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Cidade e saudades: discursos e categorias patrimonializantes

Patrimonetarização: uma nova estratégia

2. Cidade e saudades: discursos e categorias patrimonializantes

O viajante que chega ao Recife por mar, ou de trem, não é recebido por uma cidade escancarada à sua admiração, à espera dos primeiros olhos gulosos de pitoresco ou de cor [...] – talvez fique a princípio desapontado com o Recife. Com o recato quase mourisco do Recife, cidade acanhada, escondendo-se por trás dos coqueiros; e angulosa, as igrejas magras, os sobrados estreitos [...] A nenhum, porém, a cidade se entrega imediatamente: seu melhor encanto consiste mesmo em deixar-se conquistar aos poucos. É uma cidade que prefere namorados sentimentais a admiradores imediatos64

Gilberto Freyre

O que nos motiva nesse segundo capítulo é refletir como alguns discursos, modulados por intelectuais recifenses, trabalharam na constituição de sentidos e significados para as ruas, para as igrejas, praças, enfim, para a cidade. Considerando que estes discursos formam a base argumentativa (esta base argumentativa é apoiada nas concepções desenvolvidas na Europa e que foram apropriadas no contexto brasileiro) para o patrimônio em Pernambuco. Com efeito, analisaremos um corpus significativo de textos como propostas e fundamentos para a construção da idéia de patrimônio no estado de Pernambuco. Assim, ressaltaremos como transformações urbanas e renovações modernistas se transformam em perda e destruição de caráter, identidade, autenticidade e tradição; como tais discursos se esforçaram em fazer dos cidadãos verdadeiros “enamorados” da cidade, orientado por um sentimento de nostalgia. A leitura desses textos nos motiva a indagar o que representou esse conceito entre alguns segmentos da sociedade pernambucana, nas primeiras décadas do século XX, e como esse discurso serviu para o processo de construção e “fixação” da “cultura brasileira”, inclusive.

É preciso mencionar que a capital (Recife) nas décadas de 1920 e 1930 exercia poderes (econômico, político e simbólico) sobre as demais cidades do estado. Notícias e eventos no Recife, muitas vezes, eram discursivamente transformadas em notícias e eventos de Pernambuco.

64 FREIRE, Gilberto. Guia prático, histórico e sentimental da cidade do Recife. 3ª ed. - Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora S.A., 1961. p. 3-4

As novidades da modernidade que chegavam intensamente na capital eram veiculadas na imprensa como o “progresso pernambucano”. Este poder metonímico que o Recife exerceu (ao menos discursivamente) sobre o estado é que permite abordar Pernambuco via Recife. Afinal, ao menos no início do SPHAN, a noção de patrimônio pernambucano foi construída discursivamente, a partir do Recife.

Mas que discursos são estes? São textos que através das palavras valorizaram e deram sentido para bens e objetos “pernambucanos”, que intencionalmente ou não influíram na constituição do “nosso” patrimônio histórico-cultural. Nesse panorama, Gilberto Freyre ocupa lugar de destaque entre os principais artífices de tais discursos. Primeiro porque trata diretamente da questão da preservação de bens culturais, depois, por sua influência enquanto intelectual reconhecido e estabelecido que se tornou em Pernambuco e no resto do país. Eis os motivos pelos quais esta análise concentra-se prioritariamente em seus escritos. Entretanto, também reservamos breves considerações sobre textos de Mário Sette – sua obra ganhou destaque enquanto descrição e narrativa do passado recifense. E Joaquim Inojosa que será identificado com a oposição que, para efeito da análise que elaboramos, concorre para significar o patrimônio enquanto enunciador da “perda”, “destruição” e “ausência”.

É preciso mencionar que a interpretação construída nesta análise só foi possível a partir da leitura de um leque maior de obras e documentos que não aparecerão textualmente aqui. São textos contemporâneos e posteriores aos discursos analisados, que nos permitiram tanto circunstanciar a análise quanto observar algumas apropriações e usos daqueles discursos em momentos e contextos diferentes. A título de registro mencionamos: Antologia poética de Manuel Bandeira; (Des)Encantos modernos de Antônio Paulo Rezende; Morte e vida Severina e outros

Vários números de A Pilhéria e do Diário de Pernambuco. Cada um a seu modo contribuindo para fomentar “saudades” do Recife(s) de versos, imaginação e memória.

Os textos são vistos como componentes de uma rede discursiva, entretanto, focaremos expressamente neste capítulo as obras: Tempo de aprendiz e Guia prático, histórico e sentimental

da Cidade do Recife de Gilberto Freyre. E de Mário Sette: Maxambombas e maracatus. E por

fim, de Joaquim Inojosa, O movimento modernista em Pernambuco.

