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Classifica¸c˜ao Categ´orica Multidimensional

Como ´e de se esperar, o primeiro passo a ser tomado na constru¸c˜ao de um esquema de clas- sifica¸c˜ao, antes mesmo da defini¸c˜ao de suas categorias, ´e a identifica¸c˜ao do que se pretende classificar ou, no caso da pesquisa aqui descrita, da unidade m´ınima de anota¸c˜ao. Dessa forma, muito embora a defini¸c˜ao dessa unidade m´ınima, quando aplicada a um corpus ling¨u´ıstico, seja algo totalmente arbitr´ario, podendo variar desde uma senten¸ca (e.g. [14]), a uma fala (e.g. [29]), ou mesmo um segmento de texto (e.g. [136]), ela deve, como bem apontam Mann e Thompson [100], ser independente da teoria ling¨u´ıstica seguida. Sendo assim, e baseando-se em McKeown [106], a unidade b´asica adotada no esquema de anota¸c˜ao aqui descrito ´e a ora¸c˜ao (uma distin¸c˜ao sint´atica, portanto, como aconselhou Krippendorff [88]), aqui definida com base na gram´atica do portuguˆes (e.g. [31]); ou seja, um segmento de uma frase contendo uma ´unica forma verbal (ou mesmo nenhuma, como no caso de interjei¸c˜oes), clara ou oculta, como em “Tudo correu bem” (forma clara) e “ `A vista, sua terra natal” (forma oculta); ou duas ou mais formas verbais, formando uma locu¸c˜ao verbal, como em “Estava saindo de fininho” e “Foi visto ontem `a noite”. Nesse caso, uma locu¸c˜ao verbal ´e tida como um conjunto formado por um verbo auxiliar, tanto em sua forma finita (indicativo, imperativo ou subjuntivo) quanto nominal, acompanhado de um verbo principal, que deve sempre estar numa forma nominal, ou seja, infinitivo, ger´undio ou partic´ıpio [31].

6.2.1

Dimens˜oes

O esquema de anota¸c˜ao aqui proposto avalia cada ora¸c˜ao conforme cinco dimens˜oes dis- tintas, mostradas na Figura 6.2, que buscam determinar o que (ou quem) foi relatado (ou avaliado), por quem e como.

6.2. Classifica¸c˜ao Categ´orica Multidimensional 73

Tipo de Ora¸c˜ao

De modo semelhante ao adotado por Batliner et al. [12] e Fisher [47], a distin¸c˜ao mais b´asica neste esquema de anota¸c˜ao, conforme demonstra a Figura 6.2, ocorre dentro da dimens˜ao Tipo de Ora¸c˜ao, entre ora¸c˜oes classificadas como IEmocionais e Neutras. Nesse caso, contudo, e diferentemente de Batliner et al. ou Fisher, uma ora¸c˜ao n˜ao ser´a considerada IEmocional toda vez que apresentar algum fator emocional, mas, em vez disso, somente quando ela avaliar, seja de forma positiva ou negativa, o grau de polidez, comportamento, humor, sentimentos e emo¸c˜oes de algum dos participantes do di´alogo (algo semelhante ao que Keenan et al. chamaram de conte´udo interacional [80] – ver Se¸c˜ao 2.2), ou tamb´em quando avaliar o resultado da intera¸c˜ao como um todo. Vale lembrar, no entanto, que ora¸c˜oes como “Apaixonou-se pelo carro”, embora denotem emo¸c˜ao, n˜ao podem ser consideradas IEmocionais, uma vez que esta emo¸c˜ao n˜ao possui nenhum fator interacional, sendo totalmente dirigida a um objeto (no caso, o carro).

Dessa forma, e uma vez que um dos objetivos deste esquema de anota¸c˜ao ´e levar em conta, dentre outras coisas, polidez (mais especificamente, o que Mills [108] denominou de polidez social, ou comportamento pol´ıtico – ver Se¸c˜ao 2.3.1), a defini¸c˜ao de ora¸c˜ao IEmocional busca cobrir a parte da teoria de Ortony, Clore e Collins [114] (Se¸c˜ao 2.1) que diz respeito a rea¸c˜oes a eventos ou agentes, deixando de lado as rea¸c˜oes a objetos. Al´em disso, a classifica¸c˜ao busca tamb´em abordar todas as formas de avalia¸c˜ao propostas por Martin [102], a saber: afeto (respostas emocionais), julgamento (avalia¸c˜oes morais de comportamento) e aprecia¸c˜ao (qualidade est´etica de processos semi´oticos e fenˆomenos naturais, como, por exemplo, harmonioso, elegante etc); por´em sempre mantendo o foco na intera¸c˜ao e em seus participantes.

