DE FAZENDEIROS E AGRONEGOCISTAS:
ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO CAPITALISTA EM GOIÁS
SEBASTIÃO LÁZARO PEREIRA
DE FAZENDEIROS E AGRONEGOCISTAS:
ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO CAPITALISTA EM GOIÁS
Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, como requisito parcial para a obtenção do título de DOUTOR em Ciências Sociais, sob orientação do Prof. Dr. Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida.
BANCA EXAMINADORA
___________________________________________
___________________________________________
___________________________________________
___________________________________________
DEDICATÓRIA
O caminho que percorro todos os dias, a luz que me orienta
na caminhada que faço, que me aquece e conforta, o carinho
que alimenta minha alma e meu corpo, a mão amiga que me
conduz, é você, Querli, que compartilha comigo o destino
nas horas tristes e alegres. Sem você, esposa, companheira,
confidente, conselheira, eu certamente não teria conseguido.
Para Luíza, minha caçula, cujo sorriso, mesmo reclamando
das horas que a elaboração desta tese impediu que
passássemos juntos, meus dias a cada manhã.
Para Laís, minha filha “do meio”, que com seu carinho, sua
doçura, diariamente me acalenta, renovando minhas
energias, minhas forças para continuar.
Para Letícia, minha filha mais “velha”, que, nesta “fase” de
contestação, da efervescência da adolescência, me revigora
a cada dia, me lembra como são constantes as mudanças
AGRADECIMENTOS
Ao Prof. Dr. Lúcio Flávio de Almeida, que, em meio a tantas atividades
acadêmicas, sempre exerceu de forma exemplar a função de orientador, apontando
falhas, com críticas pertinentes que, além de melhorarem substancialmente este
trabalho, trouxeram-me crescimento intelectual. Sem a sua colaboração, realizar
esta tese seria impossível.
À CAPES e à FESURV (Universidade de Rio Verde), cujas políticas de
capacitação de docentes me possibilitaram permanecer em São Paulo,
RESUMO
O propósito desta tese é delinear aspectos do desenvolvimento capitalista em Goiás. Tentei identificar e compreender alguns dos principais arranjos econômicos, políticos e ideológicos, que moldaram a transição ao capitalismo desta região.
Fazendeiros e agronegocistas, o “tradicional” fazendeiro e o “moderno” participante do agronegócio, duas oligarquias, os Caiados e os Ludovicos, se alternam no centro da cena política e no controle do governo de Goiás, exercendo um papel crucial para a adaptação molecular do bloco no poder regional às diferentes fases do processo de consolidação e desenvolvimento do capitalismo dependente brasileiro. Ao fim e ao cabo, se modernizaram, mas mantiveram dois pilares incólumes: sua condição de proprietários rurais e, mais ainda, de latifundiários. Em Goiás, o latifúndio permanece sinônimo de poder.
No primeiro capítulo busco examinar no período da República Velha, que é extremamente rico para a história regional brasileira, as configurações particulares da sociedade goiana, sua classe dominante e suas contradições internas, “resolvidas”, por um certo período, pela “Revolução de 30”.
Nos dois capítulos subseqüentes, investigo as ações do novo oligarca ungido pela Revolução de 30, Pedro Ludovico Teixeira, em tempos de Estado Novo e durante o período do Plano de Metas. Foi um tempo de mudanças urbanas profundas, com a permanência da estrutura fundiária no campo. Examino os conflitos sociais ocorridos e como a classe agrária se uniu ao golpe de 64 e derruba o último representante da oligarquia, o próprio filho de Pedro Ludovico.
ABSTRACT
The purpose of this thesisis to outline aspects of the capitalist development in Goiás. I have tried to identify and comprehend some of the main economic, political and ideological arrangements, which modeled the transition to the capitalism of this region.
Farmers and agro-businessmen, “traditional” farmer and “modern” participant in the agro business, two oligarchies, the Caiados and the Ludovicos take turns in the centre of the political scene and in the government’s control of Goiás, performing a crucial role for the molecular adaptation in the regional power bloc for the different phases of the consolidation and development process of the Brazilian dependent capitalism. After all, they modernized, but keeping two unchanged bases: their condition of rural property owners, furthermore, the landowners. In Goiás, the latifundium remains synonym of power.
In the first chapter, I have seek to examine in the Brazilian Old Republic Period, which is extremely rich for the brazilian regional history, the particular configurations of the goiana society, its ruling class and its internal contradictions, “solved”, during a certain period by the Revolution of 30.
In the two following chapters, I have investigated the actions of the new oligarch blessed by the Revolution of 30, Pedro Ludovico Teixeira, in times of Estado Novo and during the period of the Plano de Metas. It was a time of deep urban changes, remaining the agrarian structure in the field. I have examined the occurred social conflicts and how the agrarian class joined to 64 coup d’étatand tear down the last representative of the oligarchy, Pedro Ludovico’s son.
ÍNDICE
Introdução ……… ……… 014
I – Capitalismo e dominação: antecedentes e continuísmo na sociedade goiana ………... ……… 018
1.1 Origem e Função do Estado Burguês ………. 021
1.2 Classes Sociais e Hegemonia na República Velha ……….. ……… 034
1.3 Estado Burguês, Relações Pré-Capitalistas: a Gênese do Coronelismo… 039 1.4 A Configuração Particular do Coronelismo em Goiás ……… 045
1.5 A Ascensão de uma Nova Fração de Classe no Seio do Bloco no Poder. 053 1.6 A Revolução de 30 em Goiás ………... 061
II – O nacional-desenvolvimentismo: avanço capitalista e os conflitos sociais em Goiás ……… 069
2.1 Nacional-Desenvolvimentismo e Desenvolvimento Regional na Nova Capital Goiana ……… 073
2.2 O Desenvolvimento do Centro-Sul do Estado ……… 079
2.3 O Plano de Metas e a Aceleração do Desenvolvimento Capitalista ……… 085
2.4 A Valorização Imobiliária e os Conflitos Sociais ……… 096
2.5 A Resistência dos Posseiros ………. 099
2.6 Configuração das Estruturas ………. 103
III – Tempos de Ludovico ……… 108
3.1 Os Governos em Goiás: 1930 a 1964 ………. 115
3.2 O Governo Mauro Borges ………. 121
3.3 Breve Abordagem do Golpe de 64 ………...………. 124
3.4 O Golpe em Goiás: as Classes Proprietárias se Unem e Mauro Borges Cai ……… 131
IV – Uma nova etapa do desenvolvimento capitalista em Goiás: sempre à direita – a “modernização conservadora” ……… 142
4.1 O Desenvolvimento Capitalista no Campo ………. 144
4.2 Quadro Político em Goiás Durante a Ditadura Militar ……… 154
4.3 A Modernização da Agricultura ………. 162
4.4 As Inovações Tecnológicas ……… 164
4.6 Transformações nas Relações Sociais de Produção em Goiás …………. 177
4.7 O Aumento da Produção, a Renda Interna e a Urbanização em Goiás … 183 V – A “descoberta” do mercado: os impactos da política neoliberal e a classe dominante goiana ……… 188
5.1 A Redemocratização: Novos Atores ou Volta ao Passado? ……… 189
5.2 O Financiamento da Classe Dominante ……… 196
5.3 A Emergência do “Agronegocista”: a Agroindústria e a Agropecuária Goiana ……….… 210
5.4 A Especialização da Agricultura ……… 216
5.5 Evolução da Renda e a Distribuição Fundiária ……… 221
Considerações finais ……… 233
LISTA DE TABELAS
Tabela 1: Goiás: Distribuição das propriedades rurais – 1920 ... 046
Tabela 2: Goiás: Municípios de maior população – 1920 ... 047
Tabela 3: Cargos exercidos pela família Caiado – 1920 ... 049
Tabela 4: Goiás – População e produção agropecuária por regiões (1920) ... 057
Tabela 5: Taxas de crescimento do PIB brasileiro e setores – 1955-61 (em %) .... 089
Tabela 6: População brasileira e goiana ... 093
