Em 2 , observamos a constituição de relações sinonímicas: plágio se
12. Há, inclusive, os educadores que preferem ignorar o problema, sob o pretexto de que o estudante plagiador está prejudicando a s
mesmo. (A cultura da cópia)
13. Então cada vez que houve um problema na sua vida este vai pagar para alguém resolver? Isso vai da consciência de cada um, mas nunca construiremos um Brasil melhor se as pessoas não andarem com suas próprias pernas. Enquanto as pessoas não se conscientizaram que ninguém é perfeito, que todos somos bons em algumas coisas e ruins em outras, o nosso país não vai para frente, e por isso que tem tanta corrupção nesse país, e não me refiro apenas a corrupção política,
mas me refiro também a pessoal. (Você concorda que o plágio de
trabalhos escolares é crime?)
14. Essa perspectiva parece muito mais apropriada porque vai além da postura policialesca de controle, perseguição e penalização, passando à adoção de estratégias tipicamente educativas que compreendam a conscientização, orientação e formação de uma
postura calcada em valores. O que, dito enfaticamente, tem muito mais a ver com o escopo da instituição educacional (Abordagem
do plágio nas três melhores universidades de cada um dos continentes e do Brasil).
A educação falha em sua tarefa de ensinar a pensar e não pensar implica não saber escolher, o que teria como consequência a aprendizagem de um
comportamento deplorável de pegar para si o que não lhe pertence (9). Ética,
vergonha, compromisso, cidadania (10) deveriam ser ensinados; ou seja: a formação de uma postura calcada em valores (14). Funciona aí o pré-construído de que a
educação não estaria cumprindo o seu papel de formar moralmente, pois as instituições são permissivas (11) e os professores são negligentes (12) e o ensino é ultrapassado.
A cópia e a cola funcionam como uma metonímia não apenas do fracasso da educação brasileira, mas de problemas sociais em geral, tais como a marginalidade e a falta de ética – enquanto vivermos copiando e colando colheremos o que aí está,
(11); a impunidade - conivência das instituições e dos educadores em relação à prática do plágio (11 e 12); a corrupção – não apenas política, mas também pessoal (13). Nesses recortes, observa-se a constituição de um imaginário que caracterizaria o conjunto de todos os brasileiros como adeptos da prática o plágio - alunos,
professores, políticos, instituições brasileiras, educadores, aproveitadores por todos os cantos. Essa prática, nesse sentido, passa a ser identificada como um elemento
de nossa cultura – todo o brasileiro reproduziria esse comportamento. Ou seja: todo o brasileiro seria imoral.
3.3 A FALTA COMO TRAÇO CONSTITUTIVO DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA45
Ao longo das duas seções anteriores, vimos que um novo modelo educacional compareceria como um caminho possível para a resolução do plágio, na condição do ensino da cópia ser relegado ao passado e na condição de a educação dar conta da formação moral do brasileiro. Nesse sentido, o ensino da cópia, que leva ao plágio e forma sujeitos plagiários (que não pensam e assumem uma conduta imoral), deveria ser substituído por um ensino atualizado, em compasso com as novas tecnologias, que forma sujeitos pesquisadores/cidadãos, que sabem pensar, e, portanto, desenvolvem um caráter ético/moral e crítico. Vejamos os recortes abaixo:
15. a paráfrase não é mera troca de palavras [...] da mesma forma que a citação não é mera colagem de trechos quaisquer: para a realização de ambas, é pressuposta a construção do conhecimento a partir de
um sujeito do conhecimento ativo, capaz de ler, interpretar e modificar o mundo. Entender isso com clareza é o melhor mecanismo para evitar a produção textual maculada pelo plágio ou pela cópia (O plágio, a cópia e a intertextualidade na produção
acadêmica46).
16. O combate ao plágio insere-se no debate sobre a dimensão ética da escrita e a integridade acadêmica (DINIZ, 2008), mas também sobre a própria qualidade da educação. Para garantir o exercício da
cidadania, previsto no art. 2 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional, assim como no inciso I art. 43 da referida lei, que prevê ‘o
45 O título desta seção é tomado de empréstimo de Pfeiffer (2000), que compreende haver um discurso
fundador que define nossa educação pela falta. Ao longo da seção, trataremos dos efeitos desse discurso.
46 JUDENSNAIDER, I. O plágio, a cópia e a intertextualidade na produção acadêmica. Revista Espaço
Acadêmico. Maringá (PR), n.125, p.133-138, out. 2011. Disponível em:
<http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/14244>. Acesso em: 9 set. 2014.
desenvolvimento do espírito científico e do pensamento reflexivo’
(BRASIL, 2010, p. 35), se torne realidade, é necessário que estudantes, professores, pesquisadores e poder público se comprometam com a educação ofertada nas salas de aula, desde a educação básica até os cursos de pós-graduação. (Cópia e pastiche:
plágio na comunicação científica47).
17. a questão do plágio nas universidades e instituições de ensino de um modo geral deve ser enfrentada com coragem e bom senso, de forma a se buscar o efetivo convencimento dos discentes, que tal
prática consagra o seu fracasso enquanto aluno e revela a total inutilidade da pesquisa enquanto processo cognitivo. (O crime do plágio e suas variações no ambiente acadêmico).
Nos recortes, temos a caracterização de um sujeito aluno ideal, que não praticaria o plágio: sujeito do conhecimento ativo, capaz de ler, interpretar e modificar
o mundo (15), dotado de espírito científico e de pensamento reflexivo (16). Sujeito
este que reuniria qualidades essenciais para o exercício do pensamento e da cidadania. Por outro lado, o aluno que viesse a praticar o plágio não desenvolveria o pensamento, porque não teria aprendido a pesquisar, ou seja, não teria alcançado êxito no processo de aprendizagem (17).
