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Classes Sociais e Hegemonia na República Velha

No documento II SEBASTIÃO LÁZARO PEREIRA (páginas 34-39)

A República Velha (1889-1930) foi marcada pela hegemonia do grande capital cafeeiro mercantil-exportador no seio do bloco no poder. Essa fração da classe dominante exerceu sua hegemonia de forma conflituosa e antagônica com as

outras frações de classe e mesmo com classes que estavam no limiar de sua ascensão – especificamente, a industrial.

Na República Velha, recordemos, a indústria era pouco desenvolvida e a burguesia exportadora2 era a hegemônica; não obstante, a classe dominante era segmentada e regionalizada, constituindo-se a cafeeira como a principal, seguida pela cacaueira, algodoeira e outras – não necessariamente nesta ordem.

Não seria exagero afirmar que a economia cafeeira, com todos os seus desdobramentos, forjou a dinâmica econômica e social da República Velha. Efetivamente, o modelo agroexportador fundamentado na grande propriedade e a República oligárquica, assentada sobre o pacto entre as elites regionais, sintetizam os elementos que dominaram o cenário brasileiro nesse período.

Perissinotto (1994) analisou a República Velha também recorrendo ao referencial teórico poulantziano. Faz distinção entre segmentos da burguesia, ou seja, percebe a existência de uma “burguesia nacional”, de uma “burguesia compradora” e de uma “burguesia interior”. A primeira teve seu desenvolvimento independente do capital estrangeiro e adotou posições antiimperialistas em muitas situações. A segunda, voltada para a importação/exportação naquele momento da história brasileira, foi subordinada ao capital internacional, o que conferiu um caráter supranacional ao bloco no poder. A burguesia interior pode ser interpretada como intermediária entre as demais, dependente e independente, sendo representada pela burguesia industrial nascente.

Em nenhum caso essa analogia detalha com perfeição as frações de classe que existiram na República Velha, mas servem de referencial teórico para fins de análise. A nosso ver, o mérito, da análise de Perissinotto é que ele procura mostrar

que o bloco no poder naquele período não era homogêneo e muito menos coeso. Era bem mais segmentado e conflituoso do que supunham diversos autores3.

O bloco no poder na República Velha era composto, basicamente, pelos representantes da lavoura, o grande capital cafeeiro, e pela burguesia industrial – pelo menos em São Paulo, que era o “centro dinâmico” da economia brasileira. Nos estados periféricos, a fragmentação no bloco do poder (isto é, das frações componentes) era muito menor - no Estado de Goiás, por exemplo, era muito homogêneo e coeso.

Perissinotto (1994) apontou diversas divergências entre as frações de classe situadas no bloco no poder na República Velha. Podemos, sinteticamente, resumi- las da seguinte forma: a) a lavoura e o grande capital cafeeiro divergiram quanto ao custo do frete ferroviário, quanto à comercialização, quanto ao financiamento da produção e questões afins; b) o grande capital cafeeiro discrepou da burguesia industrial, principalmente porque esta representaria uma ruptura do padrão de dependência do país.

O ponto importante a ser especificado é que o capital estrangeiro constituiu- se em fração hegemônica no interior do bloco no poder ao longo da República Velha. Ele:

se fez presente em vários setores da economia nacional. Monopolizou a comercialização dos nossos principais produtos agrícolas, participou com peso no setor de serviços públicos, assumiu posições importantíssimas no financiamento das atividades comerciais e das atividades financeiras do setor público nacional. Tal ascensão econômica, sobretudo através do controle das finanças públicas, conferiu ao capital estrangeiro a capacidade de conquistar sólidas posições que lhe deram o poder de intervir nas decisões do Estado brasileiro acerca das políticas econômicas (PERISSINOTTO, 1994, p. 167).

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Vários estudiosos viam uma homogeneidade e coesão no bloco no poder na República Velha, entre os quais podemos apontar Joseph Love (1982) e Boris Fausto (1972).

