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3 CICLOS ECONÔMICOS EM SCHUMPETER

3.3 Ciclos em Schumpeter

3.3.2 Efeitos secundários

Segundo Possas (1987, p. 186) “o retrato mais completo do ciclo é apresentado no que chamou de ‘segunda aproximação’, que consiste basicamente na incorporação da noção de ‘onda secundária’ e na remoção de certos pressupostos simplificadores da versão preliminar”. Ainda de acordo com Possas, os principais pressupostos alterados são:

A substituição da noção de equilíbrio pela “vizinhança de equilíbrio” onde se passa a aceitar a ligação entre ciclos (flutuações consecutivas), a persistência de “crescimento” e da existência de poupança e investimentos a ele associada, mesmo na “vizinhança de equilíbrio”; a desnecessidade de pleno emprego no equilíbrio; a generalização da criação de crédito dos juros e das “imperfeições de mercado” como fenômenos resultantes do desenvolvimento, não necessariamente eliminados pelo alcance do novo equilíbrio. (POSSAS, 1987, p. 186, nota, grifo do autor)

O economista afirma que, segundo a interpretação de Schumpeter, “tudo isto transmite-se de ciclo para ciclo como elementos que passam a se integrar aos dados do sistema econômico.” (POSSAS, 1987, p. 186).

De acordo com o que foi apresentando até aqui é possível identificar alguns aspectos teóricos associados à incerteza que reina durante o ciclo econômico, especialmente durante o

boom. Seria a “‘onda secundária’ [que] abrange os efeitos cumulativos desencadeados pela

inovação primária e os feitos especulativos que frequentemente têm lugar no bojo daqueles.” (POSSAS, 1987, p. 186, grifo do autor)

Em outras palavras, com o surgimento da inovação e, por conseguinte, do boom, há um aumento do poder de compra por todo domínio de negócios, resultando na secondary

wave,97 que é fortemente associada à propagação do boom pelo sistema, bem como também ao efeito especulativo que a prosperidade naturalmente produz.

Destaca-se que a onda secundária não é uma continuação da onda primária – que, por sua vez, corresponde às inovações e seus efeitos diretos – “mas um novo conjunto de elementos descritivos e/ou explicativos do processo real, acrescentados ao quadro como que em camadas sucessivas, tornando-o mais completo” (POSSAS, 1987, p. 187, grifo do autor).

Esses efeitos secundários podem ter desdobramentos consideráveis, no sentido de alterar o ritmo do ciclo, provocar a inversão da “ordem” de aparecimento dos fenômenos, bem como a sobreposição de elementos secundários ante os primários, entre outros efeitos. As distorções decorrentes disso podem potencializar suas causas, de modo que a onda secundária é capaz até mesmo de assumir proporções maiores do que as assumidas pela onda primária. (SCHUMPETER, 1997; 1939; POSSAS, 1987).98

97 Um boom secundário que advém do fato de que o aumento da demanda empresarial provoca uma elevação

substancial do poder de compra por toda a esfera de negócios. “Somente porque o novo poder de compra vai, em grande volume, das mãos dos empresários para os proprietários de meios materiais de produção, para todos os produtores de bens para o “consumo reprodutivo” (Spiethoff) e para os trabalhadores, e então se difunde por todos os canais econômicos, é que todos os bens de consumo são vendidos finalmente a preços sempre crescentes” (SCHUMPETER, 1997, p. 213).

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Possas destaca que Schumpeter aproveita sua concepção de segunda onda para lançar farpas sobre as teorias que encontram limitações para explicar as razões do fim do momento de prosperidade dos ciclos: “esta não é

A atividade especulativa é capaz de intensificar o estado de incerteza inerente ao ciclo, provocando desdobramentos que, frequentemente, conduzem a interpretações falhas da realidade. Desse modo, a elevação do preço dos produtos costuma se antecipar ao aumento dos custos que, na realidade, são a sua causa. Conforme a seguinte citação:

Assim, o mercado de valores apresenta às vezes crises especulativas preliminares, muito antes que se chegue a um real ponto de reversão, que então são superadas e abrem espaço a um movimento a mais para cima, que ainda pertence ao mesmo

boom (SCHUMPETER, 1997, p. 222, grifo nosso).

