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38 Classe de Lazer.

No documento A Mensagem Visual da Moda (páginas 50-53)

modo como o vestuário e a nudez são perceptíveis, assim o estudo do vestuário real é feito através de uma observação antropológica, etnográfica e/ou social, fundamentado em metodologias empíricas, para aludir o uso do vestuário e como o vestuário foi usado. Hollander (1993) demonstra que as roupas na arte, como as imagens de pessoas vestidas, atraem mais o olhar e parecem ser mais insinuantes e compreensíveis, ao revês do que o são na realidade.

Pierre Bourdieu (2010) na sua obra atesta a ideologia de Anne Hollander (1993) mas contradiz a obra Simmel e Veblen, referindo como a arte se interliga à produção cultural e de como a Sociologia contribui para o entendimento da Moda, sendo que a arte e o consumo cultural estão predispostos a executar uma função social que afirme as diferenças sociais. A arte e a Moda têm um carácter maioritariamente social, assim Bourdieu (2010) define o seu princípio afirmando que a arte é contextualizada em termos de tempo e espaço, com especial atenção ao artista, à obra concebida e às considerações extra estéticas, investigando a construção social de valores e ideias estéticas evidenciando os métodos de criação e fabrico das instituições. A sua teoria contradiz a obra Trickle Down Theory, de Simmel e Veblen, referindo que a distinção, entre classes sociais, feita pelos dois autores já não faz sentido devido à influência que as subculturas tiveram na Moda, assinalando a mudança na década de 60. A Moda começava a ser um conceito para todos tornando as fronteiras sociais menos rígidas.

Existem diferentes teorias para o conceito de Moda e Bourdieu (2010), ao longo da sua obra, intitulada Distinction: a social critique of the judgement of taste, de 1979 (data da primeira publicação), explica a sua teoria de distinção do gosto através de ensinamentos de difícil percepção e de uma análise empírica onde introduziu a Moda. O autor usa a noção de gosto, sendo um dos elementos mais reveladores da identidade social, como um término que distingue os estratos sociais dominantes e os dominados referindo o gosto como o habitus [hábito], observado nas rotinas quotidianas. Bourdieu (2010) alude que o habitus é observável num contexto social que permite a análise de práticas numa determinada situação, assim o vestuário e a Moda são do gosto cultural e da competição socialmente estratificada com o objectivo de este obter capital simbólico. Bourdieu (2010) menciona que ao analisar uma sociedade somente nos seus factores económicos e ideológicos reflecte pouca informação e nesse caso terá de ser analisada, não só mas também, através de factores educacionais e culturais. Ao contrário do que Simmel e Veblen expõem na sua obra (Trickle Down Theory), uma análise do estudo de classes, Bourdieu (2010) define que se deve analisar o espaço, o âmbito e área social onde os indivíduos “lutam" para alcançarem o que desejam, definido pelo autor de field [campo de batalha]. O sistema de Moda é um fenómeno social que, na perspectiva de Bourdieu (2010), deve ser analisado na óptica da produção, não podendo ser interpretada fora do contexto social. Nessa óptica existe a produção visual, referente à imagem de um produto que é a revista, organizada de maneira a divulgar a Moda, a

compreender o vestuário e a apelar ao consumo, através de publicações fotografadas dependendo de publicidade para ter êxito. Em suma, as constantes transformações que a Moda atravessou conduziu a um termo composto em duas lógicas, as lutas internas que o fabrico trespassa, organizadas em noções de oposição velho versus [contra] novo, e, por outro lado, a lógica das lutas internas de classes sociais influentes que contrapõem as classes dominadas e dominantes (Rocha, 2011).

Gillo Dorfles no seu livro de 1984, intitulado La Moda della Moda, expõe algumas observações ocasionais, retiradas de jornais e revistas, no qual foi possível esclarecer algumas questões sobre o tema da Moda. O autor sempre encarou a Moda como um assunto importante na vivência de cada indivíduo, sendo um fenómeno do vestuário e o facto de estar ligado a assuntos do carácter individual, do humor individual, da maneira de estar na vida e do meio social onde se está inserido. O vestuário original e com boa apresentação numa sociedade, na área da Moda, é o espelho de uma exibição estética reflectindo o meio social em que o indivíduo se insere sendo uma afirmação aceite como incontestável. Deste modo, a Moda, para Dorfles (1988) é um elemento estilístico dependente da variável designada “gosto”, variável essa que passou a ser insuficiente para fazer a distinção entre o que é o “bem vestido” e o “mal vestido”. Na sua obra, Dorfles (1988) procura constantemente acabar com a ideologia do “Belo Absoluto” pondo em primeiro lugar a preocupação pela satisfação directa dos próprios impulsos estéticos de cada individuo, de modo a concluir que existe uma analogia entre Moda e Arte, procurando fundamentar a “Arte que está na Moda” e “Moda que é artística”.

