CAPÍTULO 1. CLASSES SOCIAIS E MODO DE PRODUÇÃO CAPITALISTA
1.2. Classes sociais e relações sociais de produção
1.2.3. Dominação impessoal e classes sociais no capitalismo
A compreensão do complexo social do estranhamento é fundamental para esclarecer de que maneira o capitalismo se caracteriza tanto por antagonismos de classes sociais quanto por uma específica dominação impessoal através de suas legalidades sociais. Ainda n’A Sagrada Família, Marx enfatiza como a problemática das classes sociais não elimina a autoalinenação humana mais geral, que subjuga até mesmo as classes possuidoras.
A classe possuinte e a classe do proletariado representam a mesma autoalienação humana. Mas a primeira das classes se sente bem e aprovada nessa autoalienação, sabe que a alienação é seu próprio poder e nela possui a aparência de uma existência humana; a segunda, por sua vez, sente-se aniquilada nessa alienação, vislumbra nela sua impotência e a realidade de uma existência desumana (MARX, 2011b, p. 48, destaque nosso).
O que o desenvolvimento da pesquisa e a crítica futura da economia política que culminará na descoberta do fetichismo demonstram é que não necessariamente a classe possuinte sabe dessa alienação. Conforme foi apresentado, os homens não precisam saber para agir, a mediação das relações sociais de produção pela troca não pressupõe o conhecimento de que são trocados produtos de trabalho medidos pela abstração do tempo de trabalho que os produziu. O que, no entanto, essa afirmação corretamente aponta, é que tanto capitalistas quanto proletários estão sujeitos à mesma dominação social das coisas sobre os homens.
A autonomização das forças sociais na esfera da produção e reprodução da vida material toma a aparência de um “poder não humano” (MARX, 2004, p. 146) que domina a todos, inclusive os capitalistas. Entretanto, desenvolvida a crítica da economia política, Marx pôde, a partir da própria materialidade das relações sociais burguesas, expor que essa relação social humana é o capital, “[...] trabalho morto, que, como um vampiro, vive apenas da sucção de trabalho vivo, e vive tanto mais quanto mais trabalho vivo suga” (MARX, 2013c, p. 307). Na sociedade capitalista, a produção material se torna meio para produção de valor. O processo de trabalho se torna processo de valorização. Isso é consequente à distinção entre trabalho útil e trabalho humano abstrato, sendo que o dispêndio deste último é o que cristaliza valor, sendo o tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de um valor de uso o que determina a grandeza de seu valor. A forma mercadoria é a forma da unidade de valor de uso e valor de troca e “o valor de uma mercadoria está para o valor de qualquer outra mercadoria assim como o tempo de trabalho necessário para a produção de uma está para o tempo de trabalho necessário para a produção de outra” (MARX, 2013c, p. 117). Assim, na sociedade da produção de mercadorias plenamente desenvolvida, “[...] o tempo de trabalho socialmente necessário à sua produção se impõe com a força de uma lei natural reguladora, assim como a lei da gravidade se impõe quando uma casa desaba sobre a cabeça de alguém” (p. 150). O trabalho abstrato torna-se o centro nervoso do metabolismo social da sociedade onde predomina o modo de produção capitalista.
O sistema constituído pelo trabalho abstrato corporifica uma nova forma de dominação social que exerce uma forma de compulsão social cujo caráter objetivo é
historicamente novo. A determinação inicial compulsão social abstrata é serem os indivíduos compelidos a produzir e trocar mercadorias para sobreviver. Essa compulsão exercida não é função da dominação social direta, como se dá por exemplo, com o trabalho escravo ou servil; ela é, ao contrário, função das estruturas sociais “abstratas” e “objetivas” e representa uma forma de dominação abstrata e impessoal. (POSTONE, 2014, p. 186).