Cabe, porém, a indagação: como o Estado de São Paulo estabelecia relações políticas, sociais e econômicas com os Estados periféricos da federação? Quais foram os efeitos da dominância do grande capital cafeeiro sobre o campo, em São Paulo e no Brasil?

A República se consolidou na forma federativa, objetivo das classes dominantes diretamente ligadas à economia agroexportadora. O país acabara de abolir a escravidão, mas isso não significava que o centralismo tivesse perdido sua força política. Basta dizer que, “em 1889, verificava-se no quadro político imperial que, entre os senadores, de um total de 59 apenas três eram do Estado de São Paulo” (PERISSINOTTO, 1994, p. 93). Desta forma, advogando em prol de seus próprios interesses, o Estado de São Paulo, ou seja, a classe dominante paulista (alta burocracia estatal inclusa) passou a defender o ideal federativo.

A fração de classe dominante, que detinha o controle na produção e comercialização do café em São Paulo – principal produto de exportação brasileiro – e, conseqüentemente, dos negócios do país, também controlavam as importações de manufaturas que se destinavam ao mercado interno, então, visualizou neste ideal uma possibilidade de consolidar a sua hegemonia4.

Após a proclamação da República, São Paulo articulou um sistema federativo plenamente organizado com a “política dos governadores”, fragmentando o governo central e estabelecendo um contato direto com os outros Estados. Nesse ponto, podemos começar a interpretar as relações de São Paulo com os demais Estados: sua força política somente seria respeitada a partir da lealdade ao governo federal. Desta forma, não importava quem estivesse nos governos estaduais, desde que estivesse com o governo federal.

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Minas Gerais ocupava um “honroso”segundo plano, já que não tinha produto para exportação lhe interessava o mercado interno, em especial o paulista.

A dinâmica agroexportadora sobrepôs-se a um descontínuo processo de industrialização, cujos limites e pujança foram dados, em grande medida, pela acumulação do setor cafeeiro. Este processo de industrialização acentuou a rede urbana preexistente, que havia se configurado no período colonial, formada por centros que haviam se constituído em mercados para a importação de produtos fabris (SINGER, 1973).

Com o crescimento industrial, a urbanização se intensificou. Cresceram, dessa forma, os centros urbanos de São Paulo, Rio de Janeiro, cidades do Vale do Paraíba e da Zona da Mata mineira, impulsionadas pela economia cafeeira. Concomitantemente, no Sul e Centro-Oeste do país, expandiram-se ou mesmo surgiram núcleos urbanos – foi o caso de Porto Alegre, Rio Grande, cidades do Vale do Itajaí, em Santa Catarina, em Goiás, na região sul do estado, e no Triângulo Mineiro –, baseados na economia do mercado interno (atuavam como fornecedores de mantimentos às populações urbanas da própria região e, principalmente, do Centro-Sul, capitaneado por São Paulo). No Nordeste, desenvolveram-se núcleos urbanos em Salvador e Recife, baseados na economia agroexportadora da cana-de- açúcar, enquanto no Norte do país, em Manaus e Belém, os núcleos cresceram a partir da exportação da borracha.

Mesmo nos Estados que tinham algum produto voltado à exportação as relações de produção existentes no campo eram pré-capitalistas, originárias do período do escravismo. Era o que acontecia em Goiás. Por outro lado, em São Paulo, principalmente na capital, as relações de produção eram compatíveis com os pressupostos do Estado burguês, os indivíduos se constituíam como livres e iguais perante a lei e não como pertencentes a uma classe social. Eram cidadãos, assim

como o acesso formal aos cargos estatais era pautado pelo critério da competência, diferentemente do que ocorria nos outros Estados brasileiros.

Essa contradição (permanência de relações de produção pré-capitalistas em um Estado burguês) resvalava para um tipo complexo de dominação – o coronelismo. É o que detalharemos a seguir, apresentando, ainda, sua forma peculiar de manifestação no Estado de Goiás.

No documento II SEBASTIÃO LÁZARO PEREIRA (páginas 34-39)