Conforme já aludimos, em 1875, Marx (2012) expressou sua constatação de que, nos países em industrialização, a sociedade capitalista existia “mais ou menos livre dos elementos medievais, mais ou menos modificada pelo desenvolvimento histórico particular de cada país, mais ou menos desenvolvida” (p. 42, grifo nosso). Assim, embora o capitalismo tenha suas legalidades próprias que se impõem na medida em que este se torna o modo de produção preponderante e cada vez mais mundializado, a sua entificação concreta se dá pelo desenvolvimento particular de cada país. Desse modo, as relações sociais e, logo, as classes sociais e as lutas de classes, não podem ser compreendidas efetivamente apenas pela delucidação do antagonismo fundamental entre capital e trabalho, mas exigem a perscrutação da particularidade histórica de cada lugar. No mesmo sentido, nos alertam Marx e Engels (2007) que “a observação empírica tem de provar, em cada caso particular, empiricamente e sem nenhum tipo de mistificação ou especulação, a conexão entre a estrutura social e política e a produção” (p. 93). Trata-se da perspectiva materialista aqui adotada, cujos únicos pressupostos “são os indivíduos reais, sua ação e suas condições materiais de vida, tanto aquelas por eles já encontradas como as produzidas por sua própria ação” (p. 86-7). Desse modo, é a história que nos fornece os elementos e o caminho para a compreensão da mundaneidade conformada pelos ações dos homens em sociedade. O exame da história dos homens se faz necessário “pois quase toda a ideologia se reduz ou a uma concepção distorcida dessa história ou a uma abstração total dela” (p. 87, nota d). A questão da particularidade histórica é fundamental para a compreensão da universalidade das relações sociais capitalistas.
Segundo Lukács (1970, p.2), as relações entre universalidade, particularidade e singularidade constituem um dos complexos de problemas mais antigos do pensamento humano, sendo a delimitação recíproca dessas categorias uma necessidade não apenas teórica, mas também fundamental para a orientação da práxis. Para o filósofo húngaro,
A ciência autêntica extrai da própria realidade as condições estruturais e as suas transformações históricas e, se formula leis, estas abraçam a universalidade do processo, mas de um modo tal que dêste conjunto de leis pode-se sempre retornar - ainda que freqüentemente através de muitas mediações - aos fatos singulares da vida. É precisamente esta a dialética concretamente realizada de universal, particular e singular (p. 81).
Assim, as relações e conexões do complexo reciprocamente determinado entre singularidade, particularidade e universalidade correspondem a determinações da própria realidade, daí serem as três categorias ontológicas (LUKÀCS, 2012, p. 78). Ao sublinhar o caráter aproximativo da ciência, argumenta Lukács (1970) que:
De fato, o processo desta aproximação é essencialmente ligado à dialética de particular e universal: o processo do conhecimento transforma ininterruptamente leis que até aquêle momento valiam como as mais altas universalidades em particulares modos de apresentação de uma universalidade superior, cuja concretização conduz muito freqüentemente, ao mesmo tempo, à descoberta de novas formas da particularidade como mais próximas determinações, limitações e especificações da nova universalidade tornada mais concreta (p. 95).
A universalidade e suas legalidades, no caso do ser social, compreendida como tendências e processos, são concretizadas de modo particular, nunca direto e puro, como na forma abstrata em que essas leis podem só ser apreendidas pelo pensamento por meio das abstrações razoáveis. Além disso, “[...] jamais é possível captar sem resíduos o singular como ponto de cruzamento e de combinação das particularidades e das universalidades, e menos ainda "deduzi-lo" simplesmente delas” (p. 99). Isso porque o que confirma a universalidade, e pode expor corretamente o modo particular de sua realização, é a análise correta da realidade a partir de sua própria imanência. De fato, as múltiplas relações entre particularidade e singularidade “[...] já estão, em si, contidas no dado imediatamente sensível de cada singular, e a realidade e a essência dêste só podem ser exatamente compreendidas quando estas mediações (as relativas particularidades e universalidades) ocultas na imediaticidade forem postas à luz” (p. 98). Isso posto porque nas interações e determinações recíprocas entre universal, particular e singular, diferentes tendências e contra tendências incidirão, sendo seu resultado não definido pelo crivo lógico imaginado por uma relação formal dessas três categorias, mas pelo próprio movimento do real. Assim, aduz Lukács (2012) que:
Se Marx, como vimos, considera indispensável para o processo cognoscitivo as abstrações e as generalizações, igualmente indispensável lhe aparece a especificação dos complexos e das conexões concretas. Em termos ontológicos, especificação significa aqui o seguinte: examinar a incidência de determinadas leis, de sua concretização, modificação, tendencialidade, de sua atuação concreta em determinadas situações concretas, em determinados complexos concretos. O conhecimento só pode abrir caminho para esses objetos investigando os traços particulares de cada complexo objetivo (p. 258).
