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CAPÍTULO VII – SISTEMAS DE PRODUÇÃO E REGIMES DE BEM-ESTAR

7.2 VARIEDADE DE CAPITALISMO E REGIMES DE BEM-ESTAR:

ESPACIALIDADE E COMPLEMENTARIEDADES

Ao propor uma integração analítica entre as duas diferentes linhas de pesquisa, VoC e RB, não se pode olvidar que suas agendas de investigação são distintas. A VoC busca compreender como as empresas coordenam seu ambiente, já a RB tem como foco a forma como os indivíduos suprem suas demandas existenciais por bens e serviços. As

perguntas dirigidas a cada uma dessas linhas diferem tanto quanto os atores investigados. Disso, deduz-se que não é possível extrair uma categorização ou tipologia coincidente; porém, é possível esperar que os arranjos produtivos e de proteção social se apoiem mutuamente, como comprovado até aqui na pesquisa.

Percebe-se, pela composição espacial (nos mapas a seguir), que, em certa medida, existe um sombreamento entre os sistemas (proteção e produção), revelando uma importante causalidade de um sobre o outro. Portanto, a complementariedade não existe só dentro do sistema de produção, como propõe a VoC, mas existe também entre o sistema de produção e o de proteção social (SCHRÖDER, 2013).

Complementariedades entre sistemas de proteção e produção ainda carecem de investigação sistemática no Brasil. Para a América Latina, uma importante reflexão foi feita por Schneider e Karcher (2010), que propuseram cinco eixos fundamentais de complementariedade econômica no mercado de trabalho: baixo nível de habilidades; alta regulação trabalhista; alta rotatividade; amplo setor informal; e sindicatos pequenos e

politizados com pouca representação em nível de planta. Contudo, essas

complementariedades se restringem ao âmbito econômico, enquanto o passo aqui proposto é tentar relacionar alguns aspectos dos regimes de proteção social com as dimensões construídas para os sistemas de produção (sistema educacional e de formação profissional, sistema produtivo, incentivo público, capacidade fiscal, relações de trabalho, mercado externo e financeiro). Como um pressuposto da construção dos tipos estaduais de RB foi a inclusão do Estado como agente ativo na coordenação econômica, também é necessário incluir a governança “pública” nessa análise.

Tendo sido construídos quatro tipos de sistema de produção e quatro de proteção social, as combinações possíveis para essa análise comparativa – quando considerada a relação entre grupos onde ao menos um estado aparece ao mesmo tempo nos dois regimes – resultariam em sete. Entretanto, para os propósitos de construir uma referência analítica, apenas duas combinações – EHIDE x PSMIF(MBE) e EHFrDE x PSIP(FBE) – serão discutidas, privilegiando regiões com estruturas econômicas e sociais distintas, ou seja, as economias de fraca e intensa dependência estatal e os sistemas de proteção social intensa e moderada. Essa opção privilegia a maximização das similitudes internas entre os estados e das diferenças entre os grupos.

Quadro 13 – Estados onde existe coincidência entre os regimes de proteção social e de variedade de capitalismo

Regimes 1.PSIP(FBE) 2.PSFIP(FBE) 3.PSMIF(MBE) 4.PSBIF(MBE)

1.EHIDE Bahia, Ceará, Maranhão e

Pernambuco.

Acre

2.EHFoDE Paraíba , Sergipe

Amazonas

3.EHMDE Distrito Federal Alagoas, Amapá, Pará, Piauí, Rio Grande do Norte, Rondônia, Roraima e Tocantins.

4.EHFrDE Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.

Espirito Santo, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro

Fonte: O autor (2016)

A Figura 10 sobrepõe os regimes EHFrDE e PSIP(FBE), mostrando que em pelo menos quatro estados (PR, RS, SC e SP) existe uma coincidência entre os dois sistemas. Todavia, os estados não coincidentes pertencem a grupos próximos a esse sistema de proteção social (PSFIP(FBE)).

Ao analisar os dados dos estados com regimes coincidentes, algumas complementariedades ficam evidentes. A relação entre o sistema de proteção social e as relações de trabalho revela que os quatro estados possuem níveis relativamente altos de densidade de sindicalização (média de 17,8%) e, ainda, segundo o DIEESE (2015), concentram 39% do total de sindicatos existentes no País. Com sindicatos mais abundantes e fortes, a tendência é que haja maior equalização na distribuição de renda, fato constatado pela menor média do Índice de Gini (0,461) dentre todos os grupos. A literatura aponta para a ideia de que, quanto mais forte e organizado o movimento operário, maior a tensão no sentido de obter maior cobertura de proteção social. De outra forma, quanto mais poder têm os sindicatos, mais extenso é o sistema de proteção social.

Num cenário nacional em que os sindicatos dos trabalhadores se caracterizam pela baixa densidade, fraco desempenho na negociação econômica (mesmo possuindo forte capacidade de negociação política) e baixo nível de organização no chão de fábrica, a força relativa desse movimento é coerente com a melhor distribuição de renda entre os diferentes tipos construídos.