Essa dominação impessoal e abstrata é constituída socialmente e se retroalimenta automaticamente na reiteração das trocas. A sociedade passa a ser mediada pela troca de mercadorias, os indivíduos são condenados a produzir e trocar mercadorias para sobreviver. Na circulação capitalista, “o valor passa constantemente de uma forma a outra, sem se perder nesse movimento, e, com isso, transforma-se no sujeito automático do processo” (MARX, 2013c, p. 229-30). Esse fato tem consequências deletérias para a sociabilidade armada sobre esse modo produção, porque:
O tempo de trabalho como medida da riqueza põe a própria riqueza como riqueza fundada sobre pobreza e o tempo disponível como tempo existente apenas na e por meio da oposição ao tempo de trabalho excedente, ou significa pôr todo o tempo do indivíduo como tempo de trabalho, e daí a degradação do indivíduo. Por isso, a maquinaria mais desenvolvida força o trabalhador a trabalhar agora mais tempo que o fazia o selvagem ou que ele próprio com suas ferramentas mais simples e rudimentares. (MARX, 2013c, p. 591, grifos nossos).
Essa forma social específica de trabalho, o trabalho abstrato, impõe também como critério de valor a sua própria medida, o tempo abstrato. “Devido ao caráter mediador do trabalho no capitalismo, a sua medida também tem um caráter socialmente mediador. A forma da riqueza (valor) e sua medida (tempo abstrato) são constituídas pelo trabalho no capitalismo como mediações sociais “objetivas”” (POSTONE, 2014, p. 221). Dado o caráter autonomizado dessa forma social e duplo caráter do trabalho que produz mercadorias, nesse modo de produção, a tecnologia não liberta o ser humano do trabalho, pelo contrário, ao degradá-lo a mero trabalhador, a divisão do trabalho capitalista “[...] torna supérfluo o próprio trabalhador” (MARX, 2013c, p. 557) e uma “[...] população trabalhadora excedente é um produto necessário e [...] condição de existência do modo de produção capitalista [...]” (p. 704). A pobreza de uma classe e a riqueza de outra é posta não a partir da dinâmica das lutas de classes, mas a partir das próprias leis sociais que regem a acumulação capitalista. A contradição entre trabalho excedente e população excedente conforma o núcleo das mazelas sociais do capitalismo.
O próprio capital é a contradição em processo, [pelo fato] de que procura reduzir o tempo de trabalho a um mínimo, ao mesmo tempo em que, por outro lado, põe o
tempo de trabalho como única medida e fonte da riqueza. Por essa razão, ele diminui o tempo de trabalho na forma do trabalho necessário para aumentá-lo na forma do supérfluo; por isso, põe em medida crescente o trabalho supérfluo como condição – questão de vida e morte – do necessário [...]. As forças produtivas e as relações sociais – ambos aspectos diferentes do desenvolvimento do indivíduo social – aparecem somente como meios para o capital, e para ele são exclusivamente meios para poder produzir a partir de seu fundamento acanhado (MARX, 2011c, p. 589).
Diferente da compreensão do mundo antigo do ser humano como finalidade da produção, no mundo moderno, “[...] a produção aparece como finalidade do ser humano e a riqueza, como finalidade da produção” (MARX, 2011c, p. 389) e essa “exteriorização total do conteúdo humano aparece como completo esvaziamento; essa objetivação universal, como estranhamento total, e a desintegração de todas as finalidades unilaterais determinadas, como sacrifício do fim em si mesmo a um fim totalmente exterior” (p. 400, destaque nosso). O modo de produção capitalista produz uma riqueza totalmente estranhada e compulsoriamente crescente, que subordina o trabalho vivo e amplia necessariamente o contingente de trabalhadores supérfluos, subordinando o tempo livre gerado pelo desenvolvimento das forças produtivas ao fundamento miserável da riqueza na forma abstrata do valor.
