• Nenhum resultado encontrado

O dano extrapatrimonial ou moral ambiental

CAPÍTULO III – REPARAÇÃO DO DANO AMBIENTAL

4. O dano extrapatrimonial ou moral ambiental

4.1. O dano extrapatrimonial ou moral coletivo

O dano moral coletivo decorre da violação de um valor inerente à sociedade como um todo. Nesse sentido, esclarece CARLOS ALBERTO BITTAR FILHO384que:

o dano moral coletivo é a injusta lesão da esfera moral de uma dada comunidade, ou seja, é a violação antijurídica de um determinado círculo de valores coletivos. Quando se fala em dano moral coletivo, está-se fazendo menção ao fato de que o patrimônio valorativo de uma certa comunidade (maior ou menor), idealmente considerado, foi agredido de maneira absolutamente injustificável do ponto de vista jurídico: quer isso dizer, em última instância, que se feriu a própria cultura, em seu aspecto imaterial.

Além disso, admite-se o dano moral coletivo em caso de violação da honra de determinada comunidade, como bem analisou CARLOS ALBERTO BITTAR FILHO385, a saber:

Outro bom exemplo de dano moral coletivo é a violação da honra de determinada comunidade (a negra, a judaica, etc.) através de publicidade abusiva, a qual é proibida pela legislação pátria (...) Para finalizar a exemplificação, poder-se-ia mencionar o desrespeito à bandeira brasileira – a qual corporifica, como já se ressaltou, a dignidade nacional – através, e. g., de ultrajes, insultos e ofensas públicas.

384 BITTAR FILHO, Carlos Alberto. Do dano moral coletivo no atual contexto jurídico brasileiro Revista do Advogado, AASP, n. 49, v. 12, 1996, p. 55.

Assim, para admitir a ocorrência de danos morais à coletividade, configurando-se o dano moral coletivo, é preciso que algum valor inerente à sociedade tenha sido atingido.

Uma nítida situação em que se pode vislumbrar a ocorrência do dano moral coletivo é a hipótese do dano ambiental, conforme veremos a seguir.

4.2. O dano extrapatrimonial ou moral ambiental

4.2.1. Considerações gerais

Define JOSÉ RUBENS MORATO LEITE386 que se trata, o dano moral ambiental, “de

uma lesão que traz desvalorização imaterial ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e concomitantemente a outros valores inter-relacionados como a saúde e a qualidade de vida”. Ou, nas palavras de GERALDO FERREIRA LANFREDI387, “os reflexos negativos das

lesões, em forma de constrangimentos, vexames, dores, que atingem a moralidade e a afetividade das pessoas”.

CARLOS ALBERTO BITTAR FILHO388 lembra que “o dano ambiental não consiste

apenas e tão-somente na lesão ao equilíbrio ecológico, afetando igualmente outros valores precípuos da coletividade a ele ligados, a saber: a qualidade de vida e a saúde. É que esses valores estão intimamente inter-relacionados, de modo que a agressão ao ambiente afeta diretamente a saúde e a qualidade de vida da comunidade”.

Portanto, além do dano material, pensamos que há a possibilidade de reparação do dano moral ao patrimônio ambiental quando uma lesão traz desvalorização imaterial ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, admitindo-se, ainda que não prevista expressamente, a cumulação de danos patrimonial e extrapatrimonial. GERALDO FERREIRA

386 LEITE, José Rubens Morato. Op. cit., p. 300.

387 LANFREDI, Geraldo Ferreira. Política ambiental: busca de efetividade de seus instrumentos. 2. ed. rev.,

atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007, p. 103.

388 BITTAR FILHO, Carlos Alberto. Do dano moral coletivo no atual contexto jurídico brasileiro. Disponível

LANFREDI389, sobre a cumulação dos danos morais, afirma que, “embora se contraponham

aos danos materiais, podem ambos conviver, em certas situações, nos casos em que os atos agressivos atinjam a esfera geral da vítima”.

Nesse contexto, o dano ambiental pode causar um dano moral à coletividade, e quando isso ocorrer deverá ser ressarcido. Tal dano seria, portanto, cabível em agressões ao meio ambiente ou ao patrimônio histórico, por exemplo, por caracterizarem uma violação aos valores de toda a sociedade.