Observamos o funcionamento de uma polarização entre dois modelos de ensino, o da cópia (em que se evidencia a produção textual maculada pelo plágio ou
pela cópia48 [15]), que seria o próprio retrato do fracasso e o da pesquisa (visando ao desenvolvimento do espírito científico e ao exercício da cidadania [16]), que seria o
caminho para a efetiva aprendizagem.
Interessante observar que essa polarização atualiza-se, a partir da década de 1930, em políticas do Estado. Passemos a um percurso histórico.
A década de 1930 constitui período de ruptura em termos de políticas e pensamento científico sobre a educação. Até então, a ‘educação’ é silenciada em textos legais, como constituições e decretos49. É na Constituição de 1934 que aparece
pela primeira vez a palavra ‘educação’, que vem a tornar-se uma questão nacional, por parte do Estado getulista. (SILVA, 2010). A partir desse período, começa a se
47 DINIZ, D.; MUNHOZ, A. T. M. Cópia e pastiche: plágio na comunicação científica. Argumentum,
Vitória (ES), v. 1, n. 3, p. 11-28, jan/jun 2011. Disponível em: <http://periodicos.ufes.br/argumentum/article/view/1430/1161>. Acesso em: 28 ago. 2014.
48 Interessante fazer referência à intercambialidade entre os significantes cópia e plágio, que sugere a
sobreposição de sentidos entre ambos, como já temos observado.
delinear a primeira Lei de Diretrizes e bases da educação (LDB), que, no entanto, vem a ser aprovada e institucionalizada apenas 30 anos depois, em 1961.
A ‘educação’ ganha vida também no pensamento científico por meio do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova50 (doravante MPEN), divulgado em 1932,
que se configura como um documento de teor político, assinado por intelectuais diversos e direcionado ao povo e ao governo.
O texto do MPEN, já em seu primeiro parágrafo, declara estar a educação no topo da hierarquia dos problemas nacionais, tanto em termos de gravidade como de importância. E no parágrafo seguinte, afirma-se:
Onde se tem de procurar a causa principal desse estado antes de inorganização do que de desorganização do aparelho escolar, é na falta, em quase todos os planos e iniciativas, da determinação dos fins de educação (aspecto filosófico e social) e da aplicação (aspecto técnico) dos métodos científicos aos problemas de educação.
A educação configura-se como um problema nacional, que se apresentaria em estado de inorganização, ou seja, de ausência/denegação de uma organização política, por conta de duas faltas: dos seus fins e da aplicação de métodos científicos. Estabelece-se aí “pela educação a relação entre ciência, estado e sociedade”. (SILVA, 2010, p.134). Segundo Silva (2010) essa relação constitui-se como um acontecimento discursivo51, de forma a produzir efeitos nas políticas educacionais atuais, na prática
científica relacionada ao campo da educação e na prática pedagógica, especificamente, no emprego de métodos.
Para nós, nas duas últimas décadas, mais precisamente desde a LDB de 1996, vive-se uma intensa teorização sobre a educação que atinge as políticas públicas52. Desde 1996, as leis não são as únicas a tomar conta da educação em
termos de política, tendo em vista o surgimento de Diretrizes curriculares, Parâmetros
50 O manifesto dos pioneiros da educação nova (1932). Disponível em:
<http://www.histedbr.fe.unicamp.br/revista/edicoes/22e/doc1_22e.pdf>. Acesso em: 10 out. 2014.
51 Um acontecimento discursivo consiste na atualização de uma memória, de modo a promover um
deslocamento na rede de filiação de sentidos. (PÊCHEUX, 1997b).
52 Não podemos deixar de fazer menção às LDBs de 61 e 71. No entanto, não nos ocupamos aqui
curriculares53, cursos de formação de professores54, os quais se apresentam
recheados de reflexões teóricas. Esses documentos caracterizam-se como orientadores das práticas pedagógicas e sustentam a legislação educacional tomando como fundamento uma argumentação de cunho científico55. Os PCNs e as DCNs de
2013 são um bom exemplo dessa estrutura. São textos longos, embasados cientificamente por meio de uma extensa referência bibliográfica. No entanto, a nosso ver, não apresentam um debate que possibilite uma abertura do pensamento pedagógico, mas sim uma homogeneização teórica, na medida em que polarizam a história da educação no Brasil entre ensino tradicional e ensino novo. Vejamos mais sobre isso a partir da análise desses documentos.
Nos PCNs de 1ª a 4ª série56 o primeiro volume intitulado Introdução aos Parâmetros curriculares nacionais contém uma seção, cujo título é A tradição pedagógica brasileira. Em seu texto, são abordadas “quatro grandes tendências” da
nossa tradição pedagógica: “a tradicional, a renovada, a tecnicista e aquelas marcadas centralmente por preocupações sociais e políticas” (p.30). Interessante observar que na continuidade do texto as duas primeiras não são delimitadas historicamente em períodos. Apenas as duas últimas o são: a tecnicista, que teria tomado corpo nos anos 70 e a última, no final dessa década e no início dos anos 80. Tendo isso em vista, fica a possível leitura de que as duas primeiras possuem caráter atemporal, como se tivessem ainda presentes em nossas práticas pedagógicas. Essa ausência de demarcação histórica nos dá pistas a respeito do que entendemos enquanto a polarização da educação entre duas tendências: a tradicional e a renovada.
Vejamos, nos seguintes recortes, como são definidas as duas tendências:
18. A ‘pedagogia tradicional’ é uma proposta de educação centrada no