A partir da construção de Goiânia, o Estado de Goiás passou a ser uma possibilidade no que diz respeito à migração, fortemente experimentada no período pós-construção. Já em 1940 a cidade contava com 48.165 habitantes. Levas de migrantes (oriundos, principalmente, de Minas Gerais) chegavam para ocupar uma
área conhecida como Mato Grosso de Goiás, cujo potencial agrícola era muito significativo.
A construção de estradas por parte do novo governo mostrava que as políticas estatais estavam sendo direcionadas para o desenvolvimento de regiões produtoras de alimentos, cuja finalidade, no discurso, seria abastecer a capital. Havia, por isso, que construir rodovias que ligassem as regiões Sul e Sudoeste do Estado, que eram a base política do governo.
Heliane Prudente Nunes, em sua pesquisa sobre a era rodoviária em Goiás, mostrou que as primeiras estradas foram construídas em direção Sul/Sudoeste. Acompanhemos seu raciocínio:
O primeiro Plano Rodoviário em Goiás tinha como objetivo máximo criar uma rede de rodovias básicas partindo de Goiânia e demandando regiões geoeconômicas de potencial agrícola e de fácil exploração, com a finalidade de garantir no futuro o abastecimento de produtos agrícolas à população crescente da capital do Estado. Assim, o Sudoeste teve sua rede ligada a Mato Grosso e ao Triângulo Mineiro. (NUNES, 1984, p. 97)
As próprias diretrizes desse primeiro Plano Rodoviário de Goiás mostravam o compromisso com os setores que passaram a ser dominantes. “Construir estradas em regiões economicamente prósperas, capazes de, em um curto espaço de tempo, se desenvolverem e fornecerem lucros compensadores”. E o Plano foi assim levado a cabo, com a seguinte proposta de trechos a serem executados:
1) Goiânia – Anápolis e Goiânia – Leopoldo de Bulhões; 2) Goiânia – Goiás;
3) Anápolis – Taguatinga;
4) Goiânia – Registro do Araguaia, ramal Aragarças; 5) Goiânia – Canal de São Simão;
7) Catalão – Goiandira – Corumbaíba – Buriti Alegre – Itumbiara; 8) Niquelândia – Cavalcante;
9) Ipameri – Caldas Novas – Morrinhos.
A previsão do Plano Rodoviário era a de que esses trechos deveriam estar prontos até 1952, o que não aconteceu, já que o Estado de Goiás não tinha recursos suficientes, os repasses do governo federal estavam sempre atrasados e os outros recursos destinados12 não cobriram os valores propostos para a construção dessas rodovias.
No período de 1930 a 1943, a malha rodoviária de Goiás foi quadruplicada, embora as rodovias fossem sempre muito precárias, já que não eram pavimentadas e sua manutenção ficava a desejar. Quanto à valorização das terras, assistiu-se a um aumento substancial em seu valor: se antes da construção de Goiânia o alqueire era negociado por Cr$ 100, ao longo da construção e depois foi negociado por Cr$ 15.000.
Outro fator importante foi a extensão da estrada de ferro até a cidade de Anápolis, em 1935, que possibilitou a recepção de um forte fluxo migratório dirigido pelo governo Vargas em sua “Marcha para o Oeste”. Neste sentido, o governo federal criou a Colônia Agrícola Nacional de Goiás (Cang), na cidade de Ceres, divulgando, através de programas radiofônicos de grande audiência e cobertura nacional, as “terras férteis de Goiás” e, dessa forma, atraindo um contingente de imigrantes muito maior do que os lotes de terras disponíveis.
A expansão da estrada de ferro até Anápolis e a escolha da região para instalação da Cang redundou, segundo Pedro Ludovico (1973), de um pedido feito a
12 Os repasses anuais do governo federal se davam sob a rubrica do Fundo Rodoviário Nacional. Os outros recursos vinham de uma cobrança da “taxa de valorização” das terras que eram cortadas pelas rodovias e do imposto rodoviário sobre os automóveis, caminhões e carroças existente no Estado, cobrados anualmente.
Getúlio Vargas, quando este esteve em Goiânia (por ocasião de sua inauguração), em uma reunião no Palácio do Governo.
O Presidente, depois de se dirigir para o Palácio do Governo, onde se hospedou, recebeu as pessoas mais ilustres de Goiás. Logo em seguida, compareceu a uma reunião de todos os Secretários de Estado, ouvindo-os e fazendo-lhes perguntas e sugestões sobre o andamento de suas pastas e dos assuntos a elas referentes, interessando-se mais por aqueles que se prendiam à Agricultura e ao Transporte. Fez-se-lhe, então um apelo para que fizesse chegar os trilhos da estrada de Ferro até Goiânia. Pediu-se-lhe construir uma Colônia Agrícola em Goiás, mostrando-se-lhe no Mapa uma zona ótima para tal empreendimento (LUDOVICO, 1973, p. 116).
Guimarães (1982) mostra que se pretendia distribuir de 20 a 50 hectares de terras13, mais instrumentos de trabalho e habitação, para pequenos trabalhadores, e que o propósito do assentamento estava inserido na lógica da expansão do movimento de fronteira agrícola subsidiado pelo Estado.
A grande maioria dos imigrantes consistia em mineiros e o restante era de “nortistas”, designação atribuída a goianos oriundos do interior, da região mais ao Norte, hoje correspondente ao Estado de Tocantins.