A fundamentação legal do dano extrapatrimonial ambiental foi estabelecida pelo art. 1º da Lei n. 7.347/85, que estabelece o seguinte: “Regem-se pelas disposições desta Lei, sem prejuízo da ação popular, as ações de responsabilidade por danos morais e patrimoniais causados: I – ao meio ambiente (...)”. Consagra, esse dispositivo, em nosso ordenamento jurídico, a reparação ao dano moral coletivo sem culpa.

Ressalte-se, contudo, que não é qualquer dano que pode ser caracterizado como dano extrapatrimonial ambiental, senão apenas aquele dano significativo, que ultrapassa o limite da tolerabilidade, a ser identificado em cada caso concreto.

O direito não tutela danos hipotéticos e, sendo assim, a real configuração de lesão na honra dos que se dizem ofendidos é requisito essencial, não só para a obrigação de indenizar, mas também para verificação da extensão do dano.

Conforme lição do ilustre Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo JOSÉ OSÓRIO DE AZEVEDO JÚNIOR390, “convém lembrar que não é qualquer dano

moral que é indenizável. Os aborrecimentos, percalços, pequenas ofensas, não geram o dever de indenizar. O nobre instituto não tem por objetivo amparar as suscetibilidades exageradas...”.

389 LANFREDI, Geraldo Ferreira. Op. cit., p. 103.

390 AZEVEDO JÚNIOR, José Osório de. O dano moral e sua avaliação. Revista do Advogado, AASP, n. 49,

Também nessa linha, JOSÉ RUBENS MORATO LEITE391 assevera que “não é

qualquer dano que pode ser caracterizado como extrapatrimonial ambiental; é o dano significativo, isto é, aquele que ultrapassa o limite de tolerabilidade, e cada caso deverá ser examinado em concreto”.

4.2.2. A polêmica doutrinária e jurisprudencial

A doutrina não é pacífica sobre a admissibilidade do dano extrapatrimonial ambiental, todavia, vem-se inclinando pela sua admissão. Sobre o assunto JOSÉ RUBENS

MORATO LEITE392: “de fato, se há possibilidade de responsabilização do dano patrimonial

coletivo, porque não ampliá-la à sua configuração extrapatrimonial? A diminuição da qualidade de vida, através da degradação ambiental, traz enormes transtornos imateriais à coletividade”. E segue afirmando que “a necessidade da efetivação do dano ambiental é imperiosa, pois em muitos casos será impossível o ressarcimento patrimonial, e o dano extrapatrimonial ambiental funciona como alternativa válida da certeza da sanção civil do agente em face da lesão ao patrimônio ambiental coletivo”393.

Também no sentido de admitir o dano moral ambiental, WILLIAM FIGUEIREDO DE

OLIVEIRA394 destaca que “inúmeros são os exemplos da doutrina e jurisprudência sobre a

admissibilidade do dano moral ambiental, conduzindo-nos à conclusão inexorável da ampla aceitação de sua reparabilidade”. E segue concluindo que: “a poluição e os danos ambientais ocasionam prejuízo a bens e interesses materiais e imateriais, que devem ser ressarcidos de forma ampla e integral”.

JOSÉ RUBENS MORATO LEITE395 traz esclarecedor exemplo de configuração de

prejuízo imaterial ambiental:

391 Leite, José Rubens Morato. Op. cit., p. 303. 392 Idem, ibidem, p. 301-302.

393 Leite, José Rubens Morato. Op. cit., p. 304.

394 OLIVEIRA, William Figueiredo de. Op. cit., p. 120. 395 Leite, José Rubens Morato. Op. cit., p. 302.

Por exemplo, uma certa comunidade vivia em um espaço equilibrado, com boa qualidade de vida e meio ambiente equilibrado. No entanto, instalou-se na região uma indústria poluidora que veio causar prejuízos à qualidade do ambiente, afetando os valores imateriais e materiais de uma coletividade indeterminada, tais como o sossego, o ar puro, a saúde dos seus habitantes, e vários elementos fundamentais ao desenvolvimento de todos. A coletividade tem direito a uma resposta por meio do Poder Judiciário, obrigando o poluidor a reparar os danos materiais e imateriais sofridos, visando a manter sua qualidade de vida e buscando a consecução do direito fundamental ao ambiente.

