e a centralidade absoluta das relações financeiras sobre o entendimento de quaisquer fenômenos numa economia capitalista financeiramente sofisticada.107
Lourenço (2006, p. 02) aponta as seguintes contribuições de Minsky à agenda:
a) uma interpretação “financeira” da Teoria Geral (Minsky, 1975a, cap. 1) e uma crítica da interpretação convencional desta (Minsky, 1975a, cap. 2; 1986, cap. 6); b) uma contribuição teórica fundamental, a hipótese de instabilidade financeira (Minsky, 1975a, cap. 4-6; 1982a, vários capítulos e 1986, cap. 7-9) e outras subsidiárias, como sua teoria da inflação (Minsky, 1986, cap. 11); c) contribuições sobre dinâmica institucional, p.ex., análise da atividade bancária (Minsky, 1986, cap. 10), das inovações financeiras (Minsky, 1957a) e dos bancos centrais (Minsky, 1980a); d) contribuições à reconstituição histórica e interpretação das crises financeiras estadunidenses e mundiais, da Grande Depressão dos anos 1930 às do início dos anos 1990 (1986, cap. 2-4); e e) contribuições normativas, abarcando desde uma proposta bastante ampla de reformulação de toda política econômica e social (por exemplo, Minsky, 1975a, cap. 9; 1986, caps. 12-13) até questões pontuais, como o exame dos bancos pelas autoridades regulatórias (Minsky, 1975b).108
107
“[…]if financial relations and organizations significantly influence the course of events, then the established economic theory does not furnish an underpinning for the proposition that coherence results from the type of decentralized market economies that exist. In fact, the Wall Streets of the world are important; they generate destabilizing forces, and from time to time the financial processes of our economy lead to serious threats of financial and economic instability […]” (MINSKY, 2008, p. 04, cap. de Introdução).
108 As referências presentes na citação são, em ordem de aparecimento: MINSKY, H. John Maynard Keynes.
New York: Columbia University Press, 1975a; MINSKY, H. Stabilizing an unstable economy. New Haven: Yale University Press, 1986; MINSKY, H. Capitalist financial processes and the instability of capitalism. Journal of Economic Issues, n. 14, Jun. 1980b. Reimpresso em Minsky (1982a); MINSKY, H. Central banking
and money market changes. Quarterly Journal of Economics, n. 71, May 1957a. Reimpresso em MINSKY, H. Can it happen again? Essays on instability and finance. New York: M.E. Sharp, 1982a; MINSKY, H. The Federal Reserve: between a rock and a hard place. Challenge, n. 23, May-Jun. 1980a. Reimpresso em Minsky
(1982a); MINSKY, H. Suggestions for a cash-flow oriented bank examinations. Proceedings of a Conference on Bank Structure and Competition. Chicago: Federal Reserve Bank of Chicago, 1975b.
Todavia não está incluso no objetivo do capítulo, nem mesmo dessa dissertação, estudar a diversidade dos temas desenvolvidos pelo economista. O objetivo aqui é: i) examinar os pressupostos teóricos, a metodologia de análise e a teoria de Minsky, à
semelhança do que foi feito no capítulo anterior, com a teoria de Schumpeter109 e, a partir daí,
ii) observar como os ciclos são engendrados no sistema econômico capitalista e o papel que inovação exerce nesse processo; sendo que o estudo desses dois pontos tem por pano de fundo a HIF, desenvolvida pelo próprio Minsky, assim como o desenvolvimento/evolução está para Schumpeter. Para tanto, os livros de maior referência serão John Maynard Keynes e Stabilizing an Unstable Economy, bem como seu artigo seminal sobre inovação Central Banking and Money Market Changes (1957). O primeiro livro trata diretamente da construção dos pressupostos teóricos a partir da interpretação e crítica da TG e o segundo, a obra clássica do autor, lida diretamente com a HIF.
Com a finalidade de facilitar a exposição, o capítulo será dividido nas seguintes seções: 4.1 Crítica de Minsky à síntese neoclássica; 4.2 A leitura de Keynes por Minsky; 4.3 A construção do modelo de Minsky e 4.4 Os ciclos em Minsky. A primeira, segunda e terceira seções abrangem, grosso modo, os pressupostos teóricos, e, por conseguinte a estrutura de seu modelo heurístico; a última trata diretamente dos ciclos, com base na HIF, incluindo, portanto, o fenômeno das inovações financeiras, o boom econômico e a questão da reversão.