Figura 10 – Economias Hierárquicas de Fraca Dependência Estatal x Proteção Social Intensa com Caráter Produtivista e Forte Brecha Étnica

Fonte: Dados da pesquisa

No que diz respeito à complementariedade entre o sistema de proteção social e o mercado externo e financeiro47, os estados coincidentes combinam forte demanda por crédito público, altos níveis de exportações complexas e de investimento estrangeiro direto. Se em regimes de bem-estar mais igualitários, do ponto de vista da renda, o mercado de ações não é relevante, o mesmo não ocorre nos países com maior estratificação social, onde se encontram camadas com alta concentração de renda. Nesses últimos, parece haver maior preferência por investimentos em ações. Como já visto, as EMH têm forte dependência do capital externo (controladoras, grupos econômicos, etc.) e das exportações de commodities. Porém, as características dos estados em foco indicam que não é possível relacionar suas distribuições de renda apenas com o alto grau de autofinanciamento. É preciso considerar os recursos públicos destinados ao financiamento da produção e as exportações complexas.

Outra complementariedade detectada associa o sistema de proteção social com a qualificação profissional. Sabe-se que, quanto maior a proteção do emprego e maior a taxa de

47 Essa dimensão põe em relevo a governança coorporativa e pública ligada ao sistema produtivo. Nas

economias de mercado liberais, a governança coorporativa tem a estratégia de financiamento da atividade produtiva, predominantemente, realizado pela captação de recursos em bolsa de valores, ao passo que nas economias coordenadas, o financiamento depende de crédito bancário de longo prazo.

reposição salarial, maiores os incentivos para a capacitação profissional. Sendo assim, a formação de habilidades se liga à estrutura salarial e à desmercantilização. No caso desses quatro estados (PR, RS, SC e SP), a média de anos de estudo e a taxa de formação pós-média são altas e o gasto público em educação relativamente baixo, se comparado a outros grupos.

Considerando que as estruturas de proteção do emprego, como o seguro desemprego e a taxa de reposição salarial, são frágeis no Brasil, é possível constatar, assim como já fez Schneider (2009), que a formação profissional é individual e orientada pelas firmas. Não obstante, esse grupo, referente aos sistemas de proteção, concentra os melhores indicadores de Gini e IDH. Portanto, se por um lado o baixo nível de investimento público em formação profissionalizante e o baixo nível de proteção do emprego coíbem a aquisição de habilidades específicas, por outro, o melhor desempenho nesse tipo de formação é sustentado e orientado pelas firmas.

A contiguidade geográfica desses estados encarta também um dos mais altos níveis de complexidade econômica do território nacional, mas isso não se reflete numa menor flexibilidade do mercado de trabalho, pois as taxas de rotatividade são elevadas. Em um ambiente de alta rotatividade e baixo gasto em educação, os empregados têm poucos incentivos para investir em competências específicas e, portanto, diferentemente do que ocorre com as economias liberais, os governos não têm a capacidade ou a motivação para apoiar altos gastos em educação pública, ainda que seja em competências gerais.

Como é patente na teoria da VoC, os empregos industriais em setores baseados em acumulação de competências (Economias Coordenadas) dependem de relações de trabalho de longo-prazo; já em setores dinâmicos e de alta inovação (Economias Liberais) dependem de relações laborais flexíveis e dinâmicas e com alta rotatividade. Esse último está sujeito à intensa mercantilização dos trabalhadores, enquanto o primeiro mantém um certo grau de desmercantilização, não só por razões sociais, mas para preservar sua vantagem competitiva.

Como já discutido, nesses estados a rotatividade é alta, porém a taxa de emprego informal é baixa, se comparada com outras unidades. Nesse sentido, esse regime, flexível e com alta rotatividade, é complementado pela informalidade (ainda que em patamares menores que outras unidades). Há uma clara funcionalidade do sistema de proteção social (com baixa proteção do emprego e alta informalidade) em relação ao sistema produtivo (com mercado de trabalho flexível).

As complementariedades étnicas nesse grupo de estados podem ser tratadas relacionando-se o percentual de afrodescendentes com os anos de estudo (ALESINA et al., 2003) e com a brecha no emprego informal. Os quatro estados apresentam baixos percentuais

de população afrodescendente (média de 26%) e possuem as mais elevadas brechas de anos de estudo (média de 0,87) e de emprego informal (média de 1,18). Os afrodescendentes, como grupo minoritário, possuem 13% a menos de tempo de estudo e são 18% mais numerosos que os brancos no trabalho informal. Mesmo com a ampliação dos gastos sociais e a redução das desigualdades ocorridas no período, o diferencial de salários entre negros e brancos se ampliou. Segundo os dados da Pnad em 1992, essa diferença em desfavor dos afrodescendentes era de R$ 700 (a preços de 2012) e, em 2012, atingiu R$ 940. A proporção de negros que possui ensino médio ou superior triplicou nos últimos 20 anos (11% para 36%); porém, a diferença dessa proporção em relação aos brancos também vem crescendo: entre 1992 e 2012, aumentou de 22 para 28 pontos percentuais.

