2. COMUNIDADE QUILOMBOLA PAU D‘ARCO E SEU CONTEXTO
2.1 Conhecendo Pau d’Arco
2.1.3 Comércio, escolas e igrejas
Em meio às casas que margeiam a rua principal encontram-se pontos comerciais; são oficinas de moto, lojinhas de roupas, pequenas farmácias, mercadinhos – alguns protegidos por grades, indicando um índice de violência que vem incomodando os moradores -, lojas de materiais de construção, pequenos bares que se distribuem ao longo de todo o quilombo, igrejas evangélicas, um cemitério, uma Unidade Básica de Saúde que recebe o nome da antiga parteira da comunidade Amância Maria da Conceição - membro da família Pragelo e Tolintino – e que também atende pessoas de outras localidades vizinhas e até o momento, segundo informações, não possui uma política pública de saúde voltada para a população negra50; há ainda uma escola municipal que recebe o nome de Professor Luiz Alberto de Melo - membro da família Januário -, uma igreja católica que fica na parte baixa da comunidade em
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A quem interessar, a saúde no quilombo foi abordada na tese do professor Saulo Luders Fernandes, intitulada: Itinerários terapêuticos e política pública de saúde em uma comunidade quilombola do agreste de Alagoas, Brasil, defendida em 2016 na Universidade de São Paulo.
frente à única praça que existe no local e que recebe o nome de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, a padroeira de Pau d‘Arco.
O quilombo ainda conta com uma escola construída recentemente e que recebe o nome de uma das professoras antigas de Pau d‘Arco, Maria Pastora de Melo51
, uma homenagem feita pela Associação Quilombola mediante inúmeros conflitos com outras lideranças locais que queriam outro nome para a escola. Percebo que há uma disputa política e também simbólica entre lideranças da Associação Quilombola e outros grupos de Pau d‘Arco, no que tange à nomeação de espaços públicos inaugurados pela prefeitura de Arapiraca. As lideranças da Associação Quilombola demonstram uma preocupação em homenagear os ―remanescentes de quilombos‖ que tiveram uma representatividade para o grupo e cujo nome possui ressonância, sobretudo por terem realizado trabalhos em prol da coletividade, como é o caso de Maria Pastora, descendente direta de Manoel Tomás. É uma luta para valorizar e também projetar a memória daqueles que denominam como sendo as raízes da comunidade.
A nova escola, juntamente com a Professor Luiz Alberto de Melo, atende a crianças e adolescentes tanto de Pau d‘Arco quanto de sítios e comunidades vizinhas, indo do pré- escolar até o fundamental I e os anos finais do II. Para ter acesso ao ensino médio é necessário deixar a comunidade e se deslocar até a zona urbana de Arapiraca onde se encontram as escolas da rede estadual responsáveis pela oferta do mesmo.
Sobre o ir à escola na cidade, é interessante compreender, a partir da narrativa que se segue, que o deslocamento de membros do grupo de Pau d‘Arco e o estabelecimento de relações mais intensas com a cidade de Arapiraca, também construíram fronteiras, sobretudo no que concerne aos conflitos envolvendo discriminação, levando, inclusive, inúmeras pessoas a desistirem de continuar os estudos, interrompendo-os no último ano do fundamental II, conforme narrativa:
Laurinete: Nós já sabíamos que éramos uma comunidade negra e o que realmente nos reforçou pra nos organizar foi realmente a questão do preconceito e da discriminação e o fato da gente trabalhar numa comunidade como educadora e antes disso ir estudar e ser discriminado pela questão da cor, outras meninas da gente terminar a 8ª série, que não tinha essa questão do 9º ano ainda não, e elas se matricularem e desistir, qualquer motivo de rejeição elas desistiam e outros diziam: professora, tou parando por aqui. A maioria parava e principalmente as mulheres, nas mulheres era mais forte! Os meninos eram mais ousados, iam.
Pesquisadora: por que você acha que nas mulheres era mais forte?
51 Membro da família Januário e bisneta de Manoel Tomás da Silva. Ensinou por mais de 30 anos na Escola
Laurinete: Eu acho que na mulher o cabelo era uma questão, que elas usavam aquelas tranças raízes e no depoimento delas era isso. Eu acho também que existe muito isso, eu tiro por mim, essa rejeição da gente porque uma vez que você é discriminado você internaliza uma coisa que você não quer... Machuca. Aí você fica mais na sua zona de conforto: Eu não vou! Mas tinha muito isso! Como a gente não tinha ônibus, não tinha transporte, a gente saía daqui no ônibus de 16:h40min porque não tinha ônibus mais, esse era o último ônibus, aí saía eu a Rosimeire, a Joelma, um monte! Eu lembro que quando a gente chegava o pessoal começava a rir da gente, começavam a dizer: olha os negros do Pau d’Arco! E era aquela mangação52.
