2.3 Emo¸c˜ao e Intera¸c˜ao Humano-Computador
2.3.1 Polidez
Certamente, nenhuma discuss˜ao sobre emo¸c˜ao e intera¸c˜ao estaria completa sem a men¸c˜ao `a polidez. Polidez ´e sem d´uvida um fator importante em nossas rela¸c˜oes sociais, uma vez que cada um de n´os carrega, sob a forma de imposi¸c˜oes culturais, um conjunto de regras de demonstra¸c˜ao social, comumente conhecidas por regras de polidez, que indicam, por exemplo, quando e onde ´e apropriado demonstrar emo¸c˜oes [117], ou at´e mesmo quando devemos limit´a-las [33]. Al´em disso, polidez, conforme dita o senso comum, tamb´em tem
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a fun¸c˜ao de servir como um conjunto regulador do modo com que devemos tratar outras pessoas, ou at´e mesmo como devemos reagir a eventos.
Este conjunto de regras, por sua vez, tem sido motivo de disputa por muitas teorias, cada uma delas tentando, `a sua maneira, definir, explicar, e at´e model´a-lo. Dentre todas as teorias vigentes, a mais comumente seguida, pelo menos em aplica¸c˜oes computacionais, ´e, sem d´uvida, a formulada por Brown e Levinson [24]. Esta teoria se baseia na suposi¸c˜ao de que todos possu´ımos uma auto-imagem p´ublica, denominada face, constitu´ıda de dois aspectos: a face negativa, representada por nosso desejo de que nossas a¸c˜oes n˜ao sejam impedidas por outros; e a face positiva, representada por nosso desejo de que nossas vontades sejam consideradas “desej´aveis” por outras pessoas. De acordo com Brown e Levinson, certos tipos de atos (verbais ou n˜ao) – os chamados atos de amea¸ca `a face, ou FTAs7
– correspondem a uma amea¸ca intr´ınseca `a face das pessoas. Por exemplo, desculpas e confiss˜oes s˜ao essencialmente amea¸cas `a face do locutor, enquanto que avisos e ordens s˜ao basicamente amea¸cas `a face do ouvinte. Da mesma maneira, pedidos e ofertas s˜ao prov´aveis amea¸cas `a face de ambos os participantes [24]. A seriedade de tais atos, de acordo com a teoria, pode ser calculada com base em trˆes fatores, que dependem da cultura dos participantes: a distˆancia social entre o locutor e o ouvinte; o poder relativo do ouvinte sobre o locutor; e a hierarquia8
da imposi¸c˜ao contida na a¸c˜ao. Assim, o peso de um FTA pode ser calculado pela seguinte express˜ao
Px = D(L, O) + P (O, L) + Hx
onde D(L,O) ´e a medida da distˆancia social entre o locutor e o ouvinte; P(O,L) a medida do poder que o ouvinte tem sobre o locutor; e Hx a medida do grau em que a a¸c˜ao x
´e considerada uma imposi¸c˜ao, na cultura em quest˜ao. Embora admitam que estes trˆes fatores possam n˜ao ser os ´unicos relevantes, Brown e Levinson afirmam que todos os outros s˜ao englobados por eles. Segundo a teoria, o peso de um FTA pode ser usado tamb´em como uma medida do n´ıvel de polidez de um locutor com rela¸c˜ao a um ouvinte. Para Brown e Levinson, ent˜ao, polidez ´e caracterizada pelo conjunto de estrat´egias seguidas pelos participantes do di´alogo, de modo a minimizar as amea¸cas dos FTAs, de acordo com o julgamento racional do risco `a face dos participantes [24]. Essa a¸c˜ao minimizadora assume a forma de a¸c˜oes reparadoras – a¸c˜oes que tentam contrabalan¸car o dano potencial `a face, feito pelo FTA, indicando claramente que nenhuma amea¸ca `a face ´e pretendida ou desejada. Sendo assim, podemos definir dois tipos de polidez. De um lado, temos a polidez positiva, que ´e a a¸c˜ao reparadora dirigida `a face positiva do ouvinte, buscando comunicar que nossa pr´opria vontade ´e, de algum modo, similar `a do ouvinte. De outro, temos a polidez negativa, que busca a satisfa¸c˜ao parcial da face negativa do ouvinte, essencialmente
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De Face Threatening Acts.
