• Nenhum resultado encontrado

Classe dos verbos bitransitivos

No documento A estrutura argumental da língua Dâw (páginas 94-99)

Mapa 1.1: Localização das línguas Nadahup (EPPS, 2005:6)

B. Raiz nominal

3.2.3. Classe dos verbos bitransitivos

Submetemos os verbos de valência bitransitiva a três testes: i. Reconhecimento de predicados bitransitivos;

ii. Produção de predicados bitransitivos iii. Apagamento de constituintes;

Segundo Martins (2004), há em Dâw cinco verbos bitransitivos:

Número Verbos em Dâw Tradução

1 nõo Dar

2 buy Jogar

3 or Passar remédio

4 yug Fazer vinho

5 w b Pôr em cima

Tabela 3.20: Verbos bitransitivos testados

Submetemos esses verbos a dois tipos de testes: reconhecimento de predicados bitransitivos e produção de predicados bitransitivos.

Os resultados dos testes mostraram-nos que os falantes da língua reconhecem apenas o verbo nõo d como verbo bitransitivo. Os outros verbos identificados por Martins (2004) são reconhecidos pelos falantes como:

i) Predicados transitivos com traduções diferentes das apresentadas por pela autora: buy d b (exemplo 101);

ii) Sintagmas nominais: yõor m d x mpl 02), yug vinho (exemplo 103);

95 |

(101) M nh buy dâr ray nô

1PS.OBL derrubar MV sorva maduro

D b p m m v 11m d !”

(102) dak dâw tee 1PS colocar gente filho em m d l m d n nç

(103) nee yug dâw xut- 1PS fazer mel vinho gente macho-MDO f z v nh d m l p h m m

(104) Tir wôob dâr mân baak

3PS cortar em cima de MV inaj cacho curupira 12

em cima

l t m m d p h d n

Dessa forma, o único verbo que realmente predica três argumentos em Dâw, e que até o momento foi reconhecido no trabalho de campo elaborado por nós, é o verbo nõo d .

Com relação ao verbo nõo d , a ordem defaut é S V OD OI. Não foram identificados morfemas de concordância e modo verbal nos paradigmas verbais testados, do mesmo modo como vimos com as construções intransitivas e transitivas.

(105) Woor weed dâw xut- tukano dar comida gente macho-MDO t n d m d p h m m

Submetemos o verbo nõo d t t d p g m nt d n t t nt . N próxima seção, apresentamos os resultados desse teste.

10 Sentença retirada de Martins (2004) e traduzida pelo informante. 11 Fruto da sorveira (Dicionário Houaiss).

96 |

Resultado do teste

i) Apagamento de constituintes

Com relação ao apagamento dos argumentos do verbo (sujeito, objeto direto ou objeto indireto), observamos, pelos dados elicitados, que é possível apagar o sujeito, gerando uma leitura de sentença imperativa, de modo semelhante ao visto com sentenças transitivas (exemplo 106). Também é possível apagar objetos diretos (exemplo 107), todavia não é possível apagar objetos indiretos (exemplo 108).

(106) N weed dâw xut- dar comida gente macho-MDO Dê comida para o homem!

(107) Woor dâw xut- tukano dar gente macho-MDO O tukano deu para o homem (108) *woor weed

tukano dar comida

O tukano deu comida

3.3. Síntese do capítulo

Nesse capítulo, apresentamos a proposta de reclassificação das classes verbais da língua Dâw. Martins (2004) classifica os verbos em Dâw em nove classes verbais, a saber: verbo ativo intransitivo, verbo ativo transitivo, verbo ativo bitransitivo, verbo de processo, verbo estativo equativo identificacional, verbo estativo equativo existencial, verbo estativo descritivo atributivo, verbo estativo descritivo qualificativo e verbo estativo descritivo posicional. Por meio de testes linguísticos variados, incluindo alternância de valência e julgamento de (a)gramaticalidade, mostramos que é possível simplificar essa classificação de Martins (2004) e reagrupar esses verbos em três classes verbais de acordo com a valência do verbo: classe dos verbos intransitivos (verbo ativo intransitivo, verbo de processo, verbo estativo equativo identificacional, verbo estativo equativo existencial, verbo estativo descritivo atributivo, verbo estativo descritivo

97 |

qualificativo e verbo estativo descritivo posicional); classe dos verbos transitivos (verbo ativo transitivo); e classe dos verbos bitransitivos (verbo nõo d .