E traz outros exemplos:

1. Destruição de sambaqui, através da retirada da barreira do terreno limítrofe, afetando tanto um patrimônio cultural como um valor ambiental, ecológico da população;

2. Risco na utilização, distribuição e estocagem do metano, combustível comprado para suprir a falta de álcool, ofendendo a coletividade material e extrapatrimonial;

3. Publicidade anti-ambiental, afetando de forma indivisível interesses extrapatrimoniais da coletividade;

4. Aterro de lagoa, ferindo a paisagem, ocasionando dano ao valor paisagístico e ambiental da comunidade;

5. A perda de luminosidade solar, em decorrência, por exemplo, de urbanização;

6. Perda de paisagem significativa.

Constata-se, portanto, que o tema ainda é polêmico e pouco tratado na doutrina. Não diferente é o panorama nos nossos tribunais. Poucas são as decisões judiciais acerca da matéria o que nos impede de avaliar qual será a tendência da jurisprudência brasileira.

Em um precedente da 8ª Câmara Cível do TJRJ396, admitiu-se a indenização pelo dano moral coletivo:

DANO AO MEIO AMBIENTE – DERRAMAMENTO DE ÓLEO NA BAÍA DE GUANABARA – RESSARCIMENTO DE DANOS MATERIAIS E MORAIS – DANO EMERGENTE – LUCRO CESSANTE – DANO MORAL DE PESSOA JURÍDICA – POLUIÇÃO NAS PRAIAS – PREJUÍZO DO COMÉRCIO LOCAL – DESVALORIZAÇÃO DO PONTO COMERCIAL.

396 Decisão extraída de: FREITAS, Vladimir Passos de. O dano ambiental coletivo e a lesão individual. In: Desafios do direito ambiental no século XXI: estudos em homenagem a Paulo Affonso Leme Machado. São Paulo: Malheiros, 2005, p. 806-807.

Comprovado o dano ao meio ambiente, decorrente do vazamento de óleo na Baía de Guanabara, proveniente das instalações da empresa, cabe o pedido de reparação dos prejuízos individualmente causados. 2. É da Petrobrás o dever de cuidar para que não ocorra qualquer dano ao meio ambiente. 3. Dano é gênero, do qual são espécies o dano material e o moral. 4. O dano material, por seu turno, se subdivide em danos emergentes e lucros cessantes. 5. Dano emergente é o que importa em efetiva diminuição no patrimônio da vítima, em razão do ato ilícito. 6. Lucro cessante é reflexo futuro do patrimônio da vítima. 7. A honra subjetiva é exclusivamente do ser humano e se caracteriza pelo decoro e auto-estima. 8. A honra subjetiva é comum à pessoa natural e à pessoa jurídica e se reflete na reputação, no bom nome e na imagem perante a sociedade (TJRJ, 8ª Câm., AC 2002.001.09351, Rel. Des. Letícia de Faria Sardas, j. em 17-12-2002).

Contudo, ainda são encontradas decisões dos nossos tribunais negando a possibilidade da existência de dano moral coletivo. Vejamos:

PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. DANO AMBIENTAL. DANO MORAL COLETIVO. NECESSÁRIA VINCULAÇÃO DO DANO MORAL À NOÇÃO DE DOR, DE SOFRIMENTO PSÍQUICO, DE CARÁTER INDIVIDUAL. INCOMPATIBILIDADE COM A NOÇÃO DE TRANSINDIVIDUALIDADE (INDETERMINABILIDADE DO SUJEITO PASSIVO E INDIVISIBILIDADE DA OFENSA E DA REPARAÇÃO). RECURSO ESPECIAL IMPROVIDO (REsp 598.281/MG, Recurso Especial 2003/0178629-9, 1ª Turma, Rel. Min. Luiz Fux, Rel. para acórdão Min. Teori Albino Zavascki, j. em 2-5-2006, DJ de 1º-6-2006, p. 147).

Não obstante inexistir entendimento jurisprudencial consolidado até o momento, pensamos que a diminuição da qualidade de vida, por meio da degradação ambiental, pode, de fato, trazer diversos transtornos imateriais à coletividade, casos estes em que admitimos a possibilidade de se configurar a ocorrência de danos extrapatrimonais.