Todavia, enquanto a atividade especuladora é intencional, por outro lado, parte dos agentes assume reações nocivas não propositais, pois, “o ‘mero homem de negócios’ se defronta com problemas que estão fora de sua rotina, problemas aos quais não está acostumado e em face dos quais comete erros que se tornam então uma importante causa secundária de novos transtornos” (SCHUMPETER, 1997, p. 223).

No declínio do boom a incerteza dos dados e “as perdas que aparentemente ocorrem de modo irregular e não passível de cálculo criam a atmosfera característica dos períodos de depressão” (SCHUMPETER, 1997, p. 223). As condições tornam-se aparentemente piores do que são.

Por sua vez, o descasamento entre a demanda efetiva e a oferta, graças à superprodução, é o que acarreta, de fato, a queda nos preços das mercadorias.99 Essa consideração encerra outra mais perspicaz: de acordo com Schumpeter, o objetivo das principais teorias é explicar o aparecimento dessa desproporcionalidade, enquanto que sua teoria afirma que o desajuste entre os preços e as quantidades de bens provém do desequilíbrio do sistema econômico.100

O estabelecimento de uma nova posição de equilíbrio, segundo a TDE, ou a aproximação da posição final tendencial de equilíbrio, conforme Business Cycles, será alcançado por meio da depressão, “que incorporará as inovações e dará expressão aos seus efeitos sobre as empresas antigas, assim é o significado real de um período de depressão” (SCHUMPETER, 1997, p. 226). Contudo, “sempre ocorre a aproximação de uma posição

senão a conseqüência natural do fato de que o que chamamos o fenômeno da onda secundária é tudo o que os seus autores vêem.” (SCHUMPETER, 1939 apud POSSAS, 1987, p. 187).

99 A superprodução aqui é um efeito secundário advindo do boom, por assim dizer, um fruto de sua distorção e

não a causa primária. (Cf. SCHUMPETER, 1997, p. 224)

100

“O âmago de todas essas teorias está na maneira com que tentam explicar o aparecimento da desproporcionalidade, e nas quantidades particulares entre as quais se considera que existe desproporcionalidade. Para nós a desproporcionalidade entre quantidades e preços de bens, que aparece em muitos pontos por causa da perda do equilíbrio no sistema econômico, é um fenômeno intermediário exatamente como a superprodução, e não é uma causa primária.” (SCHUMPETER, 1997, p. 224)

sem desenvolvimento, e esta, sendo relativamente estável, pode ser de novo um ponto de partida para a realização de novas combinações.” (SCHUMPETER, 1997, p. 228, grifo nosso). Então, “após a digestão mais ou menos lenta das posições liquidadas na depressão, sem que haja inovações significativas, inicia-se a etapa de recuperação, refletindo a atração da posição final tendencial de equilíbrio.” (POSSAS, 1987, p. 188, grifo do autor). Assim, chega-se ao início de um novo ciclo.

Portanto, “tem-se então o ciclo completo de quatro fases: prosperidade, recessão, depressão e recuperação” (POSSAS, 1987, p. 188, grifo do autor). Para Schumpeter essa divisão do ciclo em fases não é trivial, mas caracteriza sua metodologia de interpretação dos ciclos, em que expressa as fases logicamente necessárias aos ciclos (prosperidade e depressão) e as fases que refletem as tendências de equilíbrio, conforme citação:

It follows that division of the units of the cyclical process of evolution into two or four phases is not a matter of descriptive convenience. Each phase is a distinct composite phenomenon, not only distinguishable by a characteristic set of features, but also explainable in terms of the different "forces" which dominate it and produce those features. As we know, these "forces" consist in such concretely observable phenomena as innovation (entrepreneurs' expenditure), response of the system to the impact of the products of new plant (and autodeflation), the impetus of abnormal liquidation (and of depressive anticipation arising out of it) meeting with equilibrium (return to what now are normal quantities and values). (SCHUMPETER, 1939, p. 162)

Assim, entende-se que “para Schumpeter o ciclo não pode ser apresentado de forma arbitrária entre ‘picos’ ou entre ‘vales’, ou entre quaisquer outros pontos, pelo simples fato de constituir um aparente movimento oscilatório” (POSSAS, 1987, p. 188).