O impulso ao enriquecimento do capitalista é diferente do entesourador em outros modos de produção, “[...] o que neste aparece como mania individual, no capitalista é efeito do mecanismo social, no qual ele não é mais que uma engrenagem” (MARX, 2013c, p. 667). No modo de produção capitalista, mesmo a classe mais favorecida por sua divisão social do trabalho, é mera engrenagem, o indivíduo capitalista é respeitável apenas na medida em que conserva riqueza abstrata suficiente para ser personificação do capital. Ao capital não interessam nomes e sobrenomes, a única linguagem que ele entende é monetária. Se não importam as qualidades úteis dos produtos do trabalho na medida de valor das mercadorias, muito menos importam as qualidades pessoais dos capitalistas para o capital. O impulso à acumulação progressiva é dado pela necessidade contínua de ampliação do capital para sua conservação. Como a riqueza, na forma de valor, é sempre crescente, a mera estagnação significa perder valor e, por conseguinte, para o capitalista, o risco de deixar de ser capitalista, “[...] a concorrência impõe a cada capitalista individual, como leis coercitivas externas, as leis imanentes do modo de produção capitalista” (ibidem). Se o tempo de trabalho socialmente necessário é a medida da riqueza social abstrata no capitalismo, o impulso à extração de mais- valor é posto por essas leis imanentes, por essa forma de dominação abstrata da própria forma social que assume o trabalho no capitalismo. Assim, a exploração do trabalho é necessidade imanente não só na forma, mas em grau. O capitalista está socialmente condicionado a estar sempre buscando aumentar o grau de exploração da força de trabalho, não por mera avareza
ou ganância desmedida, mas porque “[...] sua força motriz não é o valor de uso e a fruição, mas o valor de troca e seu incremento” (ibidem). Esse comportamento medíocre e indiferente é posto ao capitalista por essas leis imanentes ao capital, por essa razão, o trabalhador está sempre sujeito a ver seu nível de degradação no trabalho ampliado.
Enquanto o trabalho em máquinas agride ao extremo o sistema nervoso, ele reprime o jogo multilateral dos músculos e consome todas as suas energias físicas e espirituais. Mesmo a facilitação do trabalho se torna um meio de tortura, pois a máquina não livra o trabalhador do trabalho, mas seu trabalho de conteúdo. Toda produção capitalista, por ser não apenas processo de trabalho, mas, ao mesmo tempo, processo de valorização do capital, tem em comum o fato de que não é o trabalhador quem emprega as condições de trabalho, mas, ao contrário, são estas últimas que empregam o trabalhador; porém, apenas com a maquinaria essa inversão adquire uma realidade tecnicamente tangível (MARX, 2013c, p. 494-5).
As forças produtivas e as relações sociais subordinadas a uma finalidade exterior às necessidades humanas, aos múltiplos objetivos dos indivíduos sociais e da sociedade como um todo são o fundamento do modo limitado das relações sobre base capitalista. Trata-se do grande desperdício de individualidades tornadas supérfluas ou reduzidas a meros trabalhadores. Diferente de outras formas de sociabilidade em que “[...] trabalhador, independentemente do trabalho, tem uma existência objetiva” (MARX, 2011c, p. 388), na sociedade que tem a conexão social expressa no valor de troca, temos que para o indivíduo, “seu poder social, assim como seu nexo com a sociedade, [o indivíduo] traz consigo no bolso” (p. 105). Entretanto, essa forma de relação entre os homens e entre os homens e a natureza aparece como naturalmente constituída por conta do fetichismo que caracteriza as relações sociais de produção burguesas, a necessidade de trabalhar para viver, trabalhar para ter, trabalhar para ser, aparece como molde social específico das individualidades no capitalismo.
Dado que o papel mediador social específico desempenhado pelo trabalho produtor de mercadorias é velado, e esse trabalho aparece como trabalho per se, esses dois tipos de necessidades se combinam na forma de uma aparente necessidade trans- histórica: é preciso trabalhar para sobreviver. Portanto, uma forma de necessidade social específica do capitalismo aparece como a “ordem natural das coisas”. Essa necessidade aparentemente trans-histórica - de que o trabalho é o meio necessário para o seu próprio consumo (e o de sua família) - serve como base de uma ideologia legitimadora fundamental da formação social capitalista como um todo, ao longo de todas as suas fases (POSTONE, 2014, p. 188-9).
A eternização das relações sociais burguesas que a economia política expressa ocorre também no pensamento prático da vida cotidiana. O trabalho abstrato se torna o regulador abstrato e impessoal que conforma todos os indivíduos numa específica forma de dominação capitalista. “Essa universalidade social do tempo de trabalho socialmente necessário enquanto
regulador de toda produção econômico-social aparece no capitalismo numa forma fetichizada- reificada e, também por essa razão, é vista como peculiaridade de tal formação” (LUKÁCS, 2013, p. 124). O trabalho aparece como necessidade natural, como o meio digno natural de acesso aos bens de consumo. Além disso, “no evolver da produção capitalista desenvolve-se uma classe de trabalhadores que, por educação, tradição e hábito, reconhece as exigências desse modo de produção como leis naturais e evidentes por si mesmas” (MARX, 2013c, p. 591 ). Quanto maior a preponderância das relações sociais capitalistas, engendradas sempre com o fetichismo que se cola nos objetos do trabalho na medida em que são produzidos como mercadorias, mais naturais essas relações e suas leis historicamente específicas aparecem aos sujeitos.