A situação desfavorável aos negros tem início já na entrada mais precoce no mercado de trabalho e passa por maior taxa de desemprego, maior parcela de trabalhadores sem carteira de trabalho (ou mesmo sem remuneração) e maior inserção em atividades com carga horária de até 30 horas por semana (resultando em menos horas trabalhadas por ano). Isso pode ter relação com a baixa expectativa e/ou retorno esperado no mercado, que levaria os negros a optarem por trabalhos com custos de oportunidade menores, gerando maior rotatividade e menor tempo de permanência em um mesmo emprego (HIRATA, 2014).

Na comparação entre a EHIDE e PSMIF (MBE), novamente os estados coincidentes (BA, CE, PE e MA) mantêm uma proximidade geográfica (Figura 11). A região Nordeste, onde se localizam esses estados, foi a única região brasileira que experimentou, nas duas últimas décadas, um crescimento na taxa de sindicalização. A densidade de sindicalização (média de 20,4%) é alta e o número de sindicatos representa 15,4% do total nacional (DIEESE, 2015). Entretanto, o alto nível de sindicalização parece não ter causado uma melhora na distribuição de renda, pois a média do Índice de Gini é 0,517.

Para explicar essa aparente contradição da complementariedade entre a força da ação sindical e a renda é preciso recobrar os ensinamentos de Celso Furtado, quando da criação do Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste (GTDN), em 1957. Ele apontava que o problema da extensa pobreza na região não era o mito da seca, mas fatores como a exclusão das massas de trabalhadores do processo produtivo, a predominância da agricultura de subsistência, a informalidade nas relações de trabalho e as instabilidades em relação à renda real.

Alguns indicadores utilizados nesta pesquisa revelam que o diagnóstico de Furtado ainda é atual. Os quatro estados (BA, CE, PE e MA) apresentam uma elevada população abaixo da linha da pobreza (média de 27%), uma taxa de emprego informal igualmente alta

(média de 62,3%) e um elevado índice de concentração de terra (0,850). Nesse grupo convivem ilhas econômicas dinâmicas e ativas com estruturas econômicas tradicionais, ligadas às oligarquias políticas poderosas. Dessa forma, o impacto da densidade sindical na renda local é mitigado.

Figura 11 – Economias hierárquicas de intensa dependência estatal x Proteção Social de Moderada Intensidade com Caráter Familiar e Modesta Brecha Étnica

Fonte: Dados da pesquisa

Os estados coincidentes combinam moderada demanda por crédito público (média de 3,8%), altos níveis de exportações complexas (média de 52,4%) e um investimento estrangeiro direto em níveis intermediários (média de 6,4%), se comparados com os outros tipos. Tomando essas mesmas variáveis e comparando os dois períodos analisados (em torno de 2001 e em torno de 2014), fica patente um forte dinamismo na região, o que fica visível pelas seguintes mudanças: as exportações complexas saíram de 40,8% em 2001 para 52,4% em 2014; o investimento estrangeiro era próximo de zero e passou para 6,4%; o crédito público passou de 2,1% para 3,8%; e o Índice de Gini, que era de 0,598, atingiu 0,517.

Por esse ângulo, apesar das complementariedades negativas impulsionadas pela estrutura desigual da região, é razoável afirmar que houve complementariedade entre a forma

de financiar a produção e a melhoria da distribuição de renda (ainda que profundamente desigual).

Para esses estados, a já débil proteção do emprego se agrava pela pobreza e pela informalidade. O reflexo disso pode ser constatado no número médio de anos de estudo (média de 6,8 anos) e na formação pós-média (média de 7,5%). Por outro lado, o gasto público em educação é levemente superior às economias de fraca dependência estatal. Aqui também se constata que a formação profissional é individual e empresarialmente orientada, não existindo, aparentemente, movimentos institucionais que possibilitem romper o binômio baixa qualificação – baixos salários.

No que tange à mercantilização dos trabalhadores, esse grupo combina moderadas taxas de rotatividade (média de 46,5%) com elevadas taxas de emprego informal (73,4%), atendendo de forma mais aprofundada a flexibilidade do mercado de trabalho.

A dimensão étnica para esse grupo apresenta elevados percentuais de população afrodescendente (média de 73,6%), com moderadas brechas de anos de estudo (média de 0,92) e de emprego informal (média de 1,11). Os afrodescendentes, como grupo majoritário, possuem 8% menos de tempo de estudo e são 11% mais numerosos que os brancos no trabalho informal. Mesmo com um contingente expressivo da população, os afrodescendentes seguem segregados do ponto de vista socioeconômico.

Intuitivamente e com suporte na literatura, as complementariedades discutidas nesta etapa da pesquisa fazem sentido teórico, mas é preciso submetê-las a uma análise que seja mais precisa na determinação das correlações entre as dimensões subjacentes extraídas da análise fatorial. Essa análise apontará o nível do coeficiente de correlação e da significância da relação entre as variáveis aqui discutidas.

7.3 CORRELAÇÃO DE SPEARMAN ENTRE OS FATORES DOS ESTADOS COM