5 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
5.1 ANTECEDENTES CONTEXTUAIS E INFLUENCIADORES DO NÍVEL OPERACIONAL:
5.1.1.1 Forças ambientais no nível estratégico
5.1.1.1.3 Tecnologia
De uma maneira geral, a tecnologia é vista como um elemento estratégico importante na consolidação do negócio e como ferramenta essencial no desenvolvimento dos produtos. De acordo com a interpretação dos gestores dos Estúdios Alpha, Gamma e Delta, o diferencial não está no emprego apenas de recursos de última geração em termos de tecnologia, mas nas soluções apresentadas para o cliente a partir de sua aplicação. As principais exigências com relação à tecnologia e os fatores relacionados a ela e que se tornam influentes sobre as decisões e sobre os processos de implementação de estratégias de marketing no desenvolvimento de produtos remetem à tecnologia como um insumo imprescindível, uma ferramenta na execução dos projetos. Além disso, os gestores registram os desafios de acompanhar sua evolução e os processos de inovação por ela criados:
No atendimento às necessidades do cliente, a tecnologia que será usada é uma ferramenta e não um direcionador do projeto. A tecnologia não direciona os projetos, mas ela é usada por eles. (GESTOR ALPHA1)
O diferencial está na maneira como se trabalha com a tecnologia. Um novo mouse ou uma nova tela é meramente a maneira como o equipamento se apresenta. O diferencial é o conceito de uso da tecnologia e não a própria tecnologia. A empresa é independente da tecnologia. O mais importante não é a tecnologia em si, mas a solução de que o cliente precisa. (GESTOR GAMMA1)
Toda área de informática é meio que impulsionada pela área de jogos. Os melhores processadores, as melhores placas de vídeos, os melhores mouses ... sempre a parte de jogos impulsiona esse tipo de inovação. O mesmo acontece na parte de softwares. As tendências mais novas de metodologia de desenvolvimento são aplicadas a desenvolvimento de jogos, a inteligência artificial é uma coisa que permite a área de jogos estar sempre na vanguarda. Porém, não adianta fazer só um jogo inteligente, mas ele deve ser extremamente rápido. O desafio é pegar as tecnologias mais modernas em termos de desenvolvimento de software e as ferramentas mais atuais e conseguir trazer e adaptar isso para o universo dos jogos.
(GESTOR ALPHA2)
As demandas e emprego de tecnologias variam entre as empresas de ponta que utilizam as tecnologias de vanguarda ou de fronteira e aquelas que acompanham as tendências. A visão da tecnologia com foco na inovação, de acordo com o Estúdio Gamma, deve estar integrada a outros fatores. Os jogos dependem da tecnologia, mas ela não é o único recurso para o processo de inovação dos produtos desenvolvidos e tampouco é o único requisito para seu sucesso:
Existe muita inovação que é um virtuosismo. E dificilmente vai impactar em um jogo mais divertido, ou em um produto que atinja de fato o cliente. A tecnologia pela tecnologia às vezes não resolve muito. Você pode ter projetos de jogos de 3 tipos: um projeto que foca na tecnologia, um projeto focado em uma narrativa, ou um projeto focado em uma inovação de game play , ou seja, uma forma de jogar diferente. Sempre tem alguma prioridade no projeto. Quando se faz uma inovação tecnológica, é para se criar um novo paradigma para ter uma inovação na narrativa ou inovação no game play. Quando se tem uma inovação tecnológica e não se tem o olhar sobre essas duas coisas, ela fica vaga. Isso é comum. Às vezes, alguns jogos têm um apelo tecnológico, mas não agregam nada na narrativa, como um enredo que cative ou uma forma de jogar interessante. A tecnologia é importante, mas se não estiver ligada a algum apelo maior, que seja narrativa ou forma de jogar, ela deixa de ser interessante. (GESTOR GAMMA2)
E em uma visão complementar, para o Estúdio Alpha, embora exista demanda para a tecnologia de ponta empregada no estado da arte em jogos eletrônicos, há também demanda para uma tecnologia que não é a de fronteira e que se adapta às demandas dos clientes, do mercado e, principalmente, aos custos do projeto:
A tecnologia com que trabalhamos hoje não é de fronteira. O mercado com o qual a empresa trabalha não busca esta tecnologia de ponta, mas ter
produtos no mercado, com base em custos, para colocá-los na prateleira em datas comerciais previsíveis, com a dinâmica do próprio consumo. Há sim produções de 20 a 50 milhões de dólares, que demandam 4 a 5 anos, 100 a 200 pessoas na execução, mas há demanda também para outras modalidades de games que não só as superproduções. Há as inovações, que estão dando a direção para o mercado e todo o restante dos produtores, grupo no qual a empresa se insere. Há o grupo do estado da arte na produção. São empresas que gastam milhões, fazem bilhões e movimentam milhares de pessoas. (GESTOR ALPHA1)
A visão do Estúdio Beta com relação à tecnologia difere dos demais casos estudados. Percebe-se nas respostas do entrevistado que a tecnologia interfere significativamente nas estratégias da empresa. Isso é evidente, não só a partir da visão de mudanças necessárias nos recursos tecnológicos, inerentes às atividades de desenvolvimento, mas, principalmente, quando se trata da inteligência artificial contida nos recursos. O emprego de Inteligência Artificial (IA, como é conhecida no segmento) impacta diretamente as decisões de lançamento dos jogos da empresa, sobre a adequação de funcionalidades específicas de desempenho nos jogos para bloquear ações de concorrentes e sobre o posicionamento do próprio Estúdio no mercado.
De acordo com as informações coletadas junto ao caso Beta, há acompanhamento contínuo por parte do Estúdio das novidades tecnológicas do setor, que normalmente são incorporadas aos jogos de maneira ágil, demonstrando certa dependência da inovação proporcionada por elas. O foco do Estúdio está no emprego e desenvolvimento interno e intenso de inteligência artificial de ponta, tomada como um recurso estratégico, que vai além do recurso apenas ferramental, e com o qual o Estúdio Beta objetiva estar à frente da concorrência de maneira inovadora e mais rápida no processo de desenvolvimento dos jogos:
A tecnologia muda de uma hora para outra. Cada vez mais a tecnologia mais pesada está saindo do equipamento e está vindo para a lógica. Aqui [no estúdio] ela é um investimento da empresa na própria empresa. Nós temos equipe de treze pessoas e metade está desenvolvendo a tecnologia na própria empresa. Jogo é imagem e roteiro, e funciona em cima de uma mecânica. Essa mecânica é a engine. A empresa faz a programação e tem desenvolvido a engine. (GESTOR BETA)
Com relação às interferências da tecnologia da indústria de videogames sobre o segmento das desenvolvedoras de jogos eletrônicos, de uma maneira geral, na visão do Gestor Delta, há uma perspectiva de que mudanças tecnológicas sobre toda a cadeia reconfigurem o setor e, ao mesmo tempo, possibilitem constantes oportunidades às empresas desenvolvedoras para atuar em vários canais.
A tecnologia no mercado de games tem reconfigurado o setor. Há uma mudança de paradigma comercial e de troca de canais muito grande, com processo de convergência enorme e, ao mesmo tempo, várias opções de canais. O lado bom dessas mudanças tecnológicas para o setor é a possibilidade de vários canais se abrindo ... há possibilidade para todos os desenvolvedores, de games simples a sofisticados. (GESTOR DELTA)