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evitando ataques a ela – ´e a base do comportamento respeitoso. O ponto principal da tese de Brown e Levinson ´e que devemos esperar que qualquer “agente racional portador de face”, como eles classificam, evite amea¸cas `a face das outras pessoas (em outras palavras, seja polido), uma vez que sua pr´opria face est´a sujeita a amea¸ca por parte destas mesmas pessoas. Assim, polidez nada mais ´e que o racioc´ınio frio em torno da minimiza¸c˜ao da amea¸ca `a face do ouvinte, visando a um igual tratamento, por parte deste, quando os pap´eis no di´alogo se inverterem.
Outra caracter´ıstica importante da teoria de Brown e Levinson ´e a forte liga¸c˜ao que faz entre os FTAs e os Atos de Fala9
, de Searle [141]. Atos de fala, segundo Searle, s˜ao atos executados ao falar uma determinada l´ıngua, como fazer afirma¸c˜oes, comandar, perguntar etc. Assim, a unidade da comunica¸c˜ao ling¨u´ıstica deixa de ser a palavra, ou mesmo a senten¸ca, passando a ser o ato de fala. Vale notar que uma mesma senten¸ca pode ter diferentes atos de fala, conforme o contexto no qual se insere. Ou seja, na defini¸c˜ao de Austin [11], uma senten¸ca pode conter diferentes atos ilocucion´arios – atos que executamos ao dizer algo, em contrapartida ao ato de dizer algo (chamado por ele de locucion´ario). No caso de Brown e Levinson, um FTA nada mais ´e que um Ato de Fala cujo valor ilocucion´ario representa uma amea¸ca `a face de algum participante do di´alogo. Nesse ponto, algumas pesquisas (e.g. [9] e [8]) tratam do uso de atos de fala indiretos, ou seja, de maneiras indiretas de expormos nossas id´eias, pedidos etc, como forma de reduzir a amea¸ca `a face dos participantes do di´alogo. Em seu trabalho, Ardissono et al. [9] argumentam que as pessoas freq¨uentemente usam atos de fala indiretos quando as formas diretas parecem impolidas. Uma estrat´egia adicional, usada em sistemas computacionais, e que leva em conta a teoria de Brown e Levinson, ´e o uso de di´alogos sociais (ver Se¸c˜ao 2.3) para reduzir a distˆancia social entre os participantes do di´alogo e, assim, reduzir o peso do FTA [18].
Como pode ser visto, a popularidade da teoria de Brown e Levinson se justifica: al´em de apresentarem uma f´ormula que permite calcular o grau de polidez de um participante de um di´alogo, apresentam uma s´erie de estrat´egias que podem ser empregadas para mi- nimizar a amea¸ca dos FTAs (para mais detalhes, consulte [24]). Contudo, recentemente Brown e Levinson tˆem sofrido cr´ıticas por parte da comunidade. Harris [56], por exemplo, ao analisar transcri¸c˜oes de grava¸c˜oes feitas em uma corte judicial, uma sala de cirurgia e uma delegacia de pol´ıcia no Reino Unido, notou que, ao contr´ario do que a f´ormula de Brown e Levinson prevˆe, n˜ao somente os participantes de menor poder, mas tamb´em os de maior poder, faziam uso extensivo de estrat´egias de polidez. Basicamente, a parte da equa¸c˜ao que mede o poder que o ouvinte tem sobre o locutor parecia n˜ao exercer influˆencia. Assim, como nota Harris, embora a f´ormula possa prever, de modo geral, a for¸ca das es- trat´egias empregadas por participantes menos poderosos, quando interagem com algu´em
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mais poderoso, ela falha em explicar porque tamb´em as pessoas relativamente poderosas s˜ao t˜ao polidas, quando tratam com outras menos poderosas. Tamb´em ´e alvo de cr´ıticas a excessiva ˆenfase que Brown e Levinson colocam na racionalidade das pessoas e no uso de polidez como uma simples decis˜ao estrat´egica. Como bem notou Mills [108], embora po- lidez seja claramente escolhida de forma estrat´egica em alguns contextos, quando falamos n˜ao s˜ao apenas nossas mentes conscientes que influem na constru¸c˜ao de nossas falas, mas tamb´em nossas motiva¸c˜oes inconscientes (fora, portanto, do nosso controle consciente), nossas rotinas e h´abitos verbais, as press˜oes sociais que sofremos, nosso julgamento do contexto em que nos encontramos, al´em, ´e claro, de nosso estilo pessoal. Dessa forma, polidez vai muito al´em de simplesmente evitar uma amea¸ca `a face de outros – ela pode, por exemplo, ser usada como uma forma de evitar responsabilidade ou de esconder nossas reais inten¸c˜oes [108].