É interessante observar que na parte mais baixa e central do quilombo tanto a escola municipal, quanto a igreja e antes um posto de saúde, agora desativado, estão todos concentrados na área onde predominam os descendentes da família Januário, fato que pode ser explicado quando se adentra a história de construção desse território por meio de lideranças locais, a exemplo de Zelinda53 – neta de Manoel Tomás – conhecida como Dindinha, que mantinha uma boa relação com o Prefeito de Arapiraca, Luiz Pereira Lima, que governou o município entre os anos de 1948 e 1951.
Laurinete: Lembro que a dona Dindinha que era uma das lideranças, uma grande liderança na comunidade! Pau d‘Arco sempre teve esse histórico das mulheres liderarem! A questão da igreja, a questão da associação... A Dindinha era essa mulher aqui. Ela foi quem fez doação. Ela era neta de Manoel Tomás que foi o primeiro morador a se instalar nessa comunidade que veio do Tabuleiro dos Negros e ela herdou terras e ela foi quem fez doação da igreja, daquele terreno da igreja. Atrás da igreja tinha um laboratório que não era uma unidade, ela fez doação. Ela fez doação do prédio da escola, porque naquela época o pessoal tinha muita terra e doava mesmo, principalmente se fosse pra construção que fosse ser útil para o coletivo. Ela era muito amiga do prefeito, então ela chamava essas pessoas e dava festa. Matava peru, capão, era uma forma de agradar e eles ouvirem o pedido dela. Só que o pessoal daquela época não entendia, aí dizia que ela era bajula! Período de semana Santa, ave Maria! Fazia muito bolo, aí levava pra esse pessoal. Ave Maria, ela foi amiga do prefeito na época, o Pereira Lima. Era uma liderança respeitada que não tinha homem que chegasse nos pés da Dindinha. Até a Unidade antiga que hoje é anexo da escola tinha o nome dela, Zelinda Francisca de Jesus54.
Sobre a igreja, que data de 1945, é importante destacar que a mesma foi construída de maneira coletiva pelo grupo, os tijolos foram fabricados no tanque55 dos Januário e o dinheiro para o restante dos materiais veio dos leilões das esmolas pedidas nos sítios vizinhos;
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Entrevista realizada na sede da Associação Quilombola em 15 de março de 2017 – grifos meus.
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Segundo relatos de campo, Zelinda morreu moça velha, ou seja, nunca casou. Talvez isso explique o fato dela ter doado terrenos para construção de espaços públicos, pois a terra que herdou certamente era mais que suficiente para alguém que não constituiu família.
54 Entrevista realizada na sede da Associação Quilombola em 15 de março de 2017. 55 Como eram chamados os reservatórios de água.
segundo Maria Augusta, todos ajudavam, fosse na arrecadação de dinheiro por meio das esmolas pedidas, fosse na construção dos tijolos, na preparação do barro ou mesmo carregando o material até o local onde estava sendo construída a igreja. Narrou-me, ainda, que a primeira imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro veio de Penedo e que os próprios moradores do quilombo saíram em romaria para buscá-la no lugar velho, conforme denomina Teresinha de Almeida, ao evidenciar Penedo como um lugar de portugueses e escravos.
A festa da padroeira ocorria todos os anos no dia 31 de dezembro, tendo mudado recentemente para o mês de junho, algo que não agrada a muita gente em Pau d‘Arco. A mudança foi uma imposição da igreja, alegando que nas demais paróquias a festa alusiva a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro ocorre no mês de junho e em Pau d‘Arco não poderia ser diferente. Neste ano de 2018 a igreja do quilombo tornou-se Paróquia, deixando de pertencer à do bairro Cacimbas, em Arapiraca, passando a ter o seu próprio Padre – Bartolomeu - e um volume maior de missas, fato este que gerou muita alegria entre os moradores.
A festa da padroeira é aguardada com muita alegria por todos. As casas dos meus interlocutores ficaram lotadas de familiares que moram fora, mas que nesse período retornam. É, sem dúvida, o momento mais intenso de interação entre o grupo. A praça em frente à igreja ganha tendas que ficam coloridas com as bandeirinhas típicas de festas juninas, as missas lotam a igreja e é possível ver pessoas que buscam um espaço para ouvir o que o Padre está dizendo até nos corredores que ficam ao lado da mesma, assim como na calçada. As memórias sobre a festa quando a mesma ainda ocorria no dia 31 de dezembro, apontam para uma grande quantidade de pessoas de fora, além de parentes, vizinhos, amigos e compadres que chegavam para as celebrações. Ora, hoje não é diferente, mas segundo interlocutores, antes era bem mais animada e contava com mais público que hoje.