O caráter fetichista da forma econômica, a reificação de todas as relações humanas, a extensão sempre crescente de uma divisão do trabalho, que atomiza abstratamente e racionalmente o processo de produção, sem se preocupar com as possibilidades e capacidades humanas dos produtores imediatos, transformam os fenômenos da sociedade e, com eles, sua percepção (LUKÁCS, 2003, p. 72).
A consciência espontânea nessa sociedade está determinada pelo fetichismo da mercadoria e do dinheiro. O fetichismo afeta a percepção dos fenômenos sociais de modo isolado, o que se manifesta na divisão das áreas do conhecimento científico sobre essa sociedade. A consciência espontânea dos indivíduos é afetada, as leis historicamente determinadas e específicas da sociedade burguesa são tomadas como leis naturais e evidentes por si mesmas. Esse ponto é central para a compreensão das relações sociais entre as classes sociais numa sociedade cujo modo de produção capitalista prepondera enquanto base do seu metabolismo social. Isso porque, com os elementos até aqui elencados, fica claro que não há nenhum privilégio de percepção da essência das relações sociais capitalistas a partir de uma ou outra classe social. Há diferentes níveis de conforto e degradação aos quais os sujeitos são expostos de acordo com sua classe social, mas não há um “ponto de vista” privilegiado. Tanto capitalistas quanto trabalhadores, em sua percepção cotidiana, estão sujeitos ao fetichismo e os diferentes absurdos que conformam a consciência dos agentes sociais de produção no capitalismo. “Isso significa que quando as pessoas na sociedade burguesa, sejam elas trabalhadores ou capitalistas, tentam esclarecer seus interesses, elas o fazem a partir das formas fetichizadas de pensamento e percepção que são dominantes na consciência espontânea do cotidiano” (HEINRICH, 2012, p. 197).
As classes sociais não podem ser compreendidas pelo que seus indivíduos pensam ou entendem relativamente à sua posição na divisão social do trabalho. O fetichismo está
expresso no fato de que os indivíduos fazem sem necessariamente saber o quê e porque fazem em sua essência25. A consciência de classe, quando considerado o complexo do fetichismo, não pode ser o critério preponderante que define as classes sociais. Pelo contrário, a consciência de classe se explica pelo desenvolvimento da acumulação capitalista e o consequente desenvolvimento das lutas de classes26. Essa é uma das razões porque a análise das classes sociais, das lutas de classes, não pode ter como ponto de partida as classes sociais. Na sociedade burguesa, a divisão entre classes sociais é determinada pelo modo peculiar de exploração que é demandado pela forma social específica que o trabalho assume no modo de produção capitalista.
A luta de classes entre capitalistas e trabalhadores assalariados também está enraizada nas formas específicas pelas quais as necessidades e as exigências são compreendidas e articuladas em um contexto social estruturado pela mercadoria - isto é, como consciência social e concepções de direitos associados a uma relação estruturada dessa forma (POSTONE, 2014, p. 368).
O modo pelo qual os indivíduos tomam consciência dos antagonismos de classes determinados pela relação capital, assim como a maneira como endereçam seus interesses, estão condicionados socialmente pelas concepções inerentes à sociabilidade que tem o trabalho abstrato como mediação social estruturante. Destarte, podemos então retomar a problemática da formulação inacabada sobre as classes sociais ao final do Livro 3 d’o Capital. A questão das classes sociais comparece nos três livros do capital, especialmente no livro 1, quando se estuda o processo de produção do capital. Entretanto, o que fica claro é que uma sistematização sobre as classes sociais, uma esquematização dessas, não é pré-condição para o entendimento das relações sociais capitalistas. Pelo contrário, é a partir do desvelamento do caráter dúplice da forma social do trabalho no capitalismo, do fetichismo da mercadoria e do dinheiro, da compulsão à acumulação, da forma específica de exploração capitalista, na forma do mais-valor, enfim, a partir desses elementos é que se pode compreender porque, em abstrato, a sociedade burguesa assume uma determinada divisão em classes sociais. Por essa razão o rascunho inacabado, quando comparamos com fórmula trinitária torna-se mais compreensível, as relações entre as classes sociais são determinadas pela função que ocupam no processo social de produção do mais-trabalho total da sociedade. Por essa razão, as classes
25 Que o trabalho abstrato “[...] seja o elemento geral criador de valor – elemento que o distingue das demais
mercadorias –, é algo que está fora do alcance da consciência ordinária” (MARX, 2013c, p. 611).