Tabela 7: Principais Estados de origem dos migrantes para Goiás ... 093
Tabela 8: Goiás – Composição da renda interna (%) ... 094
Tabela 9: Valor das exportações totais (índices: 1928 = 100) ... 110
Tabela 10: Números de tratores na agricultura – Brasil e Goiás (1960-85) ... 165
Tabela 11: Goiás – População Urbana e Rural (%) (1940 a 1980) ... 167
Tabela 12: Participação (%) de Goiás no Crédito Rural ... 170
Tabela 13: Área e número de estabelecimentos (%), segundo extratos Goiás e Brasil (1970-80) ... 171
Tabela 14: Crédito Rural x Nº de Estabelecimentos e Produção – Brasil ... 174
Tabela 15: Comparações entre o valor do financiamento com o valor da produção e com a área em diferentes extratos de área – Brasil (1970 e 1975) ... 175
Tabela 16: Distribuição percentual do valor dos financiamentos rurais do Banco do Brasil, segundo o tamanho do empréstimo – Brasil (1969-76) ... 176
Tabela 17: Pessoal ocupado na agricultura – Sudoeste de Goiás (1970-80) ... 180
Tabela 18: Participação (%) dos setores de composição do PIB do Estado de Goiás (1970-80) ... 185
Tabela 19: Recursos do FCO disponibilizados e aplicados em Goiás 1989 -1990 R$ (em milhões) ... 205
Tabela 20: Participação (%) do Pessoal Ocupado e Receita Total, por Gênero da Indústria Goiana (1975, 1985, 1994) ... 211
Tabela 21: Evolução da área e da produção das principais culturas selecionadas – Goiás (1990-98) ... 218
Tabela 22: Participação (%) do PIB por setor– Brasil/Goiás (1985-96) ... 223
Tabela 23: Distribuição Fundiária em Goiás (1980-96) ... 227
LISTA DE GRÁFICOS
LISTA DE SIGLAS
ADP – Ação Democrática Parlamentar AGF – Aquisição do Governo Federal AL – Aliança Liberal
AP – Ação Popular
Arena – Aliança Renovadora Nacional BEG – Banco do Estado de Goiás
BNDE – Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico Caesgo – Companhia Agrícola do Estado de Goiás CAI – Complexo Agroindustrial
Cang – Colônia Agrícola Nacional
Casego – Companhia Agrícola de Silos do Estado de Goiás Celg – Centrais Elétricas de Goiás
Cepaigo – Centro Penitenciário Agrícola e Industrial de Goiás CGT – Comando Geral dos Trabalhadores
CLMD – Cruzada Libertadora Militar Democrática CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
Contag – Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura Crisa – Consórcio Rodoviário Intermunicipal
DEC – Departamento Estadual de Comunicação DES – Departamento Estadual de Saneamento ED – Esquerda Democrática
Esefego – Escola Superior de Educação Física ESG – Escola Superior de Guerra
Fago – Frente Agrária Democrática Goiana
FCO – Fundo Constitucional da Região Centro-Oeste Fiesp – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo FNE – Fundo Constitucional da Região Nordeste
FNO – Fundo Constitucional da Região Norte
Fomentar – Fundo de Participação e Fomento à Industrialização do Estado de Goiás
LOPP – Lei Orgânica dos Partidos Políticos MAC – Movimento Anticomunista
MDB – Movimento Democrático Brasileiro OAB – Ordem dos Advogados do Brasil
Opac – Organização Paranaense Anticomunista PCB - Partido Comunista Brasileiro
PD – Partido Democrata
PDS – Partido Democrático Social PDT – Partido Democrático Trabalhista
PGPM – Política de Garantia de Preços Mínimos PMDB – Partido do Movimento Democrático Brasileiro PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar Polocentro – Programa de Desenvolvimento do Cerrado Polop – Política Operária
PRG – Partido Republicano de Goiás PSB – Partido Socialista Brasileiro PSD – Partido Social-Democrata PSP – Partido Social-Progressista PT – Partido dos Trabalhadores PTB – Partido Trabalhista Brasileiro
Seplan – Secretaria Estadual de Planejamento Setas – Secretaria de Trabalho e Ação Social SNCR – Sistema Nacional de Crédito Rural
Sumoc – Superintendência da Moeda e do Crédito Suplan – Superintendência de Planejamento
Supra – Conselho Regional da Superintendência do Plano de Reforma Agrária
A dinâmica de uma sociedade regional é fortemente determinada por um
espraiamento maior que se dá nos planos nacional e internacional. Mas não existe,
aqui, uma via de mão única. Ao analisar uma dada região (no caso, o Estado de
Goiás), tentaremos apreender como a dinâmica do processo de acumulação
capitalista da sociedade goiana foi afeiçoada pelas peculiaridades temporais,
espaciais e institucionais.
Este amoldamento subnacional está interligado a um processo maior de
desenvolvimento capitalista do país – que, por sua vez, está condicionado aos
fatores preexistentes na região, tais como as relações de produção, o regime de
apropriação fundiária, a natureza da produção, os recursos naturais, a localização e
a própria ocupação demográfica do território.
Neste trabalho, abordaremos alguns dos impactos deste duplo bloco de
determinações sobre a classe dominante goiana.
No primeiro capítulo buscamos apresentar a origem e função do Estado
burguês em uma tentativa de situar as classes sociais da República Velha a partir da
perspectiva de que coexistiram relações capitalistas e pré-capitalistas no país. Uma
das principais expressões políticas desta ambigüidade, ou melhor, desta
coexistência contraditória de relações sociais vinculadas a vários modos de
produção, foi o coronelismo.
O governo estadual era exercido por uma oligarquia coronelística que foi
confrontada por aliados, residentes na região sul/sudoeste de Goiás. Estes, por sua
vez, tinham estabelecido relações comerciais com grupos econômicos do Triângulo
Mineiro alterando a sua base de produção – da pecuária para agricultura – obtendo
por não ocupar mais posições do que pretendia, tanto no que se refere a postos no
governo estadual como também, a cargos eletivos em âmbito da federação.
Este grupo foi liderado por Pedro Ludovico, aliado de Vargas na chamada
Revolução de 30, em confronto direto com os Caiados, que detinham o governo
estadual. Com a derrubada da República Velha, Ludovido foi nomeado interventor
estadual, iniciando uma nova oligarquia que iria governar Goiás até o Golpe de 64.
No segundo capítulo abordamos as estratégias de consolidação do poder
utilizadas por Pedro Ludovico, como a construção de Goiânia, que serviu, inclusive
para a política interiorizante de Vargas.
O desenvolvimentismo estava em curso. A “Marcha para o Oeste” de Vargas
e o “Plano de Metas” de JK trouxeram importantes mudanças para a região
Centro-Oeste e, particularmente, para Goiás. Tentamos mostrar os graves conflitos sociais
ocasionados pela forte migração e valorização de terras, enquanto o latifúndio
continuou sendo sinônimo de poder da classe dominante nativa.
O terceiro capítulo procura indicar a preponderância da fração de classe
dirigida por Pedro Ludovico, muito mais próxima de se tornar hegemônica no plano
regional do que qualquer outra no âmbito nacional ao longo do período populista
(1930-1964). Isto se deveu, por um lado, à política de modernização (conservadora)
implementada pelo ludoviquismo. E, por outro, à ausência em Goiás, de uma forte
fração mercantil-bancária ligada as atividades de exportação e importação, como foi
o caso da grande burguesia cafeeira paulista. O crescimento da classe média
assalariada, grandemente interessada nas políticas estatais desenvolvimentistas,
reforçou aquela tendência à hegemonia. Finalizando o capitulo, esboçamos uma
proprietárias goianas, o que encerrou, o que encerrou o período de Ludovico no
governo estadual.
O desenvolvimento capitalista no campo, a “modernização conservadora”, é
abordado no capítulo quatro. O intuito é mostrar que estes processos trouxeram
significativos impactos em Goiás, transformando as relações sociais de produção,
com a incorporação de novas tecnologias produtivas através da financeirização da
agricultura brasileira.