Outra cr´ıtica `a teoria de Brown e Levinson ´e feita com rela¸c˜ao `a sua liga¸c˜ao inerente com os Atos de Fala. Nesse ponto, o aprisionamento da polidez em um FTA e, con- seq¨uentemente, em um ato de fala, reduz o n´umero de fatores que podem ser levados em conta quando da defini¸c˜ao do grau de polidez de uma intera¸c˜ao. Mesmo Brown e Levinson admitem, na introdu¸c˜ao `a reedi¸c˜ao de seu livro, que o uso de atos de fala for¸ca a an´alise baseada em senten¸cas, sendo que os FTAs poderiam vir a ser percebidos em outras unidades [24]. Assim, como aponta Mills [108], a teoria de Brown e Levinson ´e in- capaz de explicar, ou at´e mesmo observar, rela¸c˜oes de polidez que possam existir al´em das senten¸cas, como quando essas rela¸c˜oes s´o podem ser determinadas por meio de inferˆencia com base no contexto. Al´em disso, outras estrat´egias de polidez e comportamento polido, al´em da minimiza¸c˜ao ou evitamento de um FTA, s˜ao totalmente desconsideradas pela teoria [108].
A maior cr´ıtica feita ao trabalho de Brown e Levinson ´e, contudo, certamente com rela¸c˜ao ao fato de sua teoria partir do pressuposto de que h´a atos que inerentemente amea¸cam a face das pessoas (os FTAs), ou seja, de que h´a atos inerentemente impoli- dos [40]. O problema com essa vis˜ao ´e que ela desconsidera o fato de a percep¸c˜ao da amea¸ca de um ato de fala e, portanto, de seu grau de polidez, depender de v´arios fatores, como, por exemplo, o momento em que foi falado, o h´abito dos participantes na intera¸c˜ao verbal [152], o grau de familiaridade entre os participantes [108], e o estado emocional do ouvinte [3]. Assim, com exce¸c˜ao de certas estruturas claramente interpret´aveis como iro- nia, ou polidez insincera, n˜ao pode haver estruturas inerentemente polidas na l´ıngua [152]. Um outro exemplo que contribui para esta vis˜ao ´e o fato de, entre amigos, fazermos uso de FTAs de forma jocosa. Nesse caso, nossos FTAs n˜ao s˜ao percebidos como amea¸cas, o que nos leva a crer que, na verdade, o julgamento do grau de sinceridade da polidez (ou, no caso, impolidez) ´e crucial para que esta seja percebida como uma amea¸ca, um ataque [108]. Nesse ponto, o modelo de Brown e Levinson falha ao assumir, indiscriminadamente, que
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toda polidez ´e sincera [108].
Apesar de severamente criticada, a teoria de Brown e Levinson n˜ao ´e a ´unica a sofrer. De fato, o campo do estudo ling¨u´ıstico da polidez como um todo ´e alvo de cr´ıticas. Suas falhas come¸cam pelo fato de, geralmente, tratar as pessoas como indiv´ıduos autˆonomos, sem levar em conta nem press˜oes biol´ogicas, como humor e perda de mem´oria, nem o fato do indiv´ıduo, bem como de sua hist´oria, se desenvolverem em um momento hist´orico e fi- los´ofico particular [108]. Al´em disso, o foco ´e geralmente colocado sobre o locutor [108, 40], tendo ao ouvinte restado o papel de um mero “reconhecedor” de suas escolhas comporta- mentais [40].
