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do tradicional ao sustentável

2.3. Cinza e sustentabilidade

O termo sustentável tem origem do latim sustentare, que signiica sustentar, favo- recer e conservar. Segundo Almeida (2002), a palavra sustentabilidade começou a ser propagada na conferência de 1972 da Organização das Nações Unidas (ONU) em Es- tocolmo, a primeira reunião internacional que lançou bases de ações ambientais em que se debatia desenvolvimento, meio ambiente e uso racional de recursos naturais. Mas foi em 1987, no Relatório da Comissão Brundtland, em que a expressão “desen- volvimento sustentável” entra em circulação. Segundo o relatório, o uso sustentável dos recursos naturais deve “suprir as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras suprirem as suas” (ALMEIDA, 2002, p. 25), ou seja, deinir ações e atividades humanas que supram as necessidades atuais dos seres humanos sem agredir ao meio ambiente preservando assim as gerações futuras.

No Brasil, a expressão sustentabilidade ganha dimensões maiores após a Confe- rência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento realizada no Rio de Janeiro em 1992. A partir dos eventos citados, o conceito ganha importância e atual- mente está inserido em vários setores, como o meio ambiente, economia e educação.

É por meio da sustentabilidade que os recursos naturais são utilizados de forma in- teligente e preservados. A adoção de práticas sustentáveis na vida de cada ser huma- no possibilita em longo prazo a manutenção de recursos naturais para uma melhor qualidade de vida. Segundo Dias (2005), uma das ações e contribuições pessoais para a sustentabilidade é a reutilização de resíduos – é nesse campo em que a utilização

das cinzas em vidrados cerâmicos se torna relevante. Alguns ceramistas, como foi visto anteriormente, e até indústrias vêm incorporando as cinzas em seus produtos.

Entre um dos exemplos, as ceramistas de Barra do Graças, MT, Odília Rego Flores e Lucileicka David, integrantes do Valearte, utilizam as cinzas de matérias-primas regionais para diferenciar sua cerâmica e atribuir características próprias.

“Queremos trabalhar com coisas regionais, inclusive matéria-prima”, res- salta, informando que normalmente se usa a cinza de cedro e pinus, madei- ras que não têm nada a ver com nossa cultura e região. Ela acredita que o uso da cinza regional vai valorizar ainda mais as peças, sem falar que pode- rão conseguir cores únicas com o uso desses materiais. Elas mesmas vão a campo recolher o material – pedaços de galhos, folhas secas. Para produzir um quilo de cinza precisam de 4 a 5 sacos de 50 quilos de resíduos.38

38 COMINI, Rita. Artesãs de Barra do Garças testam cinzas do Cerrado para criar peças únicas. Agência Sebrae de Notícias MT. 10 jan. 2012. Disponível em: <http://www.mt.agenciasebrae. com.br/noticia.kmf?canal=795&cod=12898658> Acesso em 18 jan. 2012.

Figura 203. Lucileicka David.

Figuras 204 e 205. peças esmaltadas com cinzas de taboca, queima em forno elétrico.

A Lepri Cerâmicas, indústria de revestimento cerâmico, utiliza as cinzas de ma- deira de olarias e fundições na fabricação de um vidrado para ecopastilhas.

“O esmalte a base de cinzas é muito antigo, foi um dos primeiros descober- tos pelo homem”, airma o ceramista. Estamos retomando essa tecnologia. Segundo Lepri, as cinzas são misturadas à base do esmalte e dão a cor à mistura, que podem ser de diferentes tonalidades de acordo com a origem das cinzas.39

39 Cerâmica verde recicla lâmpada luorecente e cinza de olaria. Revista Sustentabilidade. 11 mar. 2010. Disponível em: http://www.revistasustentabilidade.com.br/construcao-verde/ceramica- verde-recicla-lampada-luorecente-e-cinza-de-olaria. Acesso em 28 ago. 2010.

Figura 206. Pastilhas esmaltadas com cinzas.

