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3.3 CATEGORIAS DE DIREITOS: DO INDIVIDUAL AO COLETIVO DO DISPONÍVEL

3.3.2 Classificação dos Direitos conforme a Titularidade

Pois bem, no que tange à categorização de direitos e interesses a partir da sua titularidade convém reavivar o caminho traçado e os paradigmas superados até a concepção dos interesses de natureza transindividual, isso porque sob os influxos de um ideário liberal- individualista trabalhava-se, conforme já anotado, com a dicotomia estrita entre direitos e interesses público e privado. No plano dos direitos fundamentais, contudo, as emergências sociais e da positivação dos direitos de segunda e de terceira dimensão provocaram um questionamento acerca do abismo entre o interesse público e o privado, assim como o reconhecimento de direitos de titularidade coletiva e difusa.

Foi a partir daí e da percepção do interesse público primário como interesse social, possibilitando um diálogo entre o público e o privado como órbitas interdependentes, que ganhou fôlego a classificação dos direitos sob a perspectiva da titularidade, individual e coletiva, e não apenas a partir da dicotomia clássica entre público e privado.

144 MANCUSO, Rodolfo de Camargo. Interesses difusos: conceito e legitimação para agir. São Paulo: RT. 2004,

3.3.2.1 Individual

Partindo-se da perspectiva da titularidade, diz-se individual um direito quando pertence a determinado sujeito que poderá exercê-lo individualmente, podendo refletir um interesse meramente privado, esse restrito à sua vontade individual ou particular, ou, ainda, um direito assegurado em razão das opções políticas do Estado, a exemplo de um direito social.

Nesse sentido, Rodolfo de Camargo Mancuso observa uma interação entre público e privado no quadrante dos direitos individuais quando, por exemplo, o direito de propriedade, nitidamente individual, é grifado com a função social. E, tratando da distinção entre individual e coletivo quanto à amplitude do referencial, sugere a identificação do interesse como individual ou coletivo a partir do elemento preponderante no caso concreto, de maneira a referir como individual o interesse cuja fruição se esgota no círculo de atuação do seu destinatário, aproveitando os benefícios ou encargos somente ao seu destinatário145.

Com efeito, o critério classificatório aqui proposto considera o titular do direito e a possibilidade de seu exercício independente. Trata-se de algo facilmente perceptível nos direitos de natureza patrimonial, onde, em regra, somente o titular o exerce e apenas a ele aproveitam os efeitos benéficos ou maléficos do seu exercício.

Acontece que a classificação proposta não enseja a permanência do indivíduo como titular exclusivo do direito, apenas delimitando a possibilidade de exercício individual daquele. Deslocando-se o assunto para os direitos fundamentais, é possível vislumbrar com mais clareza essa não exclusividade, por exemplo, no direito fundamental à saúde, que é um direito garantido ao indivíduo, dele individualmente titular, embora em razão da natureza de direitos social também garantido aos demais membros da sociedade, individual e coletivamente, que são igualmente titulares desse direito146.

O que importa fixar, no entanto, é que determinado direito é de titularidade individual quando pertence a um sujeito que poderá exercê-lo individualmente, ainda que esse interesse possa também interessar além do aspecto individual ou estritamente privado.

145 MANCUSO, Rodolfo de Camargo. Interesses difusos: conceito e legitimação para agir. São Paulo: RT. 2004,

p. 45- 49.

146 Para um maior esclarecimento vale o retorno ao tópico sobre a classificação dos direitos fundamentais, no qual

3.3.2.2 Coletivo

No decorrer do trabalho mencionou-se, por vezes, a coletivização dos conflitos por ocasião da evolução da sociedade e do Estado, bem como a tendência à proteção de interesses pulverizados na sociedade e em parcelas sociais, referenciando-se, inclusive, na quadratura dos direitos fundamentais, a ampliação, na Constituição Federal de 1988, dos direitos no que tange à titularidade. É nesse contexto, pois que está inserido o debate acima anunciado sobre a transindividualização e acerca da titularidade coletiva sobre direitos.