A forte disponibilização de recursos estatais foi a chave deste processo, que,
contudo, não alterou o perfil fundiário goiano. Este continuou concentrado,
permitindo que as oligarquias rurais continuassem partilhando a maior parte da
renda estadual.
As implicações da redemocratização do país para o tema que abordo são
examinadas no quinto e último capítulo. Políticos conservadores,na maioria oriundos
do antigo PSD de Pedro Ludovico, retornaram ao governo estadual.. Desta vez, no
entanto, estavam divididos em dois grupos, lutando pela hegemonia partidária,
saindo vencedor o liderado por Íris Rezende. A oposição, também conservadora em
sua maioria, ficou a cargo da velha oligarquia dos Caiados com alguns grupos que
surgiram durante o regime militar.
Em tempos de surgimento da agroindústria de novo tipo, novamente a classe
dominante aproveitou-se largamente de financiamentos estatais. O perfil fundiário
alterou-se em função da atividade produtiva, que se traduz em propriedades
grandes, com mais de mil hectares e forte crescimento da produção. Mas se
subordinou o processo produtivo agrícola e emergiu o agronegócio.
CAPÍTULO I – CAPITALISMO E DOMINAÇÃO:
ANTECEDENTES E CONTINUIDADES
NA SOCIEDADE
As relações de dependência e subordinação socioeconômicas do Estado de
Goiás para com as classes dominantes da República Velha moldaram a dinâmica da
economia estadual nesse período. De antemão, devemos esclarecer o fato de
apresentarmos a economia goiana como dependente e subordinada – já que o setor
exportador de café era a principal fonte de riqueza da economia nacional e a
reprodução material da sociedade e o Estado giravam em torno desta atividade.
As classes dominantes do Estado de Goiás tinham sua principal atividade, a
criação de gado, voltada inteiramente ao mercado interno. Fazendo uma analogia
com a tese de Wilson Cano (1998) acerca das relações centro versus periferia, a
economia estadual – a “periferia” – subordinava-se ao processo de produção
ampliada do centro dinâmico – São Paulo, neste caso.
Toda a produção nacional (implicando a arrecadação de tributos, a renda e o
emprego) crescia ou diminuía em função das inversões no setor exportador.
Refletia-se de tal modo na sociedade que a diversificação das atividades tipicamente
urbanas, como o comércio, a atividade bancária e mesmo algumas indústrias,
acrescidas do desenvolvimento do setor de transportes da produção e da população,
ocorreram sob a hegemonia do comércio exterior.
O padrão de acumulação capitalista internacional, no período, esteve
determinado pela divisão do trabalho entre as nações, ditava o fluxo de mercadorias
e capitais entre o Brasil e o mundo. O país obtinha dessa forma o que não produzia
internamente, inclusive capitais financeiros (que o ajudavam a complementar as
inversões exigidas para o setor de infra-estrutura).
É interessante notar que, devido à grande importação de produtos não
industrializados internamente, a principal fonte de arrecadação do erário público era
dos resultados das exportações. Em face desta relação entre o valor das
exportações e a capacidade de endividamento externo, Villella e Suzigan (1973)
observaram que o governo federal adotou uma orientação do tipo laissez-faire na
condução e implementação de sua política econômica. Isso coincidia com os
interesses da burguesia mercantil-bancária (exportadora/importadora).
Com esta dependência exportadora/importadora, o Estado brasileiro ficou
muito suscetível. Quando havia crises internacionais e superprodução do café, o
principal produto exportado, a geração de riqueza interna começava a se deteriorar
e o Estado adotava políticas de defesa ostensiva ao setor cafeeiro, abandonando o
liberalismo.
Sem sombra de dúvida, a implementação de políticas de defesa de um setor
da economia é um indicador da hegemonia da fração de classe no bloco do poder
da classe dominante. Ainda mais, as medidas adotadas tinham um forte componente
ideológico que se justificava pela necessidade de resguardar a economia nacional, a
renda e o emprego. Por certo, isso equivalia a defender a renda da classe
dominante (prioritariamente, os interesses da fração de classe hegemônica no seio
do bloco no poder).
Na defesa dos interesses da classe dominante, o Estado criava uma distorção
no sistema de preços e estimulava a superprodução, devido, principalmente, à
atratividade do negócio e à garantia do retorno do investimento (via políticas
compensatórias do governo). Se as políticas econômicas desenvolvidas favoreceram
o conjunto da classe dominante, no interior do bloco no poder, privilegiavam uma
determinada fração dela. Essas políticas foram amplamente estudadas por diversos
pesquisadores. Celso Furtado, por exemplo, em seu clássico Formação Econômica
de benefício para a classe dominante, realizando a socialização das perdas do setor
cafeeiro.
Buscaremos, a seguir, detalhar as relações dependentes da economia goiana
e como sua classe dominante se integrava nacionalmente, discutindo, em uma
primeira aproximação, o Estado burguês e sua dinâmica de classes. No segundo
momento, abordaremos o Estado burguês da República Velha, debruçando-nos
principalmente sobre sua classe dominante. Fecharemos este debate com a
situação específica do Estado de Goiás – que, mesmo sendo uma unidade inserida
no Estado burguês, ainda era fortemente marcado por elementos do pré-capitalismo. Esta unidade contraditória se manifestava, por exemplo, no coronelismo.
1.1 Origem e Função do Estado Burguês
Em uma formação social capitalista, especificamente, proprietários dos meios
de produção (transformados em capital) apropriam-se do excedente produzido pelos
trabalhadores, o mais-valor. Parte deste se destina ao consumo realizado pela
própria burguesia e a outra se destina à reprodução ampliada do capital,
convertendo-se em meios de produção e força de trabalho.
Devemos considerar que, em tal formação social, a repartição do mais-valor
entre diferentes frações de classe, que compõem a classe dominante, possuem, por
sua vez, diferentes interesses econômicos (classe fundiária, capital comercial e
bancário, capital industrial, etc.) Cada uma destas frações repartem os ganhos
totais, o mais-valor, que advém do lucro, juro e da renda da terra, de forma não
igualitária, dependendo do grupo social dominante que primaria sobre os demais,
No entanto, esses distintos lugares e funções de cada um dos conjuntos de
capitais os colocam, potencialmente, em conflito entre si, apesar da condição geral
de serem todos capitais e, em face disso, possuírem o mesmo interesse na
exploração do trabalho e a mesma lógica de caráter geral.
A distinção entre as diversas frações do capital pode ser feita através da
oposição entre a produção e circulação, que identifica, de um lado, diferentes formas
de capital produtivo, por exemplo, capital agrário e capital industrial e, de outro,
distintas formas que podem ser assumidas pelo capital dinheiro, por exemplo, capital
bancário e comercial.
No entanto, em uma tal formação social convivem diversos modos de
produção que podemos considerar pré-capitalistas, juntamente com o modo de
produção capitalista. Por exemplo, nos centros urbanos do Brasil havia, durante a
República Velha, relações de produção capitalistas, enquanto no campo perduravam
relações de produção muito próximas do feudalismo, nas quais o camponês
trabalhava a terra do latifundiário em troca de um pedaço de terreno de que pudesse
viver e tirar o sustento da família.
O conceito de modo de produção foi desenvolvido por Marx para apreender
as articulações complexas e contraditórias entre relações de produção e forças
produtivas, articulações que constituem os determinantes fundamentais das
principais relações sociais de produção que configuraram as diferentes formações
históricas. Este conceito se reporta à
Assim, desta forma, se estivermos tratando de um modo de produção
capitalista, que irá definir a formação social capitalista sob sua predominância,
teremos: i) a separação entre os proprietários dos meios de produção dos
trabalhadores, que não os possuem; ii) a conversão da força de trabalho em
mercadoria, sob a forma de salário; iii) a extração da mais-valia sobre o trabalho pelo
proprietário dos meios de produção, o que permitirá a ampliação do capital investido
na produção; iv) a produção de mercadorias que visem somente ao mercado.
