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CLUSTER: AGRUPANDO OS DIFERENTES REGIMES DE BEM-ESTAR

CAPÍTULO V – REGIMES DE BEM-ESTAR NAS UNIDADES FEDERATIVAS

5.5 CLUSTER: AGRUPANDO OS DIFERENTES REGIMES DE BEM-ESTAR

A base utilizada para a classificação na análise de Cluster, para os regimes de bem - estar, foi as pontuações de cada ente federado extraídas da análise fatorial de componentes principais (ACP). Como um dos propósitos dessa investigação é testar a Hipótese 1 – da não homogeneidade do regime de bem-estar brasileiro – limitaram-se a quatro os agrupamentos oriundos das 27 unidades da federação, uma vez que isso facilita sobremaneira o tratamento dos dados e, ao mesmo tempo, valida as diferenças encontradas. Nos dendogramas a seguir, o corte recai em torno de 10 no eixo da distância redimensionada para 2001 e ao redor de

Figura 2 – Dendograma RB 2001

Figura 3 – Dendograma RB 2014

O Quadro 9 mostra o agrupamento considerando o conjunto de dados para dois pontos distintos no tempo: em torno 2001 e em torno de 2014. Dessa forma, a comparação entre os agrupamentos permite perceber as variações de suas composições no tempo.

Quadro 9 – Clusters dos regimes de bem-estar.

Cluster Unidades Federativas em torno de 2001 Unidades Federativas em torno de 2014

1 Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo

Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo

2 Acre , Alagoas, Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Roraima, Sergipe e Tocantins

Alagoas, Amapá, Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Rondônia, Roraima, Sergipe e Tocantins

3 Amapá Acre

4 Distrito Federal, Espirito Santo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Rondônia

Distrito Federal, Espirito Santo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Rio De Janeiro

Fonte: Dados da pesquisa

A comparação entre os grupos demonstra que suas composições foram alteradas, das 27 unidades, 23 mantiveram a mesma posição nos grupos, ou seja, 85% dos estados mantiveram características agregativas semelhantes ao longo do período analisado. A variedade de agrupamentos obtidos reforça a Hipótese 1 de que não é possível tratar o País como um regime único de bem-estar.

5.6 VETORES DE MUDANÇA NA COMPOSIÇÃO TEMPORAL DOS

AGRUPAMENTOS DOS SISTEMAS DE PROTEÇÃO SOCIAL

A Tabela 3 permite uma visão mais detalhada da heterogeneidade dos regimes encontrados no território nacional. Nela, são apresentados os valores médios, por grupo e período, de todas as variáveis utilizadas. O grupo 3 não foi incorporado nessa tabela pelo fato de contar com apenas um estado em cada período, impossibilitando, dessa forma, a comparação intertemporal das médias de suas variáveis.

Tabela 3 – Valores médios das variáveis de Proteção Social e suas variações entre 2001 e 2014

Esferas Indicadores Grupo 1 -

2001 Grupo 1 - 2014 % Grupo 2 - 2001 Grupo 2 - 2014 % Grupo 4 - 2001 Grupo 4 - 2014 % 1. Desempenho do regime

GINI– Coeficiente de Gini 0,548 0,461 -16% 0,589 0,501 -15% 0,564 0,497 -12%

EVN- Esperança de vida ao nascer 71,4 77,4 8% 67,4 72,2 7% 70,1 75,7 8%

TM5 – Taxa de mortalidade infantil (<5 anos)

20,4 13,1 -36% 41,72 21,4 -49% 28,5 16,9 -41%

TMI- Taxa de mortalidade infantil 17,6 10,2 -42% 36,2 18,8 -48% 24,8 13,3 -46%

PLP- População abaixo da linha da pobreza

22,5 5,8 -74% 56,9 23,3 -59% 26,7 5,7 -79%

IDH- Índice de desenvolvimento humano 0,670 0,763 14% 0,513 0,670 31% 0,617 0,749 21%

TEF- Taxa de ocupação feminina 43,3 45,1 4% 33,5 39,7 19% 40,9 43,5 6%

CA3- Crianças abaixo de 3 anos atendidas em serviços de cuidados públicos

5,3 28,4 436% 2,4 13,1 446% 3,3 19,4 488%

DI- Taxa de dependência infantil 46,4 34,4 -26% 61,6 44,7 -27% 54,5 37,9 -30%

2. Gênero e Generosidade do sistema

DA – Taxa de dependência de idosos (>65 anos)

13,5 20,4 51% 11,2 15,2 36% 9,7 17,8 84%

CP- Cobertura das pensões (>65 anos) 71,1 85,1 20% 75,5 81,3 8% 68,7 78,4 14%

GPs- Gasto privado em Saúde 1,6 1,7 6% 1,2 1,6 33% 1,1 1,6 45%

BSG – Diferença salarial de gênero 47,8 60,1 26% 66,9 30% 43,2 58,7 36%

BPS- Brecha na proteção social (negros/brancos)

0,88 0,9 2% 0,89 1,0 12% 0,87 1,0 15%

3. Família e Diversidade étnica

FCONV- Famílias convivente (estendidas ou compostas)