A princípio, antes de ingressar na temática da nova categoria de direitos, impõe-se esclarecer que os de titularidade coletiva podem se aproximar mais do público ou do privado e, ainda, se inserir no espaço entre esses, razão pela qual são aludidos como inéditos.

Ademais, convém aclarar que se diz de titularidade coletiva o direito que, ultrapassando as fronteiras do individualismo, pertence à coletividade, na qual os indivíduos que dela fazem parte podem ou não ser identificados. Observe-se nesse contexto que a titularidade coletiva dos direitos acaba por gerar reflexos na forma de exercê-los e tutela-los, daí porque esse assunto guarda profunda relação também com o direito processual, sendo também analisado sob essa ótica.

A propósito dessa peculiaridade, Carlos Weis destaca que na tessitura desses direitos a relação não mais se estabelece com o indivíduo, mas com grupos mais ou menos imprecisos de pessoas, todas unidas por se encontrarem na mesma situação jurídica ou fática, havendo em um dos polos das relações processuais decorrentes desses direitos seres humanos agregados numa mesma categoria, grupo ou classe social147.

Quando se trata de interesses de titularidade coletiva, em verdade, se está a tratar de interesses transindividuais ou coletivos em sentido amplo como gênero, do qual são espécies os interesses difusos, os interesses coletivos em sentido estrito e os interesses individuais homogêneos, essa última categoria acolhida pela doutrina após o Código de Defesa do Consumidor, haja vista que até então a Constituição Federal e mesmo a legislação infraconstitucional somente faziam referência textual aos direitos difusos e coletivos.

Para Cappelletti, esses novos direitos excedem o âmbito estritamente individual, embora não constituam propriamente interesses públicos148. Para Ada Pellegri Grinover são interesses meta-individuais, resultantes de conflitos da sociedade pós-industrial, de uma

147 WEIS, Carlos. Direitos Humanos Contemporâneos. São Paulo: Malheiros, 1999, p.125.

148 CAPPELLETTI, Mauro. Formações Sociais e Interesses Coletivos diante da Justiça Civil. Revista de Processo,

São Paulo: Revista dos Tribunais, n. 5, jan./mar. 1977, p. 130-131. Disponível em: <http://www.processocivil.net/novastendencias/cappelletti.pdf>. Acesso em: 25 jan. 2016.

sociedade de massa149. Pedro Rui da Fontoura Porto também os enxerga como categoria intermediária entre o interesse público primário ou interesse social e os interesses privados150.

Hugo Nigro Mazzilli abordando os aspectos processuais pertinentes à tutela desses novos interesses, após esclarecer que a caracterização como direito transindividual não decorre apenas do seu compartilhamento por diversos titulares, mas também da necessidade de processo coletivo para a sua tutela, os diferencia tendo em vista os titulares, a natureza do objeto e a origem. No cotejo, anota que os interesses difusos, de natureza indivisível, têm por titulares pessoas indeterminadas, ligadas por circunstâncias de fato; ao passo que os interesses coletivos, de natureza indivisível, têm por titulares pessoas determináveis, ligadas por uma relação jurídica prévia. Quanto aos interesses individuais homogêneos, adverte pertencerem a indivíduos determinados, possuírem natureza divisível e decorrerem de uma origem fática comum151.

A classificação dos direitos consoante a sua titularidade, bem como a apresentação aos direitos de natureza transindividual e a consequente definição de conceitos básicos acerca de interesses públicos, privados, sociais, individuais, coletivos, difusos, tanto sob a perspectiva material quanto sob a processual, efetivamente, complementam a abordagem do ambiente harmônico para a convivência entre os mais diversas direitos na Constituição de 1988, assim como se revela instrumental para os fins do trabalho, haja vista o resgate desses conceitos por ocasião da apresentação dos agentes estatais integrantes do sistema de Justiça legitimados a tutelá-los.