O que os modelos atuais parecem esquecer, conforme nota Eelen [40], ´e que tanto poli- dez quanto impolidez tˆem dois lados: um ´e o lado da produ¸c˜ao de comportamento por um locutor, e o outro ´e o lado da avalia¸c˜ao deste comportamento pelo ouvinte. Contudo, as teorias atuais parecem analisar o ouvinte apenas quando este se torna um locutor [108]10
. Dessa forma, como descreve Eelen [40], elas efetivamente tomam o lugar do ouvinte e olham o mundo atrav´es dos seus olhos, deixando de ver o ouvinte em si. Com isso, o jul- gamento que o ouvinte faz acerca da situa¸c˜ao desaparece da vista. Isso poderia n˜ao ser um problema t˜ao grande, n˜ao fosse o fato de que, em nosso dia-a-dia, o reconhecimento tanto da polidez quanto da impolidez n˜ao acontece quando da produ¸c˜ao do comportamento pelo locutor, mas sim quando da avalia¸c˜ao deste comportamento pelo ouvinte [40].
Outro problema comumente encontrado nas teorias atuais ´e o fato de todas focarem na polidez, reservando `a impolidez, quando muito, a posi¸c˜ao de nega¸c˜ao ou ausˆencia de polidez [40]. Assim, elas s˜ao incapazes de explicar certos fenˆomenos, como o fato de algumas vezes, quando as pessoas atacam em vez de apoiar seus interlocutores, este comportamento n˜ao ser considerado impolido [108], como em um debate pol´ıtico, por exemplo. Esse tipo de situa¸c˜ao nos mostra que n˜ao podemos tomar polidez e impolidez como opostos simplesmente, pois esta ´ultima parece funcionar de modo singular dentro de determinados contextos [108]. Mais do que isso, negligenciar impolidez pode ser mais da- noso que negligenciar a polidez, uma vez que, em uma intera¸c˜ao, ´e bem mais prov´avel que reconhe¸camos e comentemos sobre comportamento impolido que sobre polido [152]. Em suma, as teorias vigentes parecem sofrer do que Eelen [40] chamou de um vi´es conceitual triplo: em dire¸c˜ao ao lado polido da distin¸c˜ao polido-impolido; em dire¸c˜ao ao locutor; e em dire¸c˜ao `a produ¸c˜ao do comportamento em vez de sua avalia¸c˜ao.
Uma teoria alternativa, dentre todas as vigentes, que parece tratar melhor os aspec- tos da distin¸c˜ao entre polidez e impolidez, ´e a teoria apresentada por Watts [152], muito embora tamb´em seja alvo das cr´ıticas acima (para um apanhado detalhado de v´arias das teorias atuais, consulte [40]). Ainda que esta teoria n˜ao seja t˜ao detalhista quanto a de
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Mills de fato dirigiu este coment´ario `a teoria de Brown e Levinson, mas seguramente se estende `as outras.
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Brown e Levinson [24], ela parece n˜ao sofrer de certas limita¸c˜oes, como, por exemplo, a restri¸c˜ao da polidez aos atos de fala e a pressuposi¸c˜ao da existˆencia de atos inerentemente polidos. A base da teoria de Watts est´a na defini¸c˜ao do que ele chamou de “comporta- mento pol´ıtico”. Comportamento pol´ıtico, para Watts, ´e o comportamento, ling¨u´ıstico ou n˜ao, que os participantes de uma intera¸c˜ao constr´oem como sendo apropriado a ela, sendo tamb´em negoci´avel durante a intera¸c˜ao. Este comportamento consiste basicamente de formas de considera¸c˜ao pelas outras pessoas, formas estas que s˜ao mutuamente comparti- lhadas pelos participantes da intera¸c˜ao. Al´em disso, segundo Watts, podemos encontrar em todas as culturas humanas um conjunto de formas assim, embora esse conjunto possa variar de cultura para cultura. Essa varia¸c˜ao nos leva a crer, como Watts mesmo su- gere, que as conven¸c˜oes n˜ao declaradas, que regulam nosso comportamento pol´ıtico, s˜ao culturalmente espec´ıficas, podendo, portanto, variar com a cultura dos interagentes.