Como podemos observar, as cinzas de vegetais oferecem um campo amplo de possibilidades na pesquisa de vidrados cerâmicos. No Brasil as cinzas mais utiliza- das por ceramistas como vimos no subcapítulo anterior são as de eucalipto, prove- nientes da queima de fornos a lenha (anagama e noborigama) e encontradas com mais facilidade e em maior quantidade em pizzarias e olarias, e a cinza da casca de arroz, geralmente compradas de beneiciadoras.

O combustível mais utilizado pelas indústrias de cerâmica vermelha é a lenha. Com um consumo médio 0,4 m3/milheiro, densidade de 0,4 t/m3 e

teor de cinzas da ordem de 3%, estima-se uma geração mensal de aproxi- madamente 300 t de cinzas. (BOLINI, 2005, p. 192)

O trabalho com cinzas vem auxiliando o desenvolvimento sustentável, pois reuti- liza materiais que seriam descartados. No caso da casca de arroz, ocasiona a dimi- nuição da quantidade de um dos resíduos agroindustriais mais abundantes no Brasil.

A casca de arroz, um dos mais abundantes resíduos agroindustriais, é um material ibroso composto principalmente por celulose, lignina e resíduo orgânico. Possui elevado volume e baixa densidade. Quando depositada, ocupa grandes áreas, onde pode ocorrer queima in situ com a decorren- te dispersão das cinzas. Devido à sua lenta biodegradação, permanecem inalteradas por longos períodos de tempo, gerando enorme dano ao meio ambiente. Em termos de valores produzidos, para cada tonelada de arroz em casca, 23% correspondem a casca, e 4% correspondem a cinzas. A produção mundial para a safra de 2004 foi de 608 milhões de toneladas. O Brasil com uma produção de 13.356.300 toneladas ocupa o 9º lugar na lista dos maiores produtores mundiais, com uma produção anual de aproxima- damente 534.252 toneladas de cinzas. (DELLA, 2005, p. 22)

Esta prática é vantajosa, pois as cinzas podem substituir algumas matérias-pri- mas, além de oferecer efeitos que dão às peças características únicas. Foi pensando nesse aspecto aliado ao sustentável, que a parte experimental dessa dissertação vem pesquisar as cinzas do bagaço da cana-de-açúcar provenientes de uma usina da região de São Paulo.

A escolha pela utilização do bagaço da cana-de-açúcar foi devido aos interes- santes vestígios de esmaltação obtidos como resultado na pesquisa anterior, mas, principalmente, por ser um material que possui rica composição em sílica e outros óxidos em pequenas quantidades. Teixeira (apud SOUZA, 2008, p.  41) relata que a composição da cinza é variável e depende do local onde a cana foi produzida.

A cinza pode ser usada para compor análise triaxial (argila, cinza e agentes fun- dentes) em substituição ao quartzo ou para produção de materiais à base de vidro. Outro fator está relacionado à grande quantidade excedente desse material: o Brasil é um dos maiores produtores de cana-de-açúcar – a Companhia Nacional de Abas- tecimento (Conab) estimou para o ano de 2009-2010 a produção total de 612.211,20 mil toneladas de cana.

Apesar de possuir destinação industrial e comercial, o bagaço da cana é consi- derado o maior resíduo da agroindústria brasileira e vem causando problemas de estocagem e poluição ambiental, devido à grande quantidade excedente. Paoliello (2006) comenta que o bagaço da cana-de-açúcar é o mais signiicativo resíduo ge- rado devido à sua quantidade, que varia de 250 a 260 kg/t. Outro fator colocado é a questão do armazenamento e conservação do bagaço, que por ser um material vo- lumoso: a estocagem ica complicada e a deposição ao ar livre leva a fermentação, apodrecimento e perda do mesmo.

Partindo dessas informações, a cinza do bagaço da Cana de açúcar se torna um elemento interessante a ser pesquisado para compor vidrados cerâmicos. No próximo capitulo será abordado em mais detalhes assuntos mais técnicos relacionados a vidrados, óxidos, matérias-primas e também às características das cinzas, por que podemos utilizar as cinzas na composição de vidrados cerâmicos.

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