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Com a praticidade de copiar e colar textos do computador, muitos

4 PLÁGIO, AUTORIA E ESCRITA

5. Com a praticidade de copiar e colar textos do computador, muitos

alunos formatam seus trabalhos e monografias, apropriando-se de obras de outros autores, sem os créditos devidos, cometendo graves ilícitos e, por fim, intitulando-se, falsamente, criadores de

obras criadas pelo espírito de terceiros (Proposta de adoção de

medidas para prevenção do plágio nas instituições de ensino e do comércio ilegal de monografias).

6. As instituições de ensino e pesquisa do país devem fornecer materiais educativos que mostrem que o plágio em monografias e dissertações e teses também é, além de violação acadêmica, prática

ilegal no Brasil (Declaração conjunta sobre Integridade em Pesquisa do II encontro brasileiro de integridade em pesquisa, ética na ciência

e em publicações77).

O plágio é definido em termos de uma ação de teor imoral, visto que realizada de modo indevido e ilegal - uma apropriação indevida, graves ilícitos,

violação acadêmica, prática ilegal -; falso - apresentar como próprio, apresentação como se fosse de sua autoria - e faltoso, sem os cuidados, sem que se dê o devido crédito, sem lhe dar o devido crédito, sem os créditos devidos. O plágio configura-se,

dessa forma, como uma ação da ordem da falha e da falta moral: do que não deve ser feito e do que deixou de ser feito78.

Dois indivíduos participam da ação, aos quais nos referimos como agente, o que pratica a ação de plagiar e o paciente, que a sofre. O agente não é nomeado (na maioria dos recortes), ou então é referido, como sendo pertencente a um conjunto

<http://www.cnpq.br/documents/10157/a8927840-2b8f-43b9-8962-5a2ccfa74dda>. Acesso em: 9 set. 2014.

76 Nem tudo o que parece é: entenda o que é o plágio. <http://www.noticias.uff.br/arquivos/cartilha-

sobre-plagio-academico.pdf>. Acesso em: 9 set. 2014.

77 Declaração conjunta sobre Integridade em Pesquisa do II encontro brasileiro de integridade em

pesquisa, ética na ciência e em publicações (II BRISPE), 28 maio-01 de junho de 2012. Disponível em: <http://www.iibrispe.coppe.ufrj.br/images/IIBRISPE/JoinStatement/JointStatementonResearchIntegrity _IIBRISPE_2012_Portuguese.pdf>. Acesso em: 9 de set. 2014.

78 Como o aspecto imoral da prática do plágio já foi tratado no capítulo anterior, não o desenvolveremos

de um determinado grupo – um aluno/muitos alunos (4 e 5). Já o paciente, que sofre a ação do agente, é nomeado: outra pessoa, outro(s) autor(es), autor original. E o mote da ação também é textualizado: trabalho, obra intelectual, resultados,

conclusões, textos, conceitos, ideias, palavras, frases.

Configura-se aí um cenário de transgressão moral no sentido de se predicar o plágio como uma atitude malvista, indevida, dissimulada, que consiste em tomar indevidamente algo de outrem. O resultado dessa ação pode ter implicações jurídicas, pois constitui-se como uma espécie de furto de um bem, em que temos de um lado um indivíduo que infringe um direito autoral e, de outro, um indivíduo que tem seu direito violado79.

O plágio, tendo seu funcionamento pautado nesse modus operandi, é concebido como uma infração do princípio de propriedade: quando um indivíduo toma para si o que pertenceria a outro.

Constitui-se, dessa forma, como uma evidência que o texto, as ideias, as

palavras, os resultados e as conclusões são passíveis de constituir-se como uma

propriedade de um indivíduo. Os seguintes sintagmas nos informam sobre essa evidência: trabalho ou obra intelectual de outra pessoa; resultados ou conclusões

anteriormente obtidos por outro autor; ideias, conceitos ou frases de outro autor; obras de outros autores. Podemos parafraseá-los como Um autor possui uma obra.

Paráfrase essa que nos leva a outra evidência: quem possui uma obra recebe o nome de autor.