Portanto, é a análise dos traços particulares que pode esclarecer de que modo as incidências das determinações universais se concretizam em cada complexo objetivo, “[...] trata-se de compreender o ser-propriamente-assim de um complexo fenomênico em conexão
com as legalidades gerais que o condicionam e das quais, ao mesmo tempo, ele parece se desviar” (p. 258). É apenas desse modo que se evitam simplificações deformadoras, que longe de simplificarem o acesso ao real, o interditam de início.
Deve-se, portanto, rejeitar qualquer “dedução ontológica” do edifício, do ordenamento das categorias (aqui os valores), partindo do seu conceito geral, abstratamente apreendido. Pois, através dele, conexões e constituições cuja peculiaridade se acha fundada, de modo ontologicamente real, na sua gênese histórico-social contêm a aparência de uma hierarquia conceitual-sistemática, através da qual, como consequência dessa discrepância entre o ser autêntico e o conceito supostamente determinante, acabam sendo falsificadas a sua essência concreta e a sua interação concreta. Deve-se rejeitar, do mesmo modo, a ontologia vulgar-materialista que vê as categorias mais complexas como simples produtos mecânicos das mais elementares e fundantes e, desse modo, por um lado, obstrui para si mesma toda compreensão da particularidade das primeiras e, por outro, cria entre as primeiras e as segundas uma falsa hierarquia, supostamente ontológica, segundo a qual só se pode atribuir um ser em sentido próprio às categorias mais simples (LUKÁCS, 2013, p. 87).
O reconhecimento da importância da análise e delucidação da particularidade se dá não por uma hierarquia ou sistema de conceitos, mas devido ao próprio modo concreto por meio do qual as categorias mais gerais se impõem na realidade concreta, categorias aqui entendidas como determinações da existência, do próprio ser. Temos, portanto, imposta a nós, nem que de modo breve dados os nossos limites, a necessidade da exposição da particularidade da objetivação do capitalismo no Brasil.
O caminho para uma correta apreensão da particularidade brasileira foi a sina de diversos pesquisadores brasileiros, Carlos Nelson Coutinho (1974) procedeu à seguinte analogia com a assim chamada via prussiana:
O caminho do povo brasileiro para o progresso social – um caminho lento e irregular – ocorreu sempre no quadro de uma conciliação com o atraso, seguindo aquilo que Lênin chamou de “via prussiana” para o capitalismo. Ao invés das velhas forças e relações sociais serem extirpadas através de amplos movimentos populares de massa, como é característico da “via francesa” ou da “via russa”, a alteração se faz mediante conciliações entre o novo e o velho, ou seja, tendo-se em conta o plano imediatamente político, mediante um reformismo “pelo alto” que exclui inteiramente a participação popular. [...]. No quadro desse profundo divórcio entre o povo e a nação, torna-se assim particularmente difícil o surgimento de uma autêntica consciência democrático-popular (1974, p. 3).
