CAPÍTULO VIII – CONCLUSÕES
8.5 REGIME DE BEM-ESTAR E CAPITALISMO: DETERMINANTES
A primeira etapa dessa análise permitiu consolidar inequivocamente a existência e convívio de uma grande variedade de modelos de proteção social e produção capitalista nas unidades federativas brasileiras. O caráter comum dos sistemas de produção é sua característica hierárquica, variando conforme maior ou menor dependência estatal. Já a
proteção social muda conforme a intensidade protetiva, a maior ou menor dependência da família ou do mercado e a brecha étnica.
A existência de uma relativa homogeneidade na composição dos grupos de proteção social e produção capitalista sugere uma relação de dependência entre eles. Uma das hipóteses construídas na pesquisa foi de que cada modelo de proteção social é determinado pelo modelo de produção capitalista. Essa hipótese foi confirmada com a utilização da Análise de Dados em Painel, onde a variável dependente era o fator geral de proteção social e as variáveis independentes eram os fatores de variedade de capitalismo.
Dessa abordagem, constatou-se que apenas duas dimensões – Sistema Educacional e de Formação Profissional e Sistema Produtivo – foram significativas. A dimensão Sistema Educacional e de Formação Profissional apresenta um sinal negativo e foi significativa ao nível de 1% de significância. Esse fenômeno indica que a baixa coordenação econômica, a alta rotatividade no trabalho, a informalidade e um seguro desemprego pouco generoso (de curta duração e que não garante a reposição salarial dos trabalhadores mais qualificados) são complementariedades negativas e explicam essa relação.
Uma vez que a proteção social é tendencialmente focalizada nos pobres, o mercado laboral é segmentado e flexível (alta rotatividade), a densidade sindical é baixa, as ações de grupos econômicos são concentradas, inexistem estímulos para o desenvolvimento de habilidades específicas. Assim, os regimes de proteção social onde predomina a assistência social e os direitos sociais estão vinculados à comprovação de uma necessidade manifesta, ainda que ampliem sua cobertura, não conseguem estimular a formação e capacitação profissional de seus trabalhadores, ao contrário, as desestimulam. Essa lógica afeta mais fortemente os trabalhadores negros, pois eles recebem relativamente menos, ocupam majoritariamente postos de trabalhos informais e possuem média de anos de estudo e frequência em cursos profissionalizantes menores que os brancos.
A dimensão Sistema Produtivo é significativa ao nível de significância de 5% e está relacionada positivamente com a variável dependente; contém o número de empregadores para cada 1.000 habitantes, a taxa de rotatividade no trabalho, a taxa de assalariamento e o Índice de Gini para a concentração da terra. Esse fator estabelece uma distinção entre os tipos de estratégias produtivas das unidades federativas: algumas estão baseadas em alta concentração da terra (condição para viabilizar as cadeias industriais a montante e a jusante do produtor rural), com altas taxas de assalariamento e baixa rotatividade laboral; outras estão vinculadas ao empreendedorismo, geralmente ligado ao setor de serviços, com altas taxas de rotatividade laboral.
8.6 CORRELAÇÃO DE SPEARMAN ENTRE OS FATORES DOS ESTADOS COM REGIMES COINCIDENTES
As relações estudadas cruzaram os seguintes regimes: 1) EHIDE x PSMIF para os estados coincidentes da BA, CE, MA e PE; 2) EHMDE x PSMIF(MBE) para os estados coincidentes de AL, AP, PA, PI, RN, RO, RR e TO; e 3) EHFrDE x PSIP(FBE) para os estados do PR, RS, SC e SP. Aqui foram avaliadas as correlações fator a fator ou dimensão a dimensão, ou seja, todas as dimensões da variedade de capitalismo foram relacionadas com todas as dimensões dos regimes de bem-estar para os estados onde os regimes coincidem.
O traço comum a todas as interações foram: 1) A forte e negativa relação da dimensão do sistema educacional e de formação profissional (X1) com a dimensão desempenho do regime (Y1) em todos os casos. Dado que a dimensão do sistema educacional e de formação profissional (X1) é um fator síntese de 6 variáveis e que a dimensão desempenho do regime (Y1) é a síntese de 9 variáveis, deduz-se que variação a menor de variáveis como anos de estudo, formação pós-média e o investimento estrangeiro, devem ser acompanhadas de variações a maior de variáveis como mortalidade infantil e na infância, população abaixo da linha da pobreza e taxa de ocupação feminina; e, 2) Nenhuma variável independente está relacionada com a dimensão de esforço estatal (Y4). A explicação para esse último fenômeno pode estar ligada ao fato de que os gastos governamentais totais, em proteção social e em saúde, são determinados constitucionalmente e em patamares fixos. Dessa forma, essas variáveis comportam pouca variação no tempo e no espaço.
Ao olhar as comparações isoladamente, fica evidenciada a falta de homogeneidade em relação à correlação entre as demais dimensões. Na EHIDE x PSMIF(MBE), a dimensão de gênero e generosidade do sistema (Y2) está positiva e fortemente relacionada com a dimensão sistema educacional e de formação profissional (X1), pois na medida em que exista uma variação positiva nas variáveis de X1, é de se esperar uma variação positiva em variáveis como cobertura das pensões, gasto privado em saúde, diferença salarial de gênero, brecha na proteção social e na taxa de dependência de idosos.
Já entre EHMDE x PSMIF (MBE) aparece uma relação moderada entre a dimensão de incentivo público (X3) com a dimensão família e diversidade étnica (Y3). Essa relação parece estar associada ao fato de que, nos estados com maior contingente de afrodescendentes e, por consequência, com maior nível de pobreza e dependência familiar para geração de bem-estar, a demanda por gastos públicos em políticas de trabalho, de educação e gasto em P&D é maior. O mesmo raciocínio vale para a brecha rendimento mensal (negros/brancos), que ao variar
positivamente faz a brecha na taxa de desocupados (negros /brancos) e brecha na taxa de mortalidade infantil (negros/brancos) acompanharem esse movimento.
Por fim, ao se comparar os regimes de EHFrDE x PSIP(FBE) nos estados coincidentes de PR, RS, SC e SP, nota-se na variável Y2 uma mudança em relação aos outros grupos de estados. Aqui, ela está negativamente e muito fortemente relacionada (-0,905) à dimensão de relações do trabalho (X5). Uma explicação plausível é a de que a variação positiva nas variáveis de densidade de sindicalização, da taxa de empregos temporários e da brecha no emprego informal (negros/brancos) causa uma variação em sentido contrário em variáveis como diferença salarial de gênero e na brecha na proteção social (negros e brancos).
A análise de correlação de Spearman reforça a conclusão de que existe uma forte heterogeneidade nos regimes de proteção social e de variedade de capitalismo entre os estados brasileiros.