Os modos de produção formam, em seu conjunto, a infra-estrutura econômica
da formação social capitalista, que é bastante complexa, devido às diferentes
relações sociais de produção envolvidas. Esta infra-estrutura se articula, de modo
igualmente complexo, a uma “superestrutura”, ou seja, instâncias jurídico-políticas e
ideológicas. Também nesta instância coexistem os elementos determinados pelas
relações sociais de produção dominantes com elementos determinados pelas outras
relações de produção. Alguns autores, a partir da leitura do próprio Marx,
consideram mais fecundo incorporar ao conceito de modo de produção também as
instâncias não propriamente econômicas. Neste caso, a formação social é todo o
conjunto de abarca diferentes modos de produção, o que implica diferentes relações
sociais de produção, com eventual predominância de um modo de produção sobre
os demais.
No plano mais geral, o desenvolvimento de uma formação social capitalista
submete-se, de forma específica, às leis de movimento típicas deste modo de
produção. Marx, Engels e Lênin construíram teoricamente a base para a discussão e
apreensão desta problemática. Tal estrutura conceitual considera o Estado, em uma
conflito entre classes antagônicas, garantindo a dominação de uma classe sobre a(s)
outra(s).
Essa seria, então, grosso modo, a função do Estado. Além desse conceito,
porém, há que mencionar incrementos teóricos adicionais, como é o caso da
correspondência entre as formas políticas e diversos tipos de relações de produção.
Poulantzas (1986), interpretando as bases teóricas fornecidas por Marx e Engels,
construiu o conceito de Estado capitalista – ou, como Marx e Engels denominaram,
Estado burguês.
Para Poulantzas (1986), o Estado se constitui em um fator de coesão de uma
formação social dividida em classes. Uma de suas funções é organizar os interesses
políticos da classe dominante. Possui uma autonomia relativa em relação às outras
classes e mesmo internamente à classe dominante e às frações de classe que a
compõem. Esta autonomia relativa se deve à separação específicado Estado frente
à estrutura econômica, que vem a ser uma peculiaridade do modo de produção
capitalista e que é mais uma decorrência da expropriação dos trabalhadores de seus
objetos e meios de trabalho ou de produção.
O método seguido por Poulantzas na obra a que nos referimos é, num
primeiro momento, uma recusa às teorias que ele próprio considera economicistas e
historicistas. O reducionismo econômico vê a supra-estrutura como simples reflexo
da infra-estrutura; o historicismo, por sua vez, considera a classe social como sujeito
da história e, portanto, criadora das estruturas sociais. Para Poulantzas, "entre o
conceito de classe, conotando relações sociais e os conceitos conotando estruturas
não há homogeneidade histórica" (1986, p. 70). O autor contrapõe-se a tais
tendências, encontrando na instância supra-estrutural determinações que lhe são
ideológico.
A relação entre “base econômica” e “supra-estrutura” é a "matriz teórica
fundamental" do desenvolvimento teórico de Poulantzas. Em especial no que tange
à sustentação da autonomia relativa do Estado capitalista, autonomia esta que
significa que este Estado deve ser concebido como tendo determinações próprias,
específicas e, portanto, diferentes das econômicas.
O Estado é a instância para a qual confluem as estruturas e as práticas
sociais – e só aí é possível que a luta de classes transforme a estrutura (lutas
políticas de classe). É ele que traduz, na esfera política, os interesses das diferentes
classes:
o seu traço distintivo fundamental parece consistir na ausência da determinação dos sujeitos – fixados neste Estado como "indivíduos", "cidadãos", "pessoas políticas" – enquanto agentes de produção, o que não acontecia com outros tipos de Estado. /.../ Este Estado apresenta-se como um Estado popular de classe. Suas instituições estão organizadas em torno dos princípios da liberdade e da igualdade dos "indivíduos" ou pessoas políticas. /.../ O Estado capitalista moderno apresenta-se, assim, como encarnando o interesse geral de toda a sociedade, como substancializando a vontade desse "corpo político" que seria a nação. /.../ Essas características fundamentais do Estado capitalista não podem ser reduzidas ao ideológico: elas se referem a este nível regional do MPC, que é a instância jurídico-política do Estado, constituída por instituições como a representatividade parlamentar, as liberdades políticas, o sufrágio universal, a soberania popular etc. Não que o ideológico não desempenhe aí um papel capital; trata-se, porém, de um papel bem mais complexo, que não se pode, sob nenhuma circunstância, identificar com o funcionamento das estruturas do Estado capitalista (POULANTZAS, 1986, p. 76).
O Estado burguês é, assim, discutido pelo autor em pauta a partir de algumas
características peculiares, inerentes a esta formação específica: a ausência de
determinação dos sujeitos enquanto agentes de produção, os quais são tratados
apresenta a particularidade de a dominação de classe estar ausente das instituições,
que são baseadas nos princípios da liberdade e igualdade dos indivíduos; o Estado
burguês é legitimado pela vontade popular de cidadãos livres e iguais, por meio do
voto, que fazem do cidadão o fator determinante do Estado – sem, contudo, ser um
agente da produção (ou seja, sem estar distribuído em classes sociais, mas como
um cidadão isolado, igual aos demais); no Estado burguês tem-se a necessidade de
um arcabouço jurídico baseado nos princípios de liberdade e igualdade.
Para conceituar o que vem a ser o Estado burguês (designação que
passaremos a adotar como sinônimo do que Poulantzas chama de Estado
capitalista), Saes (1994) propõe dois enunciados. O primeiro, já referido, diz respeito
à forma particular como esta instituição organiza a dominação de classe. O segundo
remete à correspondência entre o Estado burguês e a relações de produção
capitalistas.
Um tipo particular de Estado – o burguês – corresponde a um tipo particular de relações de produção – capitalistas –, na medida em que só uma estrutura jurídico-política específica torna possível a reprodução das relações de produção capitalistas /.../ só o Estado burguês torna possível a reprodução das relações de produção capitalistas. (SAES, 1994, p. 21)
O proprietário dos meios de produção extorque o sobretrabalho do produtor
direto, na sociedade capitalista, na forma de compra e venda da força de trabalho,
mediante o pagamento de um salário. Assim, a força de trabalho torna-se uma
mercadoria sob a forma de uma troca de equivalentes.
A distinção do trabalho e força de trabalho ocorre, segundo Marx, graças ao
fato de que primeiro o homem conseguiu dominar, parcialmente, as forças da
natureza e as colocou a seu serviço; assim sendo, o homem foi o primeiro ser que
animais, que trabalham e produzem, mas somente para atender a suas exigências
imediatas.
A análise de Marx sobre o papel da mercadoria dentro do sistema capitalista é
que lhe permitiu determinar o caráter do trabalho. A mercadoria, neste, sistema
possui dois tipos de valor: aquele que está agregado, o valor do trabalho em si (que,
de certa forma, abstrai-se na aquisição do produto), e seu valor de uso para o
comprador, como determinante do preço.
Agora podemos distinguir o trabalho de força de trabalho: é a
descaracterização da mercadoria como fruto de trabalho humano.
Ao desaparecer o caráter útil dos produtos do trabalho, desaparece o caráter útil dos trabalhos nele representados, e desaparecem também, portanto, as diferentes formas concretas desses trabalhos, que deixam de diferenciar-se um do outro para reduzir-se em sua totalidade a igual trabalho humano, a trabalho humano abstrato.
Consideremos agora o resíduo dos produtos do trabalho. Não restou deles a não ser a mesma objetividade fantasmagórica, uma simples gelatina de trabalho humano indiferenciado, isto
é, do dispêndio de força de trabalho humano, sem
consideração pela forma como foi despendida(MARX, 1983, p.
47) (grifo nosso).
O trabalho difere da força de trabalho, então, na medida em que passa a ser
um dos determinantes do valor da mercadoria, e não uma condição de existência do
homem em face da necessidade de satisfazer suas necessidades de vida.
