2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA E EMPÍRICA
2.3 INDÚSTRIAS CRIATIVAS
2.3.1 Circunscrevendo o tema: origens, contextos, importância
O crescente e complexo volume de conhecimentos desenvolvidos, traduzidos em design, criatividade, tecnologia e inovação, e sua acelerada incorporação a bens e serviços, produzidos e comercializados de forma tangível ou intangível, aparentemente podem ser apontados como características fundamentais de padrões econômicos da sociedade contemporânea. Nesse contexto, é possível apontar a existência de uma economia da criatividade em contínuo processo de expansão, por meio das quais atividades econômicas baseadas na criatividade são submetidas ao processo industrial e à proteção de direitos autorais. Nestas atividades econômicas, circulam bens e serviços que utilizam imagens, textos e símbolos como meio (JAGUARIBE, 2006). Os bens e serviços podem ser identificados em setores produtores ou prestadores de serviços com intensos processos criativos, utilização de talento e habilidade individual, e onde é possível identificar culto à novidade e inovação como base das potencialidades produtivas das empresas ali inseridas. O conjunto desses setores criativos tem sido denominado Indústrias Criativas.
Consideradas como figuras representativas da sociedade baseada no conhecimento e apontadas como importantes componentes da moderna economia pós-industrial, as Indústrias Criativas chamam atenção não só por estarem acima
da média de crescimento e criação de postos de trabalho, mas também por serem veículos de identidade cultural e fazerem importante papel ao nutrirem a diversidade cultural (FLEW, 2002; UNESCO, 2006; CAIADO, 2008; BENDASSOLLI et al., 2009).
Por envolverem assuntos muito abrangentes como cultura e criatividade, os temas Indústrias Criativas e Indústria Cultural são correntes e intercambiáveis na literatura em questão e geralmente têm se apresentado de forma confusa. A análise da importância econômica de atividades ligadas à cultura e daquelas nas quais o saber individual e a criatividade são os ativos mais importantes, conforme aponta Caiado (2008, p. 1), “ainda é recente e, como toda disciplina em consolidação, a delimitação de seu objeto de estudo ainda não é consensual”. Isso pode ser atestado pela opinião de outros pesquisadores, que, apontando o entrelaçamento dos benefícios econômicos e simbólicos, fazem a defesa sob o enfoque particular de sua disciplina de origem, apontam dimensões diferentes para o mesmo tema, mas consideram ainda um conceito em evolução (FLEW, 2002; GALLOWAY; DUNLOP, 2006; JAGUARIBE, 2006; REIS, 2007, 2008; BENDASSOLLI, et al., 2009;
JEFFCUTT, 2009; KIRSCHBAUM; PINA; WOOD Jr., 2009). Não há consenso, por exemplo, sobre quais atividades integram (ou que deveriam integrar) os termos, quer economia da cultura, quer Indústria Criativa. Organismos mundiais, Unctad, Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e Organização das Nações Unidas (ONU), bem como governos de alguns países, que já incorporaram o assunto em suas pautas políticas, trabalham, por exemplo, com diferentes classificações, “numa demonstração que se está atravessando um período inicial, de reconhecimento do objeto de estudo e de sua delimitação”
(CAIADO, 2008, p. 1).
Reis (2008), ao fazer resgate histórico de como esses temas surgiram, aponta que o termo Indústria Criativa foi inspirado no projeto Creative Nation da Austrália (1994), que, entre outros elementos, defendia a importância do trabalho criativo e o papel das tecnologias, aliadas à política cultural, no processo de contribuição para a economia do país.
Outra origem formal para o tema é que o assunto foi pauta do Plano do Governo Britânico, proposto por Tony Blair em 1997, que estabeleceu, após as eleições, uma força tarefa para mapear as atividades nas ‘‘Indústrias Criativas’’ na possibilidade de identificar medidas políticas que pudessem promover seu
desenvolvimento no país (FLEW, 2002; REIS, 2007, 2008; MONTGOMERY, 2007;
ROODHOUSE, 2008).
Indústrias Criativas são assim definidas pelo Departamento de Cultura, Mídia e Esportes –DCMS (2001), órgão do governo britânico:
Industrias Criativas são aquelas indústrias que têm sua origem na criatividade, habilidade e talento individuais. Têm potencial para a criação de renda e empregos por meio da geração e exploração da propriedade intelectual. (...) As indústrias criativas incluem: propaganda, arquitetura, mercados de arte e antiguidades, artesanato, design, moda, filme e vídeo, software de lazer, artes performáticas, edição, jogos de. computador, serviço de televisão e rádio. (DCMS, 2001, p.3, tradução nossa)
De acordo com Jaguaribe (2006), o mundo das Indústrias Criativas’ ficou mais conhecido pelos esforços dos ingleses, que foram, de certa forma, os pioneiros da iniciativa. No processo de definição e de mapeamento, foram identificados treze setores de maior potencial – as chamadas Indústrias Criativas – quando então se estabeleceu igualmente a moldura do conceito britânico sobre o assunto (REIS, 2007)
Essa definição parece ser, se não a mais aceita, a mais divulgada. A partir da sintetização do tema pelo governo britânico, o conceito visto pela ótica institucional foi replicado para diversos países e passou a ser utilizado como mote político e desenvolvimentista. Porém, o exemplo inglês, ainda que seja muitas vezes citado pelo pioneirismo, é também criticado por apresentar carências em vários aspectos (REIS, 2007).