O autor possuiria algo de sua propriedade exclusiva, visto esse objeto ter um valor intrínseco a sua individualidade, ou seja, ser algo da ordem do intransferível. Nesse sentido, haveria uma identidade fixa entre texto e autor, de modo que texto x estaria para autor x, assim como texto y para autor y. Teríamos, assim, a noção de indivíduo – que remete ao indivisível - funcionando em relação à linguagem: o texto não poderia ser compartilhado (ser de um autor e de outro ao mesmo tempo), dado que pertencente a um autor determinado/indivíduo determinado. O próprio constituir- se-ia como origem naquilo que seria de natureza indivisível. Estabelece-se assim uma relação inextricável entre propriedade, originalidade e individualidade. Atribuir

79 O plágio transgride o direito e, ao mesmo tempo, macula a moralidade. Constitui-se como infração

do princípio de propriedade e, ao mesmo tempo, infração de uma evidência: aquilo que todo mundo sabe que não deve ser feito.

o estatuto de autor ao indivíduo significa, nessa perspectiva, conferir-lhe o direito a ter a individualidade preservada por meio do reconhecimento da propriedade de um objeto. A infração desse direito, tal como vimos, configuraria o plágio.

Dessa forma, a evidência da propriedade e da autoria é constituída conjuntamente e ratificada por meio da existência material da prática do plágio, pois apropriar-se de uma obra alheia pressupõe a existência material da propriedade, a que se dá o nome de autoria. Portanto, a noção de propriedade funda uma relação de interdependência entre autoria e plágio.

Pelo que observamos a partir de nossa análise, plágio e autoria poderiam ser pensados em termos de valor saussureano, pois ambos adquirem existência material um a partir do outro, assim como adquirem significado a partir da relação negativa estabelecida entre eles. Ou seja, ao mesmo tempo em que um sustenta a existência do outro, a relação entre ambos é de contradição. Eles se engendram e se negam mutuamente. Desenvolveremos, ao longo do capítulo, os efeitos dessa contradição.

4.2 O DISCURSO DA PRODUTIVIDADE DA CIÊNCIA80, AUTORIA E PLÁGIO

As atuais condições de produção e circulação do conhecimento constituem- se, segundo Zoppi-Fontana (2013a, p.227), resumidamente, do seguinte modo:

O forte investimento no desenvolvimento de tecnologias e a consequente instrumentalização da ciência para sua aplicação imediata e lucrativa no mercado têm naturalizado uma imagem de pesquisa científica pautada pela lógica do modo de produção capitalista: maior quantidade de produtos mensuráveis, disponibilizados no menor tempo possível, a custos reduzidos e criando demandas sempre novas. Velocidade, novidade, quantidade são as predicações que declinam os sentidos de impacto, a partir dos quais a produção do conhecimento científico e seus sujeitos são atualmente avaliados e legitimados.

80 Tomamos de empréstimo essa designação de Zoppi-Fontana (2013a e 2013b). Nesses trabalhos, a

A aceleração do tempo produz uma injunção à novidade em que o futuro toma um valor crescente em detrimento do passado. Há uma demanda constante de atualidade que afeta a produção de conhecimento, tornando-o um objeto que tem seu valor mensurado por seu caráter de inovação. Grande quantidade de produtos inéditos torna-se critério de atribuição de excelência.

Nessas condições de produção, os textos científicos são significados como produtos e os sujeitos/autores, enquanto produtores/proprietários (ZOPPI-FONTANA, 2013b), de modo que “ser autor no campo do discurso científico seria ‘produzir uma contribuição original na área de pesquisa’” (p.130). O autor seria uma entidade produtora de sentidos inéditos, visto que produzidos nele mesmo e que assina um texto científico que tem sua publicação justificada por seu caráter inovador. Nas palavras de Zoppi-Fontana, (2013b, p.131):

Por ser considerada uma peça de informação-comunicação de resultados, exige-se que cada publicação surgida de um projeto de pesquisa ineditismo em relação ao seu conteúdo: uma nova publicação somente se justificaria em caso de novas informações a serem transmitidas.

Um novo produto/uma nova publicação teria valor na medida em que contemplasse o critério de novidade, ineditismo, originalidade. E o texto científico consiste, dessa forma, em um produto de uma comunicação/informação de resultados. Essa compreensão é resultado da análise de Zoppi-Fontana (2013b) de documentos reguladores de práticas científicas.

A nossa análise vai ao encontro da compreensão da autora. Vejamos os recortes abaixo:

7. Considere-se aqui a responsabilidade da própria instituição de ensino (o leitor) em cumprir de forma eficaz o papel educativo, seja instrumentalizando adequadamente e de forma eficiente a capacidade de escrita e também se servindo de todas as medidas disponíveis que contribuam para a originalidade do conhecimento produzido (Abordagem do plágio nas três melhores universidades de cada um

dos continentes e do Brasil).

8. as más condutas são assunto de interesse das agências de financiamento, que devem zelar pela boa aplicação de seus recursos em pessoas que sejam capazes de produzir avanços efetivos (isto

é, confiáveis) do conhecimento (Relatório da Comissão de Integridade de Pesquisa do CNPq).