Já Lipovetsky na sua obra de 1989, intitulada O Império do Efémero: a moda e seu destino nas

sociedades modernas, defende que o vestuário é universal ao contrário da Moda que é

símbolo de uma civilização moderna e por sua vez significa contradição e transitoriedade, desconhecendo historicamente o seu início. O autor (2010) refere que a fase artesanal e distinta da Moda é iniciada e criada por indivíduos relevantes, na área da Moda, que expandem os traços sociais e estéticos mais característicos da tendência concebida. Lipovetsky (2010) faz uma símile entre Moda e uma celebridade de cinema: enquanto a Moda é a estetização do vestuário, o star-system40 é a estetização do actor; a Moda singulariza pessoas e o star-system singulariza o actor; tal como a Moda é a encenação requintada do corpo, também o star-system é a encenação mediática do actor.

Ao longo das épocas surgiram diversos conceitos a propósito do sistema de Moda, como Jennifer Craik, em 1994, com a sua obra intitulada The Face of Fashion: cultural studies in

fashion, que apresentou razões para o facto de a Moda não pertencer apenas a sociedades

modernas, mas sim a todas as sociedades desenvolvidas e em vias de desenvolvimento. Com a perspectiva de que a Moda é de todos, a autora discorda das teorias anteriormente publicadas, como as teorias de Simmel e de Veblen, mostrando que a Moda não está limitada

ao mundo ocidental sendo que é um fenómeno global. Craik (2003) evidencia que em sociedades que se modificam rapidamente e que industrialmente cresçam a uma velocidade frenética é notável que o crescimento da Moda é mais evidente, mas este facto não significa que outras culturas sejam observadas como sociedades inferiores. A autora, ainda com as suas observações empíricas, concluiu que a Moda é um sistema de todas as sociedades ganhando um novo policentrismo41 e exemplo disso foram os mercados de Moda na Ásia que se começaram a desenvolver gradualmente no início dos anos 80. Com o aparecimento de novos

designers, de diferentes cidades europeias, e com a descentralização dos mercados europeus

surgiram novos centros de Moda (como o sucesso de Antuérpia e a criação da semana da Moda em Lisboa, no ano de 1991) originando a que no início dos anos 90 as publicações de Moda aumentassem consideravelmente. Desde as teorias de Simmel e de Veblen até ao século XX o conceito de Moda foi tendo diferentes perspectivas sendo generalizada global e localmente. A arte, a pintura, a fotografia e as publicações de Moda são para Entwistle (2015) e para Kawamura (2004) os conceitos que sintetizam o meio como a pesquisa em Moda deverá ser realizada. Ao contrário do que Saussure (1986) defende no âmbito da Semiótica42, designando a Moda como um sistema, que somente através dos textos de Moda é possível estudar esse fenómeno social, invés de explicar o sentido do vestuário do quotidiano e as práticas que a Moda contém. Kawamura na sua obra de 2004, intitulada Fashion-ology, critica os teóricos clássicos referindo a importância que eles deram à análise intuitiva perante a observação da Moda, descuidando-se a conferir a veracidade dos resultados através de provas empíricas às suas teorias. Contudo as teorias anteriormente mencionadas não são anuladas perante as teorias contemporâneas, sendo que os estudos em termos de vivências e experiências não tiveram, ao longo da história, a mesma relevância na literatura quanto os estudos mais recentes tiveram. Kawamura (2004) demonstra que o estudo da Moda e do vestir perante um

corpus de análise43 é mais preciso do que perante a metodologia usada ser meramente um estudo do texto e da bibliografia. A autora desenvolve os estudos de Moda na óptica de Bourdieu (2010), sendo este uma base fundamental para o desenvolvimento de pesquisas na área de produção e consumo, trabalhando na perspectiva dos estudos culturais. Segundo Kawamura (2004), a generalidade das investigações sobre o conceito de Moda não cria uma distinção evidente entre Moda e vestuário, ou seja, enquanto a Moda é um produto cultural simbólico, o vestuário é um produto alcançável. A Moda é um comportamento cultural sendo um produto representativo que define um indivíduo e uma sociedade, assim sendo a Moda pode ser um assunto de identidade e de consumo pessoal, bem como um assunto colectivo de fabrico e de distribuição.

No documento A Mensagem Visual da Moda (páginas 50-53)