Sob o enfoque de uma perspectiva sistêmica, Jeffcutt (2009) entende que delimitar as indústrias criativas projeta uma ênfase bem-vinda à significância e ao valor da criatividade para as economias do conhecimento, porém pode significar também uma limitação arbitrária a assuntos genéricos mais importantes, como, por exemplo, a dinâmica central do processo criativo nessas mesmas economias. E, em um sentido mais restrito e de caráter comportamental, outro aspecto contestado é o desprezo que a delimitação dá a componentes simbólicos aderentes a determinados produtos e serviços e não inseridos no conjunto das atividades mapeadas, tais como atributos e benefícios relacionados à diversão, ornamentação, autoafirmação, e- xibição social, dentre outros (JAGUARIBE, 2006; REIS, 2007; FRANÇA, 2008).
Na onda das experiências internacionais, o debate se apresenta no Brasil mais nas mãos de pesquisadores e interessados no assunto e não há percepção de
que o tema esteja de forma efetiva na pauta político-econômica da esfera pública.
Uma das dificuldades atribuídas, conforme apontam alguns pesquisadores (JAGUARIBE, 2006; REIS, 2007, 2008; CAIADO, 2008; FRANÇA, 2008), é que existe dificuldade de classificação tanto quanto de mapeamentos que apontem percentuais econômicos correspondentes ao desempenho de setores que poderiam (ou deveriam) ser agrupados como fazendo parte das Indústrias Criativas.
Na Inglaterra e em outros países, dados econômicos sobre as indústrias criativas são regularmente coletados. Um deles que chama atenção é com relação ao porte das empresas integrantes do conceito das indústrias criativas. A maioria dessas empresas naquele país, por exemplo, é formada por pequenas empresas, frequentemente por produtores e comerciantes autônomos e funciona novamente em uma base de projeto (MILES; GREEN, 2008). Semelhante observação é feita por Jeffcutt (2009) com relação à Irlanda do Norte, com indústrias criativas predominantemente formadas por micro e pequenas empresas. Há ainda registros desse fato também na cidade de Helsinque, na Finlândia e em Amsterdã, Holanda, onde há aglomeração urbana desses setores, concentradas em micro e pequenas empresas, empregando no máximo 20 funcionários (em média, 5,3 em Helsinque e 3,7 em Amsterdã – números de 2004) (FIRJAN, 2008, p.9).
Recentemente, estudo pioneiro de levantamento de informações foi feito pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (2008) (FIRJAN) mapeando setores representativos da cadeia produtiva da Indústria Criativa no Brasil, com foco particular no desempenho do Estado do Rio de Janeiro. Partindo de estatísticas disponibilizadas pelo Ministério do Trabalho (MT), a Instituição teve a possibilidade de calcular o número de trabalhadores envolvidos na cadeia da Indústria Criativa do país, dentro do conceito dos 12 setores mapeados: (a) expressões culturais, (b) artes cênicas, (c) artes visuais, (d) música, (e) filme e vídeo, (f) TV e rádio, (g) mercado editorial, (h) software e computação, (i) arquitetura, (j) design, (l) moda, (m) publicidade (FIRJAN, 2008, p. 15).
De acordo com a Firjan (2008)9, em 2006 os doze segmentos mapeados empregavam 638 mil trabalhadores formais em todo o país, ou 1,82% do total. Os
9 O Relatório Firjan (2008) demonstra a cadeia da Indústria Criativa definida por três esferas: o Núcleo, composto de 12 setores líderes, cujo principal insumo é a criatividade; as atividades relacionadas (segmentos de provisão e fornecimento direto de bens e serviços ao núcleo; ofertantes de apoio (segmentos fornecedores de bens e serviços, de forma indireta).
Estados destacados no Estudo foram Rio de Janeiro, com 2,44% do total de postos de Trabalho do país nas Indústrias Criativas, seguido de São Paulo (2,2%) e Minas Gerais (1,8%). Em sexta posição destacou-se a força de trabalho paranaense empregada nas Indústrias Criativas, que, à época da pesquisa, correspondia a 1,6%
do total de trabalhadores brasileiros empregados. “A cadeia produtiva da Indústria Criativa como um todo responde por 21,8% do total de trabalhadores formais do país, ou 7,6 milhões de um total de 35,2 milhões” (FIRJAN, 2008, p. 3).
Ainda que as bases estatísticas possam apresentar dados semelhantes, ou sejam identificadas características comuns, como é o caso do porte das empresas inseridas nas Indústrias Criativas, em termos de segmentos industriais ainda não são muito claras as posições com relação ao que realmente se incorpora aos