Neste contexto, as ora¸c˜oes Neutras possuem um papel de oposi¸c˜ao, ou mesmo nega¸c˜ao das ora¸c˜oes IEmocionais, representando as ora¸c˜oes em que n˜ao h´a nem avalia¸c˜oes, nem descri¸c˜oes de car´ater emocional sendo feitas, cujo alvo seja a intera¸c˜ao em si ou algum de seus participantes. Por fim, vale mencionar, tamb´em, que ora¸c˜oes do tipo “Chegou bastante irritado” s´o ser˜ao consideradas IEmocionais se (i) a emo¸c˜ao reportada n˜ao possuir origem clara, n˜ao havendo, portanto, como associ´a-la diretamente a um evento, agente, ou objeto; e (ii) se possuir conseq¨uˆencias para a qualidade da intera¸c˜ao.

Polaridade

Segunda dimens˜ao a ser levada em conta pelos anotadores, Polaridade tamb´em se ba- seia tanto na teoria de Ortony, Clore e Collins [114], quanto na avalia¸c˜ao proposta por Martin [102], na medida em que, assim como em Dyer [37], Lang [91], Picard [117] e Tur- ney e Littman [148], apresenta apenas dois poss´ıveis valores para classifica¸c˜ao – Positivo ou Negativo – que devem ser aplicados, como ilustra a Figura 6.2, apenas a ora¸c˜oes do

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tipo IEmocional. Dessa forma, seguindo Lehnert [93] e Martin[102], uma ora¸c˜ao ´e classifi- cada como Positiva quando descreve a¸c˜oes ou sentimentos agrad´aveis (que satisfazem), ou mesmo quando julga-os desta forma, como em “Ela foi paciente” ou “O atendimento foi bom”; por outro lado, ela ´e considerada Negativa quando descreve a¸c˜oes ou sentimentos que n˜ao satisfazem (devendo, portanto, ser evitados), ou quando julga-os dessa forma, como em “Ele ´e um grosso” ou “Descontou toda sua insatisfa¸c˜ao em mim”. Por fim, vale lembrar tamb´em que, embora seja diferente de sistemas como os de Lehnert [93] e Hovy [62, 63], que usam trˆes valores (positivo, negativo e neutro), em vez de dois, para classificar a polaridade de uma unidade, no todo, o esquema proposto n˜ao se afasta tanto do deles, uma vez que ora¸c˜oes que, de acordo com estes sistemas, possuem polaridade neu- tra, s˜ao capturadas pela dimens˜ao Tipo de Ora¸c˜ao, recebendo inclusive o mesmo r´otulo – Neutra.

Intensidade

Intensidade tem por objetivo determinar como as emo¸c˜oes ou comportamentos reportados ou avaliados foram percebidos: em dire¸c˜ao `a extremidade mais baixa de uma escala de intensidade [102], ou n˜ao. Desta forma, ela complementa a dimens˜ao Polaridade, na medida em que tenta determinar se o relato foi feito de maneira um tanto quanto leve, podendo at´e soar como um eufemismo (intensidade Baixa) ou, do contr´ario, se esta demonstra¸c˜ao foi normal, ou mesmo acima do normal, indicando que o que foi descrito foi tomado como importante pelo narrador (intensidade N˜ao-Baixa). Assim, Polaridade e Intensidade caminham juntas para determinar como uma avalia¸c˜ao ou relato foram feitos (cf. [68]).

Nesse ponto, ´e importante lembrar, tamb´em, que, diferentemente de Dyer [37] e Tur- ney e Littman [148], que permitem somente os valores “leve” (ou “<NORM”) e “alta” (ou “>NORM”) para esta dimens˜ao, ou mesmo do cont´ınuo de valores defendido por Lang [91], Picard [117] e Martin [102], indo de “calmo” (ou “baixa”) a “excitado” (ou “alta”), esta dimens˜ao se preocupa ´unica e exclusivamente com a detec¸c˜ao de intensidades baixas. A raz˜ao para tal ´e que, como um de seus objetivos, esta dimens˜ao tenta captu- rar momentos em que um determinado comportamento, embora relatado, ´e amenizado, o que poderia ser um indicativo de vi´es (ou mesmo de vi´es em proveito pr´oprio, caso o comportamento amenizado seja o do pr´oprio narrador – ver Se¸c˜ao 2.4).

