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Versões do Estado Moderno: Estado Absolutista e Estado Liberal

2.2 ESTADO MODERNO E SUAS TRANSFORMAÇÕES

2.2.2 Versões do Estado Moderno: Estado Absolutista e Estado Liberal

Por ocasião da contextualização acerca do nascimento do Estado Moderno, adotou-se como referencial Lenio Streck e Luis Bolzan de Morais, que tratam como estatais pré-modernas todas as formas de organização política que precederam a superação do Medievo pelo Estado Absolutista. Também nesse ponto do trabalho destinado a uma breve aproximação com as versões adotadas pelo Estado Moderno será utilizado esse referencial, que fixa como marco inicial do Estado Moderno o Estado Absolutista, precedido, em um rito de passagem, pelo Estado Estamental, ao qual se seguiu, por influência do liberalismo, o Estado Liberal, seguido pelo Estado de Direito, cuja evolução perpassou pelo Estado Liberal, pelo Social e pelo Democrático de Direito33.

Antes de apresentar as versões anunciadas, todavia, convém esclarecer que na passagem para o Estado Moderno, que, efetivamente, não contou com uma data certa, a primeira forma centralizada de organização política que se apresentou foi a estamental, a qual é caracterizada por Bobbio como articulação social por camadas, na qual determinada unidade territorial delegava uma instância de poder a um príncipe centralizador34.

32 MONTESQUIEU, Charles de Secondat, Baron de. 1689-1755. O Espírito das Leis. Tradução: Cristina

Murachco. São Paulo: Martins Fontes. 1993, p. 166.

33 STRECK, Lenio Luiz. MORAIS, Jose Luis Bolzan de. Ciência Política e Teoria do Estado. 8. ed. Porto Alegre:

Livraria do Advogado, 2014, p. 102.

34 BOBBIO, Norberto. MATTEUCCI, Nicola. PASQUINHO. Gianfranco. Dicionário de Política. v. I.

Pois bem, como primeira expressão do Estado Moderno, o Estado Absolutista ultrapassou elementos da forma pré-estatal medieval, estabelecendo relações de poder, pautadas na soberania, abrindo espaço para novas formas de produção e de mercado, abandonando o modo de produção feudal e abrindo espaço para o capitalismo e em seguida, para a economia de mercado, capitaneados pela então ascendente classe burguesa.

Assim, foi através do absolutismo que se inaugurou a migração para um Estado centralizado e institucionalizado, iniciando esse modelo uma dicotomia entre o público e o privado, entre a sociedade política e a sociedade civil. Nele, o senhor feudal cedeu espaço ao Rei; o servo abriu espaço para o súdito; o clero, por sua vez, permaneceu ocupando lugar diferenciado na estratificação social em classes.

A ideia de soberania e de instituições, portanto, levou à concentração dos poderes nas mãos dos monarcas, a princípio, de forma absoluta, o que, inclusive, ensejou a histórica frase de Luiz XIV no sentido de L’État c’ moi, isto é, de que o Estado é o Rei.

Refletindo acerca dessa primeira faceta do Estado Moderno, Lenio Streck e Bolzan observam ter sido a estratégia absolutista fundamental para assegurar a unidade territorial do Estado em detrimento ao modelo feudal, bem como necessária para a consolidação do capitalismo e da burguesia, que, deliberadamente, a princípio, não se ocupou do poder político para se dedicar e conquistar o poder econômico, inclusive, com amparo da monarquia, que, em determinado momento, estimulou o capitalismo com políticas mercantilistas35.

Nesse sentido e reavendo o que já se falou linhas atrás acerca de Thomas Hobbes é possível, então, relacionar esse modelo estatal com o seu pensamento, a exemplo do que faz Rodrigo Cançado Anaya Rojas, para quem com o Leviatã, Hobbes pregou um governo absoluto e onipresente, representado por um só governante, uma monarquia36.

Ocorre que a burguesia, já não mais estava satisfeita apenas com o poder econômico, tampouco com os privilégios dos quais gozava a aristocracia, almejando também o poder político. Assim, diante das influências do pensamento liberal produzido nos séculos XVII e XVIII, das Revoluções Liberais e do Constitucionalismo Liberal, em 1789, então, com a Revolução Francesa, na França, o Estado Absolutista abre espaço para um novo cenário, no qual a burguesia, além do poder econômico, alcança o almejado poder político, para o que se revelou indispensável a Separação dos Poderes.

