CAPÍTULO III – REPARAÇÃO DO DANO AMBIENTAL
3. Classificação do dano ambiental
JOSÉ RUBENS MORATO LEITE380 faz a seguinte classificação do dano ambiental:
quanto à extensão do bem protegido: dano ecológico puro, dano ambiental lato sensu, dano individual ou ambiental reflexo; quanto à reparabilidade e ao interesse envolvido: dano ambiental de reparabilidade direta e indireta; quanto à extensão do dano: patrimonial ou extrapatrimonial; e, por último, quanto aos interesses objetivados: coletivo, difuso, ou individual homogêneo.
Quanto à extensão do bem protegido, poderá ser classificado em dano ecológico puro, quando atingir os elementos naturais do ecossistema, fauna, flora e não abranger o patrimônio cultural ou artificial; em dano ambiental lato sensu, quando atingir também o patrimônio cultural ou artificial, ou seja, quando atingir os interesses difusos da coletividade; em dano individual ou reflexo quando levar em consideração não o bem ambiental, mas sim os interesses dos lesados individualmente. De modo reflexo garante a proteção do meio ambiente, pois ao assegurar a manutenção de um meio ambiente saudável e equilibrado para o indivíduo, acaba por cuidar para que o meio ambiente não seja destruído.
No que concerne à classificação quanto à reparabilidade do dano e ao interesse envolvido, pode ser de reparabilidade direta ou indireta. Será direta quando o indivíduo que sofreu a lesão for indenizado diretamente, pois o dano diz respeito a interesses próprios individuais e individuais homogêneos e apenas reflexo com o meio ambiente. Por outro lado, será de reparabilidade indireta quando concernente à reparação do macrobem ambiental, envolvendo interesses difusos e coletivos. O intuito será de “ressarcir” toda a coletividade pelo prejuízo gerado, não objetivando interesses próprios ou individuais.
Pela classificação quanto à extensão do dano ambiental, poderá este ser patrimonial ou extrapatrimonial (dano moral ambiental). O primeiro visa restituir, recuperar
o bem lesado; está ligado à idéia de dinheiro, de gasto econômico. O segundo se classifica pelo cunho espiritual, moral.
Quanto aos interesses objetivados, classifica-se em coletivo, difuso ou individual homogêneo. O interesse em jogo será difuso quando tiver caráter transindividual, que transcende aos interesses individuais, indivisíveis e indetermináveis, não sendo possível determinar as pessoas afetadas. Estas se relacionam por uma circunstância de fato e não por um negócio jurídico.
O interesse em questão será coletivo stricto sensu quando marcados pela transindividualidade e indivisibilidade, mas determináveis. Ainda que não se consiga concluir de imediato sobre quem são eles, podemos determiná-los. Eles estão ligados por uma relação jurídica, e o prejuízo de um reflete em todos os outros.
Será individual homogêneo quando ele tem origem comum, mas há a possibilidade de dividi-lo, de individualizá-lo.
MILENA BORGES E BRITTO381 adota a mesma classificação do dano ambiental
delineada por MORATO LEITE.
3.1. O dano ambiental individual reflexo
Há quem entenda, nesse sentido JOSÉ RUBENS MORATO LEITE382, que o dano
individual reflexo pode ser enquadrado no gênero dano ambiental, uma vez que a lesão patrimonial e extrapatrimonial que o proprietário sofre em seu bem pode ser oriunda de uma lesão ambiental.
381 BRITO, Milena Borges e. Noções sobre dano ambiental. Disponível em:
http://www.unifacs.br/revistajuridica/edicao_dezembro2003/discente/disc07.doc. Acesso em 17-2-2008.
É o que MILARÉ383 chama de dupla face da danosidade ambiental, no sentido de
que os efeitos de um dano podem alcançar não apenas o meio ambiente, como também o próprio homem. Por isso, a Lei n. 6.938/81, ao tratar da danosidade ambiental, fez referência “a danos causados ao meio ambiente e a terceiros”, prevendo as duas modalidades. Nesse mesmo sentido, a Lei de Biossegurança (Lei n. 11.105, de 24 de março de 2005), que previu a responsabilização solidária dos autores dos danos ao meio ambiente e a terceiros.