Com base na defini¸c˜ao de comportamento pol´ıtico, Watts define impolidez como sendo uma viola¸c˜ao observ´avel deste comportamento. Em outras palavras, ela ´e uma falha em ser fiel `as expectativas dos participantes da intera¸c˜ao sobre o que constitui um comportamento apropriado, estando aberta a avalia¸c˜ao negativa portanto [152]. Da mesma forma, polidez pode ser definida como sendo uma adi¸c˜ao observ´avel ao comportamento apropriado `a intera¸c˜ao. Ou seja, ela ´e um comportamento que vai al´em dos limites do comportamento pol´ıtico, podendo ser avaliado positivamente, mas que tamb´em est´a igualmente aberto a avalia¸c˜ao negativa [152]. ´E interessante notar que tanto impolidez quanto polidez n˜ao necessariamente s˜ao classificadas de forma positiva ou negativa, mas sim est˜ao abertas a avalia¸c˜ao por parte dos participantes. Nesse ponto, como j´a mencionado, o julgamento do grau de sinceridade do comportamento demonstrado pode ser crucial para determinar o resultado desta avalia¸c˜ao [108].
Outro ponto importante da teoria de Watts ´e que comportamento pol´ıtico n˜ao ´e tido como equivalente a comportamento polido – sua presen¸ca em demasia ou aqu´em das expectativas dos participantes ´e que o torna suscet´ıvel `a classifica¸c˜ao como polido ou im- polido. Assim, ´e poss´ıvel vermos algumas das diferen¸cas mais marcantes entre as teorias de Watts e de Brown e Levinson. De acordo com as defini¸c˜oes de polidez e impolidez de Watts, n˜ao pode haver, em uma l´ıngua, estruturas inerentemente polidas, uma vez que sua interpreta¸c˜ao como tal depende do que os participantes consideram comportamento apropriado `a intera¸c˜ao, ou seja, da sua defini¸c˜ao de comportamento pol´ıtico. A vantagem dessa defini¸c˜ao ´e que polidez passa a ser vista como uma avalia¸c˜ao do comportamento, em vez de uma qualidade intr´ınseca de uma fala [108]. Al´em disso, o foco da defini¸c˜ao de polidez n˜ao est´a em um ato de fala, como no caso de Brown e Levinson, mas sim no julgamento que os participantes fazem da intera¸c˜ao como um todo. Por fim, ao contr´ario de tratar polidez como um fenˆomeno socioling¨u´ıstico universal, a teoria de Watts se refere `a no¸c˜ao comum de polidez, ou seja, a no¸c˜ao de polidez conforme interpretada pelos par-
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ticipantes da intera¸c˜ao (o que Watts [152] chamou de polidez de primeira ordem, e Eelen chamou de polidez1) – a ´unica polidez que podemos medir de fato.
A despeito de todas as teorias existentes, a grande verdade ´e que a defini¸c˜ao de polidez e impolidez ´e ainda nebulosa, sendo bastante dificultada por sua grande subjetividade. De fato, como sugere Watts [152], ´e de se esperar que nem todos concordem sobre o que constitui uso de linguagem polida. Mas mais do que subjetiva, polidez pode ser fortemente dependente da cultura, uma vez que o comportamento polido n˜ao ´e algo inato [152], mas algo que come¸ca a ser incrustado em n´os desde os tempos de crian¸ca, quer seja por adultos quer por conven¸c˜oes sociais aprendidas em casa e na escola [108]. Al´em disso, como men- cionado no in´ıcio desta se¸c˜ao, ´e comum acreditarmos que polidez trata-se, basicamente, de um conjunto de regras, quer guiado pela cultura, quer implicitamente existente em certas formas de intera¸c˜ao. Contudo, a variabilidade apresentada pelos dados emp´ıricos obtidos n˜ao condiz com a no¸c˜ao de um sistema de normas compartilhadas. De fato, a va- riabilidade parece, em vez disso, ser a ´unica norma [40]. Assim, embora concordemos que a polidez ´e normativa, e que o comportamento dos interlocutores ´e avaliado com rela¸c˜ao a estas normas, na pr´atica elas n˜ao se revelam imediatamente [40]. No final, ´e poss´ıvel que Mills esteja correta ao dizer que, justamente por causa da complexidade envolvida em um comportamento polido, somente os participantes da intera¸c˜ao possam realmente dizer se consideram algo polido ou n˜ao [108] – nada podemos fazer al´em de question´a-los, ou simplesmente adivinhar.