Estes autores adolesceram e tornaram-se homens em meio às novidades da dita modernidade que chegava à cidade nos anos 1920 e 1930. Os dois primeiros não as aceitavam de todo e, junto com outros, fizeram coro contra a velocidade das mudanças. Descreveram cidades garbosas, civilizadas - de cultura refinada, cidade de homens probos e mulheres sérias, cidades de belas putas – tão amáveis e quentes, de bêbados e boêmios quase todos poetas. Deram a todas essas cidades o nome de Recife.

Foram descrições privilegiadas. Historiograficamente, obras como as de Mário Sette e Gilberto Freyre passaram a figurar como “necessárias” ao conhecimento histórico da cidade, em outras palavras isto quer dizer que, durante algum tempo, seus escritos foram dotados de ares de “verdade” sobre o passado da cidade – conhecê-los era conhecer a cidade.

Nos textos analisados pudemos observar que categorias patrimonializantes (historicidade, antiguidade, estética e arte), em voga nos países ditos civilizados, são absorvidas e reformuladas para o contexto pernambucano. Observamos também, como se reformulam algumas noções fundantes para idéia de patrimônio (Perda e permanência, testemunho, beleza estética ou valor artístico).

Como apontamos no primeiro capítulo, a idéia de patrimônio, quando chega ao Brasil, nas décadas de 1920 e 1930, já está bastante desenvolvida e difundida na Europa. Podemos observar dois efeitos: os discursos patrimonializantes já se apresentam com uma carga de “uma

cientificidade” e transitando num campo de verdades disciplinares; em segundo lugar, os discursos sobre patrimônio, para se estabelecerem, precisam dizer respeito e significar algo para uma população que até então não adotara tal idéia como mais uma ferramenta para a percepção e interpretação do seu mundo – daí a necessidade de uma linguagem literária (afetiva) para o tratamento do tema.

Considerando, ainda, que as categorias patrimonializantes não eram efetivas até a instituição das leis do patrimônio, em 1937, e que a própria idéia de patrimônio não está solidamente formulada no Brasil, temos nos textos analisados, categorias cujas formulações apenas se aproximariam daquelas que se estabeleceriam na letra da lei65. Desta forma, assumimos que as categorias que estes autores lançam mão se definem, basicamente, pelo fato de que quando algum objeto é relacionado a uma delas, este ato pretende valorizar o objeto enquanto um bem cultural importante para a coletividade a qual se dirige (pernambucanos – recifenses – brasileiros).

As categorias que identificamos nos textos são: historicidade, identidade, tradição, antiguidade, originalidade e autenticidade estética. Entretanto, fazer uma distinção rígida entre tais categorias é uma tarefa cujo sucesso é quase improvável. Elas estão bastante imbricadas umas às outras, ligadas por uma “imagem (concepção) de passado” que predomina sobre todas elas e faz com que, em determinados momentos, tradição signifique história, identidade se confunda com tradição e que os aspectos estéticos estejam fortemente ligados tanto à tradição quanto à identidade. Sobretudo na escrita de Freyre, o amálgama destas categorias se faz presente e, a todo o momento, ele faz uso destas categorias de maneira que elas se retro-alimentem para o

65 O artigo 134 da constituição de 1937 e o decreto-lei nº 25 de 30 de novembro de 1937 demarcam e especificam claramente o que, a partir daquela data, tornaria determinado bem ou objeto parte do patrimônio nacional. O artigo 148 da constituição de 1934 falava, apenas, rapidamente em “proteger os objetos de interesse histórico e o patrimônio artístico do país”.

exercício de valorização dos bens e objetos. Num monobloco, este ou aquele objeto é, a um só tempo: histórico, tradicional, símbolo de identidade e exemplar de uma estética original e autêntica.

Em “oposição complementar” a este processo de construção de uma atitude e proposta conservacionista, em relação aos “bens históricos” pernambucanos (mas que também podem ser observadas em outros estados), está a construção dos discursos e ações “modernistas / futuristas” em Pernambuco. Tais discursos e ações, em Pernambuco, eram lideradas pelo jornalista Joaquim Inojosa.

Sempre me convenci, porém, de que o jovem escritor defende a conservação das velharias por ai afora existentes, que nada representam para o nosso porvir. Deseja um engenho bangüê [...] ao invés de uma usina; um edifício de biqueira [...] ao invés de palacete moderno; uma Campina do Bodé, ao invés de uma praça Sérgio Loreto –, É zombar do bom-senso alheio, ou procurar convencer os demais que a evolução é uma mentira [...]66

Entendo que a construção e consolidação das concepções tanto “modernistas” quanto “regionalistas” se fazem neste movimento de oposição dialógica.

66 INOJOSA, Joaquim. O movimento modernista em Pernambuco. Guanabara, RJ: Gráfica Tupy Editora, [19--]. v. 1, p. 159