35 STRECK, Lenio Luiz. MORAIS, Jose Luis Bolzan de. Ciência Política e Teoria do Estado. 8. ed. Porto Alegre:

Livraria do Advogado, 2014, p. 46- 51.

36 ROJAS, Rodrigo Cançado Anaya. Participação Popular e Ministério Público no Brasil: defesa do regime

democrático e dos interesses metaindividuais no marco de uma teoria crítica dos direitos humanos. 2102. Belo Horizonte: Arraes, p. 74.

O Estado Liberal, portanto, se revela como nova versão, objeto da transformação do Estado Moderno, pautando-se, pois, na limitação do poder, na democracia, na garantia de direitos individuais e na liberdade para o livre desenvolvimento do mercado e do comércio.

O liberalismo, um contraponto à ação absoluta e ilimitada do Estado Absolutista, conferiu o substrato ideológico para essa nova conformação estatal, que evoluiu sob versões diversas, destacando-se o Estado de Direito, desde o Estado Liberal e Estado Social, até o Estado Democrático de Direito.

Credita-se a Locke a paternidade do liberalismo clássico, haja vista seu pensamento anti-absolutista de que o poder político é decorrência de consenso entre os indivíduos, que gozam de direitos naturais, cuja preservação e proteção de impõe ao Estado, que é limitado37. Sob o olhar de Pedro Rui da Fontoura Porto, o liberalismo preconiza um Estado com estrutura burocrática mínima, reservando um maior espaço de poder para o mercado, daí porque se sustenta como ideologicamente burguês38.

Consoante Bobbio, o liberalismo clássico se traduz na necessidade de assegurar igualdade de oportunidades através da igual distribuição de direitos fundamentais, de maneira que se atribuindo igualdade de direitos à vida, à liberdade e à propriedade e se abolindo privilégios quanto ao estabelecimento desses direitos, a máxima capacidade dos indivíduos será alcançada sem percalços39.

A partir dessas perspectivas, Lenio Streck e Luis Bolzan identificam núcleos do liberalismo, os subdividindo entre núcleo moral, político e econômico. No primeiro inserem a afirmação de valores de liberdade, de dignidade e de vida, direitos naturais básicos do home; no segundo, o consentimento como fonte do poder estatal, a representação política através do Poder Legislativo, a soberania popular e o constitucionalismo como mecanismo para a limitação dos poderes e asseguração de direitos individuais por meio de uma Constituição escrita; por fim, no núcleo econômico destacam a propriedade privada e a economia de mercado sem controle estatal40.

37 ALBUQUERQUE, Armando.Locke: dos Fins da Sociedade Civil. p. 166-206. In: FILHO, Agassiz Almeida;

BARROS, Vinícios Soares de Campos (Org.). Novo Manual de Ciência Política. 2. ed. São Paulo: Malheiros. 2013, p. 184.

38 PORTO, Pedro Rui da Fontoura. Direitos Fundamentais Sociais: Considerações acerca da legitimidade política

e social do Ministério Público e do sistema de Justiça para sua tutela. Porto Alegre: Livraria do Advogado. 2006, p. 54-55.

39 BOBBIO, Norberto. MATTEUCCI, Nicola. PASQUINHO. Gianfranco. Dicionário de Política. v. I.

Coordenação da Tradução: João Ferreira. 11. ed. Brasília: Universidade de Brasília. 1998, p.604.

40 STRECK, Lenio Luiz. MORAIS, Jose Luis Bolzan de. Ciência Política e Teoria do Estado. 8. ed. Porto Alegre:

Merece destaque, entretanto, que a fórmula liberal clássica acima referenciada, arrimo anti-absolutista para a transformação estatal e inicialmente dialógica com o individualismo burguês, por ocasião das transformações do Estado de Direito experimentou reinterpretações, inclusive, para se compatibilizar às versões Social e Democrática de Direito do Estado, que propugnaram, de certa forma, uma ampliação do Estado, com mais intervencionismo e menos individualismo, consoante se verá adiante.

Ressalte-se ainda a propósito desse momento transformativo do Estado Moderno, em resgate a algumas ideias já impressas nas linhas acima, que Locke, Rousseau e Montesquieu forneceram relevantes contribuições ideológicas para o Estado Liberal. O primeiro em razão da referência ao liberalismo e ao individualismo, assim como diante do esboço acerca da separação dos Poderes, motivo pelo qual as ideias de Montesquieu também são celebradas como substrato da Revolução Francesa e do Estado Liberal. O segundo, em virtude da contribuição por ele lançada para a construção de um modelo estatal de ideologia democrática, pautado, assim, na vontade geral.