O autor faz menção às também chamadas formas clássicas de transição para o capitalismo (CHASIN, 1978). Muitos autores tentaram explicar a realidade brasileira transpondo o que ocorreu na transição para o capitalismo em outros lugares para a realidade brasileira, tentando assim encaixar as particulares lutas de classes nacionais em um esquema já pré-formatado. Entretanto, essas formas de transição não são obrigatórias, como a própria
via prussiana demonstra, “de maneira que há modos e estágios de ser, no ser e no ir sendo capitalismo, que não desmentem a anatomia, mas que a realizam através de concreções específicas” (p. 621). Marx faz menção à peculiaridade da transição tardia da Alemanha para o capitalismo em um dos prefácios de O Capital:
Onde a produção capitalista se implantou plenamente entre nós, por exemplo, nas fábricas propriamente ditas, as condições são muito piores do que na Inglaterra, pois falta o contrapeso das leis fabris. Em todas as outras esferas, tortura-nos — assim como em todo o resto do continente da Europa ocidental — não só o desenvolvimento da produção capitalista, mas também a carência do seu desenvolvimento. Além das misérias modernas, oprime-nos toda uma série de misérias herdadas, decorrentes do fato de continuarem vegetando modos de produção arcaicos e ultrapassados, com o seu séquito de relações sociais e políticas anacrônicas. Somos atormentados não só pelos vivos, como também pelos mortos. Le mort saisit le vif! (MARX, 1996a, p. 130-1).
Combinavam-se assim as particulares mazelas provocadas pelo desenvolvimento capitalista com as herdadas do caráter feudal da produção anterior. Oprimiam os trabalhadores alemães não apenas o relógio e a sirene da moderna fábrica, mas também a carência do desenvolvimento das relações sociais capitalistas, conformando assim uma particular miséria alemã, em suma, há uma opressão específica do modo particular de concretização do capitalismo na Alemanha. A partir dessa análise e outras que não nos cabe aqui citar, sintetiza Chasin (1978):
A via prussiana do desenvolvimento capitalista aponta para uma modalidade particular desse processo, que se põe de forma retardada e retardatária, tendo por eixo a conciliação entre o novo emergente e o modo de existência social em fase de perecimento. lnexistindo, portanto, a ruptura superadora que de forma difundida abrange, interessa e modifica todas as demais categorias sociais subalternas. Implica um desenvolvimento mais lento das forças produtivas, expressamente tolhe e refreia a industrialização, que só paulatinamente vai extraindo do seio da conciliação as condições de sua existência e progressão. Nesta transformação “pelo alto” o universo político e social contrasta com os casos clássicos, negando-se de igual modo ao progresso, gestando, assim, formas híbridas de dominação, onde se “reúnem os pecados de todas as formas de estado” (p. 625).
O processo de entificação do capitalismo pela via prussiana constitui-se em base teórica que demonstra a possibilidade concreta de diferentes modos de transição para o capitalismo, trata-se de um “particular contrastante do qual se avizinha o caso brasileiro, também diverso dos casos clássicos” (CHASIN, 1978, p. 627). Desse modo, o desenvolvimento capitalista e a relação entre suas classes sociais não podem ser derivados unicamente das características gerais do modo de produção capitalista, mas dependem da análise desse modo particular de constituição do capitalismo.
Assim, irrecusavelmente, tanto no Brasil, quanto na Alemanha, a grande propriedade rural é presença decisiva; de igual modo, o reformismo pelo “alto” caracterizou os processos de modernização de ambos, impondo-se, desde logo, uma solução conciliadora no plano político imediato, que exclue as rupturas superadoras, nas quais as classes subordinadas influiriam, fazendo valer seu peso específico, o que abriria a possibilidade de alterações mais harmônicas entre as distintas partes do social. Também nos dois casos o desenvolvimento das forças produtivas é mais lento, e a implantação e a progresso da indústria, isto é, do "verdadeiro capitalismo", do modo de produção especificamente capitalista, é retardatária, tardia, sofrendo obstaculizações e refreiamentos decorrentes da resistência de forças contrárias e adversas. Em síntese, num e noutro casos, verifica-se, para usar novamente uma fórmula muito feliz, nesta susumaríssima indicação do problema, que o novo paga alto tributo ao velho (p. 627).
Temos nas duas particularidades elementos semelhantes, especialmente no caráter retardado e retardatário do processo em comparação com os casos clássicos. Além disso, a concentração da propriedade rural, o reformismo pelo alto que afasta a participação das classes subalternas e a ausência de rupturas. Entretanto, a análise seria incompleta se não pudesse indicar a diferença específica, portanto,
Se aos dois casos convém, o predicado abstrato de que neles a grande propriedade rural é presença decisiva, somente principiamos verdadeiramente a concreção ao atentar como ela se objetiva em cada uma das, entidades sociais, isto é, no 'momento em que se determina que, no caso alemão, se, está indicando uma grande propriedade rural proveniente da característica propriedade feudal posta no quadro europeu, enquanto no Brasil se aponta para um latifúndio procedente de outra gênese histórica, posto, desde suas formas originárias, no universo, da economia mercantil pela empresa colonial (p. 628).