A vítima do dano ambiental reflexo pode buscar a reparação do dano por meio de uma ação indenizatória de cunho individual, fundada nas regras gerais do direito de vizinhança.
O direito de vizinhança tem como fundamento a obrigação geral de não prejudicar os vizinhos e de suportar destes certo número de incômodos. Há, contudo, vários incômodos de vizinhança que têm uma conotação ambiental, como, por exemplo, a emissão de gases poluentes por uma indústria ou a poluição sonora causada por um estabelecimento comercial, os quais deterioram a qualidade de vida e saúde dos vizinhos.
Nesse contexto, para proteger o direito individual de vizinhança na perspectiva ambiental, a legislação brasileira prevê no art. 1.277 do Código Civil que “O proprietário ou o possuidor de um prédio tem o direito de fazer cessar as interferências prejudiciais à segurança, ao sossego e à saúde dos que o habitam, provocadas pela utilização de propriedade vizinha”, e no art. 1.299 desse Código que “O proprietário pode levantar em seu terreno as construções que lhe aprouver, salvo o direito dos vizinhos e os regulamentos administrativos”.
O direito civil tradicionalmente não incluiu o meio ambiente como um bem assegurador da liberdade dos indivíduos, pois sempre teve uma visão antropocentrista. Contudo, as inovações trazidas pelo bem ambiental remodelara o direito de vizinhança, que deixa de ser mero instrumento de garantia do direito de propriedade para ter uma
repercussão mais ampla, como garantidor da saúde e qualidade de vida do indivíduo, do meio ambiente equilibrado.
Não há normas ou instrumentos específicos prevendo a tutela do dano ambiental individual. Por conta disso faz-se necessário recorrer ao direito civil tradicional. Trata-se, em verdade, de proteção indireta do meio ambiente, uma busca pela solução de demandas interindividuais de vizinhança reflexa no bem ambiental.
Um ponto positivo inegável da utilização das regras do direito de vizinhança tradicional é a possibilidade de os indivíduos lidarem com as questões da função social da propriedade, proporcionando o exercício da tarefa da cidadania ambiental de forma indireta. Por outro lado, contudo, o acesso ao Judiciário se restringe aos proprietários, aos usufrutuários ou ainda aos titulares de direito de posse, não se estendendo a todos e quaisquer indivíduos. Ademais, sob o aspecto processual, esse direito estará vinculado às regras clássicas do processo civil e não às regras do processo civil coletivo.
Constata-se, portanto, uma ampliação ao conteúdo do direito de vizinhança, que decorre, sobretudo, do avanço industrial e das novas tecnologias em face da degradação ambiental. Assim, ampliar-se-á cada vez mais o número de demandas com fundamento no direito de vizinhança que se vinculam à questão ambiental.
As regras do direito de vizinhança, portanto, vêm-se adaptando à problemática jusambiental na medida em que incorporam conceitos relativamente novos, como a função socioambiental da propriedade, e ampliam conceitos mais antigos, como o da vizinhança, que hoje abrange propriedades mais distantes. Deve haver ampla atualização normativa adaptando-se ao perfil ambiental.
Se todos exercerem o seu direito de vizinhança, a função ambiental será mais respeitada e servirá para conscientizar o problema em seu sentido coletivo.
Em que pese o respeito às opiniões do Professor MORATO LEITE, não
concordamos com o entendimento de que o dano individual que ocorre como conseqüência do dano causado ao meio ambiente se insere no conceito de dano ambiental. Pensamos que muito embora seja um dano reflexo ao dano ambiental, a sua disciplina (tutela processual individual) é distinta da conferida ao dano ambiental efetivo (o coletivo), afastando-se, portanto, dessa categoria.