Cada classe verbal apresentada mostrou padrões sintáticos e morfológicos específicos que nos possibilitou realizar essa reclassificação. De modo geral, os verbos intransitivo, de processo, estativo equativo (e suas subclasses) e estativo descritivo (e suas subclasses), analisados nesse trabalho como verbos intransitivos, não podem ser predicados de sentenças reflexivas e não ocorrem com o morfema dâr, mas ocorrem com xâd. Ainda dentro dessa classe, é possível identificar subclasse de verbos alternantes – isto é, que alternam livremente entre uma forma incoativa e causativa – e verbos não-alternantes. Além disso, identificamos que os predicados analisados por Martins (2004) como verbos estativos descritivos são adjetivos na língua. A verbalização do sintagma adjetival ocorre por meio de uma cópula (rãm t m como complemento o adjetivo. Todos os verbos podem ser causativizados por dôo f z .

Os verbos transitivos (ativos transitivos na classificação de Martins, 2004) podem formar sentenças reflexivas, ocorrem com o morfema dâr, mas não ocorrem com xâd. Eles podem ser causativizados por dôo f z . Apenas o argumento objeto pode ser removido da sentença sem gerar agramaticalidade. A remoção do sujeito ocorre somente se o modo da sentença for imperativo.

O único verbo bitransitivo em Dâw encontrado nesse trabalho foi o verbo nõo d , m m d d gumentos na sentença; o seu objeto direto pode ser removido, mas não seu objeto indireto. Sujeitos só podem ser removidos se configurarem sentenças imperativas. Esse verbo não pode ser causativizado por dôo. Os outros verbos bitransitivos apresentados em Martins (2004) não foram identificados e nem produzidos pelos falantes testados.

98 |

4.0. Introdução

Neste capítulo, discutimos o sistema tonal da língua Dâw. A abordagem desse tópico é importante nesta dissertação uma vez que as abordagens anteriores (Martins, 2004; Martins, 2005), acerca dos processos de mudança de valência em Dâw, afirmam que há, na língua em estudo, morfemas tonais responsáveis pelo aumento e diminuição de valência dos verbos.

Durante nossa pesquisa, em um primeiro momento, analisamos o processo de transitivização e o sistema tonal de sentenças intransitivas e transitivizadas. Testamos 24 verbos intransitivos em dois tipos sentencias: a sentença intransitiva ou incoativa, e a sentença transitiva ou causativa com a manipulação de contextos tonais específicos. A análise dos dados coletados mostrou-nos que o sistema tonal em Dâw é previsível na sentença. Assim, em nível prosódico, os itens lexicais que compõem as sentenças são divididos em frases fonológicas com núcleo à direita. Estas são formadas por no mínimo duas e no máximo três silabas, às quais são associadas previsivelmente melodias tonais (L H) e (L L H).

Diante dessas descobertas, vimos como necessária a reavaliação dos processos gramaticais como a transitivização e intransitivização que, a nosso ver, não condicionam mudanças tonais dos verbos, mas decorrem de um padrão tonal previsível.

Na seção 4.1, apresentamos uma breve discussão acerca da análise de Martins (2004) sobre o sistema tonal da língua Dâw; na seção 4.2, apresentamos uma discussão acerca dos processos de transitivização por meio de morfema tonal descendente; na seção 4.3, apresentamos uma discussão sobre os processos de intransitivização por apagamento tonal do verbo; na seção 4.4, apresentamos a análise original de Storto, Costa e Andrade (manuscrito) sobre o sistema tonal dos itens lexicais em nível sentencial e a repercussão dessa análise para o entendimento dos processos de transitivização e intransitivização. Por fim, na seção 4.5, fazemos uma síntese do que foi discutido ao longo do capítulo.

99 |

No documento A estrutura argumental da língua Dâw (páginas 94-99)