10,3 13,1 27% 17,3 18,9 9% 12,7 13,6 7%

AFR- Percentual de afrodescendentes por UF

21,8 26,0 19% 70,3 72,1 3% 57,6 57,6 0%

BRD- Brecha na taxa de desocupados (negros /brancos)

1,5 1,3 -13% 1,1 1,1 0% 1,2 1,4 17%

BMI- Brecha na taxa de mortalidade infantil (negros/brancos)

0,4 0,1 -75% 3,6 2,0 -44% 1,4 0,7 -50%

4. Esforço Estatal GT- Gasto governamental total 11,2 22,8 104% 20,7 17,6 -15% 17,5 12,9 -26%

GPS- Gasto em proteção social 3,9 10,5 169% 8,7 8,1 -7% 1,1 5,6 409%

GSa- Gasto público em saúde 0,96 3,5 265% 2,1 2,6 24% 1,6 1,3 -19%

Como era de se esperar, os indicadores dentro de cada esfera variaram, na sua grande maioria, no mesmo sentido. Isso justifica a maior estabilidade nos agrupamentos ao longo do tempo. Entretanto, quando essas variações são individualizadas, é possível identificar os vetores com maior peso nas mudanças temporal na composição dos grupos.

Na esfera de desempenho do regime, a evolução do Coeficiente de Gini, a população abaixo da linha da pobreza e a taxa de ocupação feminina sofreram mudanças capazes de alterar a posição das unidades federativas nos grupos. A distribuição da renda melhorou e a pobreza reduziu no período, independentemente da metodologia e linha de corte utilizada (IPEA, 2015). Essa melhora é reflexo do padrão de desenvolvimento dos últimos anos, em que se combinou uma ampliação das políticas sociais com melhorias estruturais no mercado de trabalho (valorização do salário mínimo e redução do desemprego).

Os estados que tiveram a maior evolução na distribuição de renda foram Goiás, Paraná, Mato Grosso e Pernambuco. Já os que menos reduziram a desigualdade foram Amapá, Distrito Federal, Maranhão e Roraima. Em relação à linha da pobreza, a redução mais acentuada ocorreu nos estados do Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná e Goiás, e menos acentuada no Acre, Amapá, Pará e Amazonas. É de se frisar que a evolução desses indicadores foi mais acentuada nas unidades federativas com maior participação no mercado internacional de commodities agrícolas. Contribuíram para essa performance o efeito China (como mercado consumidor) e a alta dos preços das commodities no período.

Em relação ao emprego feminino, os estados que experimentaram a maior evolução foram Roraima, Rio Grande do Norte, Amapá e Tocantins. Por outro lado, o menor crescimento teve lugar nos estados de Alagoas, Ceará, Santa Catarina e Minas Gerais. No conjunto das observações das variáveis dessa esfera, percebe-se que o aumento da taxa de ocupação feminina foi maior onde a evolução do Gini e a redução da pobreza foram menores. Ou seja, as unidades com as maiores taxas de emprego feminino, em parte, coincidem com os estados mais pobres e de pior distribuição de renda. Isso parece confirmar parcialmente uma relação entre taxas de participação laboral feminina e pobreza encontrados por Martínez Franzoni (2008b) para a América Latina. Por óbvio, o crescimento no atendimento público às crianças abaixo de 3 anos possibilitou essa evolução.

A esfera de gênero e generosidade do sistema apresenta três variáveis com maior potencial de deslocamento da composição dos grupos: cobertura das pensões, gasto privado em saúde e diferença salarial de gênero. A cobertura das pensões no Brasil apresentou uma

certa estabilidade (excluindo-se os benefícios assistenciais) no período, porém, regionalmente, as variações foram significativas. Os estados com maior ampliação dessa cobertura foram Mato Grosso, Rondônia, Rio Grande do Sul e Roraima. Já os com pior desempenho foram Amapá, Paraíba, Ceará e Amazonas. Nesse período, a boa situação do mercado de trabalho e a incorporação de novas categorias que não eram plenamente contributivas contribuíram para acelerar a cobertura previdenciária em geral e, em particular, dos idosos.

Esse avanço foi potencializado por outros benefícios assistenciais, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que garante às pessoas pobres, de 65 anos de idade ou mais, um salário mínimo mensal. O desafio é sustentar a ampliação dessa cobertura, uma vez que quase 30% da população ocupada e mais da metade dos autoempregados36, cerca de 12,7 milhões de trabalhadores, não a possuem (PNAD, 2013). Além disso, como já mencionado, os dados revelam um aumento da pressão demográfica traduzida pelo aumento da dependência de idosos.

