2. O Som na Arte
2.2 Cinema e audiovisuais
Este capítulo vai dedicar-se a, por um lado, demonstrar que o cinema sempre pertenceu, de pleno direito, ao grupo das artes audiovisuais e, por outro lado, a clarificar o processo criativo sonoro, tanto em cinema como nos audiovisuais em geral. Sendo o som dissociável da imagem, consequentemente é pensado e trabalhado autonomamente para acentuar o todo
19 Nyman, Michael (1974) Experimental Music: Cage and Beyond New York: Schirmer Books. (p.22)
Citado por: Davies, S. (1997). John Cage's 4'33": Is it music? Australasian Journal of Philosophy, 75(4), 448-462, disponível em:
https://researchspace.auckland.ac.nz/bitstream/handle/2292/26909/Davies1997John%20Cages%20433withcoversheet.pdf?sequence=6
som/imagem. Desta forma se justifica a necessidade de pensar o som em si próprio, em cinema.
A palavra “Audiovisuais”, já implica na sua etimologia uma igual preponderância, tanto dos elementos visuais, como auditivos, na constituição dos objetos de que se ocupa. Desta forma, enquanto falamos de audiovisuais em geral, é assumida a importância do som na sua construção.
O cinema é, por definição, uma forma de arte audiovisual.
No entanto, ao falarmos de som em cinema, pode-se argumentar que este nem sempre foi sonoro, tendo passado por uma fase inicial que o excluía, o chamado “cinema mudo”.
Assim, em relação aos audiovisuais em geral, é pacífico falar de som, mas no caso particular do cinema, não será tão consensual.
O cinema é uma forma de arte visual.20
E, no entanto, o cinema nunca foi verdadeiramente mudo.
The story of sound in film begins not, as many historians have presumed, with the introduction of the sound film, but with the invention of film itself.
At no period in the history of films has it been customary to show them publicly without some sort of sound accompaniment. In other words, the silent film never existed.21
20 Grilo, João Mário - Encontros de Cinema e Educação, Cinemateca Portuguesa, 2017
21 Cavalcanti, Alberto 1957, disponível em
https://web.archive.org/web/20120406054050/http://lavender.fortunecity.com/hawkslane/575/sound-in-films.htm
Contrariamente ao que se crê, o som no cinema não surge em 1927, com o filme The Jazz Singer, mas sim, este representa o início do sucesso comercial dos filmes sonoros.
Esforços de sincronizar som com imagem são quase tão antigos como o próprio cinema.
Figura 3 - Kinetophone, 1895, versão peepshow com provavelmente os primeiros auscultadores (Sundell, 2006)22
Desde os seus primórdios que o cinema tem som, e uma enorme vontade de o ter: Sessões com acompanhamento musical, sincronismo mais ou menos tosco com cilindros de cera pré-gravados, intertítulos... Lumière, Méliès e outros tinham sonorizado filmes ingenuamente, fazendo atores pronunciar palavras atrás do écran.23 Sempre existiram tentativas de juntar o
22 disponível em: https://spencersundell.com/writing/pre-history_of_sound_cinema_part_1.html
23 Sadoul, Georges (1966) História do Cinema Mundial. Lisboa: Livros Horizonte. tomo II, p.270
som à imagem, até que de facto se conseguiu fazê-lo tecnicamente. Em resumo, o cinema, chamado mudo, nunca existiu verdadeiramente.
O cinema sempre foi pensado com som, e não descansou enquanto não conseguiu resolver as dificuldades técnicas que impediam a verdadeira união entre este e a imagem.
Após grandes desenvolvimentos técnicos, foi finalmente possível, em 1927, a primeira projeção de cinema com som síncrono.
A partir desse momento, não houve mais volta para trás:
O cinema tornou-se indubitável e inequivocamente sonoro.
We gestate in Sound, and are born into Sight. Cinema gestated in Sight, and was born into Sound.24
Para todos nós, o primeiro sentido a ser desperto, ainda no interior do ventre materno, por volta dos quatro meses e meio de gestação, é o da audição. Com os outros sentidos ainda em desenvolvimento (visão) ou, pelo menos, severamente limitados pelo meio ambiente uterino (tacto, paladar, olfato), é através do som que iniciamos a nossa percepção do mundo.