Portanto, se no caso alemão a grande propriedade rural tem origem na propriedade feudal, o latifúndio brasileiro deriva da economia mercantil de extração colonial. Além disso, enquanto a industrialização alemã ocorre nas últimas décadas do século XIX, desenvolvendo- se ao ponto da Alemanha ter se tornado uma nação imperialista, no Brasil ela ocorre já na época das guerras imperialistas, onde o país não rompe seu caráter subordinado aos polos hegemônicos do capitalismo internacional, “de sorte que ‘o verdadeiro capitalismo’ alemão é tardio, enquanto o brasileiro é hipertardio” (p. 628). Por este motivo, Chasin designa o caminho particular de transição para o capitalismo no Brasil de via colonial, já que este particular tem suas raízes na relação do país com a acumulação primitiva da metrópole. A via colonial pesou fortemente no desenvolvimento da sociabilidade burguesa no Brasil e na relação entre as classes sociais e o poder político, razão pela qual precisamos fazer uma breve digressão sobre essa particularidade brasileira.
De acordo com Caio Prado Júnior, a era colonial termina propriamente em 1808, antes mesmo da separação oficial em 1822. A fuga dos soberanos portugueses para o Brasil tornou a colônia relativamente autônoma, com várias consequências importantes para a política e a economia local, destaque-se, por exemplo, a instituição do Banco do Brasil em outubro daquele ano30. Naquele momento, a colonização ocupava apenas uma pequena parte do território brasileiro, dispersa, porém com imensos vácuos, com uma concentração maior na faixa costeira, mas nela também dispersa, com a formação de alguns núcleos, com destaque para Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro.
Essas poucas aglomerações formavam os raros núcleos urbanos da colônia, em parte estimulados pelas atividades portuárias. Também nas zonas de mineração, em menor escala, se formaram alguns núcleos urbanos. Aos fins do século XVIII, as cinco maiores cidades do país representavam 5,7% da população do país, que era estimada em aproximadamente 2.850.000 habitantes (COSTA, 1999)31. Essa pequena expressão dos núcleos urbanos decorre do caráter geral da produção colonial e da política a ela lhe dirigida pela metrópole. Tendo em vista que sua finalidade era o atendimento dos objetivos metropolitanos, a colônia foi organizada através de um rígido sistema de monopólios e privilégios que a limitava à importação e exportação de produtos através da metrópole. Estabeleceu-se aqui uma “[...] economia colonial dependente, servindo aos interesses do florescente capitalismo mercantil europeu” (SAFFIOTI, 1976, p. 140).
Com uma população de 0,3 habitantes por km², a distribuição do povoamento territorial reflete o seguinte caráter da empresa colonial no Brasil:
Os diferentes setores que o compõem têm uma atividade econômica variável [...]: as grandes lavouras tropicais, a cana-de-açúcar, o tabaco, o arroz, o anil, o algodão, ao longo do litoral; aquelas primeiras mais próximas do mar, a última um pouco mais arredada para o interior; a colheita de produtos naturais (sobretudo o cacau) no Extremo-Norte; a mineração do ouro e dos diamantes no Centro-Sul; a pecuária no sertão do Nordeste e no Extremo-Sul. Eses são em suma, desprezados os pormenores, os gêneros de vida econômica da população colonial. Um traço os aproxima e sintetiza: é o caráter geral da economia brasileira [...] e que permanece
30
Segundo Simonsen (2005, p. 499), “[...] toda a administração portuguesa passou a fazer um esforço considerável no sentido de erguer o Brasil à altura de um grande império, para que continuassem, nas terras americanas, as tradições que tanto enobreciam seu passado. Essa mudança veio suprimir, portanto, muitos dos aspectos meramente coloniais que caracterizavam a economia brasileira. Sob o ponto de vista político e administrativo, criou mesmo no país organizações marcantes de uma monarquia absoluta, necessárias ao funcionamento de nação política e administrativamente independente”.