Participante Avaliado

Participante Avaliado busca capturar o participante do di´alogo cujo comportamento ou emo¸c˜ao foi relatado, ou julgado, tanto de forma expl´ıcita, como em “o vendedor me tratou muito bem”, quanto impl´ıcita, como em “O atendimento foi muito bom”, caso em que o

6.2. Classifica¸c˜ao Categ´orica Multidimensional 75

pr´oprio atendimento implica necessariamente um atendente ou vendedor. Dessa forma, esta dimens˜ao busca, juntamente com a Polaridade, a Intensidade e o conhecimento do autor da ora¸c˜ao, definir, de forma semelhante a Hunston [68], quem foi avaliado (embora Hunston trate do super-conjunto “o que foi avaliado”), como foi avaliado, e por quem foi avaliado.

Al´em disso, uma vez que o esquema de anota¸c˜ao foi desenvolvido principalmente para anotar di´alogos entre um atendente e um cliente, esta dimens˜ao aceita apenas os seguintes valores: Atendente, quando a avalia¸c˜ao ´e feita com rela¸c˜ao ao comportamento ou emo¸c˜ao do atendente; Cliente, quando diz respeito ao cliente; e Intera¸c˜ao, que deve ser usada nos casos em que a ora¸c˜ao n˜ao avalia nenhum dos participantes individualmente, dizendo respeito apenas `a intera¸c˜ao entre eles, ainda que indiretamente, sem selecionar nenhum em especial. Em geral, este tipo de ora¸c˜ao serve como um resumo dos fatos acontecidos, como em “mas que dia horr´ıvel”, “hoje n˜ao era meu dia” e “Esta venda foi p´essima” (nesta ´ultima, n˜ao h´a como saber a raz˜ao da venda ter sido p´essima, diferentemente de “o atendimento foi p´essimo” onde, como j´a mencionado, um atendimento necessariamente implica o comportamento de um atendente). Vale mencionar, tamb´em, que no caso de ora¸c˜oes como as citadas acima, elas somente podem ser classificadas como Intera¸c˜ao se estiverem se referindo `a intera¸c˜ao entre os participantes (ou o comportamento de algum deles); ou seja, se o fato de “o dia ter sido p´essimo” tiver algo a ver com, por exemplo, o clima, esta ora¸c˜ao sequer poder´a ser considerada IEmocional, quanto menos Intera¸c˜ao (ver Figura 6.2 para a hierarquia das classifica¸c˜oes).

Conseq¨uˆencia ´

Ultima dimens˜ao a ser considerada, Conseq¨uˆencia deve ser usada quando a ora¸c˜ao ana- lisada descrever uma avalia¸c˜ao, positiva ou negativa, causada pela situa¸c˜ao descrita em alguma outra ora¸c˜ao, como em “Fui t˜ao mal-atendido que n˜ao ag¨uentei”, onde a segunda ora¸c˜ao descreve algo que aconteceu como conseq¨uˆencia da situa¸c˜ao descrita na primeira. Assim, mais que determinar uma causa, esta dimens˜ao tenta capturar poss´ıveis casos de transferˆencia de culpa entre os participantes do di´alogo, onde, numa tentativa de suavizar suas pr´oprias a¸c˜oes negativas, o narrador busca justific´a-las com base nas a¸c˜oes do outro participante (cf. vi´es em proveito pr´oprio, na Se¸c˜ao 2.4). Dessa forma, uma vez que o objetivo desta dimens˜ao ´e determinar que ora¸c˜ao e, portanto, que unidade de anota¸c˜ao serve como causa `a ora¸c˜ao que est´a sendo classificada, em vez de valores categ´oricos, ela recebe como valor alguma identifica¸c˜ao que permita determinar, de forma n˜ao amb´ıgua, a ora¸c˜ao causadora, ou o s´ımbolo “-” caso n˜ao haja tal ora¸c˜ao (na presente vers˜ao deste esquema de anota¸c˜ao ´e permitida a inclus˜ao de apenas uma ora¸c˜ao causadora).

76 Cap´ıtulo 6. Esquema de Anota¸c˜ao

avalia¸c˜ao, das cinco dimens˜oes descritas acima, trˆes aceitam m´ultiplas classifica¸c˜oes, a sa- ber, Polaridade, Intensidade, e Participante Avaliado. Dessa forma, uma ora¸c˜ao do tipo “Atendi gentilmente a cliente mal-educada”, pode ser classificada como IEmocional, con- tendo avalia¸c˜oes de dois participantes (Atendente e Cliente), de formas opostas (Positiva e Negativa, respectivamente) e, embora discut´ıvel, de igual Intensidade.