Somente na sociedade capitalista encontra-se a força de trabalho humana
como fonte de valor. Este é, portanto, um fenômeno social, uma função social, e não
uma função natural adquirida por representar um trabalho, no sentido fisiológico ou
material.
A compra e venda da força de trabalho mascaram a troca desigual entre a
compra do uso desta capacidade e o valor de troca por ela produzido. É este fato
necessita, no entanto, de instrumentos para sua efetivação. Em uma sociedade
capitalista, a estrutura jurídica (isto é, a esfera do direito) faz o papel de tais
mecanismos.
O direito burguês é o principal dispositivo do processo de ocultação, no modo
de produção capitalista, da compra e venda da força de trabalho e da dominação de
classe em que se pretende ocultar.
(...) esse processo de ocultação que, por intermédio das categorias do direito burguês, estreitamente imbricadas nas relações mercantis, produz a representação ao mesmo tempo mistificadora e necessária da sociedade capitalista como uma teia de relações entre indivíduos livres e iguais (ALMEIDA, 1995, p. 32).
Esta é uma das características principais do Estado burguês, que remete à
necessidade, principalmente, da separação das condições materiais entre o produtor
direto e os meios de produção, ocorre ante o advento da indústria moderna, que
requer um processo de trabalho altamente socializado.
De fato, o trabalho em uma indústria moderna exige uma mudança
fundamental no trabalhador direto, que deixa de ser independente para se tornar,
contraditoriamente, independente e dependente. Esta contradição advém da forma
de trabalho em uma indústria, como observa Poulantzas: “o caráter privado dos
trabalhos na grande indústria moderna dissimula a dependência real dos produtores,
introduzida pela socialização do trabalho” (apud SAES 1994, p. 27).
Essa dissimulação ou ilusão só é possível com a interveniência do Estado,
que disponibiliza as condições ideológicas necessárias à reprodução das relações
de produção capitalistas, na medida em que: a) individualiza os agentes da
produção, através da formalização de direitos individuais, em que se realiza a troca
ação coletiva, por sua vez, quando individualiza o trabalhador, dando um caráter
privado ao processo coletivo de trabalho na indústria.
A neutralização da ação coletiva é imposta pelo Estado burguês quando este
organiza um outro coletivo, qual seja, o povo-nação, em oposição à classe social.
Define-se, desta forma, que todos os indivíduos, produtores diretos ou proprietários,
são iguais perante a lei, redundando no isolamento do produtor direto.
Poulantzas (1986) afirma que o Estado capitalista desempenha as seguintes
funções: desorganizar politicamente as classes dominadas e organizar, em
contrapartida, as classes dominantes; excluir de seu interior as classes dominadas,
enquanto classes, ao passo que inclui as classes dominantes; fixar sua relação com
as classes dominadas de forma atomizada, por meio da representação da unidade
do povo-nação, enquanto a relação com as classes dominantes as toma enquanto
politicamente organizadas.
Assim, enquanto a produção capitalista separa e individualiza os
trabalhadores, o Estado os homogeneíza por meio de um conjunto de instituições,
ao mesmo tempo em que, contraditoriamente, os diferencia por meio de uma série
de leis, normas, valores, história, tradição, conhecimentos que emanam da classe
dominante e de suas frações.
Recorrendo a Poulantzas, Almeida (1995) esclarece que são as estruturas do
Estado burguês que fazem esta homogeneização; elas mistificam as características
do sujeito individual (proletário), membro de uma classe social e o constituem em
cidadão.
do Estado capitalista – que produzem o cidadão – é distinta daquela que a partir das relações de produção, constitui o proletariado. (ALMEIDA, 1995, p. 39)
Esta homogeneização tem uma finalidade específica: neutralizar a classe
social. Produz a ideologia de que a sociedade não está dividida em classes sociais,
de que é uma construção única e indivisível, através do povo-nação, agrupamento
de iguais. O conjunto de instituições que torna isso possível situa-se em sua
estrutura jurídico-política, cujo caráter é específico do Estado burguês.
Saes (1994), também sob a influência de Poulantzas, avalia esta
especificidade decompondo-a em duas partes: o direito e o burocratismo, acerca das
quais afirma que são distintas e, ao mesmo tempo, relacionadas. O direito consiste
em um elenco de regras que visam a disciplinar as relações sociais entre os
indivíduos, instituindo punições para o descumprimento do estabelecido em suas
normas (que disciplinam a reprodução de uma determinada relação de produção,
representando, dessa forma, os interesses da classe dominante da sociedade em
questão).
O direito não é, enquanto um conjunto normativo de regras, uma
exclusividade das relações de produção capitalistas, tendo existido em outros tipos
de Estado, como o escravista e o feudal. Todavia, enquanto o direito feudal e o
escravista tratavam de modo desigual os desiguais – a classe exploradora e a
explorada –, o direito burguês confere um tratamento igual aos desiguais.
Essa diferenciação do direito burguês se faz necessária para a reprodução da
relação de produção capitalista. Esta necessita da livre compra no mercado de força
de trabalho, através do pagamento de um salário, da força de trabalho do produtor
de produção. Tal liberdade jurídica é, pois, condição para que se estabeleça o
contrato.
Almeida (1995) procura abordar de modo mais preciso as relações entre o
direito burguês e ideologia nacional, que adquirem um caráter “crucial” para a
reprodução das relações capitalistas, enquanto ideologia.
Aqui, a categoria “proprietários”, ao transitar com o maior desembaraço de uma esfera a outra, parece desempenhar um papel de primeira ordem. Por intermédio de seu deslocamento, efetua-se o percurso da ideologia burguesa que, passando pela fresta que separa e, ao mesmo tempo, liga uma esfera à outra, transporta, tais quais, categorias de um processo simples para outro mais complexo, dissolvendo este naquele. (ALMEIDA, 1995, p. 32)
A consignação de um contrato possibilita, ideologicamente, um encontro entre
iguais, mesmo que, como já foi mencionado, esteja ocorrendo apropriação de
trabalho não pago entre o produtor direto e o proprietário dos meios de produção.
O contrato, de acordo com Almeida(1995), “dissolve” a especificidade de um
trabalho no conjunto de trabalhos em geral, podendo a partir daí tratar o trabalho
como mercadoria e as relações entre o capitalista e o trabalhador sejam entre
“iguais”, este é um instrumento poderoso da ideologia burguesa.
Trata-se fundamentalmente de um efeito de simetrização. Ao se dissolverem as diferenças no interior dos universos das “pessoas” e das “coisas”, possibilita-se a instauração, nos quadros da ideologia burguesa, de todos os membros da sociedade como indivíduos livres e iguais. (ALMEIDA, 1995, p. 34)
Esta é a diferença entre o direito burguês e outros tipos de direito: ele se
outros tipos de direito. Mais especificamente, também funciona como instrumento
ideológico que permite a reprodução das relações capitalistas.
Poulantzas (1986) apresenta uma enumeração das normas do burocratismo
burguês, isto é, do modo de organização dos funcionários do Estado, de seu
aparelhamento estatal. Regem aí dois preceitos básicos: I) acesso formalmente
assegurado às tarefas de Estado a todos os agentes da produção; II) hierarquização
das tarefas de Estado pelo critério da competência.
Boito Jr. (2001) considera que a primeira das duas regras é fundamental,
porque assegura a todos os cidadãos, indivíduos livres e iguais criados pelo direito
burguês, a capacidade jurídica para o exercício das funções de Estado. Produz,
desse modo, a aparência universalista típica das instituições do Estado burguês.
Destarte, é necessário apresentar a diferença entre burocratismo e
burocracia. O burocratismo é a forma de organização que normatiza a prática
funcional, enquanto a burocracia diz respeito à categoria social funcional. No Estado
burguês existe uma dominância do burocratismo sobre a burocracia, já que este
confere uma unidade de ação e define o interesse político particular da categoria. A
unidade de ação é conseguida através da normatização, que se traduz na
hierarquização das tarefas, compartimentalização vertical descendente, ocultação do
saber e outras. Tudo isso isola o funcionário de seus pares, impondo limites e
estabelecendo o ritmo e os instrumentos para a execução do serviço.