Inversamente, em cinema, o primeiro sentido a ser reclamado de forma insistente e inequívoca, é a visão. E o som, quando nos apercebemos dele conscientemente, é na maior parte das vezes, apenas devido a algum problema ou defeito.
Such self-effacement seems at first paradoxical, given the power of sound and the undeniable technical progress it has made in the last sixty-five years. A further examination of the source of this power, however, reveals it to come in large part from the very handmaidenly quality of self-effacement
24 Murch ,Walter (1994), do prefácio à edição em língua Inglesa de “Audiovision” de Michel Chion.
itself: by means of some mysterious perceptual alchemy, whatever virtues sound brings to the film are largely perceived and appreciated by the audience in visual terms—the better the sound, the better the image.25
Ao longo da história do ser humano, os sons parecem ser consequências inevitáveis e
“acidentais” do visual, indissociáveis dos objetos e personagens que os produzem. E, tal como sombras, são em aparência completamente explicados pelos objetos que os produzem26. Em cinema, isso traduz-se em que os sons aderem às imagens, delas aparentemente inseparáveis.
Cinema, montagem de fragmentos, planos, cenas, em que o som é um dos elementos mais importantes na perceção da cena como uma unidade, do filme como um todo.
No entanto, como na história de Peter Pan, a sombra é descolável do sujeito e tem uma identidade própria.
As novas tecnologias de gravação sonora permitiram a estas “sombras” ganhar autonomia.
Michel Chion, em Audiovision, define aquilo a que chama o added value da relação entre o som e a imagem.
By added value I mean the expressive and informative value with which a sound enriches a given image so as to create the definite impression, in the immediate or remembered experience one has of it, that this information or expression "naturally" comes from what is seen, and is already contained in the image itself. Added value is what gives the (eminently incorrect) impression that sound is unnecessary, that sound merely duplicates a
25 Murch ,Walter (1994), do prefácio à edição em língua Inglesa de “Audiovision” de Michel Chion.
26 idem
meaning, which in reality it brings about, either all on its own or by discrepancies between it and the image.27
Os sons são, conscientemente, e através de um processo laborioso, adicionados às imagens. Não se limitam a ser a consequência física e sonora de uma ação ligada a determinados objetos ou pessoas, mas sim, são criteriosamente escolhidos de modo a, em conjunto com as imagens, passarem a mensagem que os autores pretendem. O valor acrescentado, que os sons e as imagens têm juntos, é superior à soma dos sons isolados com as imagens isoladas.28
Em poucas áreas do som para cinema, como no foley, se torna tão importante esta capacidade de dissociação entre o som e a imagem, ou seja, entre o som, e o objeto ou ação, que o produz.
Exploring the possible sources of sound-making is one of the most joyous processes for the sound designer. Tuning into what we already hear around us and separating the sources is the essential ability needed for creating new sounds and combinations.29
27 Michel Chion “Audiovision” (1994)
28 idem
29 Sonnenschein, David Sound Design: The Expressive Power of Music, Voice and Sound Effects in Cinema, Michael Wiese Productions, Studio City, 2001
Figura 4 - Foley artist, simulando em estúdio, o som da ação que se passa na imagem do filme projetado na tela30
O foley (ou bruitage, de bruit – ruído - em Francês), que deve o seu nome a Jack Foley, pioneiro deste tipo de efeitos sonoros em Hollywood, a partir dos anos 30, consiste na produção e gravação de sons destinados a substituir ou reforçar, sons concretos na banda sonora. O que torna este tipo de sons distintivo, é o facto de serem sons produzidos por fontes sonoras diversas (por vezes muito diversas) das que aparecem nas imagens.
Esta associação de sons às imagens, como se sempre lhes tivessem pertencido, é uma construção elaborada, e desenhada para ser invisível.
Herdeiros dos efeitos sonoros da época dourada da rádio, estes efeitos variam desde o clássico som das metades de casca de coco batendo uma na outra para simular cascos de cavalo, o som de passos na neve feitos sobre farinha Maizena, ou o sacudir de um espanador, para simular um pássaro a levantar voo.
A capacidade do foley artist, em particular, mas também a de qualquer sound designer, de conseguir dissociar a componente visual da sonora é, por estas razões, muito importante na criação de uma banda sonora para um filme, ou outro objeto audiovisual.
30 disponível em: https://www.premiumbeat.com/blog/art-of-making-sound-effects/