O gasto privado em saúde – que é uma estratégia familiar de sobrevivência – variou positivamente e com maior intensidade nos estados do Amazonas, Alagoas, Mato Grosso e Rio Grande do Sul. Diferentemente das outras variáveis, o gasto privado em saúde decresceu nos estados de Roraima, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro e Paraíba. A criação de empregos formais, a melhora no poder aquisitivo, o envelhecimento da população e as limitações de acesso e qualidade dos serviços públicos de saúde ajudaram a impulsionar esse mercado. Em alguns estados, a estagnação da renda, em especial a partir de 2011, provocou uma pequena redução no número de beneficiários dos planos privados de saúde. O peso dos gastos privados em saúde supera os gastos públicos, em que pese o País ter adotado um sistema universal de saúde. O gasto total em saúde representa cerca de 9% do PIB, entretanto, apenas 47% correspondem à despesa pública (ANS, s/d). De cada R$ 100 investidos em saúde, R$ 53 são desembolsados pelas famílias.

Mesmo a diferença salarial de gênero tendo variado pouco em termos absolutos, as maiores variações regionais foram nos estados do Amapá, Maranhão, Rondônia e Pará. As menores oscilações ocorreram em Roraima, Rio de Janeiro, Paraíba e Alagoas. As diferenças entre homens e mulheres, brancos e negros, mantiveram-se estáveis em todo o período analisado, indicando que a trajetória recente de melhora qualitativa das relações de

36 Fazem parte dos autoempregados as seguintes categorias de posição de ocupação da Pnad: por conta própria,

trabalho não foi capaz de alterar o cenário estrutural de desigualdades de gênero e étnicas. Combinando a elevação da participação feminina no mercado de trabalho com a manutenção das desigualdades de renda, percebe-se um comportamento típico dos regimes liberais, nos quais as mulheres trabalhadoras tendem a se concentrar no setor de serviços, onde predominam os menores salários e maior precariedade dos postos de trabalho.

Na esfera da família e diversidade étnica, as variáveis de famílias conviventes, brecha étnica na taxa de desocupados e brecha étnica na taxa de mortalidade infantil possibilitaram alguma mobilidade entre os agrupamentos dos estados. O aumento das famílias conviventes foi mais acentuado nos estados de São Paulo, Rondônia, Goiás e Roraima. Ainda que com evolução positiva, os estados do Rio Grande do Norte, Pernambuco, Paraíba e Pará tiveram a menor expansão. O arranjo familiar responde a uma estratégia de obtenção de recursos ao lado das políticas públicas e, principalmente, do mercado (POLANYI, 2000; ESPING-ANDERSEN, 2000). Quanto mais agregada a família, maior a dependência econômica de uns membros em relação aos outros, refletindo em acessos também dependentes a serviços sociais e ao consumo privado.

As brechas de desocupados entre negros e brancos têm seus picos de variação positivas nos estados de Goiás, Maranhão, Sergipe e Espirito Santo. As variações negativas mais intensas ocorrem em Amapá, Santa Catarina, Ceará e Distrito Federal. O comportamento conjuntural das taxas de desocupação é indicador da qualidade das relações de trabalho, podendo-se inferir que os homens brancos tendem a ocupar as melhores posições sociais no mundo do trabalho, ao passo que a população negra, sobretudo as mulheres, inserem-se nos setores mais precarizados e são mais atingidas pelo desemprego. As mulheres negras são maioria entre a população desocupada, com mais de 16 anos em 2014, seguidas de homens negros, mulheres brancas e homens brancos (IPEA, 2015).

As diferenças de mortalidade infantil entre negros e brancos sofreram, no conjunto dos estados, uma variação negativa. Os estados do Amapá, Rio Grande do Sul, Tocantins e Distrito Federal tiveram uma piora nessa brecha. Os estados do Rio de Janeiro, Paraíba, Sergipe e Piauí foram os que mais reduziram as diferenças. As principais causas da mortalidade infantil entre crianças negras, segundo o MS (2016), para o ano de 2012, foram: malformações congênitas, prematuridade e infecções perinatais. Grande parte das famílias negras vive em espaços urbanos e/ou rurais, com ausência de informações e acesso a bens e serviços de qualidade (saúde, educação, saneamento básico, etc.), o que as torna mais vulneráveis.

A análise dos gastos públicos (totais, sociais, etc.), comparativamente aos indicadores econômicos como o PIB, tem sido utilizada como medida de expansão do Estado de Bem-Estar. Esses indicadores também estão presentes na caracterização tipológica desenvolvida para o Brasil por Cecchini et al. (2014); Filgueira (1998); e Martínez Franzoni, (2008a). Os dados indicam que os estados que mais aumentaram os gastos totais também são os que maiores gastos sociais possuem, são eles: Rio Grande do Sul, São Paulo, Paraná e Amazonas. Dos que variaram menos seus gastos totais – Sergipe, Pernambuco, Amapá e Espirito Santo – dois aparecem com a menor variação nos gastos sociais: Sergipe e Amapá. Já em relação aos gastos com saúde, os estados que mais aumentaram seus gastos totais se repetem, com exceção do ingresso nesse grupo do Tocantins. Os que mais reduziram os gastos com saúde foram Pernambuco, Roraima, Sergipe e Rio de Janeiro. Percebe-se que o esforço que as unidades fazem para aumentar o gasto social está diretamente vinculado ao aumento dos gastos totais e a capacidade fiscal de cada ente.