31 “Dados relativos aos fins do século XVIII revelam que o Rio de Janeiro, sede do vice-reinado desde 1763 e
porto por onde se escoava o ouro e se importavam produtos manufaturados, possuía 50.000 habitantes, seguindo- se-lhe em importância a Bahia, com 45.500, Recife, com trinta mil, São Luís do Maranhão, com 22.000; e São Paulo, com 15.500, única aglomeração que foge à regra, situando-se no planalto, distante do mar” (COSTA, 1999, p. 234).
apesar de todas as vicissitudes e incidentes de sua evolução; e que vem a ser a exploração dos recursos naturais de um amplo território em proveito do comércio europeu. Não se chegará a constituir na era colonial uma economia propriamente nacional, isto é, um sistema organizado de produção e distribuição de recursos para a subsistência material da população nela aplicada; mas ficará-se, modificando apenas a extensão do processo, nesta exploração comercial de um território virgem em proveito de objetivos completamente estranhos à sua população, e em que essa população não figura senão como elemento propulsor destinado a mantê-la em funcionamento (PRADO JÚNIOR, 2008a, p. 72).
Temos, portanto, como traço essencial da economia colonial a ausência de um caráter propriamente nacional. A abundância de terras e de recursos naturais foram determinantes, de um lado, na configuração do caráter agroexportador da economia brasileira, com um sistema de produção organizado a partir das demandas do mercado externo, não da população local. Essa mesma população, era mero suporte desse impulso exportador característico dessa economia de extração colonial. Assim, ausente estava uma organização econômica voltada para os interesses nacionais, pois “todas as suas atividades giram em torno deste fim precípuo de fornecer ao comércio internacional alguns produtos tropicais de alto valor mercantil, metais e pedras preciosas. O mais é secundário, acessório, e serve apenas para tornar possível a realização daquele fim” (p. 72). Ou seja, os interesses nacionais, da própria população que extrai pelo seu trabalho essa riqueza exportada, ficam em segundo plano, especialmente quando se considera que nesse momento a base do trabalho era formada pelos escravos negros. Outras produções extrativas também ocorriam no Brasil ao final de seu período colonial, tais como a indústria extrativa da madeira, da pesca da baleia, do sal e salitre e da erva-mate. No começo do século XVIII, com matéria-prima abundante e um mercado local significativo, desenvolveram-se as manufaturas têxteis e do ferro. Embora inicialmente vinculadas e limitadas ao atendimento dos grandes domínios rurais locais, algumas alcançaram alguma autonomia, tornando-se manufaturas próprias e comercialmente organizadas, entretanto, a lei colonial não permitiu seu maior desenvolvimento.
Temendo por motivos políticos o desenvolvimento da indústria colonial, e alarmada também com a concorrência que iria fazer ao comércio do Reino, a metrópole manda extinguir em 1785 todas as manufaturas têxteis da colônia com exceção apenas das de panos grossos de algodão que serviam para vestimenta dos escravos ou se empregavam em sacaria. Era o golpe de morte na indústria da colônia; e isto apesar da exceção que a lei incluíra, à sombra da qual se pôde manter um fio de vida precária e incerta. Quanto à indústria do ferro, não ficou ela atrás na perseguição que lhe moveu a administração colonial. Favorecia-a, em certas regiões de Minas Gerais, não só a abundância de minérios ricos e facilmente exploráveis, como o alto preço do ferro e das ferramentas, onerados como estavam por direitos elevadíssimos de entrada no país e na capitania, bem como pela dificuldade de transporte da mercadoria. Estas circunstâncias muito estimulavam a indústria, proporcionando-lhe bastante perspectivas; o consumo de ferro na mineração era avultado. E não fosse a tenaz oposição oficial, ela teria com certeza tomado importância. Mas esta foi
tremenda; o simples fato de saber fundir o metal era suficiente muitas vezes para tornar alguém suspeito de idéias extremadas e subversivas, sujeitando a vítima a toda sorte de perseguições. Temia-se a concorrência numa mercadoria que embora