Imagens das principais edificações da Vila Velha
R. Rodrigues Alves
4.4 Arquitetura Ferroviária
4.4.4 Clube União Lira Serrano (1907)
“Lira Serrano Clube nobre Clube inglês Chá das 5 Lorde chegando Leides entrando Só inglês chegando Eu do lado de fora olhando Todos falam atrapalhado Não entendo
Mas quero ouvir Todos estão falando Eu escutando
Mister está tomando chá O sarau vai começar
O charuto cubano vai esfumaçar E da Inglaterra eles vão falar” 8.
O clube, construído em 1907 e ampliado, posteriormente, em 1938, teve sempre grande prestígio junto à comunidade local. Foi sede, inicialmente, de duas associações de ferroviários: a “Associação Musical Lyra da Serra”, fundada em primeiro de outubro de 1900, e o clube esportivo “Serrano Atlético Club”, fundado em 1903. Em 15 de outubro de 1936, as duas entidades se fundiram numa única fazendo nascer o União Lira Serrano (ULS), que recebeu, em 1938, o edifício (F.41) com novas e amplas
8
Arquitetura da Vila Ferroviária de Paranapiacaba
instalações, permitindo a realização de bailes, jogos de salão, competições esportivas e exibição de filmes, peças teatrais e da banda de música Lyra da Serra.
O edifício também é bastante peculiar, pois mantém, em relação ao conjunto da Vila, as mesmas características originais das outras edificações, mas com soluções espaciais bem diversificadas, como, por exemplo, a transformação do salão principal em sala de cinema, em quadra de esportes ou salão de baile. Possui ainda outras salas para jogos de bilhar, tênis de mesa, sala de reuniões e outra para os troféus.
F.41. Edifício sede do Clube União Lira Serrano. Foto: da autora, 2005.
O Lira, como é popularmente chamado, contava ainda com campo de futebol, cancha de bocha e uma quadra de tênis, sendo que este equipamento esportivo era de uso exclusivo dos ingleses. O futebol e a música eram levados tão a sério que se dava preferência a novos funcionários jogadores ou músicos, que logo passariam a fazer parte da Sociedade Lyra Serrana cujo lema era: “Boa de música e de bola”.
O clube era polarizador da cultura local, principalmente em relação à música e à cinematografia. Além da capacitação musical, organizava cursos de aprendizado para uso dos instrumentos e os membros do clube se apresentavam no palco existente. Os músicos associados executavam trilhas sonoras durante as sessões de cinema mudo.
A sede reunia artistas que faziam espetáculos, resultando disto, além do grupo musical Lyra da Serra, a banda de jazz feminina e o grupo de cordas que se apresentavam tanto na vila quanto nas cidades próximas como Santos, São Paulo e municípios vizinhos do ABC.
A fase em que a sede do ULS mostrava toda a sua força era mesmo nos bailes de carnaval, onde de acordo, com Ferreira (1988), a hierarquia profissional era posta de lado e todos eram iguais. Os
Arquitetura da Vila Ferroviária de Paranapiacaba
ingleses começavam a se descontrair, a princípio em seus camarotes
(F.42), depois desciam para o salão, misturavam-se com os demais e
traziam grandes sacos de confetes que eram distribuídos entre os foliões que começavam a guerra, uns jogando nos outros.
O edifício e todos seus principais componentes, tais como estrutura vertical (vigas mestras e montantes), paredes de vedação, esquadrias e escadaria, são todos em madeira, em sua grande maioria o pinho-de-riga. Seguindo a mesma técnica construtiva utilizada nas casas da Vila, a construção teve sua adaptação ao desnível do terreno, sendo toda ela erguida sobre pilaretes de pedra e alvenaria distribuídos por todo subsolo do prédio e, sobre estes, barrotes de madeira que sustentam o soalho de piso.
O edifício é composto por três alas principais: hall de entrada (F.44), o grande salão (F.43) e as salas do segundo pavimento,
sendo esses elementos que dão volumetria ao prédio e possibilitam o jogo de telhados.
No piso térreo encontramos, à esquerda do hall, a sala de jogos (F.45) que, por sua vez, tem acesso direto ao palco. O grande salão está numa cota inferior em relação ao hall de entrada.
F.42 e 43. Camarotes, grande salão e palco.
Fotos: da autora e Ingrid Wanderley, 2005.
F.44 e 45. Bilheteria e sala de jogos. Fotos: da autora, 2005.
A fachada principal guarda um padrão simétrico na disposição das aberturas. As janelas esguias são do tipo guilhotina e apenas as que estão na fachada posterior é que possuem folhas de fechamento almofadadas. Há duas entradas principais, com portas de folhas duplas encimadas por bandeiras envidraçadas e uma saída de emergência, pela parte posterior do edifício. O grande salão conta também com janelas superiores do tipo basculante, com
Arquitetura da Vila Ferroviária de Paranapiacaba
acionamento de abertura e fechamento feito por meio de tirantes.
F.46. Fachada posterior. Foto: da autora, 2005.
A volumetria do edifício só é percebida pela fachada posterior que quebra um pouco a rigidez simétrica do prédio e nos revela o jogo de telhados, que, a primeira vista, parece fazer parte de um bloco único (F.46). Acompanhando a cobertura, os beirais, todos
forrados e apoiados sobre mãos-francesas, tendo em todo o perímetro da cobertura, calhas e tubos de queda estrategicamente distribuídos ao redor do edifício.
A SPR mantinha ativo o setor esportivo, pois oferecia emprego juntamente com o posto de jogador pelo Serrano. Havia também times juvenis e infantis, que usufruíam o mesmo campo de
futebol.
F.47. Campo de futebol; ao fundo, as arquibancadas. Foto: da autora, 2005. Um fato curioso e interessante ocorria nas partidas disputadas pelo time local que tinha, a seu favor, a neblina. Talvez pelo fato de os jogadores estarem acostumados com ela, tocavam a bola como se não houvesse neblina, enquanto os adversários simplesmente não a enxergavam (FERREIRA, 1988).
Janelas superiores Saída de emergência Volume do palco
Arquitetura da Vila Ferroviária de Paranapiacaba