Saes (1994), analisando o burocratismo no Estado burguês, observa que
somente este gera as condições ideológicas necessárias à reprodução das relações
capitalistas, sendo um mecanismo criador de uma aparência de representatividade
popular para o Estado. Com o que a burocracia apresenta-se como o agente que
Existem, porém, outros meios de representação popular e política no seio do Estado
burguês, quais sejam, a representação através de mecanismos como o voto
universal, plebiscito e afins.
Essa representação, a política, só é necessária quando existe uma pressão
popular para tal, o que deixa transparecer as diferentes formas de atuação do
Estado burguês no sentido de unificar politicamente os agentes da produção, já
isolados, como povo-nação. O Estado burguês pode assumir diferentes formas:
ditatorial, liberal-democrática, fascista e plebiscitária.
No Brasil, o Estado burguês, como definimos anteriormente, só pôde ser
implantado após a abolição da escravatura e a Proclamação da República. Décio
Saes, em seu livro A formação do Estado burguês no Brasil (1888-1891),
compartilha do mesmo entendimento de Gorender1, ou seja, apreende o Estado
brasileiro de 1822 a 1888 como um Estado escravista moderno. Esta instituição
somente se transformaria em Estado burguês após a mencionada Abolição, a
Proclamação da República e a promulgação da Constituição de 1891.
Caio Prado Jr. (1981) tinha um posicionamento divergente. Em sua
concepção o Brasil se constituía, pelo seu passado, como capitalista, isto é, o modo
de produção no país sempre foi capitalista, porque a economia brasileira esteve
desde o início inserida nos marcos da circulação de mercadorias e capitais. Leva,
por conseguinte, ao entendimento de que o Brasil sempre foi um Estado capitalista,
não cabendo discussões sobre a formação ou a revolução burguesa no Brasil.
No seu conjunto, e vista no plano mundial e internacional, a colonização dos trópicos toma o aspecto de uma vasta empresa comercial, mais completa que a antiga feitoria, mas sempre com o mesmo caráter que ela, destinada a explorar os recursos naturais de um território virgem em proveito do comércio europeu. É este o verdadeiro sentido da colonização
1
tropical, de que o Brasil é uma das resultantes: e ele explicará os elementos fundamentais, tanto no econômico como no social, da formação e evolução históricas dos trópicos americanos. (PRADO JR., 1981, pp. 31-2)
Para Caio Prado Jr., a formação da sociedade brasileira se deu unicamente
como fornecedora de produtos agrícolas e minerais, “Nada mais que isto. É com tal
objetivo, objetivo exterior, voltado para fora do país e sem atenção a considerações
que não fossem o interesse daquele comércio, que se organizarão a sociedade e a
economia brasileira.” (PRADO JR., 1981, p. 32).
Neste sentido, a constituição da sociedade e da economia brasileira passa a
ser uma projeção do capital mercantil no plano da produção. Deixa-se de lado a
análise das articulações existentes na sociedade de então, em que estavam
presentes relações de produção voltadas para o atendimento de suas próprias
necessidades – podendo-se afirmar, dessa forma, que ocorriam processos internos
de acumulação.
Em nossa discussão, recorreremos fartamente à obra que, a nosso ver,
melhor subsidia o exame da dinâmica sócio-política do Estado de Goiás: a tese de
Décio Saes sobre o Estado burguês, Estado que constitui particularmente de
1888-1891, ou seja, na alvorada da República Velha.
1.2 Classes Sociais e Hegemonia na República Velha
A República Velha (1889-1930) foi marcada pela hegemonia do grande
capital cafeeiro mercantil-exportador no seio do bloco no poder. Essa fração da
outras frações de classe e mesmo com classes que estavam no limiar de sua
ascensão – especificamente, a industrial.
Na República Velha, recordemos, a indústria era pouco desenvolvida e a
burguesia exportadora2 era a hegemônica; não obstante, a classe dominante era
segmentada e regionalizada, constituindo-se a cafeeira como a principal, seguida
pela cacaueira, algodoeira e outras – não necessariamente nesta ordem.
Não seria exagero afirmar que a economia cafeeira, com todos os seus
desdobramentos, forjou a dinâmica econômica e social da República Velha.
Efetivamente, o modelo agroexportador fundamentado na grande propriedade e a
República oligárquica, assentada sobre o pacto entre as elites regionais, sintetizam
os elementos que dominaram o cenário brasileiro nesse período.
Perissinotto (1994) analisou a República Velha também recorrendo ao
referencial teórico poulantziano. Faz distinção entre segmentos da burguesia, ou
seja, percebe a existência de uma “burguesia nacional”, de uma “burguesia
compradora” e de uma “burguesia interior”. A primeira teve seu desenvolvimento
independente do capital estrangeiro e adotou posições antiimperialistas em muitas
situações. A segunda, voltada para a importação/exportação naquele momento da
história brasileira, foi subordinada ao capital internacional, o que conferiu um caráter
supranacional ao bloco no poder. A burguesia interior pode ser interpretada como
intermediária entre as demais, dependente e independente, sendo representada
pela burguesia industrial nascente.
Em nenhum caso essa analogia detalha com perfeição as frações de classe
que existiram na República Velha, mas servem de referencial teórico para fins de
análise. A nosso ver, o mérito, da análise de Perissinotto é que ele procura mostrar
que o bloco no poder naquele período não era homogêneo e muito menos coeso.
Era bem mais segmentado e conflituoso do que supunham diversos autores3.
O bloco no poder na República Velha era composto, basicamente, pelos
representantes da lavoura, o grande capital cafeeiro, e pela burguesia industrial –
pelo menos em São Paulo, que era o “centro dinâmico” da economia brasileira. Nos
estados periféricos, a fragmentação no bloco do poder (isto é, das frações
componentes) era muito menor - no Estado de Goiás, por exemplo, era muito
homogêneo e coeso.
Perissinotto (1994) apontou diversas divergências entre as frações de classe
situadas no bloco no poder na República Velha. Podemos, sinteticamente,
resumi-las da seguinte forma: a) a lavoura e o grande capital cafeeiro divergiram quanto ao
custo do frete ferroviário, quanto à comercialização, quanto ao financiamento da
produção e questões afins; b) o grande capital cafeeiro discrepou da burguesia
industrial, principalmente porque esta representaria uma ruptura do padrão de
dependência do país.
O ponto importante a ser especificado é que o capital estrangeiro
constituiu-se em fração hegemônica no interior do bloco no poder ao longo da República
Velha. Ele:
se fez presente em vários setores da economia nacional. Monopolizou a comercialização dos nossos principais produtos agrícolas, participou com peso no setor de serviços públicos, assumiu posições importantíssimas no financiamento das atividades comerciais e das atividades financeiras do setor público nacional. Tal ascensão econômica, sobretudo através do controle das finanças públicas, conferiu ao capital estrangeiro a capacidade de conquistar sólidas posições que lhe deram o poder de intervir nas decisões do Estado brasileiro acerca das políticas econômicas (PERISSINOTTO, 1994, p. 167).
3
Cabe, porém, a indagação: como o Estado de São Paulo estabelecia relações
políticas, sociais e econômicas com os Estados periféricos da federação? Quais
foram os efeitos da dominância do grande capital cafeeiro sobre o campo, em São
Paulo e no Brasil?
A República se consolidou na forma federativa, objetivo das classes
dominantes diretamente ligadas à economia agroexportadora. O país acabara de
abolir a escravidão, mas isso não significava que o centralismo tivesse perdido sua
força política. Basta dizer que, “em 1889, verificava-se no quadro político imperial
que, entre os senadores, de um total de 59 apenas três eram do Estado de São
Paulo” (PERISSINOTTO, 1994, p. 93). Desta forma, advogando em prol de seus
próprios interesses, o Estado de São Paulo, ou seja, a classe dominante paulista
(alta burocracia estatal inclusa) passou a defender o ideal federativo.
