2 CAMINHOS TEÓRICOS
2.3 COLONIALIDADE DE GÊNERO
Rita Segato (2012) compreende que um dos eixos centrais da colonialidade moderna é a organização das relações de gênero segundo um padrão binário que diferencia mulheres e homens. Enquanto elas ficam restritas ao espaço privado da vida doméstica, eles assumem as funções da esfera pública. Buscando compreender como as relações de gênero dos povos indígenas foram transformadas com a invasão colonial, a autora chega à conclusão de que estes grupos viviam uma estrutura dual com posições correlatas às de homem e mulher na modernidade, mas
com mais flexibilidade de trânsito entre elas. Havia também uma distribuição das atividades das mulheres no espaço doméstico e dos homens no espaço público, e ainda que os últimos fossem considerados hierarquicamente superiores e mais prestigiados, ambos os grupos participavam das decisões políticas em suas respectivas instâncias. Neste ponto, surge uma importante diferença em relação ao modelo moderno-colonial, onde as deliberações se dão exclusivamente no espaço público, retirando das mulheres o poder de decisão sobre os caminhos históricos da comunidade.
Quanto à diferença entre binarismo e dualidade, no primeiro, um dos termos – o homem – é elevado à categoria universal e a categoria das mulheres é rebaixada à condição residual, incompleta, sem ontologia própria. No mundo pré-intrusão, ainda que haja uma superioridade hierárquica, ambos são completos em si, ontologicamente independentes e com poder de articulação política. Em resumo, a grande diferença entre um modelo e outro não é o lugar ocupado por homens e mulheres, mas sim a valorização do espaço doméstico, que desaparece com a colonialidade.
Na colonial-modernidade, o sujeito nativo da arena pública é o homem branco, heterossexual e letrado, e quem desejar adentrar esse espaço de deliberação deve converter-se a esse perfil por meio da politização. Uma das críticas de Rita Segato aos programas de fortalecimento da autonomia das mulheres é justamente tentar aproximá-las desse perfil, transportando-as a uma realidade completamente distinta que acaba não dialogando com a comunidade em que vivem. Reafirma-se, então, a importância de olhar para as reflexões que surgem do feminismo comunitário, que partem da experiência concreta das mulheres e têm maior potência de construir caminhos alternativos baseados em epistemologias locais.
Rita, assim como as feministas comunitárias, trabalha com a concepção de um entroncamento histórico de patriarcados. Na ordem pré-intrusão, havia um patriarcado de baixa intensidade, e a colonização redunda em um agravamento e intensificação das hierarquias que formavam parte da ordem comunitária (SEGATO, 2012, p.114). O impacto da colonialidade sobre relações interpessoais e de gênero em sociedades regidas por padrões comunitários e coletivistas gera um desequilíbrio entre as esferas pública e doméstica. A relação com o Estado moderno privilegia os homens e os humilha no espaço público. Nesse processo, vai se construindo uma nova forma de masculinidade que transporta a violência recebida no âmbito público
e político para o espaço interno das comunidades, especialmente o ambiente doméstico, onde irrompe a violência de gênero. Segundo a autora,
Este processo é violentogênico, pois oprime [os homens] aqui e empodera na aldeia, obrigando a reproduzir e a exibir a capacidade de controle inerente à posição de sujeito masculino no único mundo agora possível para restaurar a virilidade prejudicada na frente externa. As relações intra- familiares com mulheres e filhos são particularmente prejudicadas. Isto vale para todo o universo da masculinidade racializada, expulsa da condição de “não brancura” pelo ordenamento da colonialidade. (SEGATO, 2012, p. 120- 121).
A intrusão colonial rasga o tecido comunitário e destrói as instituições que protegiam as mulheres. A esfera doméstica vai sendo privatizada e a coletividade deste espaço vai sendo desmanchada enquanto há uma universalização da esfera pública e consequente superinflação dos homens no espaço comunitário.
A autora trabalha com o conceito de inter-historicidade, entendendo que há uma dobra fragmentária, onde algumas características do mundo-aldeia, o mundo que antecedeu a invasão colonial, seguem existindo: estas realidades continuam caminhando junto e ao lado do mundo sob intervenção da modernidade colonial. Ao mesmo tempo, Rita Segato vê um processo amplo de reemergência dos povos tradicionais no continente americano. Há uma resistência contínua, e a irrupção das comunidades quilombolas como sujeitos políticos é uma de suas faces.
Por outro lado, Maria Lugones (2014) aporta à discussão sobre a colonialidade de gênero recuperando elementos históricos que a levam a outro entendimento sobre a transformação que acontece com a invasão colonial. Em vez de uma intensificação de assimetrias que já existiam antes da colonialidade, a autora entende que a colonialidade instaura a relação de gênero, que não existia anteriormente. Sua sugestão é “[...] não buscar uma construção de gênero nas organizações indígenas do social. Tal coisa não existe. ” (LUGONES, 2014, p. 939). O entendimento é de que as mulheres não são colonizadas na medida em que não existiam antes da colonialidade. As categorias homem e mulher são construtos da modernidade europeia e só surgem nas Américas com a colonização. Deste modo, Lugones defende a tese de que o sistema de gênero não existe nas Américas antes da colonialidade, diferindo das teorias de Rita Segato (2012) sobre a existência de um patriarcado de baixa intensidade pré-intrusão colonial e de Lorena Cabnal (2010) sobre o patriarcado originário ancestral presente antes da colonização.
As autoras referenciadas abrem diferentes caminhos para compreender as divisões de gênero que estão em vigor nas comunidades racializadas latino- americanas. O aporte etnográfico que trago nos próximos capítulos diz respeito a uma comunidade que não existia enquanto tal antes da colonialidade, diferindo das indígenas trabalhadas pelas autoras. O quilombo Macaco Branco é criado no processo de resistência à escravização colonial, e o estudo das particularidades que emergem nas relações que hoje se dão no território traz ao debate outro olhar para a forma como o gênero acontece nas sociedades tradicionais ao lançar a análise sobre uma comunidade quilombola.
Antes de adentrar o contexto etnográfico, cabe localizar ainda mais uma abordagem teórica que traz importantes contribuições para a reflexão sobre elementos que surgem no campo: a análise histórica da perseguição às mulheres sob acusações de bruxaria.