26“[...] com a acumulação do capital, desenvolve-se a luta de classes e, por conseguinte, a consciência de si
sociais no capitalismo e as lutas de classes não podem ser compreendidas partindo-se das relações de exploração de classes, mas sim das leis sociais específicas da acumulação capitalista.
Ao tratar da acumulação primitiva, Marx expõe o fato elementar de que para que dinheiro e mercadoria sejam transformados em capital, num primeiro momento,
[...] é preciso que duas espécies bem diferentes de possuidores de mercadorias se defrontem e estabeleçam contato; de um lado, possuidores de dinheiro, meios de produção e meios de subsistência, que buscam valorizar a quantia de valor de que dispõem por meio da compra de força de trabalho alheia; de outro, trabalhadores livres, vendedores da própria força de trabalho e, por conseguinte, vendedores de trabalho (MARX, 2013c, p. 786).
Na produção do mais-valor está colocada a relação fundamental entre a classe trabalhadora e a classe capitalista. Embora a relação pareça ser determinada meramente pela propriedade privada dos meios de produção, o que temos é a determinação das classes sociais a partir da relação capital. O trabalhador livre, cuja única mercadoria que possui é sua força de trabalho, depara-se com o possuidor de dinheiro e meio de produção o capitalista, onde estabelecem uma relação de troca de equivalentes27. Assim, a posição de classe dos sujeitos parece ser determinada pela posse ou não dos meios de produção. Entretanto, o que se depreende quando compreendemos o caráter de engrenagem que tanto capitalistas e trabalhadores assumem no modo de produção capitalista, é que as suas relações de classe são definidas em relação ao processo de produção28. Quando analisa a duração da jornada de trabalho, especialmente a partir do processo que leva à sua regulamentação na Inglaterra, Marx demonstra de que maneira ela é resultado das disputas entre capitalistas e trabalhadores estruturadas a partir da relação de troca de mercadorias como equivalentes.
27
“Ao dinheiro é totalmente indiferente em que tipo de mercadoria é transformado. Ele é a forma geral de equivalente de todas as mercadorias, que já mostram em seus preços que representam idealmente determinada soma de dinheiro, que esperam sua transformação em dinheiro e que, só mediante sua troca de lugar com o dinheiro, recebem a forma sob a qual podem converter-se em valores de uso para seus possuidores. Portanto, uma vez que a força de trabalho se encontra no mercado como mercadoria de seu possuidor, cuja venda ocorre sob a forma de pagamento pelo trabalho, na figura de salário, então sua compra e venda não representam nada mais digno de atenção do que a compra e venda de qualquer outra mercadoria. Não que a mercadoria força de trabalho seja comprável, mas que a força de trabalho apareça como mercadoria é o característico (MARX, 1985e, p. 28).
28
“Do lado do trabalhador: a ativação produtiva de sua força de trabalho só se torna possível a partir do momento em que, em decorrência de sua venda, é posta em contato com os meios de produção. Ela existe portanto antes da venda, separada dos meios de produção, das condições objetivas para sua ativação. Nesse estado de separação, ela não pode ser utilizada diretamente para produzir valores de uso para seu possuidor, nem para a produção de mercadorias, de cuja venda este pudesse viver. Mas assim que, mediante sua venda, é posta em contato com os meios de produção, ela constitui parte integrante do capital produtivo de seu comprador, tanto quanto os meios de produção” (MARX, 1985e, p. 29).
[...] a natureza específica da mercadoria vendida implica um limite de seu consumo pelo comprador, e o trabalhador faz valer seu direito como vendedor quando quer limitar a jornada de trabalho a uma duração normal determinada. Tem-se aqui, portanto, uma antinomia, um direito contra outro direito, ambos igualmente apoiados na lei da troca de mercadorias. Entre direitos iguais, quem decide é a força. (MARX, 2013c, p. 309).
A mediação social da atividade produtiva pelo trabalho abstrato e sua medida, o tempo