A fração de classe dominante, que detinha o controle na produção e
comercialização do café em São Paulo – principal produto de exportação brasileiro –
e, conseqüentemente, dos negócios do país, também controlavam as importações
de manufaturas que se destinavam ao mercado interno, então, visualizou neste ideal
uma possibilidade de consolidar a sua hegemonia4.
Após a proclamação da República, São Paulo articulou um sistema federativo
plenamente organizado com a “política dos governadores”, fragmentando o governo
central e estabelecendo um contato direto com os outros Estados. Nesse ponto,
podemos começar a interpretar as relações de São Paulo com os demais Estados:
sua força política somente seria respeitada a partir da lealdade ao governo federal.
Desta forma, não importava quem estivesse nos governos estaduais, desde que
estivesse com o governo federal.
4
A dinâmica agroexportadora sobrepôs-se a um descontínuo processo de
industrialização, cujos limites e pujança foram dados, em grande medida, pela
acumulação do setor cafeeiro. Este processo de industrialização acentuou a rede
urbana preexistente, que havia se configurado no período colonial, formada por
centros que haviam se constituído em mercados para a importação de produtos
fabris (SINGER, 1973).
Com o crescimento industrial, a urbanização se intensificou. Cresceram,
dessa forma, os centros urbanos de São Paulo, Rio de Janeiro, cidades do Vale do
Paraíba e da Zona da Mata mineira, impulsionadas pela economia cafeeira.
Concomitantemente, no Sul e Centro-Oeste do país, expandiram-se ou mesmo
surgiram núcleos urbanos – foi o caso de Porto Alegre, Rio Grande, cidades do Vale
do Itajaí, em Santa Catarina, em Goiás, na região sul do estado, e no Triângulo
Mineiro –, baseados na economia do mercado interno (atuavam como fornecedores
de mantimentos às populações urbanas da própria região e, principalmente, do
Centro-Sul, capitaneado por São Paulo). No Nordeste, desenvolveram-se núcleos
urbanos em Salvador e Recife, baseados na economia agroexportadora da
cana-de-açúcar, enquanto no Norte do país, em Manaus e Belém, os núcleos cresceram a
partir da exportação da borracha.
Mesmo nos Estados que tinham algum produto voltado à exportação as
relações de produção existentes no campo eram pré-capitalistas, originárias do
período do escravismo. Era o que acontecia em Goiás. Por outro lado, em São
Paulo, principalmente na capital, as relações de produção eram compatíveis com os
pressupostos do Estado burguês, os indivíduos se constituíam como livres e iguais
como o acesso formal aos cargos estatais era pautado pelo critério da competência,
diferentemente do que ocorria nos outros Estados brasileiros.
Essa contradição (permanência de relações de produção pré-capitalistas em
um Estado burguês) resvalava para um tipo complexo de dominação – o
coronelismo. É o que detalharemos a seguir, apresentando, ainda, sua forma
peculiar de manifestação no Estado de Goiás.
1.3 Estado Burguês, Relações Pré-Capitalistas: a Gênese do Coronelismo
O coronelismo deriva de uma contradição existente no interior de uma
formação social onde está presente o Estado burguês, mas cujas relações de
produção no campo são fortemente marcadas pelo capitalismo. As relações
pré-capitalistas derivam de vínculos de dependência pessoal existentes entre o
proprietário e o trabalhador rural. Esta vinculação se dá também no campo
ideológico, consistindo em um entrave para a transformação do trabalhador rural em
cidadão, pressuposto básico do Estado burguês.
A peculiaridade básica para compreensão do coronelismo apontada por Saes
(1994) é que se trata de um conjunto de práticas político-eleitorais usadas de modo
peculiar no Estado burguês, em sua dupla função de desorganizar as classes
trabalhadoras e organizar a classe dominante. É, então, uma prática usada somente
no Estado burguês, isto é, é uma característica endógena a este tipo de Estado. Isso
quer dizer que, ao contrário de outras relações de dependência, que caracterizam
outros tipos de Estado, o coronelismo é um fenômeno que indica, justamente, a
Como já vimos, esta instituição desorganiza a classe trabalhadora através de
seu aparelho jurídico-político, através do qual converte os agentes da produção, que
são distribuídos em classes, em sujeitos jurídicos-políticos. Em outras palavras,
transforma-os em cidadãos e, ao mesmo tempo, unifica-os em uma só classe, em
um só corpo político, o povo-nação.
Como fica, porém, a unificação da classe dominante?
Essa construção ideológica do povo-nação serve para homogeneizar,
pasteurizar as diferentes classes sociais, isto é, uniformizar os componentes das
diferentes classes sociais em uma comunidade nacional. Nestas, todos são
“pertencentes” a uma só classe social, isolados entre si – em outras palavras, retira
dos indivíduos sua identidade de classe.
Feito isso, a unificação da classe dominante se dá quando se realiza seu
interesse geral, comum a todas as frações da classe dominante, qual seja, a
exploração econômica das classes trabalhadoras. Para atingir este intento, o Estado
burguês realiza uma política de ordem, impedindo que estas últimas realizem uma
ofensiva à propriedade privada.
Saes (1974) observa, seguindo Poulantzas, que o isolamento das classes
trabalhadoras pode ocorrer também em formações capitalistas ligadas a modos de
produção distintos do capitalismo. Por outros termos, o efeito de isolamento da
representação da unidade do Estado burguês pode ocorrer em formações
capitalistas que também comportem modos de produção pré-capitalistas.
Isso se dá, de uma maneira abrangente, no meio rural, onde existem relações
de produção pré-capitalistas, meeiros, parceiros e outras formas de exploração.
Manifesta-se aí uma relação de dependência pessoal com o proprietário rural, o que
De acordo com Janotti (1981), o coronelismo se expressava em um
encadeamento rígido de tráfico de influências, formando fortes elos, por meio de
compromissos recíprocos, entre o eleitorado, o coronel e as instâncias de poder
municipal, estadual e federal. Em âmbito municipal, o coronel fazia a política e
completava a administração pública. Era-lhe dado todo o poder: ele indicava o
delegado, o juiz, até mesmo a professora primária, tudo acontecendo dentro de um
único partido.
Ocorriam, muitas vezes, desavenças internas (familiares ou de grupos
políticos), já que todos queriam conquistar o poder – que não era reconhecido
burocraticamente, mas exercido ao sabor das ambições e interesses pessoais. Para
conseguir seus objetivos, o coronel desempenhava um papel importante no
processo eleitoral, que garantia a sobrevivência desse sistema político e, por
conseguinte, sustentava, através dos meios mais variados, a sua permanência no
poder.
Quando apresentava-se um analfabeto para votar, os próprios componentes da Mesa preenchiam as cédulas e assinavam as listas de presença. Aos indesejáveis, sob qualquer alegação, mandavam prender. A alegação de desacato era a mais comum. A interferência policial era notória e os amedrontados eleitores faziam muitas vezes questão de mostrar claramente a quem se destinava seu voto /.../. O momento da apuração se constituía no mais privilegiado para favorecer certos candidatos; sob mínimo pretexto anulavam-se cédulas ou acrescentavam votos, sem a mínima fiscalização da oposição, que era impedida de entrar no recinto (JANOTTI, 1981, p. 51).
O sistema eleitoral que se convencionou chamar de “voto de cabresto” era a
base do poder do coronel. Permitia o controle do eleitorado e da oposição, através
de mecanismos como a lista de votação: a cada eleição era feito um rol de eleitores,
campo, onde tinha propriedades, para a votação; mesmo quando não as trazia,
enviava-lhes o formulário de votação, o que contrariava as normas estabelecidas.
Ainda segundo Janotti (1981), na elaboração das listas havia pouco
escrúpulo: incluíam-se analfabetos, menores de idade e até mesmo pessoas
falecidas; por outro lado, durante a elaboração da lista definitiva, chegava-se a
excluir os eleitores que eram politicamente contrários ao coronel.