Não sendo utilizada nenhuma técnica apurada para a implantação de uma agricultura mais desenvolvida, os colonos empregavam os métodos tradicionais para a abertura do campo para o plantio, isto é, as queimadas, devastando a floresta em pouco tempo. Estevam (1998) comparou o contingente de colonos a uma frente militar, em que o pioneiro colono seria o soldado que combateria a natureza. Isto acabou mudando a paisagem natural em prol de uma depredativa e catastrófica forma de ocupação.
Os colonos plantavam, principalmente, arroz, milho e feijão e tornaram-se grandes fornecedores desses insumos para Goiânia e para a região Centro-Sul. No
ano de 1950, a produção de arroz da Cang equivalia a 38% do total do Estado e, nessa fase de grande expansão em sua produção agrícola, atraiu algumas empresas transformadoras de alimentos. Tal fato viria a ser um fator desarticulador de sua forma de comercialização, uma vez que o capital mercantil agia de forma especulativa e a subordinação do colono a este capital acabava por comprometer o rendimento excedente das colheitas.
Houve tentativas, por parte dos colonos, de reação ao domínio do capital mercantil, sem, contudo, obter êxito. Estevam (1998) aponta outro problema enfrentado por eles: o aumento dos preços das terras, que acabou por gerar conflitos que envolveram colonos, posseiros, grileiros e fazendeiros da região.
Diante das dificuldades enfrentadas pelos colonos, grande parte preferiu negociar ou mesmo renunciar a seus direitos de posse, durante a década de 50, cedendo espaço à grande propriedade e fortalecendo o capital mercantil, que passou a subordinar a agricultura da região aos seus interesses.
Dayrell (1975) analisou a Cang e concluiu que o insucesso de sua implantação não foi devido à incapacidade administrativa do governo federal, tampouco foi culpa da inaptidão do colono frente ao trabalho, sendo antes decorrente da distância dos centros consumidores e da falta de crédito aos produtores, ficando estes à mercê do capital mercantil, que colhia o excedente da produção.
Alguns resultados importantes da política da “Marcha para Oeste” se fizeram sentir justamente na produção agrícola, não havendo mudança do perfil fundiário estadual. Isto porque a experiência, apesar de ter sido importante, acabou por não prosperar, pelos motivos expostos anteriormente; houve, entretanto, um aumento
significativo na área cultivada, que passou de 113.562 hectares em 1930 para 352.667 em 1940, enquanto em 1950 já eram cultivados 555.847 hectares.
O processo migratório experimentado pelo Estado, bastante significativo, foi analisado por muitos historiados e demógrafos, que buscam compreender suas causas e efeitos. Para nosso trabalho importa, contudo, a demonstração de que de tal processo afetou a dinâmica de acumulação capitalista goiana e alterou sua composição fundiária, através da formação de colônias agrícolas. Destas, a Cang de Ceres foi a experiência mais bem-sucedida.
A migração ocorrida em Goiás na época do governo Vargas foi parte de uma política deliberada de ocupação do território nacional, em uma tentativa de instalar um novo padrão de desenvolvimento econômico, procurando contrabalançar o peso da burguesia cafeeira paulista e diversificar suas bases regionais de sustentação.
Guimarães e Leme (2002) entendem que a política de Vargas, com a tentativa de integração nacional, representava, na verdade, um novo padrão de acumulação, sob o comando da economia paulista. Anteriormente, o que havia ocorrido eram surtos econômicos localizados e descontínuos; agora, a política de Vargas era um modelo nacional que objetivava superar o capitalismo agrário e mercantil, assentado na atividade exportadora. A busca era implementar outra dimensão econômica, capitaneada pela dinâmica industrial e pelo mercado interno.
Dessa forma, a somatória de vários fatores – I) a construção de Goiânia, em 1933; II) a implantação da Cang, em 1941, no bojo das políticas varguistas; e III) a abertura de estradas e a expansão da rede ferroviária até Anápolis – fizeram que houvesse altas taxas de crescimento demográfico em Goiás. “Em 40/50, a migração interna alcançava a cifra de 91.836 habitantes, perfazendo 11,15%; em 50/60, atinge
259.310, isto é, 21,34%. De 826.414 habitantes em 1940, o Estado passou a 1.214.921 habitantes em 1950” (GUIMARÃES, 1982, p. 24).
Além da iniciativa da Cang, houve outros projetos de colonização que não tiveram o mesmo impacto. Assim, na divisa de Goiás e Mato Grosso houve um assentamento – o Projeto Brasil Central – que esteve mais articulado ao Triângulo Mineiro, não assentando significativamente muitos colonos. Após a Segunda Guerra Mundial também houve algumas iniciativas de colonização estrangeira que não lograram êxito.
Essas iniciativas a que se assistiu nas décadas de 40 e 50, tanto por parte do governo federal quanto do estadual, acabaram por modificar a realidade socioeconômica de grande parcela do Estado, com o que terminou por redefinir o seu papel na divisão inter-regional do trabalho. Porém, outras mudanças profundas estavam por vir, principalmente na segunda metade dos anos 50, quando JK iniciou seu Plano de Metas e a construção de Brasília, cujas ações impactaram profundamente em Goiás. Seus desdobramentos, como veremos adiante, foram o germe de conflitos no campo, como a Revolta de Trombas-Formoso, mas também tiveram forte significado econômico e social para Goiás.