Este conjunto de práticas e ações adotadas pelo mandatário local demonstra
que
as massas do campo pré-capitalista não são o objeto e sim o
instrumento do coronelismo. É que a relação de dominação e
dependência pessoal implica uma modalidade de subordinação ideológica contraditória com a submissão à ideologia jurídica burguesa, da qual o voto é uma expressão e um aspecto: os setores que vivem em relação de dependência pessoal com a classe proprietária estão, por esse fato, imunes aos efeitos da ideologia jurídica burguesa (SAES, 1994, p. 89).
O poder político nos Estados era derivado da estrutura político-institucional
definida no governo de Campos Salles, no início do século XX, cuja fórmula era
capaz de “permitir o máximo de liberdade política no nível estadual e de delegar aos
governadores a chefia do partido e oligarquias estaduais, bem como capaz de
manter os compromissos do arranjo político nacional” (CAMPOS, 1983, p. 19).
Esta política – um arranjo entre o Estado, ente federal, e os Estados
federativos, entes estaduais –, estava longe de ser uma descentralização
republicana. Constituía-se antes no contrário: houve, na verdade, uma centralização,
em que as decisões estaduais ficam fortemente dependentes do governo federal.
Esse arranjo coronelístico era configurado em um tripé: a chefia política
exercida pelo coronel no município, o situacionismo estadual e o governo federal,
Para Nunes Leal (1975), este arranjo entre o Executivo federal e os Estados,
em vez de ameaçar o poder político, acabou por torná-lo mais efetivo em todo o
território nacional. O governo federal e os estaduais dependiam dos coronéis para a
obtenção dos votos nos municípios. Os coronéis, por sua vez, dependiam de
recursos oriundos do poder público nos níveis estadual e federal.
Em seu cerne, o coronelismo tinha, por um lado, um poder público que se
fortalecia e, por outro, um poder privado que diminuía. O poder privado estava
assentado na posse da terra e a força eleitoral advinda da propriedade lhe dava
prestígio político. Perissinotto (1994) afirma que o coronel expressava, no nível
político, uma confusão entre o público e o privado. A forma com que se fazia
presente na política republicana era o domínio privado do poder público local, com a
benção do poder regional e sua total obediência a este último, dentro das regras do
compromisso coronelista.
Outro fator aliado à política coronelística era o isolamento dos municípios, que
favorecia a figura do coronel como um elo entre os governos estaduais e governo
federal. Configura-se, desta forma, uma situação em que a liderança política
estadual necessitava de votos dependentes do senhoriato rural, o que representava,
de um lado, a fraqueza do Estado, e do outro, a tibieza social e política dos coronéis.
Isto porque estes precisavam ter prestígio para a obtenção de empréstimos do
governo estadual, com o objetivo de reforçar sua influência local. De tudo isto
resultou aquele sistema de compromisso que não era outra coisa senão o
coronelismo (LEAL, 1980, p. 13).
O que uniu os coronéis ao governo federal foi a cooptação dos eleitores, que
se traduzia em votos e, ao final, para se consolidarem no poder, “os coronéis tinham
Quanto ao nível estadual, Campos (1983) mostra que o arranjo coronelístico
foi estabelecido pelo compromisso entre os grupos políticos municipais sob o
controle do Executivo estadual, sendo dada “carta branca” aos coronéis em seus
domínios. A partir da submissão ao Executivo estadual é que se configurava a
oligarquia, que se estabeleceu ampliando sua autoridade e que se tornaria um dos
traços marcantes desse período.
Este compromisso era, na verdade, como já mencionamos, uma troca de
proveitos entre o chefe político e o governo estadual, com atendimento por parte do
Estado das reivindicações mais fáceis e viáveis do eleitor rural.
Isso não representa, no entanto, um convívio harmonioso entre os chefes
políticos locais, de coronel com coronel, mas um quadro em que todos estavam
lutando para exercer o poder, mas nenhum ia em sentido contrário ao governo
estadual. Carregavam a sina de ser sempre governistas, no campo estadual e
federal, se quisessem conservar as regalias do poder.
No início do século XX, o Brasil era um país eminentemente rural e sua
população, principalmente no interior do país, não podia contar com o poder público,
praticamente inexistente. Tal situação levava a população ficar à mercê da
autoridade discricionária representada pelo coronel, que detinha a posse da terra.
O coronel era, geralmente, um grande proprietário de terras, “representante
da oligarquia agrícola-mercantil que controla o poder público e orienta suas
decisões” (JANOTTI, 1981, p. 9). Suas ações eram no sentido de manter afastadas
do poder as outras classes sociais e também de manter os seus privilégios. Os
desmandos aconteciam porque os responsáveis pela ordem pública (a polícia, os
juízes, os delegados) eram todos indicados pelo coronel; dessa forma, as eleições
Em Goiás, este processo não foi diferente. Duas oligarquias governaram o
Estado no século XX: os Bulhões e, depois, os Caiados.
Apesar de ser importante uma discussão sobre como se deu a substituição de
uma oligarquia por outra, vamos nos concentrar em explicar como era exercido o
poder dos Caiados, que representavam os interesses dos pecuaristas, e a ascensão
do descontentamento da fração de classe que representava os agricultores da
região sulina do Estado de Goiás no seio do bloco no poder, pertencentes ao
mesmo grupo.
Este embate entre frações no grupo hegemônico trouxe mudanças
significativas no controle da política goiana, sem, contudo, mudar a classe
dominante, que permaneceu a mesma.
1.4 A Configuração Particular do Coronelismo em Goiás
Embora os goianos tenham convivido com uma realidade autoritária por muito
tempo, sempre associaram o coronelismo, em sua fase mais intensa, ao caiadismo.
Seu representante maior foi o coronel Antonio Ramos Caiado, que era advogado,
antigo tropeiro e fazendeiro.
Em Goiás predominava (e predomina) a grande propriedade – o latifúndio.
Segundo o Censo de 1920, que cobriu 40% da área do Estado, existiam 16.000
propriedades e somente 2.500 dessas tinham menos de 40 hectares – o que
Tabela 1: Goiás Distribuição das propriedades rurais - 1920
HECTARES
Menos 41 De 41 a 100 De 101 a 200 De 201 a 400 De 401 a 1000
De 1001 a 2000 De 2001 a 5000 De 5001 a 10000 De 10001 a 25000 Mais de 25000
N° PROP. 2.515 2.672 2.046 2.382 2.843 1.523 1.643 606 301 103
% TOTAL 115,1 16,1 12,3 14,3 17,1 9,2 9,9 3,6 1,8 0,6
Fonte: Recenseamento do Brasil, 1920 – IBGE (apud CAMPOS, 1983).
As poucas estradas que existiam eram bastante precárias e não tinham
manutenção efetiva. Em sua maioria, situavam-se na região sulina do Estado.
Quando do período chuvoso, o trânsito era impossível, situação ainda pior no Norte.
A possibilidade de comunicação era mínima – nem telégrafo existia, haja vista que,
em investigações procedidas em São José do Duro (em 1919), os telegramas da
comissão investigadora para a capital de Goiás eram transmitidas de Barreiras, na
Bahia (CAMPOS, 1983, p. 48).
Esta região, o Norte, tinha uma vinculação mais estreita com Belém (PA), pela
navegação fluvial do Rio Tocantins, com todas as dificuldades que isso poderia
acarretar. Campo (1983) menciona, por exemplo, que os deputados e senadores
estaduais desta região iam para os trabalhos legislativos na cidade de Goiás, então
capital estadual, fazendo um trajeto que ia de Belém ao Rio de Janeiro e voltavam
para Goiás passando por Minas Gerais e pelas poucas estradas que existiam na
região sulina goiana até a capital.
A população de Goiás em 1920 era de, aproximadamente, 512 mil habitantes,
com uma densidade demográfica de apenas 0,7 habitantes por quilômetro quadrado
– muito baixa, demonstrando um vazio demográfico significativo. Se considerarmos